Sobre Arrependimento

Quando somos jovens, muitas vezes fazemos coisas idiotas. Então, mais tarde, ao olhar para trás e parar para pensar, repentinamente percebemos que estávamos errados.

Mesmo hoje, anos depois de tudo se passar, eu ainda me pego fazendo essa reflexão. Por fim, sou forçado a admitir que meu passado se baseia em consecutivos atos estúpidos e impensados, dos quais hoje me arrependo profundamente.

Qualquer um teria desistido de viver após tantos anos se arrependendo do que passou e do que ainda está para passar. Mas eu sou um Malfoy, tão orgulhoso que seria incapaz de colocar um fim na minha própria existência se isso significasse admitir aos outros que me arrependo do passado.

Tantos males eu provoquei. Hoje, vejo meu filho crescer em um mundo pacífico, em que as pessoas não se importam com sua ancestralidade, ou pelo menos fingem não se importar (porque não pega bem!). Apenas a visão das crianças brincando despreocupadamente nas ruas me faz lembrar-me da enorme gratidão que eu sinto por meu odiado inimigo: Harry Potter.

Por vezes, meu filho pergunta a mim ou a Astoria qual foi nosso papel na guerra. Scorpius é um garoto inteligente, muito diferente do pai dele; ele sabe fazer contas e, por isso, tem consciência de que eu estudava em Hogwarts no momento em que se passou a batalha final contra Voldemort.

Quando ele faz essa pergunta, eu me faço de bobo enquanto seguro o pulso onde está tatuada a marca negra do Lord das Trevas, dizendo ao meu filho que ele é muito jovem para conhecer os detalhes daquela noite horrível.

Eu gostaria mesmo é de poder dizer a verdade: eu estava do lado errado naquele momento, porque era arrogante demais para admitir que não nascera para ser um Comensal da Morte; orgulhoso demais para admitir sequer para mim mesmo que, durante toda a minha vida, eu fora perverso e insensível. Por mais que, mesmo então, eu já soubesse que era questão de tempo até que tivesse que conviver com aquela absoluta verdade.

Alguns dizem que a perversidade é algo inerente do ser humano. Quando eu era jovem, mesmo depois da guerra contra Voldemort, eu me utilizava dessa justificativa para explicar a mim mesmo meus atos. Ainda com tantos nobres exemplos me cercando, eu conseguia me fazer de bobo e acreditar naquilo.

Precisei crescer muito antes que percebesse que estava errado: a perversidade não é inerente do ser humano, ela é construída através dos tempos e justificada por nossos ancestrais.

Mesmo cercado por tantos nobres heróis, mortos ou mortos-vivos na tentativa de construir uma vida melhor para as futuras gerações; apenas percebi a verdade quando vi aquele par de inocentes e gentis olhos azuis, tão iguais e tão diferentes dos meus.

Scorpius jamais seria perverso como eu fui quando jovem. A perversidade está enraizada nos ensinamentos que os pais dão aos filhos. Meu pai me ensinara a ser cruel com os que ele julgava inferiores a nós; eu, arrependido dos meus atos passados, acabei inconscientemente passando ao meu filho o valor contrário.

Então, quando finalmente alcancei essa percepção, comecei a me perdoar por todos os meus atos de crueldade.