Ela havia revelado aquele pequeno segredo em uma noite de insônia na torre de Gryffindor. Hermione contou-me sobre as telas e molduras que enfeitavam as paredes da sua casa, e sobre as cores que ela jogava nos quadros sem usar pincéis, enquanto as chamas da lareira coloriam seus olhos e brilhavam em sua pele. Ela disse que não existiam erros entre as nuances de uma tela. Disse que não existiam erros em seu próprio mundo.

E roubou-me um beijo, suave e delicado, corrigindo a provável observação errônea que eu faria a seguir.

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Eu não poderia entender muito bem o que ela estava pintando. Clareza, mente aberta, nada daquilo serviria para descrever-me. "O legume mais insensível". Mas eu sabia que talvez, afinal, os traços tomariam forma. E mesmo que não tomassem, eu poderia identificar algo.

Eram cores quentes, círculos em laranja, traços em marrom, sol, margaridas, amarelo maduro. Eu quis saber o nome do quadro.

"Os erros de Ron Weasley"

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E comecei a me encontrar entre aqueles traços tortos, e ver nos círculos minhas mentiras, e nos retângulos minha inveja, e nossas brigas nas retas. E o som dos dentes de basilisco caindo no chão embalou nosso segundo beijo roubado por ela, mais apaixonado e urgente, fazendo-me entender os tons de chocolate espalhados pelo quadro.

"Os erros de Ron Weasley, corrigidos por Hermione Granger."

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E ela continuou corrigindo, um beijo por detalhe pintado em cores quentes como o sol que inundava os jardins da Toca, uma semana depois do fim da guerra. Ela poderia errar e deixar as mãos penderem sobre o quadro, e os traços seriam maiores e manchados por lágrimas. Mas eu lhe roubaria um beijo e tudo voltaria ao normal. Nós éramos uma pintura de cores quentes,feitos de brigas, beijos roubados, sol, margaridas, amarelo maduro. E entre as nuances de uma tela não existem erros.