O ronco do motor do carro cessou e em alguns segundos o ruído deu lugar ao som da porta se abrindo e ao da sola da bota da agente tocando o cascalho que cobria o solo na entrada da grande casa.
Ela fechou a porta do veículo atrás de si, seguindo na direção da porta principal. Por um segundo ela teve a impressão de ver uma sombra no canto da grande janela que deixava a luz natural entrar, porém, um período de observação a fez pensar que a anfitriã que a aguardava era tão interessante quando Jack Crawford comentara. Ou talvez fosse apenas sua mente lhe pregando peças dada sua agitação antes da missão para a qual o guru a designara.
Deixando de lado o pensamento a morena seguiu para a porta.
Algumas batidas rápidas e curtas na porta, apenas o suficiente.
Clarice analisou suas roupas e sua postura, a imagem que passaria. Estava dando-se por satisfeita consigo mesma quando a porta foi aberta e ela ergueu o olhar em tempo de ver uma dama de cabelos dourados e olhos claros.
- Posso ajudar? - perguntou a mulher com um tom firme, olhos frios, postura rígida. Clarice quase a viu como sendo esnobe, mas o instinto avisava que não se tratava disso.
- Dra. Bedelia Du Maurier? - pronunciou-se Starling.
- E você é…? - perguntou a mulher.
- Clarice M. Starling, madame. FBI.
- Eu lembro de ter pedido ao FBI para que fizessem o seu melhor para evitar entrar em contato comigo.
- Entendo suas motivações, Dra. Du Maurier. Não viria se não fosse importante.
A loira a observou, então deu espaço para que entrasse.
- Por aqui, agente Starling.
- Obrigada. - disse Starling, aceitando a xícara de café, observando enquanto a dama de vestido sentou-se diante dela, de costas para a janela.
- Por que veio? - perguntou a mulher de cabelos dourados.
- Estou trabalhando com Jack Crawford, madame. Minha missão atual é entrar em contato com o Dr. Hannibal Lecter… Seu antigo paciente.
Um momento.
Clarice viu um sorriso leve surgir nos lábios de Bedelia, depois de um segundo de alguma agitação.
- Crawford a mandou? - a mulher se ergueu, caminhou pela casa, serviu-se de vinho. - Você é o novo cão de Crawford. Sabe o que aconteceu a Will Graham, agente Starling?
- Apenas ouvi falar.
Du Maurier voltou a se sentar, tomou um gole de seu vinho antes de voltar a se dirigir a Starling.
- Creio que conheça as medidas de segurança para lidar com Hannibal.
- Sim, madame.
- Claro que sim… Conheça alguma para lidar com Crawford?
- Licença? - havia confusão no tom de Clarice.
- Nada. - sorriu Bedelia, desviando o olhar por um instante. - Sabe o que fazer, agente Starling. Apenas mantenha a educação.
- Conte-me sobre ele, doutora.
O sorriso de Bedelia ficou um pouco maior.
- É bom estar pronta, agente. Nunca se está pronto o suficiente com Hannibal.
- Ele a atingiu, não foi?
Um tremor no sorriso, momentâneo.
- Eu vejo porque Jack a escolheu… Devia tomar cuidado, agente, está entre dois homens poderosos.
- Não gosto que de ser subestimada.
Bedelia fitou as mãos em seu colo.
- Vamos ver como isso vai acabar saindo para você…
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Ela parou por um instante, tomando um gole de seu whisky.
- Jack Crawford não tem noção do que colocou nas suas mãos.
Hannibal parou, deixou a última muda de roupas na mala antes de se virar para Bedelia, ela estava encostada na soleira da porta, observando-o.
- Starling. - completou a loira.
- Clarice. Jack Crawford está cego por sua ambição, como de hábito. - ele argumentou, andando pelo quarto.
- Jack Crawford a entregou a você como se entrega o cordeiro para o abate.
- Exceto que não é um cordeiro.
- Não, é um filhote de leão.
Eles trocaram olhares e ela pode ver os planos, a alma dele, todas as possibilidades. Du Maurier estremeceu. Lecter se aproximou, parando diante dela, colocando uma passagem de avião em sua mão.
- Pronta, Dra. Du Maurier?
