Uma vida pode ser construída quando não se tem nada a perder. No meu caso, porém, nunca houvera vida. E agora Dumbledore estava morto. O único que demonstrara acreditar em mim de algum modo não mais podia me incentivar, não podia mais me aconselhar. Eu era o culpado por tudo, mas ainda restava uma coisa para fazer.

- Mestre, está feito. – O Lorde das Trevas me olhava fixamente nos olhos, sem demonstrar qualquer emoção. Enquanto ele penetrava minha mente à procura do que realmente acontecera, me concentrava apenas em não permitir que a dor que queimava minha alma fosse percebida pela magia do Lorde.

- Não está feito, Malfoy. Você me deve muito pelo que não fez hoje – sibilou.

O Mestre olhava para o garoto ao meu lado. Draco tremia dos pés à cabeça e permanecia de cabeça baixa. Voldemort não precisava olhar nos olhos dele para sentir o seu medo. Não cumprira o que havia prometido fazer, e com o Mestre não existia segunda chance. Draco continuou calado, e o Lorde continuou:

- Pena... Você teve pena? Posso sentir o cheiro do seu medo, Malfoy. Você não passa de um covarde, como seu pai.

Draco permaneceu calado, mas ao que parecia os pensamentos corriam em sua mente. Eu poderia facilmente saber o que pensava se olhasse para ele, mas isto não seria seguro naquela ocasião. Eram assuntos do Lorde.

- Seu pai não é um covarde? – retrucou a criatura cadavérica à nossa frente. Draco não conseguiria esconder os pensamentos do Lorde. – Pois digo que os Malfoy sempre foram uma família de covardes. Traidores. Hipócritas.

Todos os presentes naquela sala permaneciam rígidos de pavor, inclusive eu. O único som que se ouvia era o sibilo de Nagini e de seu amo. Estranhamente o Lorde das Trevas parecia não estar tão chateado por Malfoy não ter cumprido sua missão. Dumbledore estava morto, e era isso que importava.

- Saiam todos – ordenou o Lorde. – Menos você, Severo, é claro.

Rápido como se estivessem desesperados por aquela ordem os outros três homens saíram. Draco bem atrás deles, se arrastando. Permanecemos apenas o Lorde, Nagini e eu. O silencio preencheu o vazio por alguns minutos, até que me atrevi a falar.

- Mestre – disse, me curvando perante ele – perdão por ter sido infiel. Não era minha intenção ir de encontro às suas ordens.

- Severo, você sempre foi meu preferido. Foi sempre você o mais fiel, o mais servil, o que nunca deixou passar uma oportunidade. Sempre corrigiu os erros dos outros. Levante-se. Olhe para mim.

Pus-me novamente de pé e o encarei.

- Malfoy foi fraco, e você consertou. Só posso imaginar a surpresa de Dumbledore quando viu que você era meu, que não havia escapatória para ele. Você fez o melhor, Severo.

Criei os pensamentos mais orgulhosos que pude e os instalei em minha mente. Era aquilo que o Mestre deveria ver. Eu, no entanto, via apenas o dia em que jurei a Dumbledore que faria o que ele me pediu. Via apenas seu corpo caindo quando cumpri. Como aquilo podia ser o melhor?

- Como retribuição a esse imenso favor, você receberá uma nova missão. Uma missão que qualquer um dos meus servos gostaria de receber.

Ele esperou que eu perguntasse qual era a missão, então respondeu:

- Você será o novo diretor de Hogwarts.

Dumbledore disse que isso aconteceria.

- Obrigado, Mestre – disse, aceitando. Cumpriria até o fim a tarefa que Dumbledore me dera, e esta seria a última parte. Depois, poderia finalmente viver. Talvez tivesse mesmo a chance de ver minha adorada Lílian novamente.