CAPÍTULO UM
A manhã está chuvosa no distrito doze, o massacre quartenário que tanto preocupava a todos já passara. Ficar deitada na minha cama submersa em pensamentos era algo que eu já estava acostumada a fazer. Fiquei ali, durante pelo menos uma hora, assistindo a chuva lavar a janela cruelmente, parecia que o vidro ia se quebrar em mil pedaços. Ficar deitada e me revirando não irá ajudar em nada, melhor eu parar de pensar nisso e levantar logo, quem sabe até ajudar minha mãe no almoço.
A casa no bairro dos vitoriosos era gigante, mesmo que Haymitch e Peeta sempre estivessem ali, Prim e minha mãe morando comigo, as vezes até mesmo Gale e Hazelle; ainda assim, parece que nada ocupa o espaço dessa mansão, já que sempre fui acostumada com a casa humilde na costura. Não que estivesse reclamando, afinal fome não era mais um problema, mas se ainda morasse na costura com minha família, caçando com Gale e não tivesse ido para os jogos, tudo seria diferente, talvez todos estivessem mais felizes.
'Gale...' o seu nome ecoou em meus pensamentos, fazendo com que levasse os dedos sob os lábios e lembrasse do beijo que demos na casa do lago. Nunca teria dado certo, por mais que nos amassemos. Escolher entre dois garotos maravilhosos foi difícil.
"Escolher..." um sorriso simples desenhou-me nos lábios. Com toda certeza fiz a escolha certa.
O cheiro do almoço vinha até o banheiro enquanto lavava o rosto. Usava um traje muito melhor dos que costumava usar, esse parecia mais um vestido de festas, mas é apenas um pijama de seda que se estende até um pouco antes dos joelhos. Solto as alças do vestido e deixo-as caírem pelos ombros, ficando completamente nua, vestindo rapidamente as roupas íntimas, uma calça escura comum e uma blusa regata verde claro.
É de praxe descer as escadas correndo, não me surpreenderia morrer com o pescoço quebrado qualquer dia desses. Enfim na cozinha, e lá estava! Minha mãe, Prim e Peeta; sentado sobre a bancada, tomando um gole do que parecia ser suco de laranja, e sem perceber que eu havia chegado. Em silêncio, movo-me atrás dele, pondo o dedo indicador sobre os lábios num sinal de silêncio para Prim, que contém o riso. Aproximo-me logo dele, levando as duas mãos sobre seu quadril e fazendo-lhe cócegas. Seu copo dá um salto, derrubando suco sobre a bancada, enquanto deixo escapar boas gargalhadas juntamente a Prim, minha mãe continuava concentrada no almoço.
- Bom dia Peeta. – Digo em meio a risadas. Olho para Prim e vejo-a sorrindo também, é bom ver sorrisos depois de tudo isso. Peeta levantou-se, pegando-me pela cintura e dando alguns beijinhos carinhosos. O que me deixa meio constrangida em frente a Prim.
- Bom dia. Como você consegue acordar tão linda? - Certo, ele consegue me deixar muito constrangida, mesmo. Mas percebo que essa era a intenção dele, só por sua expressão risonha.
- Para com isso Peeta. – Falo empurrando-o suavemente e me desvencilhando de seus braços. Caminho até o fogão, beijo o rosto da minha mãe e dou-lhe bom dia. O cozido de carneiro que ela estava preparando estava cheirando muito bem, deliciosamente bem. Logo Haymitch chegara com uma garrafa de aguardente em mãos - como de costume - , Juntando-se a todos para o almoço.
A tarde estava tediosa, Haymitch havia ido embora, Prim estava na escola e minha mãe ficara cuidando dos doentes que as famílias pobres traziam para casa. Peeta fazendo-me companhia, até que então decidi ir para a floresta caçar com ele. A chuva havia se dissipado, dando lugar apenas as nuvens claras. Demorou muito até conseguir convencer Peeta a ir. Atravessamos a cerca – que agora já não possuía mais nenhuma eletricidade e que tinha mais o propósito de manter os animais selvagens longe.
Os arcos nunca trocaram de lugar, sempre na mesma árvore oca, escondidos e muito bem preservados, protegidos da chuva e do sol rigoroso que se faz nos verões no Distrito doze. Agora os dois estavam armados, cada um em posse de um arco, simples mas eficazes. Os animais na floresta correm soltos, esquilos selvagens, pássaros, e vez ou outra víamos cervos correndo livres. Mas felizmente eu deixava-os escapar, afinal agora minha família não dependia mais das minhas matanças ilegais para que pudéssemos sobreviver, tínhamos dinheiro, muito dinheiro. Atirar com o arco virara mais uma forma de hobby, lazer, e também para não ficar enferrujada.
- Peeta, você está mais enferrujado do que eu. – Falo com um tom de implicância.
- Eu nunca fui tão bom quanto você. Você sabe disso.
Seus elogios faziam-me bem, por mais que eu fingisse ignorá-los, eu amava-os. Seu tom de voz era o único que me acalmava e dava-me a sensação de acolhimento, algo que eu sentia quando estava junto ao meu pai. Quero dizer, o amor que sinto pelo meu pai nunca será igual ao que sentirei por alguém. Mas se eu pudesse compará-lo, compararia com o que sinto por Peeta. Suas mãos quentes, seu olhar, suas palavras frívolas e seu toque me davam arrepios. Meus pensamentos acabam se perdendo enquanto eu o olhava atirar flechas em alvos que havíamos posto nas arvores meses atrás.
- Que foi? Estou fazendo algo de errado. – Falou em tom de culpa ao perceber que não parava de olhá-lo. Apenas sorri e movi a cabeça em negativa. Dei a ele a ideia de irmos para o lago, talvez pescar peixes e deixá-los voltar a água, e talvez acender a lareira da casa do lago, a mesma que levei Gale a algum tempo atrás. Ele apenas assentiu com a cabeça.
Os peixes no inverno costumam se esconder, até porque daqui a alguns dias pode começar a nevar. Foi difícil, mas conseguimos pescar três peixes de tamanho médio. A casa ainda estava lá, de madeira, humilde, pequena, aconchegante e intacta, lembrando meu pai todas as vezes que vou lá. Procuramos lenha e gravetos em volta da casa e do lago para acendermos a lareira, isso não demora muito. As mãos frias tremiam mesmo estando encasacada.
- Aqui, ponha isso. – E antes que eu pudesse negar, o garoto conquistador já estava pondo seu casaco sobre meu ombros, deixando-o aos espirros.
- Vamos entrar logo e acender a lareira antes que você pegue uma pneumonia. – Peeta é teimoso, não deixando devolver seu casaco. Abracei-o, e fomos enroscados até dentro da casa, acendemos a lareira, e ficamos sentados em frente esfregando as mãos sob o fogo, que começavam a esquentar. Até que me desenrosquei dos casacos. Começamos a conversar, enquanto assávamos os peixes. Foi questão de segundos até que a nossa fome fizesse com que devorássemos a comida, um peixe e meio para cada um. A madeira ainda crepitava sobre o fogo.
- Você ainda sonha? – De repente o ambiente de risadas tornou-se um pouco mais sério. Não era segredo para nenhum dos dois os pesadelos sobre a capital, os jogos e os tributos que insistiam em morrer repetidamente em nossos sonhos.
- Vez ou outra. Costumo tomar antes de dormir as ervas que sua mãe prepara pra mim, elas me acalmam. – Certo, as ervas da minha mãe, que não costumam funcionar comigo. No começo eu tomava-as todas as noites, mas percebi que elas não faziam muito efeito. Sem dizer a minha mãe comecei a fingir que as bebia, jogando na pia o chá, noite após noite.
Fico pensativa durante alguns minutos, até sentir o toque quente da mão de Peeta. São um pouco ásperas, talvez pelos treinamentos excessivos que tivemos, mas ainda sim são muito acolhedoras. Olho-o sem hesitar e percebo que está se aproximando cada vez mais seu corpo junto ao meu. Sua outra mão toca-me o rosto e acabo sendo obrigada a ceder aos seus encantos, desviando o olhar para a lareira, e voltando aos seus olhos azuis. Nossos rostos então se chocam, seus lábios acolhedores tocando os meus, sinto o calor que poucas vezes senti preencher meu corpo, chegando as extremidades e voltando. Não recuso e nem o aceito. Na real nunca sei como agir exatamente nessas horas, quando o fazíamos na arena era pura encenação, mas agora é mais do que isso, sinto que ele consegue chegar onde Gale, talvez, conseguisse. Ficar ao seu lado e sentir seu toque me deixa segura.
O chão de madeira da cabana estava entre o frio do exterior e o quente de nossa lareira, dando uma sensação engraçada quando deitamos nele. Seus dedos passaram entre os fios de meu cabelo, fazendo com que eu me arrepiasse ainda mais. Se olhos azuis fixos em mim, me examinando, tentando descobrir o que se passa pela minha cabeça. Quero que ele continue me beijando, e não apenas fique me olhando, sinto que meu rosto começa a esquentar.
- Eu te amo, Katniss.
As palavras saíram de sua boca como se estivesse em câmera lenta. Não sabia como reagir e nem o que falar. Fiquei ali por alguns segundos fixada em seu olhar, um olhar suplicante, suplicando por uma resposta recíproca. Mas eu deveria mentir ou falar a verdade? Se eu mentisse, diria algo parecido com o que disse a Gale "eu sei". Não, como eu poderia dizer novamente "eu sei"? Devo encarar isso, encarar o que sinto. As palavras simplesmente saem por entre meus lábios secos.
- Eu também.
Pelo menos não foi um "eu sei", e vejo pelos olhos e pelo sorriso de Peeta que essa resposta foi mais do que suficiente, o que faz meu coração desacelerar um pouco. Nossos lábios se chocam novamente, dessa vez um beijo mais demorado e molhado. Suas mãos deslizam pela minha cintura, subindo lentamente minha blusa e acariciando-me a barriga, o que causa um riso controlado devido às cócegas que sinto. Ele vai descendo deslizando sua mão sobre meu corpo, me sinto vulnerável e não quero me sentir assim. Empurro de forma leve forçando ele a sentar, dou uma pausa entre os beijos e retiro minha blusa, beijando-o novamente para que ele não enxergue como estou vermelha. E mesmo esta não sendo a nossa primeira vez, ainda sinto-me envergonhada. Vejo-o tirando a camiseta, dando lugar a seus ombros largos, braços e peito definidos. Estou quente, muito quente, porém querendo mais.
Agora estamos praticamente nus, com exceção das pequenas peças que usamos nas partes íntimas. Ele coloca uma de suas mãos atrás da minha cabeça para que ela não sofra o impacto quando toca o chão. Então retira a mão e deita sobre mim, levando a outra sobre minha coxa, hora acariciando, hora apertando carinhosamente.
Não consigo explicar o que ocorre na hora que segue, Peeta consegue me levar ao êxtase total em poucos minutos, ele é carinhoso, amoroso, cuidadoso e fatal quando quer. Não posso deixar de lembrar que sabe fazer milagres com as mãos – deve ser pelo fato de usa-las muito fazendo pães, e amassando-os. Esse pensamente me deixa completamente corada. Estamos deitados no chão, com sorrisos estampados nos lábios, Peeta talvez mais do que eu. Minha cabeça está sobre seu peito, estou com os cabelos soltos e emaranhados. Ficamos ali até que o frio comece a tomar conta de nossos corpos nus e a lareira apagar.
- Acho que devemos ir, minha mãe e Prim devem estar preocupadas. - Peeta apenas assentiu com a cabeça, me dando um longo beijo na testa.
- Só se você me prometer que viremos mais vezes aqui. – ótimo, ele realmente não precisa de muito esforço para me deixar com o rosto queimando de vergonha.
- Prometo. – Digo entre dentes e dando um sorriso envergonhado. Ele adora ressaltar "o quanto eu fico linda quando vermelha."
