A Toca, dia após o fim da guerra.

Não consegui dormir. Passei a noite em claro pensando nas coisas que aconteceram desde a fuga do casamento de Bill e Fleur até agora.

Acabou! A sombra de medo se dissipou. Não levanto assustada se ouço algum passo. Está tudo bem agora.

Mas a alegria que pensei que sentiria, a realização… Isso ainda não veio. Meu coração dói, meu corpo todo dói. Como daquela vez que fui torturada. Um milhão de sentimentos estão se agitando dentro de mim, mesmo assim, não consigo expressar qualquer um deles da maneira que deveria. Por isso escrevo.

A casa dos Weasley nunca esteve tão silenciosa. Sem a risada de Fred, apenas o lamento de seu irmão ecoa pelos comodos. A Sra. Weasley deixou os afazeres de casa para depois. Cansada de gritar por dor e indignação, se trancou no quarto para então chorar em paz. O Sr. Weasley perdeu um pouco do fáscino pelas coisas. Ainda que eu trouxesse para ele uma escova elétrica direto do consultório dos meus pais, isso não o arrancaria do seu estado de profunda tristeza. Carlinhos parou de chorar, porém, a dor ficou gravada em seu rosto. Gui tem sido amparado por sua bela esposa. Mas nem mesmo os encantos de Fleur conseguem cessar seu pranto. Ela mesma não anda contente. Ron deixou de rir, Ginny também. Quando os vi pela ultima vez, estavam abraçados. Ron, meio que por instinto, desempenhava seu papel de irmão mais velho, servindo de apoio para uma caçula abalada. Percy dormiu em seu antigo quarto atendendo aos pedidos de sua mãe. "A família precisa ficar unida agora." Ouvi ela dizer quando eu levava Harry para o andar de cima. Meu pobre amigo… Estava completamente exausto. Mal tinha aberto a porta e ele logo se atirou na primeira cama que viu. Está dormindo desde então. A última vez que teve um sono tão tranquilo talvez tenha sido quando era apenas um bebê, antes de toda aquela tragédia que mudou sua vida.

Sentada aqui no porão, penso que me sentiria melhor com os longos braços de Ron em volta da minha cintura, sua respiração quente em meu pescoço e aquela voz grave dizendo "Está tudo bem." Ainda assim, é melhor ficarmos separados. Pelo menos hoje. A família precisa dele mais do que eu agora.

Neste mesmo lugar celebramos nossa nomeação para monitores da Grifinória. Foi quando minha mãe me deu este caderno.

Tantos estavam presentes... Um nó muito incomodo se forma em minha garganta por saber que muitos deles não vão mais voltar. Quando penso que o pequeno Ted foi privado de pais tão maravilhosos… É tão injusto! Sei que não sou ninguém para julgar quem vive ou quem morre, mas as vezes gostaria de poder decidir isso. Assim, Ted Lupin não seria orfão, Harry ainda teria seu padrinho, os Weasleys não estariam enfrentando essa terrível dor. Não sei se resistiria tão bravamente como estão fazendo agora.

Oh! Que beleza! Molhei as folhas com lágrimas… Ao menos estou chorando… Preciso subir e descansar um pouco. Logo irei encontrar meus pais para reverter o feitiço.

Uma nota sobre o último adeus a Fred Weasley.

Somente a família e alguns amigos de Hogwarts estavam presentes. O choro deu lugar ao riso, essa foi a parte boa. George e Angelina recordaram as melhores piadas de Fred, suas melhores idéias. De repente nós soubemos... Enquanto estivessemos rindo, Fred estaria vivo.

No que depender de mim, farei o possível para que ele seja imortal.