A Canção da Meia Noite - Sobre

Alternative Universe/Drama/Friendship/Hurt/Comfort/Romance

A vida de um músico parecia perfeita para qualquer um: fama, viagens aos quatro cantos do mundo, oportunidades de conhecer diversas culturas, diversão constante com os amigos e, é claro, o prazer de compartilhar sua música com milhares de fãs – ou assim é o que aparenta ser para o mundo afora. Mas, para Hermione, aquela turnê não estava saindo do jeito que esperava. Seus parceiros de banda pareciam estar se afastando uns dos outros aos poucos, principalmente seus dois melhores amigos.

Eles tinham jurado que não iriam cair nas tentações da mídia e não iriam virar pessoas superficiais e vazias. Contudo, o estrelato e o poder da fama acabaram mostrando-se fortes demais.

A crise que surgiu não serviu apenas para separá-los. Veio para balançar com os alicerces da vida de cada um, veio para machucar, veio para causar dor, veio para gerar raiva, descontrole. Agora, para darem a volta por cima, eles teriam que descer dos pedestais, engolir os orgulhos, rever velhos conceitos e até mesmo mudá-los. E quando tudo parecesse perdido e o último suspiro ameaçasse esgotar-se, teriam que se lembrar de suas paixões pela música, pois, no fim, sempre haveria a canção da meia noite para salvá-los.


PrólogoO Erro em Disfarce

"Pecador ou virtuoso, a linha é tão tênue
Você pode condenar isso?
Pode você ser aquele a julgar isso tudo, ou acusar
A você mesmo se a sentença é a sua vida?"
Sins Of Idealism – After Forever

Só havia uma pergunta em sua mente: por que diabos não conseguia chorar? As lágrimas que minutos antes deram a impressão de que iam lhe escapar a qualquer instante agora pareciam ter secado. Completamente. Como era possível?

Ainda lembrava-se do peso dentro de seu peito, que puxava seu corpo para baixo. Tiras de ferro pareciam ter comprimido seu coração, apertando-o com a força de uma cobra prestes a aniquilar sua presa para depois devorá-la. Somente ela sabia o esforço que fizera para que sua voz não se descontrolasse, para que permanecesse no mesmo tom, firme e forte. Seus dedos ainda doíam, consequência da força que aplicara neles para continuar segurando o microfone e não começassem a tremer. Isso e a imensa vontade de chorar formavam a bagunça em que se encontrava seu estado emocional.

Naquele momento, no entanto, o que sobrara da confusão era o pesar, que passou a controlar seu corpo no momento em que vira a porta bater – porta que ainda encontrava-se no campo de visão de seus olhos cor de mel. Não conseguia pronunciar nenhuma palavra. O motivo era incerto, mas talvez fosse para evitar que a dor explodisse dentro dela, uma dor cujo prelúdio era o incômodo trago toda vez que respirava.

Ela se assemelhava a uma personagem numa lembrança. Não sentia o mesmo que os presentes, e a única coisa que compartilhava com eles era a sensação de pesar, quase como um sinal de respeito. Ela não sabia, porém aquele era o mecanismo que seu corpo criara para evitar o colapso total.

E foi aí que a raiva veio, sabe-se lá de onde.

Como podia se sentir daquele jeito? Como? Ela havia conduzido aquela situação, havia pronunciado as palavras que deram o fim. Diabos, estivera totalmente imersa naquele problema! Como poderia escapar com somente... uma sensação... de pesar?

Era ridículo demais, pretensioso demais. Aquela estranha calmaria não podia ser real. Contradizia completamente suas premissas realistas. Na verdade, todo aquele momento contradizia a realidade, a ordem lógica dos acontecimentos, a razão.

Seus olhos percorreram a sala ao redor. Cada rosto que examinava exprimia o que ela deveria estar sentindo: dor, mágoa, tristeza. Aquilo sim era real, aquilo era o que deveria estar acontecendo com ela. Afinal, tratava-se de uma das pessoas mais importantes de sua vida, não poderia simplesmente ignorar.

E aí foi ela quem começou a sentir-se como uma forasteira. Teve, finalmente, uma ideia de como ele deveria ter se sentido: olhar para cada indivíduo ali e ter a impressão de que não pertencia ali. Era estranho o que deveria ser desconfortável, pois lhe parecia que se encontrava dentro de uma pequena jaula, separada do mundo real, separada das pessoas normais.

Seus pés moveram-se no instante em que a decisão foi tomada. A mulher ficou de pé e, sem olhar para mais ninguém, foi embora dali. A dor por fim lhe atingiu, mas não a dor que ela deveria sentir, que queria sentir, o que fez a raiva permanecer acesa como uma leve chama – raiva de si mesma, e não daquele que, em primeiro lugar, ocasionara sua confusão interna, o que teoricamente deveria ser o certo.

Mal sabia que aquele era o começo da reviravolta de sua vida. Mal sabia que tudo o que acreditava estava prestes a mudar.