Os dedos tamborilavam insistentemente sobre a superfície fria daquele balcão, onde o jovem de cabelos ruivos mantinha o olhar perdido, dando um suspiro entediado.
Vozes animadas chegam a seus ouvidos, fazendo seus orbes brilharem de pura felicidade. Quando algumas pessoas entraram pela porta que lhes levava a "Toca do Baco".
SAUDAÇÕES meus caros amigos.
Entrem, não se sintam acanhados, afinal vocês já são da casa. Permitam-me lhes arrumar um lugar apropriado.
Sigam em frente passando pela pista de dança, há uma mesa especial lhes aguardando. Creio que a vista das montanhas do dec é bem mais aconchegando nessas noites frias do que a do terraço.
Fiquem a vontade que vou trazer o vinho...
-o-o-o-o-
Bem, antes de começarmos queria que desculpassem a minha falta de atenção quando entraram, mas vocês sabem, ultimamente o movimento por aqui anda meio parado, algumas pessoas andam trabalhando de mais e simplesmente esquecem-se de mim. (olhar desolado).
Eu sei, estou com o humor meio tétrico, mas com vocês aqui tudo melhora. (sorriso largo –tipo o gato da Alice no país das maravilhas).
Nossa, vocês não sabem como me deixam feliz ao saber que apreciaram tanto a ultima crônica (enxugando uma lagrima no canto do olho). Realmente o garoto de gêmeos é surpreendente, mas ele não é o único a me surpreender por aqui (olhar cúmplice).
É, vocês devem estar curiosos pra saber quem é o protagonista dessa noite, não?
Pois bem, vou lhes contar...
Ele não era mais apenas um garoto rebelde, porém considerado o mais forte entre os seus, mas apenas uma amazona lhe conhecia como ele realmente era.
Num dia ele foi chamado de anjo, no outro de demônio ou apenas de "Aquele que castiga os Deuses".
Sim, acho que vocês já devem imaginar de quem estou me referindo. Isso mesmo, o jovem que antigamente tinha uma louca fixação por cabelos ruivos e que hoje vai mostrar para nós em sua crônica, que nem mesmo ele consegue controlar a curiosidade diante de uma mascara de prata e que pedras são só pedras, mas torres nem sempre podem nos proteger...
Para os jovens que não tiveram medo de desvendar os segredos do passado e do presente em "Troca Equivalente", que aprenderam de maneira clara que o amor a primeira vista ainda existe em "Entre Mudanças e Desejos", e por fim, que ter uma vida comum não é nada fácil em "Tempestade de Verão", prepare-se para conhecer a crônica de Aiolia e Marin, numa época que o mundo entrava em guerra e Titãs e Cavaleiros se enfrentavam numa batalha mortal pelo destino da Terra.
Ódio, vingança, saudade e amor. Alguns vão, outros ficam. Feridas se curam e dores passam...
Então, agora lhes apresento "Torre de Pedra".
Uma história que se passa em meados da batalha dos titãs. Quando numa luta mortal Hyperion o titã de Ébano passou por maus bocados enfrentando as "presas do Leão Dourado". E Aiolia descobriu que era apenas um humano, com a necessidade de confiar em alguém.
Aproveitem, que antes do fim eu volto...
Boa Leitura!
Obs: spoiller do Episódio G volume 2 capitulo 9 – Aquele que destrói a armadura.
Crônicas de Amor e Confusão III
Torre de Pedra
I – Porque?
Outra hora cuidaria daquele inútil. Que patético, julgar-se um Deus todo poderoso, mas quando as coisas se complicaram fugiu. Hyperion o Titã de Ébano, cuja adamas era mais resistente do que as doze armaduras de ouro juntas, não resistiria ao impacto das garras do leão, ah se Cronos não houvesse interferido.
Podia ouvir os baixos soluços de Litus próximo a si, porém isso lhe soava tão baixo, como se fosse ela a estar longe. Precisava alcançá-la, não podia permitir que ela se machucasse. Prometera que a protegeria até o fim.
Sentiu cada fibra de seu corpo queimar e formigar, nada mais respondia a seu comando. O sangue escorria furiosamente por cada orifício causado pelo golpe do titã. A cabeça latejava de dor, felizmente ou não, era somente ela a doer, no mais, nada podia ser sentido.
Uma leve brisa tocou sua face marcada por microscópicos cortes e arranhões. Os cabelos vermelhos esvoaçaram diante da leve brisa lhe dando um momentâneo alivio.
Aos poucos os orbes verdes fecharam-se puxando-o para a completa escuridão. Seu corpo parecia ir de encontro ao chão, numa queda livre em câmera lenta, até chocar-se completamente com a poça criada por seu próprio sangue.
-Mestre Aiolia; a voz da pequena criança de cabelos verdes lhe soou como um sussurro longínquo, inalcançável. Antes de ficar completamente inconsciente. E o cosmo do leão ferido apagou-se completamente.
Sua mente queria continuar a lutar, protege-la custe o que custasse, o titã poderia voltar e feri-la, mas simplesmente não conseguia mais.
-o-o-o-o-
-Aiolia acorde; conhecia essa voz, como tinha saudades de ouvi-la lhe chamar toda manhã para o treino diário.
-Só mais um minuto; ele pediu sonolento.
-Como quer se tornar um cavaleiro sendo tão preguiçoso? –a voz divertida de Aioros falou tão próximo de si que poderia jurar ser real.
-Não seja chato mano, só mais um pouquinho; ele pediu, enrolando-se mais nas cobertas como muitas vezes o fizera, passando noites a fio praguejando contra os céus em meio a queda de lagrimas cada vez mais amargas e cheias de revolta pela rasteira que o destino lhe dera.
-Você sabe que as coisas não são assim; Aioros falou, afagando-lhe as melenas. –A vida é cheia de obstáculos que temos que aprender a contornar como esse, agora levante; a voz do irmão soou autoritária.
Agora ele não era mais seu irmão e sim seu superior, seu mestre que durante todos seus passos lhe observava e orientava, mas porque agora sentia-se tão sozinho, com frio, impotente diante do inevitável.
Porque os céus foram tão cruéis ao permitir que aquilo acontecesse. Seu irmão um traidor, aquilo não era verdade, não era justo. IMPOSSÍVEL!
Mais uma vez sentia aquela dor no coração, um ser insignificante diante da crueldade divina que permitira que o mais fiel dentre seus guardiões perecesse com uma injuria daquelas.
Aos poucos sentia como se deixasse algo pra trás, mas agora só queria fechar os olhos e obliterar de sua mente aquela sensação ruim.
-Aioros, me deixa dormir; ele pediu suplicante.
-Pare de se esconder Aiolia; ele falou puxando as cobertas. –Como quer protegê-la dormindo desse jeito. Você é um cavaleiro, as feridas se fecham e a dor passa. Mas e a morte? Não se pode lutar contra ela. Vai deixá-la desprotegida. Largada a vontade dos deuses? Você prometeu; Aioros insistiu.
-Não, nunca; ele falou virando-se para o irmão.
-Então ACORDE;
-o-o-o-o-
-AIOROS; Aiolia chamou, vendo a imagem do irmão dissolver-se a sua frente, tentou se levantar, mas uma dor muito forte no abdômen fê-lo cair de volta na cama.
-Acalme-se; uma voz feminina chegou a seus ouvidos, um peso sobre seu corpo impedia que se debatesse.
De quem era aquela voz? –sua mente simplesmente se negava a lhe dar a resposta. A única coisa que sabia é que não era dela, mas onde ela estaria agora?
Tentou se levantar, um gemido de dor escapou-lhe dos lábios, no momento que sentiu algo frio tocar as feridas e arder.
-Fique quieto, assim vai abrir todos os curativos; a voz o repreendeu, mas não queria saber disso, só queria levantar dali e procurá-la.
-Me solta; ele falou entredentes, serrando os orbes sem foco para a estranha a sua frente.
Talvez fosse algum delírio, ou tivesse apanhado tanto de Hyperion naquela luta que seus sentidos lhe pregavam uma peça. Não poderia ser uma amazona.
-Você só levanta depois que se recuperar; ela falou.
-Onde ela esta? –ele perguntou, desistindo de lutar contra a amazona que agora lhe parecia tão mais forte do que si.
-A garotinha esta com Gahran; ela respondeu.
-Ainda bem; ele murmurou deixando-se relaxar, sentiu as mãos da amazona colocarem algo gelado sobre si, quando notou não estar mais com a armadura sobre o corpo.
-O que esta fazendo? –ele perguntou assustado, retendo-lhe uma das mãos.
-Não deixando que você morra... Por enquanto; ela respondeu sarcástica.
-Puff! Com esse humor você só pode ser a Marin; ele resmungou, soltando-lhe a mão e acalmando-se.
-Bem, pelo menos a surra que levou não lhe afetou o cérebro, apesar de que tenho minhas duvidas de que algum dia ele teve um bom funcionamento; ela provocou.
-Olha aqui; Aiolia falou revoltado, tentando se levantar. –Arg; ele gemeu de dor, fechando nervosamente os olhos ao sentir uma fisgada no abdômen.
-Olha aqui você; a amazona falou, intencionalmente pressionando com mais força a ferida do cavaleiro. – Se você quer bancar o adolescente rebelde, faça isso fora do santuário, assim ninguém se responsabiliza por seus ataques suicidas; ela rebateu ferina.
-Isso não é problema seu; ele falou irritado.
-Exatamente, mas se quer morrer faça isso longe dos olhos de uma criança; Marin rebateu. - Deixe de ser egoísta e pense um pouco naquela garotinha que esta preocupada com você; ela completou.
-Litus; ele murmurou.
-Pelo menos a memória não foi afetada; ela falou se levantando da beira da cama e caminhando para o outro cômodo.
Aiolia deixou os orbes correrem pelo local. Era um quarto simples, diferente dos que já vira no próprio templo ou nos demais.
Onde estaria? – a julgar pela presença da amazona ali, deveria estar em sua casa, mas porque? Porque ela lhe salvara?
Não poderia mais suportar aquela sensação de inutilidade. Retirou o fino lençol que lhe cobria até a cintura e sentou-se na cama. Instintivamente levou a mão até a ferida no abdômen. Olhou para os braços e peito, todos tinham cuidadosos curativos, isso lhe confundia.
Todos o tratavam como o irmão do traidor, não duvidava que o próprio Ares comemoraria sua morte com os demais hipócritas caso Hyperion tivesse conseguido acabar com ele, mas ela o salvara e cuidara de si. Porque?
Continua...
