Case Comigo Outra Vez
Diz a lenda que um antigo véu irlandês tem o poder de realizar o mais profundo desejo do seu coração. Mas tome cuidado com o que deseja.
Ginny Weasley está no limite. Com seu negócio prestes a falir, acabou de gastar os últimos recursos em um par de sapatos. Decide, então, fazer um pedido a um mágico véu de noiva... E visualiza o homem que nunca deixou de amar, seu ex-marido, Harry Potter.
Quando o trabalho de seus sonhos, fazer o vídeo de casamento da filha do Ministro da Magia, aparece como que por encanto, Ginny sabe que aquela pode ser sua salvação. Porém, não contava com um pequeno detalhe: Harry é o noivo.
No momento em que se reencontram, ela percebe que nada mudou. A química entre eles é mais intensa do que nunca. Mas Harry está comprometido e, enquanto lutam para resistir à poderosa atração, vêem-se confrontados com o passado de desencontros, e são obrigados a enfrentar os próprios sentimentos... Será que o amor que Ginny sente por aquele homem é suficiente para arriscar pela segunda vez uma chance de ser feliz.
CAPÍTULO I
Por trás dos imensos óculos de sol, o Auror do Serviço Secreto Harry Potter esquadrinhou a multidão reunida para a cerimônia de abertura da unidade "Xenofílio Lovegood" no campus da Universidade de Hogwarts.
Tinha a postura descontraída, a respiração regular e uma expressão autoconfiante. O perímetro havia sido reforçado. A multidão controlada. Trazia presa à cintura a varinha e vestia um colete à prova do feitiço Spolius - a maldição imperdoável desenvolvida há cinco anos e que tinha o mesmo efeito de um tiro de uma arma automática.
Embora Xenofílio Lovegood, atual Ministro da Magia, fosse o homenageado pela universidade que ajudara a fundar ao lado de Dumbledore, não estava presente ao evento. Em seu lugar, se encontrava a filha, Luna, de vinte e dois anos, a quem fora confiada à tarefa de cortar a fita de inauguração na ausência do pai.
Todos amavam a doce Luna, e era o trabalho de Harry protegê-la com a própria vida. Apesar de não estar nervoso, tinha os músculos tensos, prontos para entrar em ação a qualquer momento.
O céu claro condizia com uma tarde perfeita de meados de outubro. Harry voltou-se para observar os manifestantes, que carregavam faixas com dizeres anti-Lovegood. Os Aurores recém-formados da Academia os mantinham à distância, atrás da linha de piquete, a mais de cem metros do local.
Todos poderiam ser assassinos em potencial, pensou. Da jovem mãe sorridente com uma criança no colo ao trio de homens de cabelos escuros, reunidos à margem da multidão.
Estreitando os olhos, fitou os três. Eles se ajustavam a um perfil que era politicamente correto ignorar, mas Harry era do Serviço Secreto e não podia se deixar levar pelas aparências. Lembrou-se dos episódios terroristas sofridos nas últimas semanas por Comensais disfarçados e a adrenalina tomou conta do seu sangue. De imediato, passou pelo rádio transmissor uma mensagem codificada a outro agente mais próximo deles. Era melhor se prevenir do que se arrepender. Mesmo que Voldemort estivesse morto há anos, seus seguidores ainda mantinham-se ferozmente determinados em vingar a morte de seu Lorde e conquistar o total poder sobre o Mundo Mágico.
— Está tudo bem? — Luna pôs a mão no cotovelo dele.
— Sim, senhorita.
— Senhorita? Bancando o formal comigo, Potter? — Os olhos da jovem cintilaram.
— Estamos em público. E estou em alerta máximo. — Ele resistiu à vontade de sorrir.
— A multidão me parece bem tranqüila.
— Há alguns manifestantes na calçada.
— Eles estão em toda parte. Mas normalmente aparecem em maior número.
— É porque é você que está aqui e não o seu pai. Poucos querem protestar contra uma verdadeira dama.
— Ora, ora, Potter. — Um sorriso suave brincou nos lábios de Luna. — Que coisa mais cavalheiresca para se dizer.
Harry piscou para ela, fazendo seu sorriso se alargar.
— Sua gravata está torta — Luna disse, aproximando-se para ajeitá-la. — Agora, sim!
Harry, Luna e o restante da comitiva se encontravam sobre uma pequena plataforma suspensa. Uma grande escavadeira amarela e vários outros veículos pesados de construção tinham seus motores ligados, prontos para ser acionados no instante em que Luna cortasse a grossa fita vermelha.
Alguns membros do comitê tinham decidido que uma coreografia dos equipamentos de escavação seria algo mais cinematográfico do que se Luna cavasse a terra com uma pá. Porém, no final das contas, aquilo não fez diferença. Um devastador furacão no litoral atraíra hordas de repórteres para lá, e apenas alguns jornalistas tinham comparecido à cerimônia de inauguração.
Harry voltou sua atenção para a filha do ministro. Conheceu Luna ainda quando estudavam juntos em Hogwarts, mas jamais se viu interessado em manter uma amizade com a estranha menina de grandes olhos e cabelos platinados. Mas, ao ser designado em acompanhá-la nos últimos treze meses, tinham se tornado amigos bastante próximos. A relação entre um guarda-costas e o protegido já levara muitos companheiros seus ao psiquiatra. Luna lhe contava coisas que não podia dizer a mais ninguém. Ele escutava, era solidário e mantinha a boca fechada.
A intimidade criara uma relação especial entre os dois. Harry gostava de Luna, embora ela fosse mais nova que ele. Aquele laço emocional inesperado era algo para o qual não se encontrava totalmente preparado. Luna tinha uma voz suave, opiniões sérias, era delicada e sensível. Amava com intensidade e sem reservas, embora os homens sempre a magoassem por não conseguirem lidar com o seu jeito, às vezes, ingênuo e peculiar. Harry não compreendia por que ela ainda não se tornara fria e cínica em relação ao amor. Sua capacidade de elevar o espírito e continuar com o mesmo grau de esperança, confiança e otimismo o impressionava.
Pensou na ex-mulher e no próprio coração, que parecia estar finalmente começando a se recuperar. Dois anos após o divórcio, pensar em Ginny ainda o deixava trêmulo. Ele a amara com todas as forças do seu ser, e ela o desapontara profundamente. Nenhuma dor o ferira tanto quanto a traição de Ginny. Muitas vezes, durante os últimos vinte e quatro meses, tinha tentado se convencer de que a odiava. A raiva era uma chama que trazia no peito, e que alimentava sempre que sua mente vagava na direção das recordações ternas e doces. Porém, não conseguia odiá-la.
O fato era que, não importava o quanto tentasse suprimir sua fraqueza, na escuridão da noite se achava desejando-a, assim como tudo aquilo que haviam perdido. Ansiava por sentir o corpo curvilíneo aconchegado ao seu, o aroma dos exuberantes cabelos ruivos, o sabor da pele macia. Mesmo ali, sob o brilho do sol do meio-dia, cercado por uma multidão, sentia-se seco, vazio e desesperadamente solitário. Com a ponta do polegar esquerdo, tocou a parte de trás do dedo anular, buscando a aliança de casamento que não estava mais lá, e sentiu um inesperado nó na garganta.
Contraiu a mandíbula e afastou os pensamentos, focalizando toda a atenção na segurança de Luna. Agora, aquela era a sua vida. Sem esposa. Sem um lar verdadeiro. O trabalho era a única coisa que o definia. Era um guarda-costas, um protetor, uma sentinela. Descendia de uma família de heróis de guerra. Estava em seu sangue. No seu DNA.
O chanceler da Universidade pegou o microfone e fez um discurso sobre Xenofílio Lovegood e a nova unidade de Ciências Políticas nomeada em sua homenagem. Em seguida, apresentou Luna.
As pessoas aplaudiram. Luna era popular. Quando ela sorriu, os flashes espocaram. A banda premiada de uma escola secundária recrutada para o evento começou a tocar. Os olhos de Harry nunca paravam de observar. O cérebro nunca deixava de analisar.
Uma assistente entregou à filha do ministro uma tesoura tão grande que ela precisou segurá-la com as duas mãos. Ergueu-a, sorrindo. Luna se transformava quando sorria. Os suaves olhos azuis adquiriam um brilho surpreendente e a boca fina se alargava. Ela jogou os cabelos para trás num gesto despreocupado. Por um breve momento, parecia tão bonita quanto qualquer modelo de passarela.
Luna cortou a fita.
A tira vermelha grossa caiu.
As duas escavadeiras começaram a cavar a terra ao mesmo tempo em que o trator acelerava. As pessoas, inclusive os que protestavam atrás da linha de piquete, aplaudiram educadamente. O operador da escavadeira parecia ter dificuldades em manobrar o equipamento. A máquina se movia aos solavancos enquanto a caçamba se erguia. Luna encontrava-se de pé, perigosamente próxima à extremidade da plataforma.
O guindaste balançou no ar. Naquele instante, Harry viu uma expressão de puro pânico na face do operador e percebeu que o homem tinha perdido o controle da máquina. A caçamba moveu-se com rapidez na direção de Luna.
Ele reagiu.
Não sentia medo, apenas uma sólida determinação de proteger a filha do ministro a todo custo. Porém, tinha a impressão de estar se locomovendo em câmara lenta, pernas e braços moles. Lançou-se para frente. Arremessando o corpo sobre Luna, atingiu-a no ombro.
Ela gritou e caiu de joelhos.
Girando, Harry virou-se de frente para a escavadeira enquanto procurava a varinha. No instante seguinte, a caçamba despencou no ar em direção à terra argilosa. Harry ergueu o braço, com a arma em punho.
A caçamba atingiu-lhe a mão direita, derrubando-o da plataforma. Ele ouviu o ruído terrível, mas a dor não foi registrada de imediato. Tentou pronunciar algum feitiço, sem nem saber para onde estava apontando, reagindo apenas por instinto. Mataria por Luna, se fosse necessário.
Mas seus dedos se recusavam a obedecer quanto tentou manter a varinha firmemente empunhada. Que diabos havia de errado com seus dedos? Perguntou-se. Confuso, viu o olhar horrorizado do operador, e Luna gritou seu nome
Ela estaria ferida? Com dor? Alguém a teria atacado? Estaria sendo seqüestrada? O problema com a escavadeira teria sido um ardil para despistar a atenção de seqüestradores? As perguntas se sucediam em sua mente. Pessoas corriam e gritavam, dispersando-se em todas as direções. Harry virou a cabeça, tentando localizar Luna naquela confusão. Por que não sentia a varinha na mão direita? E, pior ainda, por que não sentia a mão?
— Luna... — O nome dela saiu de sua garganta num murmúrio gutural.
Logo depois, a dor explodiu em seu crânio. Sentiu a visão escurecer, mergulhando na inconsciência.
Riqueza atrai riqueza.
Ginny Weasley repetiu o mantra predileto da mãe, enquanto se contorcia, tentando entrar num caríssimo terninho Chanel cinzento. Sua cliente era uma banqueira bastante conservadora.
Após dar uma olhada rápida no armário, acrescentou uma blusa de seda lilás ao conjunto. A cor combinava com seus cabelos ruivos. Removeu os múltiplos brincos das orelhas, deixando apenas um par simples de ouro. Colocou um cordão de pérolas ao redor do pescoço e calçou um par de sapatos Christian Louboutin com oito centímetros de salto, em tons de lilás e cinzento. Precisava caprichar no visual.
Embora estivessem em meados de outubro, a temperatura era alta na maior cidade do Mundo Mágico, Hogswitch. Porém, Ginny sabia que o restaurante francês requintado, onde encontraria Addison James e sua filha Felicity, costumava manter o ambiente refrigerado. Aquele trabalho era muito importante. Não podia se dar ao luxo de tremer durante a entrevista.
Desde que se divorciara, vivia em um apartamento de quarto e sala com garagem, atrás de um solar na velha área pobre de River Oaks, e os seiscentos galeões de aluguel por mês arruinavam seu minguado orçamento. Girou diante do espelho. Ótimo! Aparentava ter dinheiro, refinamento e sofisticação. Não importava que bem lá fundo ainda se sentisse pobre, sem brilho e vivendo do lado errado da cidade.
— Por favor, por favor, me ajude a conseguir esse emprego — implorou a Merlin, Morgana, Deus, Jesus, Maria e José em voz alta.
As prestações do carro tinham vencido fazia dois meses, e ela comia apenas macarrão instantâneo em todas as refeições durante as últimas duas semanas. Lutava havia cinco anos para tirar seu negócio da lama. Era uma excelente videomaker, e sabia disso, mas não conseguia uma boa oportunidade. Não era mulher de desistir dos sonhos, mas não precisaria ser mais prudente? Quando o bom senso grita que seus sonhos vão destruí-la, não seria melhor abandoná-los antes que eles arrumem sua vida? Como Harry.
Ginny estremeceu e mordeu o lábio inferior. O amor da sua vida. O homem que ela deixara escapar. Mas não ia pensar nele. Não naquele momento. Ela não era o tipo de pessoa que gostava de enfatizar as coisas tristes. Para a frente é que se anda, esse era o seu lema. Estava a ponto de fechar a porta do armário, quando avistou de relance o véu de casamento.
O véu de três séculos encontrava-se cuidadosamente dobrado dentro de um saco plástico transparente. Ganhara-o de sua melhor amiga, Hermione Granger, após ela ter se casado com seu irmão, Rony. Lembrou-se do dia em que as duas o tinham encontrado, em uma loja minúscula no Beco Diagonal. Hermione sentira-se enfeitiçada pela peça de imediato, mas Ginny agira com ceticismo.
Então, a misteriosa lojista, Arwen, lhes contara uma história fantástica e inacreditável. Era uma fábula fascinante, da qual se recordava com bastante clareza.
Era uma vez, de acordo com a lenda, muito tempo atrás na Irlanda, uma jovem e bela bruxa chamada Morag, que possuía um grande talento com trabalhos de bilro. Pessoas vinham de muito longe para comprar os adoráveis véus de casamento que ela criava, mas havia outras mulheres na comunidade que invejavam sua beleza e seu talento. Essas mulheres inventaram uma mentira e contaram ao magistrado que Morag estava enfeitiçando os homens da aldeia. O magistrado prendeu a jovem bruxa, mas se apaixonou loucamente por ela. Convencido de que ela o havia enfeitiçado também, tentou provar que ela era praticante de bruxaria.
Se fosse culpada, seria queimada em uma fogueira.
Mas, no final, o magistrado não pôde resistir ao poder do verdadeiro amor. Na véspera do dia em que Morag seria julgada, seqüestrou-a da prisão no meio da noite e fugiu com ela para a América, abandonando tudo por amor à jovem.
Para provar que não o havia enfeitiçado, Morag prometeu nunca mais usar suas magias. Como ato final de feitiçaria, teceu um último véu de casamento, investindo-o com o poder de realizar o mais profundo desejo da pessoa que o usasse.
Ela usou o véu no dia do próprio casamento, desejando um amor verdadeiro e duradouro. Morag e o magistrado foram abençoados com muitos filhos e muita felicidade. Viveram durante muito tempo e morreram nos braços um do outro.
Arwen dissera-lhes que o véu tinha o poder de realizar os desejos mais profundos do coração de quem o usasse. Hermione havia acreditado nesse poder e acabou lançando a sorte ao destino quando declarou seus verdadeiros sentimentos por Rony.
Ginny ficara muito feliz pela amiga e pelo irmão, mas com ou sem véu mágico, ela não depositaria todas as suas esperanças num final feliz. Acreditara ter encontrado o verdadeiro amor ao lado de Harry, mas tudo havia desmoronado. Foi dominada pela familiar tristeza, sentimento que vinha tentando exorcizar durante os dois últimos anos.
Abriu o saco plástico, lutando contra a idéia de fazer um pedido. Parecia uma tolice. Mas, afinal, não faria mal algum tentar... Ginny pegou o véu, percebendo que a renda parecia morna. Colocou-o na cabeça e se examinou no espelho. Seu couro cabeludo formigou. O pulso acelerou. Sem dúvida, havia algo magnético naquela peça.
— Desejo — disse em voz alta. — Desejo... - Então, se calou. Estranhamente, o véu pareceu emitir um brilho débil, tremulando e dando a impressão de haver asas de borboletas ao seu redor.
Fantástico!
Ela engoliu em seco.
— Desejo pagar minhas dívidas. Desejo não precisar lutar mais por dinheiro. Desejo ascender rapidamente em minha carreira e me tornar tão rica quanto nos meus sonhos.
No instante seguinte, Ginny sentiu uma repentina onda de calor. O formigamento no couro cabeludo se intensificou, e ela ficou ofegante. Quase arrancou o véu, mas algo a deteve. Voltou a se olhar no espelho. A superfície polida escureceu. Não havia tomado café da manhã. Seria esse o motivo de estar fraca e um pouco atordoada?
Confusa, piscou e sacudiu a cabeça. Sua imagem refletida ia e voltava, até desvanecer diante de seus olhos, como se ela estivesse desmaiando. Logo, um rosto surgiu do espelho. Indistinto a princípio. Mas era o de um homem. Sentiu o estômago se contrair e os joelhos fraquejarem. Era alguém familiar. Um rosto que ela amava. Seu coração se encheu de uma grande e inesperada alegria.
— Harry... — sussurrou, ofegante.
E então, por fim, pôde vê-lo por inteiro. Ele estava vestido como da ultima vez que o vira, com as vestes negras que usava no trabalho. Mesmo sob as roupas, ela percebeu os músculos firmes, sabendo como aquele corpo era bem definido.
A mandíbula estava contraída e as sobrancelhas franzidas. As pessoas que não o conheciam talvez pensassem que ele estava zangado. Mas ela conhecia bem aquela expressão. Podia ver, nas extremidades da boca e nos cantos dos olhos que ele estava sentindo dor.
Ginny preciso de você. Estou perdido e não consigo achar um modo de voltar. Ajude-me, Ginny.
Fascinada, esticou a mão para tocá-lo, mas seus dedos apenas bateram na superfície dura do espelho. Ela ofegou, como se tivesse sido atingida por um balde de água fria, e a visão desapareceu. Cambaleou, com as têmporas latejando e os olhos arregalados de espanto e terror. Estava de volta ao seu quarto olhando boquiaberta para o espelho, tentando respirar. Tinha o véu amaldiçoado no chão aos seus pés.
Com o estômago contraído e os joelhos bambos, percebeu que não havia mais nada no espelho, além de sua imagem assustada. Não sabia explicar o que acontecera, mas seu corpo se agitava com uma energia renovada.
— Droga, droga, droga! Logo hoje. Eu não precisava disso.
A consciência voltava aos poucos.
Primeiro, Harry escutou sons distantes e indefiníveis tentou prestar atenção, mas, ao se concentrar, a névoa em sua cabeça aumentou. Rodas de carro em movimento. Vozes baixas e suaves Um tipo rangente de barulho, como um velcro sendo puxado. Ouviu um som intermitente. Uma batida de coração. Seria o dele?
Onde se encontrava? O que teria acontecido? Estaria morto? Ali seria o inferno? Tentou pensar, mas a memória era uma cortina pesada e escura. Seu cérebro parecia queimar. Então, se deixou levar pelo torpor e dormiu novamente.
O tempo passou.
Da segunda vez que voltou a si, suas terminações nervosas latejavam de dor. A cabeça parecia que fora esmagada por uma viga de aço. E a mão. Que diabos acontecera com a sua mão?
Um fragmento de memória emergiu em sua mente. Tênue como uma teia de aranha partida, flutuando livre e pegajosa. Algo ruim acontecera. Não sabia quanto tempo ficara inconsciente, se minutos, horas, dias, semanas... Oh, Deus, semanas não.
Não encontrava respostas para suas perguntas.
Um terrível desespero o impeliu a mergulhar de volta no mar da inconsciência, buscando consolo no esquecimento do sono entorpecente.
Durante todo o trajeto até o restaurante, a mente de Ginny insistia em voltar à visão que tivera no quarto. Um terrível pressentimento de que algo de ruim acontecera a Harry não saía de seu pensamento.
Estou imaginando coisas, tentou se convencer. Harry está bem.
Parou no estacionamento do La Maison Vert e se apressou a entrar. Foi conduzida até os fundos do salão, onde Addison e a filha a aguardavam, sentadas à mesa.
— Está três minutos e meio atrasada — disse a mulher num tom frio, conferindo o Rolex no pulso. — Não é um começo muito auspicioso.
— Peço minhas mais profundas desculpas por tê-las feito esperar. — Ginny deslizou no assento.
Após a refeição e a retirada dos pratos, Ginny colocou um aparelho portátil de DVD no centro da mesa e exibiu uma amostra de seu trabalho. Addison assentia e Felicity estava sorrindo, o que a fez imaginar que estava bem perto de fechar o negócio.
— Então, quando será o grande dia? — perguntou.
— Em junho.
— Que bom que estão começando cedo.
— Estamos começando no tempo certo. — Addison James pegou uma lista da bolsa e leu em voz alta: — Nove meses antes do casamento, reserve o videomaker.
Claramente, a mulher era uma daquelas pessoas que seguiam estritamente as normas. Como Harry. Ginny não se dava bem com pedantes.
— Se nós a contratarmos, chegará três minutos e meio atrasada ao casamento? — perguntou Addison em tom esnobe.
— Não, não, claro que não. Estarei lá na hora combinada. — prometeu.
— Quanto você cobra? — perguntou, fitando-a com um olhar avaliativo.
Ginny deu um preço ligeiramente mais alto que o da concorrência. Baseava sua remuneração em um dos ditados que a mãe costumava usar: Se quiser que as pessoas pensem que é a melhor, cobre como se fosse. O garçom trouxe a conta e ela quase desmaiou ao olhar o total. Rezando para não estar acima do seu limite de crédito, tirou o cartão de crédito da bolsa e entregou ao rapaz.
— Está cobrando mais que os seus colegas — comentou Addison.
— Quer o melhor? Ou o mais em conta?
— Não vou fingir que não aprecio uma boa pechincha, mas quando se trata do casamento da minha filha, quero o melhor.
— E é isso que terá se me contratar.
— Mãe, eu gostaria que Ginny fizesse o vídeo do meu casamento — disse Felicity.
— Sra. Weasley... — O garçom voltou à mesa parecendo aflito. — Lamento, mas seu cartão de crédito foi recusado.
Ginny tentou disfarçar. Não podia permitir que a sra. Addison James percebesse que ela estava suando frio.
— Houve um engano. Pode tentar novamente, por favor?
— Fui instruído pela companhia de cartão de crédito Gringotes a destruí-lo.
O garçom retirou uma tesoura do bolso e, na frente da banqueira conservadora, cortou o cartão no meio. Aquele homem estava destruindo sua tábua de salvação, Ginny pensou, humilhada. Procurando manter o sorriso nos lábios, retirou outro cartão da carteira.
— Tente este.
— Sim, senhora. - Um momento depois, estava de volta, meneando a cabeça. Trazia o cartão em uma das mãos e a tesoura na outra.
Não! Não outra vez! Uma onda de pânico a dominou. Como podia ter extrapolado o limite em ambos os cartões? Não era possível. Talvez alguém tivesse roubado sua identidade. Sentiu-se fragmentada, desconectada, como se ela, a verdadeira Ginny, estivesse separada da mulher que fazia aquele tipo de bobagem.
— Eu pagarei o almoço — Addison James disse num tom frio. Tirando a carteira da bolsa, depositou a quantia sobre a mesa.
Um silêncio profundo se abateu entre as três mulheres. Ginny procurava coragem para encará-las.
— Sinto muito. Eu a reembolsarei.
O rosto da mulher se fechou em uma carranca de desaprovação.
— Que tipo de profissional faz algo desse tipo? Convida clientes para almoçar e tenta pagar a conta com dois cartões de crédito com o limite estourado?
Ginny sentiu o ar escapar dos pulmões. Não conseguia respirar, e quase não podia falar.
— Eu... eu...
Addison empurrou a cadeira para trás e se levantou.
— Venha, Felicity. Temos que procurar outro profissional.
No estacionamento cheio, Ginny pegou as chaves do carro e apertou o botão de alarme para localizar seu Ford Focus. Nenhum som tranqüilizador indicou que a porta do veículo fora destrancada. Apressou-se até o local onde se lembrava de ter estacionado e pressionou o botão pela segunda vez.
Nada.
Enfiou a mão no bolso e pegou o telefone celular. Estava ligando para a patrulha de policiamento quando uma imagem veio-lhe à mente: a pilha de contas não pagas sobre a mesa da cozinha. Havia uma carta ou duas da financeira, ameaçando tomar seu carro caso o pagamento não fosse efetuado. Lembrou-se dos inúmeros recados em sua secretária eletrônica, que ela nunca respondera.
Foi, então, que se deu conta da terrível verdade. O carro não fora roubado. Havia sido apreendido.
Luna Lovegood era apaixonada pelo amor. Adorava a impetuosidade inicial dos romances, os beijos, os olhares prolongados, os presentes inesperados e a atenção completa. A mãe, Catherine Lovegood, desde cedo lhe incutira uma forte crença na felicidade. Quando era criança, costumava buscá-la na escola com o pretexto de irem ao dentista. Mas, em vez disso, iam à matinê ver filmes românticos, comer pipoca e se encantar como duas adolescentes com os belos galãs de cinema. Luna costumava amar aquelas surpresas. Aos onze anos, fora surpreendida com o diagnóstico do câncer terminal da mãe.
— Não estarei aqui para ver você se apaixonar e se casar — Catherine dissera. — Portanto, ouça-me com atenção. Vai encontrar o amor verdadeiro, Luna, basta acreditar.
— Eu acredito.
— Não desista até encontrá-lo.
— Mas como vou saber que encontrei a pessoa certa?
— Vai sentir isso bem no fundo do coração.
— Como ele vai ser?
— Será gentil e forte, protegerá você mesmo que isso lhe custe à vida, e será o seu melhor amigo.
Seis meses depois, a mãe havia morrido, e o desejo de Luna de encontrar o verdadeiro amor se tornara ainda mais forte. O problema era que tinha passado a ver o amor em todos os lugares, em qualquer face masculina que sorrisse para ela. Vivia uma paixão atrás de outra sempre pensando: E ele. É o amor da minha vida.
Ela é muito parecida com a mãe, certa vez ela ouvira o pai comentar com a babá, Rana Singh: Cabeça nas nuvens, a mente cheia de idéias românticas e tolas sobre a vida. Não sei o que fazer com essa menina. Para a total consternação do pai, aos vinte e dois anos de idade ela já estivera comprometida três vezes. Aparecera nas primeiras páginas de muitos tablóides, com manchetes desagradáveis que tinham ficado marcadas em sua lembrança.
"Fracassa o primeiro romance da primeira filha"
"Luna Lovegood: Princesa inconstante ou adolescente solitária?"
Tinha cometido muitos enganos, escolhido o tipo de homem errado, dado mais importância às aparências do que à essência. Porém, Harry Potter era diferente. Em primeiro lugar, era mais velho. Em segundo, seu pai gostava dele e o respeitava. E havia o fato de ele ter salvado sua vida, como a mãe lhe dissera que seu verdadeiro amor faria. Harry era forte, educado e gentil.
Desde o início, ficara ao lado dele. O pai havia tentado argumentar, mas ela insistira, pois queria estar lá quando ele acordasse. Potter era seu guarda-costas havia pouco mais de um ano e, embora o achasse um homem atraente, jamais considerara um romance entre os dois até vê-lo sacrificar-se por ela.
Antes disso, sentia-se um pouco assustada com a masculinidade que emanava dele. No passado, tinha valorizado homens eruditos de feições refinadas, e Harry certamente não fazia esse tipo. Mas naquela cama de hospital, com tubos e bandagens em volta da cabeça, ele parecia tão perdido e vulnerável que sentiu vontade de tomá-lo nos braços e afagá-lo. Afinal, ele não era tão grande, severo e assustador como clamavam as lendas.
Luna se deu conta de que o que sentia por Harry era diferente do que sentira pelos outros três noivos. Era um amor tranqüilo, suave, maduro. O tipo de amor que o pai dissera que ela precisava. Tinha começado a perceber que o amor verdadeiro devia ser uma grande amizade que se aprofundava ainda mais por meio de sacrifício e devoção.
Mas, e o fato de não haver paixão? Nenhuma faísca. Era essa a questão. A química a havia conduzido a caminhos errados antes, a levara a fazer escolhas tolas. Às vezes, sentia tanto a falta da mãe, que chegava a sentir dor física. Desejava que estivesse ali para confirmar sua convicção de que Harry era o homem certo.
Permanecera dia após dia ao lado da cama dele. Querendo-o bem, desejando que ele a amasse do mesmo modo como estava começando a amá-lo. E, se fechasse os olhos com força e se concentrasse, podia sentir isso bem no fundo do coração.
Sim. Harry Potter era, de fato, o homem da sua vida. Agora, tudo que precisava fazer era convencê-lo disso.
— Um pote de sorvete não é a solução — ralhou Hermione, ao ver o pote vazio nas mãos de Ginny.
— Querida, por favor — disse Ginny à balconista da sorveteria— Vou querer o pote tamanho extragrande. Dessa vez, quero duas bolas de doce de leite.
Hermione sacudiu a cabeça para a mulher e estreitou o olhar.
— Não me obrigue a intervir, Ginny Weasley. Largue essa colher e afaste-se do balcão agora mesmo!
Ginny segurou a colher com mais força, a ansiedade estreitando-lhe a garganta. Sabia que Hermione estava zelando pelo seu bem-estar. Tinha feito tudo errado e agora ali estava, tentando afogar a tristeza em sorvetes.
Duas semanas haviam se passado desde o incidente com Addison James. Duas semanas miseráveis evitando cobradores e implorando carona aos amigos e vizinhos. O serviço de cabo fora cortado por falta de pagamento, e não dispunha mais nem de televisão e nem de internet. Acabara com as idas matutinas à Starbucks e deixara de comprar as edições da Magic e da Entertainment Weekly, que costumava ler na esteira. Porém, também não podia ir mais à academia de ginástica, pois estava em dívida com as mensalidades.
Sentia-se isolada e excluída. Não tinha a menor idéia do que estava acontecendo no mundo. Durante as duas últimas semanas, passara o tempo livre escutando músicas e folheando álbuns de fotografia antigos, tentando entender onde as coisas tinham começado a dar errado.
Addison James estava certa: Ela era patética.
Deixe de se lamentar, comandou uma vozinha interior. Você não é uma chorona. Erga-se com o seu próprio esforço
Mas era difícil. Estava divorciada de um homem que ainda amava, seu carro fora retomado pela agência de automóveis, devia mais de onze mil galeões no cartão de crédito e não tinha um relacionamento amoroso desde o dia em que Harry saíra de casa.
Meu Deus! Nem conseguia se lembrar mais de como era a sensação de ter um orgasmo!
— Entregue-me a colher. — Hermione aguardou, com a mão estendida.
Esforçando-se para não chorar, Ginny pôs a minúscula colher de plástico na mão da amiga.
— Obrigada — disse Hermione, jogando-a no lixo. Então, segurou Ginny pelo cotovelo e conduziu-a até um banco de madeira, que ficava ao lado de uma fonte. — Sente-se.
Ginny obedeceu.
— Por que não me deixa emprestar um pouco de dinheiro para você? — Ela retirou o talão de cheques da bolsa Prada.
— Amigos não devem pedir dinheiro emprestado a amigos.
— Sou sua cunhada também! Mas que tipo de amiga seria eu se a deixasse em dificuldades?
— Inteligente.
— Eu já sou. – Hermione alegou sem modéstia. - Ginny, orgulho e teimosia não a ajudarão. Deixe-me pelo menos conversar com Rony a respeito de sua situação. Ele deve voltar para casa dentro de dois meses após terminar a Copa de Quadriboll.
— Sou a única culpada por ter me enfiado neste buraco. Não é problema de vocês.
— Mas estourou os cartões de crédito tentando alavancar seus negócios e sobrevier depois do divórcio. São circunstâncias atenuantes. Sei que será bem-sucedida no final.
— A maioria das pessoas me diria para arrumar um emprego de verdade e parar de sonhar. - Era o que vinha dizendo a si mesma, também. Mas odiava tanto a idéia de desistir do seu sonho que havia ignorado a pilha de dívidas que crescia a cada dia.
— Não sou como a maioria das pessoas e sabe que a entendo. Conseguir estabelecer um negócio próprio não é fácil.
— Talvez algumas pessoas não nasçam para alcançar o que almejam — resmungou, pensando em Harry.
Hermione bateu de leve em sua mão.
— Está apenas em uma maré de azar. É uma videomaker fabulosa, Ginny. Um dia sua carreira vai deslanchar. Tenho certeza.
— Aprecio sua boa vontade, mas não posso envolvê-la em meus problemas. — O mesmo orgulho que a impedira de pedir a Harry que não a abandonasse dominava seus sentimentos.
— Por que não?
— Tenho que sair disso sozinha. Mas, de qualquer maneira, muito obrigada.
— E o que pretende fazer?
— Vou arrumar um emprego. Dois, se necessário.
— E como vai conseguir esses empregos sem carro e sem dinheiro para comprar um?
Ginny permaneceu em silêncio.
— Bem...— disse Hermione , guardando o talão de cheques. — Se não quer meu dinheiro, pelo menos pegue meu carro emprestado.
— E você?
— Meus pais têm um carro sobrando, e posso usá-lo.
— Não, isso seria uma grande inconveniência.
—Tenho certeza de que não será por muito tempo, porque vou falar com todas as mulheres que têm filhas pensando em se casar e fazer propaganda do seu trabalho. Vai dar tudo certo. Prometo.
Quando Hermione disse aquilo, Ginny desejou muito acreditar. Mas havia uma vozinha dentro dela que continuava sussurrando: Quem você pensa que é, ousando sonhar tão alto? Não tem chances. É igual a sua mãe. Toda vez que consegue algo de bom, destrói. Como sua avaliação de crédito. Como Harry.
Dois anos depois a dor ainda era tão vivida quanto no dia em que ele partira, o dia em que o perdera para sempre. Tinha sido o maior erro de sua vida, e sempre soubera disso. Parte dela achava que, se Harry a amasse, ele a teria compreendido, sem que ela precisasse ter se explicado. Ele deveria saber como ela se sentia. Porém, ele não soubera, e tinha partido porque ela não fora capaz de dizer o quanto o amava. E não conseguia perdoá-lo por não estar ao seu lado quando ela mais precisava.
Hermione estendeu as chaves do carro.
— O Acura é seu pelo tempo que precisar.
Engula o orgulho estúpido pelo menos uma vez e aceite.
Bem, não pudera salvar o casamento, mas talvez sua carreira tivesse uma chance, pensou, humilhada. Abriu a palma da mão e fechou os dedos ao redor do molho de chaves. O que mais poderia fazer?
— Obrigada.
— Mas não é apenas isso, certo? Algo mais a está aborrecendo.
Era estranho para Ginny falar sobre o véu de casamento e a intrigante visão que tivera com Harry. Duas semanas haviam se passado e ainda não fora capaz de esquecer o que tinha visto no espelho.
— Acha mesmo que o seu véu de casamento tem poderes mágicos? Acredita realmente em toda aquela tolice que a mulher nos contou?
—Você teve uma visão. — Aquilo era uma declaração, não uma pergunta.
— Como soube?
— Aconteceu comigo na primeira vez em que o toquei.
— Por que não me disse nada?
Hermione encolheu os ombros.
— Como admitir algo assim? Viu o rosto do seu verdadeiro amor, não é?
— Não.
— Não?
— Vi Harry. E tenho o terrível pressentimento de que ele estava em dificuldades. Diga-me que estou sendo tola. E estúpido pensar que o véu tenha algum poder mágico, certo?
Hermione se remexeu no banco, um pouco inquieta, lembrando-se do acidente que Harry sofrera. Ao visitá-lo no hospital, ele havia a obrigado a prometer que não contaria sua situação a Ginny.
— Não sei o que responder. Eu vi Rony. E, então, quando me declarei, soube de imediato que havia sido tola e covarde todos esses anos, embora na época estivesse noiva de Krum.
— Para mim, não apareceu nenhum homem dos sonhos. Apenas Harry.
— Acha que sua mente pode ter criado a visão como uma tela de fumaça para seus problemas? Que está projetando seus medos em Harry para não enfrentar o que está acontecendo em sua vida?
— Talvez.
— Está na hora de esquecê-lo. — Os olhos de Hermione eram gentis. — Tem se agarrado à esperança que ele volte. Já faz dois anos. Ele não vai voltar, Ginny.
— Eu sei — ela sussurrou. — Éramos muito diferentes. Mas a verdade é que éramos muito bom juntos. Harry me mostrou uma parte de mim que eu não sabia que existia. Fazia-me sentir segura de um modo como nunca me senti antes. Sabe como é?
A amiga sorriu, compreensiva.
— Sei...
— Eu estraguei tudo, Hermione.
— Toda a história tem dois lados, Ginny. Harry não sabe perdoar. E, se ele não conseguiu perdoá-la por ser humana, como poderia tê-la amado verdadeiramente, de maneira incondicional? Todos nós cometemos erros. O erro de Harry foi deixar a raiva reger seu coração.
Ginny sentiu vontade de chorar, mas muito tempo atrás aprendera que lágrimas eram uma fraqueza à qual ela não podia se dar ao luxo de ceder. A amiga tinha razão.
Estava na hora de esquecê-lo.
Quando Harry voltou a si novamente, o lugar estava mais claro. A luz em seu rosto seria do sol? Alguém teria aberto uma janela? Sentiu um toque macio nos dedos. Era a mão de uma mulher. Seu coração disparou.
— Ginny — murmurou com dificuldade por causa dos lábios ressequidos.
— Sou eu, Luna.
— Luna? — ele perguntou, decepcionado.
— Sim. Estou aqui. Abra os olhos.
Harry queria obedecer, mas não era tão fácil quanto ela fazia parecer. Suas pálpebras pesavam como medalhões de ouro. Lentamente, conseguiu forçá-las a abrir e viu Luna Lovegood sentada ao lado da sua cama, os dedos apertados ao redor dos seus. Havia uma expressão desolada que ele nunca vira antes nos suaves olhos azuis.
Então, notou outra coisa. Sua mão direita estava enfaixada, e o braço inteiro se apoiava em uma tipóia que passava ao redor do seu pescoço. A dor era intensa. Contraiu os dentes, forçando-se a ignorar a sensação desagradável. Era do Serviço Secreto. Sabia como lidar com aquilo.
Luna respirou fundo.
— Receio não ter boas notícias.
— O que...? — Sua boca estava tão seca, que a língua parecia colada ao céu da boca. —... O que aconteceu?
— Não se lembra?
— Não.
— A escavadeira na Universidade? Você salvou a minha vida.
— Eu? — perguntou ele, tentando se lembrar da cena.
— Sim. E desde então fiquei aqui com você.
— Há quanto tempo? — Harry tentou umedecer os lábios.
— Treze dias.
— Treze dias? — Parecia impossível. Como podia ter ficado inconsciente por tanto tempo?
— Quase quatorze, na verdade.
As notícias o desanimaram. Sentia-se inquieto e inerte ao mesmo tempo.
— Esteve aqui comigo durante duas semanas? Mas você tem deveres, compromissos e responsabilidades.
— Cancelei tudo. Nada é tão importante para mim quanto a sua recuperação.
— Não era necessário.
— Harry, você não é só o meu guarda-costas, é meu amigo também. — Ela parecia tão leal que ele teve que sorrir, mesmo sentindo dor. — Você nos deu um grande susto, sabia? Quando a caçamba da escavadeira o atingiu, provocou uma hemorragia no seu cérebro. Precisou ser submetido a uma cirurgia.
— Cirurgia?
— Eles rasparam sua cabeça. Todo aquele cabelo escuro e bonito... — Ela suspirou.
Harry ergueu uma das mãos para tocar o couro cabeludo, que estava áspero.
— Odeio ter que dizer, mas isso não é tudo. — Luna alisou o lençol da cama, incapaz de encará-lo.
— Não?
— Sua mão.
Ele sentiu o peito se contrair.
— O que houve com minha mão?
— Foi esmagada pela escavadeira. Os médicos conseguiram salvá-la, mas é pouco provável que recupere todos os movimentos. Provavelmente, vai ter que trocar o trabalho de guarda-costas por outro tipo de atividade burocrática.
A informação era indigesta demais, e ele não tinha condições de lidar com ela naquele momento. Portanto, não o faria.
— E você, como está? — Ele apertou os dedos da mão boa ao redor dos dela. — Não está machucada?
— Incólume, com exceção de joelhos esfolados quando você me derrubou.
Harry lembrou-se de ter empurrado Luna na plataforma enquanto a caçamba da escavadeira descia.
— E o operador do veículo?
— Também está bem.
— Não... — disse Harry. — Quero saber por que o bastardo estava tentando matá-la.
Luna deu uma risada suave.
— Ele não estava tentando me matar. Tinha ficado acordado a noite toda porque a esposa dera à luz ao primeiro filho, mas não dissera nada ao chefe porque queria ir ao evento me conhecer. Ele cometeu um erro. Empurrou as alavancas erradas, apavorou-se e, sem saber o que fazer, continuou empurrando-as.
— Você poderia ter morrido.
— Mas isso não aconteceu graças a você, que se sacrificou para salvar minha vida.
Aquela era a sua função, pensou Harry. Luna estava em segurança. Isso era tudo que importava.
— Liguei para o casal Weasley — ela disse. — Achei que eles deveriam saber.
— Eles estão aqui em Hogswitch? — O casal deveria estar em um cruzeiro ao redor do mundo para celebrar a aposentadoria de Arthur. Tinham programado aquela viagem a vida inteira. Odiaria obrigá-los a voltar por sua causa.
— Não. Disse-lhes que não houve nada de grave. Espero que não se incomode. Lembrei-me de ter me contado o quanto essa viagem era importante para os dois. E sabia que você não gostaria de ser o responsável por arruiná-la. Senti-me um pouco culpada. Se não tivesse me salvado, não estaria machucado.
— Você fez bem. Obrigado.
Naquele momento, naquela troca séria de olhares, Harry sentiu como se a conhecesse a vida inteira. A energia tranqüila de Luna era tão reconfortante quanto o ronronar de um gatinho. Ela era previsível, segura. Gostava desse traço da sua personalidade. Com Ginny, as coisas sempre tinham sido excitantes e eletrizantes, mas manter o ritmo de sua energia ilimitada demandava um esforço constante. Luna era simples.
— Obrigada. — Os olhos dela brilharam.
O ego de Harry inflou. Ela olhava para ele, um cão de guerra cheio de cicatrizes, com adoração e respeito. A amizade estaria se transformando em algo mais?
A idéia era assustadora. Não seria prudente permitir que esses sentimentos surgissem. Não se envolvera com ninguém desde que se divorciara. Agora, sentia-se terrivelmente vulnerável. Pensou em Ginny mais uma vez. Selvagem, rebelde e apaixonada. A vida ao lado dela parecia um episódio de l Love Lucy. Impulsiva, um pouco aventureira, com um espírito irreprimível. Era como ter fogos de artifício nas mãos, chiando e prontos para detonar.
E ela o detonara.
Harry tinha aprendido a duras penas que o perigo de alimentar uma paixão tão intensa era ter de lidar com a explosão. Seguira o coração e não a cabeça, e aquilo quase o arruinara. Luna era o oposto de Ginny. O casamento com uma mulher como ela seria muito tranqüilo. E, no momento, nada lhe parecia mais atraente do que um pouco de serenidade.
Fechou os olhos, incapaz de mantê-los abertos por mais tempo. Acordar, recuperar a memória e saber que fraturara o crânio e tivera uma das mãos esmagadas era demais para um dia só.
Sentiu o roçar suave dos lábios de Luna em sua face.
— Está tudo bem, querido — sussurrou ela. — Durma.
Querido.
A palavra o deixou tonto, mas já estava sonolento demais, incapaz de compreender por que a filha do ministro o estava beijando e falando naqueles termos.
Ginny normalmente superava as tristezas fazendo compras, mas daquela vez, fazer compras lhe causara tristeza. Como resolveria isso?
Às dez horas da manhã, encontrava-se sentada no banco do motorista do Acura do lado de fora do Galleria Shopping. Queria entrar e comprar uma roupa nova para se animar, mas estava falida. Tinha exatamente noventa e sete galeões e cinqüenta sincles na conta.
Outubro era um mês fraco para casamentos. A menos que conseguisse vender algumas das suas roupas usadas, estaria de fato em apuros. Prometendo a si mesma que apenas olharia as vitrines, saiu do carro e entrou no shopping. A Nordstrom estava liquidando. Sentiu uma onda de excitação. As roupas íntimas estavam sendo vendidas com quarenta por cento de desconto.
Porém, como não tinha com quem usar uma lingerie sexy, dirigiu-se a outro departamento.
Sapatos! Sessenta por cento de desconto! As mulheres, enlouquecidas, se acotovelavam. As prateleiras estavam uma bagunça. Sapatos e caixas se espalhavam por todos os lados. Depois de circular um pouco, Ginny encontrou um adorável par de sandálias vermelhas.
Era o seu número.
Com as mãos trêmulas, pegou as sandálias, sentou-se em uma cadeira e calçou-as. Levantou-se e caminhou em círculos, eram maravilhosas. E, além disso, combinavam perfeitamente com seu vestido de noite vermelho.
Voltou ao assento e, nervosa, ergueu a caixa. Normalmente, custavam duzentos e quinze galeões. Era péssima em matemática, mas, com o desconto, talvez tivesse o suficiente para pagá-las.
Apertando as sandálias de encontro ao peito, esperou na fila do caixa.
Ponha-as de volta no lugar. Isso é insano!
Virou-se para sair da fila, mas se lembrou de como as sandálias tinham ficado tão bem em seus pés.
— O próximo — chamou o caixa, e Ginny percebeu que a mulher estava falando com ela.
Hesitou durante alguns segundos.
Vá em frente. Sempre existe a possibilidade de devolvê-las.
Decidida, deu um passo à frente e colocou o calçado sobre o balcão. Deixaria que o destino decidisse. Se o total fosse superior a noventa e sete galeões e cinqüenta sincles de prata, estaria fora de questão.
— Noventa e quatro galeões — disse o caixa.
Sentindo como se tivesse ganhado na loteria, sorriu e passou o cartão de débito no leitor. Porém, assim que digitou a senha e a transação foi aceita, o encarregado do caixa anunciou:
— Todas as vendas são definitivas. Não haverá mais devoluções.
O pânico a dominou. Tinha um par de sapatos de que não precisava e menos de cinco galeões na conta corrente. Foi quando percebeu que chegara ao fundo do poço.
Olá, meu nome é Ginny Weasley e sou compradora compulsiva.
Todas as noites no hospital, Harry sonhava com Ginny. Se eram os analgésicos, os ferimentos ou a combinação de ambos, não sabia dizer, mas não conseguia tirar a ex-mulher da cabeça. Sonhava com o modo como Ginny o fitara quando ele saíra de casa. Tinha a mandíbula contraída e os lábios apertados em uma linha fina, e fora incapaz de dizer às palavras que ele precisava ouvir, embora os olhos implorassem que ele a perdoasse, que a compreendesse, que ficasse.
Mas ele partira. Se Ginny não conseguia manifestar suas necessidades, ele não podia continuar tentando interpretar os misteriosos pensamentos. Agora, percebia como fora obstinado e estúpido, como ela era frágil, apesar da dureza que tentava projetar. Eles haviam magoado um ao outro.
Ele, então, despertava e olhava para Luna, a querida amiga que tocava sua mão boa e murmurava palavras de conforto. Ela parecia tão serena... Durante as três semanas que permaneceu no hospital, suportando exames e terapia, recuperando-se da cirurgia, Luna se recusara a sair de seu lado.
O novo guarda-costas dela era o seu velho companheiro Neville Longbottom. Neville permanecia pacientemente no corredor, atento aos perigos, fazendo o trabalho de Harry enquanto ele continuava preso àquela cama.
Os curandeiros haviam dito que precisaria de vários meses de fisioterapia para voltar a usar parcialmente a mão direita. Também o tinham informado que jamais recuperaria todos os movimentos. Harry não podia cerrar o punho, e nem mesmo segurar o cabo de uma colher. E, embora não houvesse seqüelas cerebrais, ainda sentia dores de cabeça freqüentes.
— Será liberado amanhã — anunciou Luna. — E vai precisar de um lugar para se recuperar.
— Estarei bem na minha casa — respondeu, embora o pensamento de voltar para o apartamento vazio, sem ter com quem conversar ou para onde ir, exceto para a fisioterapia três vezes por semana, o assustasse.
— Falei com papai. Ele está de acordo que o melhor lugar para você ficar é na nossa fazenda em Katy.
— Aprecio a oferta, Luna, mas isto não é problema seu.
— Você salvou minha vida. Pensei que fôssemos amigos.
Seus olhares se encontraram. Ela parecia magoada.
— Sinto muito. Mas não posso aceitar.
— Irei para a fazenda com você. Não vai ficar sozinho.
— Não pode paralisar sua vida por minha causa. Tem compromissos importantes. Seu pai precisa de você.
— Papai entende que, no momento, você precisa mais. Por favor, faça isso por mim.
Harry não soube exatamente como aconteceu, mas se viu concordando. Disse as palavras de aceitação porque Luna precisava ouvi-las e porque não queria ficar sozinho.
— Sim, certo, vou me recuperar na fazenda do seu pai.
Cinco dias depois, Harry e Luna tomavam café da manhã na sala de jantar da casa da fazenda em Katy, com um punhado de criados e guarda-costas novos circulando ao redor. Harry sentia-se estranho sentado diante da filha de Xenofílio Lovegood, lendo O Pasquim ainda de pijama e roupão de banho. Luna folheava algumas revistas, tentando se inteirar dos assuntos que havia perdido enquanto cuidava dele.
— Saiu outra notícia sobre o acidente na Magic. Olhe, é uma foto sua no hospital — disse, erguendo a revista.
Harry não tinha a mínima idéia de quando a fotografia havia sido tirada nem de quem a tirara. Algo, porém, chamou sua atenção, fazendo-o sentir um aperto no peito. Luna estava sentada ao lado de sua cama, contemplando-o com uma expressão de pura adoração. Desviando o olhar da revista, fitou-a, com cautela.
Ela sorriu e baixou a cabeça.
Percebeu, de repente, que Luna se apaixonara por ele. Oh, droga! Não sabia o que pensar em relação àquela descoberta. A verdade era que se sentia muito bem ao lado dela. Eles se respeitavam e se admiravam. Estava lisonjeado.
— Meu Deus! — Luna ofegou e levou uma das mãos ao peito.
— O que foi? — ele perguntou.
— E a minha antiga babá, Rana. — Ela ergueu a revista novamente, mostrando-lhe a foto de uma mulher na faixa dos quarenta, que parecia originária da Índia.
Na manchete lia-se: Alvo na lista da morte.
— O que está escrito? — ele perguntou. Luna esquadrinhou o artigo.
— Rana é uma peça fundamental em um grupo chamado WorldFem, que ajuda as mulheres do Terceiro Mundo e países do Oriente Médio a escaparem de serem mortas pelas famílias em nome da honra. Agora, está sendo perseguida por trazer vergonha para o próprio país! Oh, isso é terrível. O que há de errado com as pessoas?
Era uma pergunta filosófica que Harry não sabia responder.
— Essa mulher foi sua babá?
— Sim, quando eu era muito pequena, durante os dois anos que meus pais viveram em Londres. Rana cuidava de mim enquanto minha mãe estava se diplomando em Oxford. Ensinou-me a falar hindi. Depois, quando a mamãe faleceu, papai a contratou novamente, na época em que era governador do Texas. Ela ficou conosco mais ou menos uns três anos, desde que eu tinha onze até os quinze anos.
— Você fala hindi?
— Bem, não fluentemente, mas posso sobreviver.
— Estou impressionado. Eu não sabia, Luna. Quem diria que você é uma mulher misteriosa?
— Sei o que está tentando fazer. — Ela sorriu. — Obrigada.
— Obrigado por quê?
— Por tentar me distrair para não pensar no problema de Rana. Mas tenho que falar com papai, ver se ele pode fazer algo por ela.
— Sabe que no próximo ano haverá eleições.
— E qual é o problema?
— Seu pai tem que tomar cuidado com as causas que assume se quiser se reeleger.
— O que é mais importante? A vida de Rana ou ganhar uma eleição?
Harry ergueu as mãos.
— Eu estou do seu lado. Apenas estou dizendo que os conselheiros do seu pai podem desencorajá-lo a desperdiçar energia política com esse assunto.
— Bem, ele terá que fazer alguma coisa.
— Sabe que é complicado.
— Deus! Odeio política.
— Mas, de qualquer maneira, deve falar com ele.
Luna fechou a revista.
— Tenho que parar de pensar nisso. Não posso fazer nada ate papai chegar à fazenda amanhã. Por que não vamos passear no jardim antes da sua sessão de fisioterapia?
— Claro.
Os dois terminaram o café da manhã. Ao se levantar Harry quase perdeu o equilíbrio. Precisou esperar um momento para se recuperar. Desde a cirurgia, qualquer movimento muito rápido o deixava tonto. Maldita fraqueza! Mordeu o lábio inferior para reprimir as imprecações que lhe vieram à mente
— Já foi mais fácil que ontem — disse Luna, animada.
Se Ginny estivesse ali, diria que não havia problema algum em dizer alguns palavrões, e provavelmente ela mesma começaria a desfiar uma lista deles. Harry sorriu ao pensar nisso
— E assim que gosto de vê-lo. — Ela passou o braço no dele. — Com um sorriso bonito no rosto.
Quando olhou para Luna, percebeu que ela era diferente da ex-mulher em todos os sentidos. Seus cabelos eram loiros; os de Ginny, ruivos. Era magra e delicada; Ginny alta com seios fartos. Era serena e pensativa: Ginny, enérgica e espontânea. Sentiu alguma coisa se agitar dentro de si. Não era desejo, mas algo igualmente atraente para um homem que estava se sentindo vulnerável. Contentamento. Ao lado de Luna sentia-se satisfeito.
Ela o conduziu à porta dos fundos. Caminharam juntos pelo pátio em direção ao caminho que levava aos jardins. O topo da cabeça de Luna chegava à altura de seu queixo e o cheiro do xampu suave inundou-lhe as narinas. Lavanda. Ginny preferia fragrâncias mais fortes e exóticas. Luna era tão delicada e frágil... Ele sentiu um desejo irresistível de alagar os cabelos sedosos. Por um breve instante, a luz do sol incidiu sobre as mechas, e lembrou-se de como os raios faziam os cabelos de Ginny parecerem fogo.
Seus olhos deviam ter refletido o impulso de tocá-la, pois ela esboçou um sorriso e fitou seus lábios.
— Harry — murmurou.
Inclinou-se, surpreso com a tranqüilidade que sentia. Nenhuma paixão arrasadora. Nenhuma química eletrizante. Nenhum estrondo inconstante em seu coração, como acontecera na primeira vez que beijara Ginny. Nada, exceto serenidade. Seus lábios roçaram os dela. Luna correspondeu ao beijo, tocando-o no braço.
Segura, pensou ele. Segura, simples e reconfortante. Luna jamais estouraria o limite de seus cartões de crédito, nunca desafiaria sua autoridade ou questionaria seus motivos. Porém, no minuto em que o beijo terminou e ele notou o olhar apaixonado nos olhos dela, percebeu que ultrapassara uma linha muito importante que não pretendia ter cruzado.
No dia seguinte, o ministro chegou à fazenda para passar o final de semana. Xenofílio Lovegood era um homem alto, magro e reservado. Um político inteligente e moderado, que impunha respeito aos adversários. Apesar de ser uma pessoa de poucas palavras, quando discursava todos o ouviam. Alguns o comparavam a Dumbledore.
A admiração de Harry por ele só perdia para a admiração que sentia pelo próprio pai adotivo e o padrinho. Sempre que estava na presença de Xenofílio, sentia como se uma grande honra lhe tivesse sido concedida, mas também ficava nervoso e apreensivo, receoso de não atender aos padrões de exigência do ministro.
A conversa durante o jantar era contida. Xenofílio sentava-se em uma das extremidades da mesa, Luna na outra e Harry no meio, sentindo-se deslocado. Deveria estar do lado de fora, junto com Neville, e não jantando galinha assada e aspic de tomate com o líder do mundo mágico.
Tinha consciência de suas maneiras desajeitadas à mesa. O fisioterapeuta insistira para que usasse a mão direita o máximo possível. Mas não naquela noite. Comeu usando a mão esquerda, devagar, com cuidado, atento a cada mordida. Um silêncio pesado recaiu no recinto, e ele percebeu que Luna o estava estudando. E que Xenofílio observava a filha.
Ao final da refeição, Luna comentou sobre Rana Singh e o que lera na revista Magic.
— Pai, você tem que fazer algo para livrá-la disso.
— Querida. — O pai sorriu, amável. — O fato de ela ter saído em uma reportagem da revista Magic já garantiu a sua segurança. Se for assassinada, todos saberão quem é o responsável.
— E daí? Isso não os impede de continuar matando as filhas, as esposas, as netas, as sobrinhas em nome de um senso de honra estúpido.
— Luna isso acontece em outros lugares. Rana vive aqui na Inglaterra.
— Mas ela viaja para ajudar essas mulheres. Podem matá-la em uma dessas viagens.
— Bem, é simples. Rana não deve sair do país
— E as outras mulheres? Se Rana não as ajudar, então quem ajudara? Não pode fazer algo? É uma prática horrível.
— Concordo, mas fazer política moral e religiosa em outros países está fora do meu alcance.
— Mas você é o Ministro! Como pode estar fora do seu alcance?
— Luna, não sou o governante do mundo.
— Bem, mas deveria ser.
— Meus oponentes discordariam.
— Pode não querer ajudar, papai, mas tenho que me envolver com a WorldFem.
— Fique atenta à sua posição. Você tem muita influência em que escolher suas causas com cuidado.
— Exatamente. Qual a vantagem de ter influência se não pudermos fazer mudanças?
— Apenas aja com precaução.
— Não sou criança. Tenho ciência de minhas responsabilidades.
Xenofílio carranqueou, mas não disse nada. Pai e filha trocaram um olhar significativo.
— Se me dão licença, estou com um pouco de dor de cabeça. Acho que vou me deitar mais cedo. — Ela se levantou e caminhou até a porta, virou-se e olhou por sobre o ombro — Harry?
— Harry e eu temos algumas coisas para discutir em particular — disse Xenofílio, afastando a cadeira e acenando com a cabeça para Harry. — Vamos tomar um conhaque em meu escritório?
Os dois homens se levantaram e saíram. Harry entrou no escritório atrás do ministro.
— Feche a porta — disse Xenofílio.
Ele fechou a porta com a mão esquerda e manteve a mão direita no bolso da calça.
— Vamos ver a sua mão.
— Como, senhor?
— Sua mão. Ouvi dizer que foi esmagada. Que nunca mais poderá usar uma arma novamente.
— Isso é apenas a opinião de um curandeiro. — Ele encolheu os ombros.
— Deixe-me ver a mão — repetiu Xenofílio.
O homem estaria tentando humilhá-lo? Ou usaria aquele pretexto para despedi-lo, embora tivesse prometido a Luna que não o faria? O pensamento o enfureceu.
— Para quê?
— Quero ver o quanto estava disposto a se sacrificar pela minha filha.
Era uma declaração estranha, que efetivamente dispersou a raiva de Harry, mas não seu embaraço. Devagar, ele retirou a mão do bolso e colocou-a bem debaixo do nariz de Xenofílio Lovegood.
— Pode cerrar o punho? — ele perguntou.
Harry dobrou as pontas dos dedos o máximo que conseguiu. Pareciam duros e doíam. Na verdade, a dor não havia parado desde que voltara do coma. Que préstimo teria um agente de Serviço Secreto que não pudesse segurar uma varinha?
— Tiveram que colocar pinos de metal — afirmou Xenofílio, como se já tivesse conversado com os curandeiros.
— Sim.
— Sofreu uma pancada na têmpora e sobreviveu a uma hemorragia cerebral sem nenhuma seqüela — prosseguiu.
— É o que me disseram.
— Você salvou a vida da minha filha. — Lovegood dirigiu-se ao bar em um dos cantos do escritório e serviu dois copos de conhaque.
— Cumpri a minha obrigação. — Harry enfiou a mão novamente no bolso.
— Você é um herói. — O ministro estendeu a bebida na direção da mão esquerda de Harry.
— Não, não sou. — Como poderia ser um herói quando não conseguia nem mesmo cerrar o punho? — Estava apenas fazendo o meu trabalho.
— É mais do que isso.
— O que quer dizer?
— Seu trabalho é sua identidade. Sei tudo sobre você, Potter, assim como toda a população. Você é um ícone desde o dia em que nasceu. Sua família foi condecorada pelo mais superior mérito de honra. O heroísmo está no seu sangue. Além disso, sei que passou por situações tristes em sua vida que levaram ao fim de seu casamento. — Lovegood tomou um gole de conhaque, sem deixar de encará-lo. — Minha filha está apaixonada por você.
Harry ficou perplexo. Não era isso que esperava ouvir.
— Já percebi, senhor.
— Luna me disse que você a beijou.
Ele enrijeceu. Era verdade, e ele não era um mentiroso.
— Sim, senhor.
— Por quê?
— Parecia a coisa certa a fazer na ocasião. — Harry tentou avaliar a reação do homem, e ficou surpreso ao vê-lo assentir.
— Nutre algum sentimento por ela?
— Gosto de Luna. Somos bons amigos.
— Estou ciente do laço psicológico que costuma se desenvolver entre o guarda-costas e a pessoa que ele protege, especialmente quando a vida do protegido é salva.
— O que está tentando me dizer exatamente, senhor?
— Eu o respeito, Potter. E, além disso, gosto de você. É um homem honrado e decente. É sincero, mas consegue manter a boca fechada.
— Obrigado.
— Com alguém como você, eu não teria que me preocupar com Luna.
— Não, senhor. Não precisa se preocupar. Eu a protegeria com meu último sopro de vida.
— Já provou isso. Ela não poderia se casar com um homem melhor que você.
Casar?
Harry olhou para o ministro, espantado. Era a primeira vez que tal idéia cruzava sua mente, mas sentiu que qualquer homem seria afortunado em se casar com Luna.
— Senhor, eu... — Harry não sabia o que pensar, muito menos o que dizer.
Xenofílio Lovegood ergueu uma das mãos.
— Luna está apaixonada, e você gosta dela. Sabe como é fácil lidar com minha filha. Você a beijou. Isso significa algo.
Significava? Harry esfregou o queixo.
— O que quer que decida, tem a minha gratidão por ter salvado a vida de Luna. Se não tivesse se colocado entre ela e aquela escavadeira — Xenofílio interrompeu-se, e Harry viu que seus olhos brilhavam de emoção. — Vai ser recompensado por isso. Eu quero que fique aqui na fazenda até que receba alta.
— E o meu trabalho como guarda-costas de Luna?
— Não vejo como pode continuar fazendo isso, sabendo que ela está apaixonada por você. Mas, se recuperar todos os movimentos da mão, encontraremos outro protegido para você.
— E se Luna e eu nos casarmos? Que tipo de trabalho devo fazer?
— Que tal ser o chefe do Serviço Secreto de Aurores? Vega se aposentará no próximo ano. É um cargo de muito poder. Você traçaria os planos de ação, estaria encarregado de toda a minha segurança pessoal, de minha vida — disse Xenofílio Lovegood, com a habilidade infalível de interpretar as pessoas. Compreendera que o que mais motivava Harry era o desejo de proteger e servir. — Pense nisso, Harry. Eu ficaria honrado de chamá-lo de filho.
— Devo ser honesto, senhor. Não faço a menor idéia de como me sinto. A respeito de Luna, do trabalho, de mim mesmo — Ele indicou a mão ferida.
— Eu compreendo. — Lovegood assentiu. —Você tem muito no que pensar.
— Sim — Harry concordou.
Porém, escutou uma voz sussurrar dentro de si: Esse é o caminho. O único modo de esquecer Ginny para sempre.
Na tarde seguinte, Luna levou Harry para cavalgar pela fazenda. A cozinheira havia preparado uma cesta de piquenique para os dois. O dia estava lindo; Céu azul, a brisa fresca e o campo recoberto de flores. Comeram ao lado do lago.
— Que dupla maravilhosa poderíamos ser, viajando ao redor do mundo, lutando pelos direitos das mulheres. Eu faria discursos, visitaria as necessitadas, encabeçaria campanhas de caridade e arrecadação de fundos, e você estaria ao meu lado para me proteger. Para tornar tudo isso possível. Se ao menos pudesse convencer meu pai de que sei o que estou fazendo e de que, com você ao meu lado, eu não correria perigo.
— Luna... — disse ele num tom suave —... Receio que eu não possa mais ser o seu guarda-costas.
— Por quê? — ela perguntou, alarmada.
— Não posso protegê-la com isto. — Ele apoiou a mão direita sobre a toalha de piquenique entre eles.
— Vai recuperar os movimentos. Você se dedica à fisioterapia e tem uma atitude positiva — ela encorajou.
— Estou me empenhando ao máximo, mas preciso enfrentar o fato de que, não importa o quanto tente, talvez eu jamais volte à minha antiga função. Além do mais, não é só a mão.
— Está desistindo? Mas por que fugir de um trabalho que ama fazer?
— Não é tão simples assim.
— Então, me explique.
Ele pensou na conversa com o pai dela na noite anterior, em como tinha estado solitário nos últimos dois anos, em como ele adorava ser casado até que o pior tivesse acontecido com ele e Ginny. Gostaria tanto de sentir de novo aquele tipo de felicidade! Estava na hora de liberar o passado e continuar em frente. E Luna era a pessoa perfeita para isso.
— Não posso continuar como seu guarda-costas, dadas as circunstâncias.
— Que circunstâncias?
Harry não sabia o que dizer. Não havia planejado aquela conversa, e nem mesmo estava totalmente convencido, mas as palavras escaparam de sua boca:
— Luna Lovegood, quer se casar comigo?
— O quê? — Ela piscou, surpresa.
— Quer se casar comigo? — ele repetiu.
Ela gritou, derrubando a cesta de piquenique e beijando-o no rosto.
— Sim, sim, sim!
Harry culpou a sua condição, a proximidade forçada dos dois, o belo dia de outono. Culpou o trabalho e o seu papel de herói. Culpou o modo como os olhos azul-claros prometiam aliviar sua solidão. Culpou a seriedade na face delicada, o suave perfume feminino e a honestidade aberta de Luna, que o faziam desejar contar-lhe tudo. Mas, acima de tudo, culpou a si mesmo. Sentia tanta falta de ser casado, que queria repetir a experiência. Por ter fracassado com Ginny, sentia uma necessidade ardente de fazer algo para reparar tantos erros.
Estava cruzando todos os tipos de limite, violando juramentos, quebrando tabus. Uma das regras fundamentais de sua profissão era jamais se envolver emocionalmente com quem estava sob sua proteção. O que ele tinha feito?
— Luna... — disse, interrompendo-se em seguida. Como voltar atrás em uma proposta de casamento improvisada? — Escute um minuto, querida, eu...
— Vou ligar para papai — anunciou ela, retirando o celular do bolso. — Mal posso esperar para dar a notícia. Ele gosta muito de você. Oh, Harry, estou tão contente!
Diga que foi um erro. Que não pretendia pedi-la em casamento. Que agiu precipitadamente. Que nem mesmo comprou uma aliança.
Mas ela parecia tão feliz, e vê-la feliz lhe fazia bem. Era a coisa certa a fazer. Tomara uma decisão e não voltaria atrás.
— Papai — disse Luna ao telefone. — Harry e eu vamos nos casar.
E foi assim que Harry Potter, um rapaz que desde muito cedo conheceu a dor e a solidão, viu-se comprometido com a filha do Ministro.
Continua...
Nota da Autora:A fanfic foi adaptada do livrinho da autora americana, Lori Wild, "Once Smitten, Twice Shy".
Espero que tenham gostado do primeiro capitulo. Semana que vem tem mais. :)
Beijos.
