Gustavo acordou preocupado na manhã de seu aniversário de vinte e dois anos. Fazia exatamente dois dias que ele havia regressado a Londres, mas ainda não tinha conseguido reunir coragem para falar com o seu chefe, Barnabas Cuffe, o editor do jornal Profeta Diário, para o qual ele trabalhava como fotógrafo havia quase um ano.
O motivo da sua preocupação tinha um nome: prestação de contas. Cuffe tinha lhe concedido, em outubro do ano anterior, uma oportunidade única na carreira: fazer a cobertura, com exclusividade, de um torneio que já não se realizava havia séculos entre as principais escolas de magia da Europa – o Torneio Tribruxo. Gustavo, embora tivesse ficado praticamente todo o ano letivo encastelado numa hospedaria em Hogsmeade (cujas despesas o próprio Cuffe fizera questão de bancar em nome do Profeta Diário), sabia que seu desempenho não havia sido, nem de longe, satisfatório. Meia dúzia de fotos na abertura do torneio, uma e outra durante as tarefas, e nada mais.
Na verdade, sua experiência nesse torneio foi tão ruim que ele já tinha, inclusive, planos para mudar de emprego. Na terceira e última tarefa ele conheceu Ludo Bagman, o chefe do Departamento dos Jogos e Esportes Mágicos no Ministério da Magia, e era com ele que Gustavo conversaria assim que resolvesse as suas pendências com o Profeta Diário.
Mas era justamente este momento que não podia mais ser adiado. O trabalho durante o torneio não lhe rendera lucro e nem prejuízo; os míseros galeões que lhe restaram, fruto de suas poucas fotos publicadas, foram suficientes apenas para cobrir a estadia de um dia no Caldeirão Furado, o bar e hospedaria onde costumava morar quando estava em Londres. Ele não tinha mais dinheiro nem para se alimentar pelo resto da semana, e agora teria que recomeçar do zero. Por esse motivo não podia mais esperar para falar com Cuffe, por mais que quisesse pular esse episódio de sua vida.
Àquela altura, ele já havia repassado mentalmente várias vezes o que iria explicar ao chefe: não havia eventos no torneio todos os dias, e o espaço de tempo entre uma tarefa e outra era muito grande. Além disso, houve contratempos, e a equipe do Profeta Diário foi proibida de entrar nos limites do castelo de Hogwarts. O que ele não sabia era se Cuffe aceitaria essas explicações; enquanto ele ficava comportado em seu canto aguardando as tarefas do torneio, Rita Skeeter, a repórter que estava com ele em Hogsmeade, dava muito lucro ao jornal publicando fofocas mentirosas quase diariamente ao seu próprio estilo.
Gustavo tinha aprendido a duras penas naquele ano que a vida nem sempre é justa com todos. Uma das provas disso, quando ele chegou à porta do escritório do Profeta Diário, estava bem ali à sua frente: Penélope Clearwater, a bruxa-recepcionista, recebia os recém-chegados com um radiante sorriso que lhe rendiam simpáticas covinhas nas bochechas. Seus longos cabelos encaracolados lhe caíam em forma de cachos estreitos sobre o busto, ornamentando perfeitamente com um belo arranjo de flores que havia sido colocado atrás do balcão de recepção.
No todo, o rapaz achava que era beleza demais para uma pessoa só. Ele apenas não entendia por que a filha do bruxo-presidente do Gringotes precisava daquele tipo de emprego.
O fato foi que ele se sentiu tão insignificante diante dela que, naquele momento, gostaria de poder passar despercebido. Mas Penélope, ao vê-lo chegar, saiu imediatamente de trás do balcão e foi recebê-lo pessoalmente com um carinhoso abraço.
- Gustavo, que bom ver você!
Às vezes, custava a ele acreditar que namorava a filha do presidente do Gringotes.
Ele mal retribuiu o abraço e já olhou preocupado para a namorada que, com um quase imperceptível tom de desapontamento, lhe respondeu à pergunta que estava estampada em sua testa.
- O chefe está na sala dele; você pode ir vê-lo agora.
- Claro, eh, eu vou – disse o rapaz encabulado, e saiu rumo à sala do editor.
Sua sensação de imbecibilidade não melhorou em nada o seu ânimo para conversar com Cuffe. Assim que entrou em sua sala, foi recebido com um olhar tão ameaçador que ele se sentiu como se tivesse acabado de entrar numa sala de execução.
- Sente-se – ordenou Cuffe. Obviamente ele não estava sorrindo.
O rapaz se sentou. Com dificuldade tentou olhar para o chefe, mas abaixou a cabeça no momento em que as primeiras palavras de Cuffe começaram a sair como flechas que acertavam em cheio o alvo da sua culpa.
- Muito bem, suponho que você saiba por que eu mandei uma equipe de reportagem para Hogwarts para acompanhar o torneio...
Gustavo queria dizer tudo o que havia preparado, mas as palavras insistiram em ficar entaladas em sua garganta.
- A obrigação de vocês era nos manter informados de tudo o que acontecesse – Cuffe prosseguiu, antes que Gustavo pudesse abrir a boca. – Mas me parece que isso não deu muito certo, não é mesmo? No final, o jornal ficou sem notícias, não foi?
Gustavo ergueu os olhos em tempo de ver a expressão mal-humorada de Cuffe, ao passo em que percebeu que o que ele mais temia realmente estava acontecendo. Ele novamente tentou dizer alguma coisa, mas, antes que percebesse, Cuffe já estava gritando.
- VOCÊ FOI UMA DECEPÇÃO! ONDE É QUE EU ESTAVA COM A CABEÇA QUANDO MANDEI UM FOTÓGRAFO INEXPERIENTE PARA FAZER A COBERTURA DE UM EVENTO TÃO IMPORTANTE?
- Nós... tivemos uns contratempos...
- TIVERAM UNS CONTRATEMPOS, GRANDE COISA! VOCÊS FICARAM DE PLANTÃO O TEMPO TODO! MAS POR QUE MANDARIAM NOTÍCIAS? POR QUE RAZÃO UM JORNAL IRIA PRECISAR DE FOTOS E NOTÍCIAS?
- Nós fizemos o nosso melhor! – disse Gustavo, numa desesperada tentativa de fazer o homem se acalmar. – Mas foi o próprio Ministro da Magia quem disse para publicar apenas que Harry Potter tinha vencido o torneio e nada mais...
Cuffe amarrou a cara. Parou de gritar, ainda respirando fundo, e começou a girar em sua cadeira para lá e para cá. Houve uma longa pausa; era como se ele estivesse fuzilando Gustavo com os olhos.
- Me dê uma razão para eu não demitir você – disse Cuffe de repente.
Nada do que Gustavo havia planejado dizer podia tê-lo preparado para responder aquela pergunta. Ele tinha a sensação de que uma coisa gelada lhe escorria pela coluna. Pensou em Penélope; o que diria a ela se saísse dali demitido? Num pensamento rápido, ele limpou a garganta e começou a explicar, fazendo o possível para não demonstrar a sua insegurança.
- Bom, eu... quando o Sr. Crouch desapareceu, eu consegui uma entrevista com Percy Weasley, o assistente dele, e levantei uma questão no jornal se era o próprio Crouch quem mandava as instruções que ele recebia. Por conta disso o Ministério foi investigar, houve até um inquérito e tudo...
- Prossiga – Cuffe tinha uma expressão entre interessado e desdenhoso.
- E eu também entrevistei o Ministro da Magia...
- Conversou com o Ministro?
- Sim, ao final da terceira tarefa. Parece que o Ministério não quer aceitar, mas eu estava em Hogwarts durante a tarefa e vi o que aconteceu. Potter venceu o torneio, mas não foi só isso; Cedrico Diggory morreu, e Harry voltou do labirinto dizendo que Você-Sabe-Quem havia retornado.
- Potter disse que Você-Sabe-Quem... retornou? – estranhou Cuffe. – Absurdo. Todo o mundo sabe que aquele garoto não é bem equilibrado. Não é à toa que ele anda tendo desmaios, pesadelos, alucinações... Mais uma vez o Profeta Diário prova que tem razão; aquela cicatriz deve mesmo ter afetado o cérebro dele. Ele agora pensa que é um grande herói trágico ou qualquer coisa assim.
- Mas Dumbledore acredita que Cedrico foi morto por...
- Eu sou o editor; você, o fotógrafo – interrompeu-o Cuffe, irritado. – Você tira fotos, eu edito o jornal. Está bem? Está bom para você, assim? Onde está Rita Skeeter?
- Na casa dela, suponho – a última coisa que Gustavo precisava era se encrencar por causa das confusões que Rita havia aprontado.
- Está dispensado – disse Cuffe, ao que Gustavo se levantou, e deixou a sala do chefe sem dizer mais nada.
Ele seguiu andando pelo corredor, ainda sem entender direito se havia sido demitido ou apenas dispensado do interrogatório. Voltou à recepção lembrando que veria novamente a namorada – que, afinal, não precisava saber que ele não fazia muito sucesso com o chefe. Torcendo para que ela não tivesse ouvido os gritos da sala de Cuffe, Gustavo colocou um sorriso no rosto e se adiantou até ela, que, a propósito, estava atendendo um fotógrafo barrigudo que parecia olhar para ela com grande interesse.
O rosto dela novamente se iluminou quando viu Gustavo retornar à sala. O fotógrafo pareceu ficar meio sem graça, abaixou a cabeça e foi para a sala de Cuffe. Então um sorriso carinhoso se abriu nos lábios dela e Gustavo se esqueceu de todo o resto. Valia muito a pena tê-la como namorada, Penny, sempre doce e compreensiva, ela quem sempre lhe trazia esperanças quando ele pensava que estava tudo perdido...
Por um momento, Gustavo chegou a se preocupar em reparar o erro que cometera ao chegar, de não ter dado a ela a atenção que merecia... Mas não precisou disso porque, quando se aproximou, Penny logo deixou transparecer a que se referia o seu ar de felicidade.
- Feliz aniversário! – Ela disse com um largo sorriso.
- Você sabia que era hoje?
- Claro que sabia! Eu sei tudo sobre você, seu bobo; tenho todos os seus dados aqui nos arquivos...
Gustavo sorriu; estivera tão preocupado em resolver as suas pendências que este detalhe tinha fugido completamente da sua lembrança. Nenhuma palavra, porém, seria capaz de traduzir a expressão desapontada de Penny no momento seguinte.
- Eu queria tanto que a gente pudesse se encontrar de novo...
O semblante de Gustavo murchou; ele olhou para Penny, suspirando profundamente.
- É o seu pai, não é? – perguntou. – Ele andou falando alguma coisa sobre nós?
- Ele continua com aquela história de não concordar – admitiu ela. – Sabe, ele deixou isso bem claro em todas as vezes que tentei falar com ele; tenho medo que ele queira impedir a gente de ficar juntos de uma vez...
- A gente resolve isso depois – disse Gustavo. – O importante é o que a gente sente um pelo outro.
A garota se animou um pouquinho.
- Ah Gustavo, eu não sabia que você viria hoje. Eu devia ter comprado alguma coisa para você...
Antes que o rapaz pudesse responder, ela começou a vasculhar em cima da mesa e encontrou uma pequena caixa retangular, dentro da qual havia um frágil porta-retratos de plástico.
- Fique com isto por enquanto – disse ela. – O Ben me deu foto dele tocando no Baile de Inverno, não sei onde ele conseguiu isso. Se trocar a foto, ainda dá para salvar o porta-retratos.
Gustavo deu um sorriso tímido.
- Muito obrigado Penny, mas não precisava se incomodar. Vou guardar isso; vai ficar fantástico na minha mesa de cabeceira.
"Quando eu tiver uma" – ele pensou imediatamente em seguida.
- É bom ter você de volta – disse Penny com um sorriso.
Eles trocaram olhares; Penny ouviu a voz de Cuffe, ao fundo, chamá-la.
- É melhor eu ir agora – disse Gustavo. – Voltarei assim que possível.
A garota consentiu com a cabeça e eles se despediram; ao descer as escadas, Gustavo imaginou que seria melhor para todos se Cuffe não soubesse sobre o relacionamento deles, então decidiu não repetir o feito de ficar conversando com Penny em seu local de trabalho.
Era realmente uma perda de tempo para o Profeta Diário ter um funcionário como Gustavo, que não tinha sido capaz de prestar um serviço decente nem quando não tinha concorrência alguma para enfrentar, além de atrapalhar o andamento do serviço ao ficar ali pelo saguão de entrada namorando a bruxa-recepcionista. Finalmente estava de volta ao Beco Diagonal, mas sentia-se perdido; não sabia por onde começar, uma vez que o Torneio Tribruxo tinha acabado. Então se lembrou de que tinha um assunto importantíssimo para resolver: procurar por Ludo Bagman no Ministério da Magia para tentar um emprego no Departamento de Jogos e Esportes Mágicos; se tivesse sorte, antes do que esperava poderia se livrar daquela imagem de incompetente.
Só havia uma maneira de entrar no Ministério da Magia: pela entrada dos visitantes. Sem perder mais tempo, Gustavo se dirigiu até a velha cabine telefônica vermelha e entrou nela.
- Bem-vindo ao Ministério da Magia – disse uma voz feminina dentro da cabine. – Por favor, informe o seu nome e o objetivo da visita.
- Gustavo Branstone, e o motivo da visita, hã – definitivamente seria ridículo circular pelos corredores do Ministério da Magia com os dizeres "pedir emprego" escrito no crachá de visitante – eu, bom, sou, hum, do Profeta Diário.
- Obrigada – disse a voz; Gustavo suspirou aliviado. Apanhou o crachá e foi afundando com a cabine.
Uma sensação estranha percorreu as suas entranhas só de imaginar se Bagman aceitaria os seus serviços para ajudar com câmeras e projetores nos jogos oficiais de quadribol; mesmo assim, ele segurou a ansiedade e seguiu andando pelo lustroso saguão para apresentar a varinha para inspeção.
Com uma barulheira de ferrugens, um elevador desceu diante dele. Gustavo entrou juntamente com vários funcionários do Ministério e se viu esmagado contra a porta.
Não houve tempo nem para ele tentar se acalmar; a voz tranquila de mulher que falava na cabine telefônica tornou a falar, e Gustavo sentiu o seu estômago dar uma volta completa.
"Nível Sete, Departamento de Jogos e Esportes Mágicos, que inclui a Sede das Ligas Britânica e Irlandesa de Quadribol, o Clube do Bexiga Oficial e a Seção de Patentes Absurdas".
As portas do elevador se abriram; Gustavo saiu em um corredor de aspecto sujo, onde havia vários cartazes de times de quadribol pregados tortos nas paredes. Esbarrou com um bruxo que carregava uma braçada de vassouras; eles se desvencilharam um do outro e Gustavo seguiu pelo corredor até chegar à área subdividida em cubículos, onde identificou um em que estava escrito Sala do Diretor. Respirou fundo, bateu na porta uma vez.
Nada aconteceu. Tentou girar a maçaneta; a porta estava trancada. Olhou ao redor; uma bruxa vinha andando, e Gustavo reconheceu ser a mesma que recolhia os ingressos nas entradas para os jogos durante a Copa Mundial de Quadribol, e que, a propósito, o havia intimidado nessas ocasiões.
- Com licença – Gustavo chamou-lhe a atenção. – Onde posso encontrar o Sr. Bagman?
- Ele não está – informou a bruxa. – Não tem aparecido desde a final do Torneio Tribruxo.
Ela seguiu o seu caminho; Gustavo permaneceu onde estava, intrigado: desde a final do Torneio... Isso já fazia mais de uma semana! Por que razão ele se ausentaria por tanto tempo? Talvez estivesse justamente evitando encontros com a imprensa; obviamente não iria querer dar declarações sobre o que realmente acontecera na final do Torneio Tribruxo.… Talvez quisesse esperar que todos esquecessem que o torneio foi, na verdade, uma grande catástrofe que acabou na morte de Cedrico Diggory...
Nesse caso, a única coisa que ele podia fazer era esperar que tudo se acalmasse, mesmo que alguma coisa naquela história não se encaixasse; Bagman provavelmente acompanhava os jornais. Devia saber que nada mais fora publicado no Profeta Diário sobre isso. Por quanto tempo mais ele iria querer se esconder?
Sem alternativas, Gustavo teve que deixar o Ministério da Magia. Voltou para o elevador; tudo o que precisava fazer era descer um nível. A porta dourada de ferro se fechou com estrépito; com a cabeça tão cheia, nem se preocupou em reconhecer quem eram os bruxos que o ocupavam. Mas se arrependeu disso ao ouvir uma voz desagradavelmente familiar:
- Não se preocupe com isso, Alberto; sei a quem devo ser leal, e é ao Ministério.
- É exatamente por isso que você está sendo promovido, Percy. Você vai trabalhar no gabinete do próprio Fudge. Assistente Júnior do Ministro; um cargo realmente bom para quem terminou Hogwarts há apenas um ano.
A porta do elevador se abriu; Gustavo saiu apressadamente para o saguão, indignado e com vontade de vomitar. Como era possível Percy ter sido promovido depois de toda aquela confusão em que ele se meteu por causa de Crouch? Seria possível que ninguém levasse em conta que ele deveria ter percebido que Crouch não estava bem e informado ao seu superior?
Inconformado, Gustavo passou rapidamente pela fonte no meio do saguão, onde havia um pequeno cartaz que informava: "todo o dinheiro recolhido na fonte dos irmãos mágicos será doado ao Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos". Ele sacudiu a cabeça; não tinha conseguido o emprego, e tampouco tinha dinheiro para doar. Definitivamente não tinha mais nada para fazer ali.
