Uma criança no caos.
Brecken não sabia mais o que fazer, apenas alguns dias atrás seu plano era abrir uma academia de parkour, conseguir alguns alunos e usar o dinheiro para comprar um apartamento, construir uma vida em Harran... Agora, correndo dos mortos-vivos que querem devora-lo após o surto de um patógeno que isolou a cidade do resto do mundo, sua situação não e muito animadora.
"No que eu estava pensando em vir pra essa parte das favelas?" Ele pensa ao olhar o relógio de pulso mostrando que falta apenas meia hora para o anoitecer, olhando do alto do barraco onde estava, podia facilmente distinguir a torre a distância, porem vozes logo a baixo interromperam seus pensamentos.
-Por favor, me deixem em paz... Disse um garoto de aproximadamente doze anos de cabelos pretos, corpo magro e usando roupas surradas junto com óculos que estava dependurado na sua testa para aquilo que Brecken identificou pelas roupas como sendo dois dos homens do Rais.
-Não, desculpe garoto, além disso temos ordens, sem contar que você sabe demais. Um dos homens disse enquanto engatilhava seu fuzil para a cabeça do menino.
Brecken não podia ficar parado diante dessa cena se desenrolando praticamente na sua frente, ele silenciosamente tirou sua pistola, engatilhou, mirou na cabeça do homem em questão e puxou o gatilho.
BANG!
-O QUE? Gritou o outro após assistir incrédulo a cabeça do seu amigo explodir na sua frente, porem antes que pudesse fazer alguma coisa outro tiro atingiu o topo de sua cabeça, condenando-o ao mesmo destino de seu parceiro, sua cabeça não explodiu, mas ele caiu sobre a parede do barraco que estava atrás de si e deslizou lentamente até o chão com os olhos vidrados, sem vida. Brecken odiava que o garoto tivesse que testemunhar essa cena, mas não havia outra forma de salvar sua vida, a criança lentamente se inclinou com as costas para a parede desse mesmo barraco e deslizou ate cair sentada no chão tremendo, claramente em choque.
O homem grande colocou a arma na cintura e se aproximou lentamente do menor tentando usar uma postura menos ameaçadora, porem e difícil para alguém como Brecken, alto com músculos construídos, laminas presas a costa, arma na cintura e sem contar que ele havia acabado de matar duas pessoas, isso não deixa um ar muito amigável, ainda mais para uma criança que foi abusada.
-Garoto tudo bem? Eu sou o Brecken, não vou te machucar, só quero ajudá-lo. Ele disse se ajoelhando e colocando uma mão forte no ombro do menino para conforta-lo.
-Você matou aqueles homens... Ele disse escondendo o rosto por entre os braços magros.
-Fiz isso pra te proteger, vamos lá, aqueles tiros com certeza atrairão a atenção dos mordedores na área, vou te levar pra um lugar seguro e te devolver para sua família. Ele explica, fica claro que algo muito ruim aconteceu ao ver a angustia no rosto do menino ao ouvir a última palavra.
-Meu nome e Rahim, não consigo andar, acho que aqueles caras quebraram minha perna... A criança diz olhando lentamente para o rosto de Brecken revelando os hematomas no rosto e manchas de lagrimas recém derramadas.
-Tudo bem, eu te ajudo. O homem disse olhando para a perna direita que estava em uma posição estranha, antes de pegar Rahim no colo com cuidado e sair correndo em direção a zona segura mais próxima visto que agora não havia como chegar na torre antes do sol se por.
Ele correu por entre os barracos desviando de quaisquer zumbis que estivessem pelo caminho, sempre segurando sua cabeça contra o peito para caso ele chore não chame a atenção de mais infectados, após alguns minutos de corrida interminável ele finalmente chegou a uma zona segura, basicamente um terreno baldio fechado por cercas onde os zumbis não conseguiriam entrar e iluminado por luzes UV nas laterais, ao entrar ele deposita suavemente sua carga em um dos vários colchoes que estavam ali, tira a camisa amarela dos Runners que usa com orgulho revelando várias cicatrizes, se deita num outro colchão que estava ao lado do ocupado pela criança numa posição de barriga pra cima com as mãos apoiando sua cabeça de forma despreocupada e presunçosa.
-Uau, você é realmente musculoso, eu por outro lado sou bastante magro... Disse Rahim em admiração e autoafirmação.
-Calma... Com exercícios e boa alimentação seus músculos podem ficar ate maiores do que os meus... Explicou Brecken flexionando os músculos numa pose cômica, num raro momento de descontração, momentos esses que se tornaram quase impossíveis de existir dentro da quarentena Harran, o homem ficou mais ou menos contente quando conseguiu com isso arrancar pelo menos um pequeno sorriso dele, acreditava que não havia mais nada a se fazer, mas logo se lembrou das palavras que ouviu a alguns minutos.
"acho que aqueles caras quebraram minha perna."
-Ei, Rahim, posso olhar sua perna? Acho que posso fazer alguma coisa quanto a isso... Ele explicou da forma mais pacifica possível ao se lembrar que possuía um kit medico guardado consigo.
-Tem certeza? Aqui e agora? Perguntou a criança desconfiada.
-Se esperarmos mais, pode calcificar de forma errada e isso seria algo que não queremos, pode causar sequelas pelo resto da sua vida... Explicou Brecken tentando fazer a criança entender.
-Hum... Ok... Rahim respondeu enquanto puxava a manga da calça expondo a perna inchada e roxa em quase sua totalidade do tornozelo até o joelho.
Brecken sem dizer nada, perdeu sua postura de despreocupado, sentou-se e ergueu pelo tornozelo a perna ferida até o seu colo antes de começar a examina-la.
-Quero que você me diga quando sentir dor ok? Ele disse olhando nos seus olhos.
-Ok... ai! O garoto gritou imediatamente após sentir os dedos do homem apertarem uma parte crítica de seu ferimento.
-É, parece que ela está quebrada... vou envolver numa bandagem pra não infeccionar, só que amanhã, quando chegarmos na torre, você vai precisar passar pela enfermaria. Ele explicou enquanto passava a bandagem ao redor da perna da criança que não respondeu nada em troca.
-Torre? Perguntou o menino confuso.
-É um prédio onde não existem infectados e onde estabeleci junto com meus amigos a nossa base de comando, lá dentro existe toda uma comunidade. Explicou Brecken enquanto começava a enfaixar a perna machucada.
-Oh... Respondeu o garoto simplesmente.
Claro que Brecken ainda queria mais respostas.
-OK, então por que exatamente aqueles homens do Rais queriam matar você? Ele perguntou levantando uma única sobrancelha enquanto parava para examinar seu trabalho na perna do garoto antes de recomeçar exatamente de onde parou.
-Meus pais se recusaram a ceder nossa casa pra eles, então esse tal de Rais ordenou que seus homens nos executassem, eles mataram meus pais, mas eu consegui fugir e descobri alguns planos deles... Mas logo eles me capturaram de novo... E quando eles iam me matar, você apareceu e acabou com eles, obrigado. Rahim diz com admiração, porem triste ao lembrar dos pais.
-Não tem de que amiguinho, só fiz aquilo que achei ser certo, sinto muito pela sua família... Tenho certeza que você vai gostar muito da família que somos lá na torre, eles são muito legais, com certeza irão te ajudar já que ao chegarmos irão te receber de braços abertos... Além disso... Depois, quero escutar mais sobre esses planos que você descobriu... Disse Brecken esfregando suavemente a costa da criança após terminar o tratamento dos seus ferimentos.
-Eu vou contar tudo... Se isso vai ajudar a pará-los... Rahim murmura a última parte.
-Claro que vai... Brecken responde bocejando enquanto se espreguiça.
Nesse instante o barulho dos bips do seu relógio de pulso em contraste com os gritos dos voláteis saindo de suas tocas escuras cortou o silencio do local sinalizando o início da noite.
-Ótimo, hora de dormir... Disse Brecken se deitando novamente no colchão de barriga para cima, com as mãos atrás da cabeça de maneira presunçosa e despreocupada.
-Err... Brecken? Rahim chamou timidamente.
-Sim? Ele perguntou virando a cabeça
-Bom... eu sei que você esta do meu lado... mas mesmo assim não consigo dormir... esses gritos de voláteis me dão medo... Como para provar seu ponto o som de um volátil urrando ao entrar em contato com a luz UV fora da zona segura cortou a noite.
O mais forte suspira.
-Ok, chegue mais perto. Brecken se move mais pro canto de forma a ter espaço pro garoto.
Rahim se arrasta com cuidado para não estragar o trabalho feito na sua perna e se deita usando o bíceps esquerdo do seu amigo como travesseiro enquanto deixa o outro braço para que o homem possa apoiar a própria cabeça.
-Obrigado irmão. O pequeno murmura antes de finalmente dormir.
Brecken espera ele adormecer completamente para passar o outro braço sobre o corpo do menor e arrasta-lo pra mais perto.
-Não tem de que irmãozinho. Ele murmura antes de também ir dormir segurando Rahim protetoramente contra o peito.
