Susurros
Louis estava sentado junto á janela com um livro a tiracolo.
Ele não tinha certeza de quando adquirira esse hábito. Não se lembrava. Talvez fosse algo que viesse dos tempos em que ele era apenas um homem mortal na Louisiana do século XVIII.
Os velhos tempos...
Mas mesmo agora haviam poucos indí cios de que ele era alguma coisa a mais do que um ser humano unhas brilhantes, a pele pálida, esses sempre foram as únicas pistas de que aquele era um vampiro com mais de 200 anos.
De fato era isso o que ele se acostumara a ser: o humano dentre os imortais.
Neste momento ele era um ser humano fingindo ler um livro, pois há muito que se limitara a contemplar as palavras a sua que se desse conta seus olhos foram se desviando do texto e se voltando para a rua lá em baixo. Estava ainda muito movimentada, a despeito de já haver passado um pouco das três da manhã.
Nova Orleans era sempre assim, frenética.
Ele era o único vampiro na cidade agora. O único desde que David saí ra algumas noites atrás.
Até mesmo os andarilhos, aqueles cujo nome Louis desconhecia e que chegavam de todas partes do globo em busca do sangue precioso de Lestat, tinham ido embora, resignados.
...Lestat...
Lestat também estava lá ,obviamente, mas já não mais falava ou se movia e nada indicava que um dia voltaria a fazer alguma dessas coisas.
Não que Louis aceitasse esse fato tão facilmente.
Na verdade ele era o que mais persistentemente se recusara a acreditar que seu criador, a essência dele, não estava presente no corpo do homem que conhecera.
Era uma recusa silenciosa a dele, quase passiva demais, embora completamente irracional.
Não parecia compreender que o vampiro não estava ouvindo quando insistia em ler em voz alta para ele. A simples consciência de que Lestat provavelmente não se importava com sua presensa não o impedia de murmurar, secretamente, chamados esperançosos para o amigo.
Apenas ele, depois de meses de silêncio de Lestat, não cessara de buscar sinais de vida em seus olhos azuis inexpressivos.
Mas Louis compreendia a situação muito bem. A sua parte consciente sabia da inutilidade de tudo o que fazia. Mas a outra parte, surperficialmente chamada de humanidade pelos outros, o levava a fazer essas coisas. A mesma parte que o fazia perder tempo com tolices como admirar o céu estrelado ou uma flor exótica, fez com que esses "cuidados" com Lestat se tornassem sua rotina
Porque para Louis não se importava não ser ouvido, não importava que seu criador não soubesse de sua devoção. Ela era algo do qual o vampiro não podia se separar. Não se pretendesse continuar vivo. Era sua última ligação verdadeira com o mundo, a única que restara desde que ele perdera Lestat.
Foi essa tenra ligação que o levou a finalmente abandonar o livro e ficar de pé na janela aberta.
O vento que agora bate em seu rosto é agradável e traz consigo o cheiro de Nova Orleans, esse aroma quente que era um velho conhecido seu.
A brisa assovia baixinho, como houvesse uma voz susurrando segredos para noite, quando na verdade não havia nenhuma.
Esses eram os detalhes que seus poderes de vampiro lhe permitiam perceber, todos os magníficos e frágeis detalhes noturnos.
E então ele próprio se torna um destes detalhes, como uma estátua na sacada de um apartamento.
E da boca dessa estátua escapa um murmúrio, um suspiro imperceptível aos ouvidos humanos, pronunciado como um mantra, o seu chamado lançado imprudentemente à noite: "...Lestat..."
