Título: Algo sinistro vem por aí
Capítulo 1: De volta ao início
Sinopse: Meses após a derrota de Apocalipse, Gambit chega ao Instituto Xavier com informações sobre uma nova ameaça que pode mudar o destino dos X-Men. Continuação do desenho.
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Ele abriu os olhos lenta e preguiçosamente; seus músculos se recusando a lhe obedecer. Sentiu que ia novamente cair no sono, mas a claridade oriunda das frestas por entre as cortinas o forçou a despertar. Ele gemeu ao se espreguiçar; não de prazer, e sim das pontadas de dor que percorreram os membros endurecidos.
Em um instante fugidio de confusão, ele não soube onde se encontrava de fato. Percebeu, com certa decepção, que estava na sua antiga cama, no seu antigo quarto, com todo o conforto da mansão dos LeBeau à sua disposição.
Chutando as cobertas, ele se sentou e se recostou contra a cabeceira. Levou a mão direita até os cabelos para jogar a franja longa para trás, e suspirou em desânimo. Indagou-se, com um vinco de seriedade entre as sobrancelhas, quando sua cama havia deixado de ser seu refúgio e se tornado tão estranha e alienígena.
Desde que regressara ("e o filho pródigo retorna" ainda ouvia sonoramente as palavras de seu pai), sentia-se fora de si, no lugar errado. O que o fez pensar que alguma coisa mudaria quando voltasse? Apenas a ingenuidade jovem de alguém disposto a fazer as coisas diferentes da próxima vez. Grande surpresa, ele pensava sarcasticamente, tudo estava exatamente igual a antes.
Tentava fugir da rotina do passado, mas parecia ter caído no mesmo padrão novamente. Sentia-se caminhar absorto entre suas obrigações para com seu Clã, intercaladas a noites de promiscuidade e outras de pura monotonia – o fato de estar sozinho de pijama em sua cama mostrava que a noite anterior caía na segunda categoria – enquanto qualquer pretensão de avanço ou mudança se perdia na repetição.
Ele suspirou alto, sem vontade de deixar a cama, sem saber como fugir daquele maldito ciclo vicioso. Seus olhos escuros caíram sobre o terno pendurado na porta do closet. Seria mais um dia de formalidades fúteis. Recusando a se resignar, ele se esforçou para buscar a motivação para abandonar tudo aquilo mais uma vez. Perguntou-se, sem obter resposta, o que o prendia ali. Havia algumas pessoas que amava, assim como a cidade, porém não os negócios da família. É claro que ele adorava a excitação que o "ofício" lhe proporcionava, entretanto, nos últimos tempos não parecia bastar mais.
Mesmo não tendo exatamente gostado de fazer o que fez pelos breves meses que se aliou a Magneto, havia sido uma época imensamente mais interessante que a atual. Sua principal motivação ao se afiliar a um vilão caricato nunca foi compatibilidade de ideias. Achava todo o lance de superioridade uma grande bobagem – algo que à época era apenas um detalhe a ser superado se a experiência lhe trouxesse satisfação.
Os jovens X-Men quase haviam sido um desafio de verdade. O mesmo não poderia ser dito de Apocalipse. O grandalhão filho da puta quase os matou a todos. E por mais que não se orgulhasse de não ter estado presente durante a derrota do mutante – devido a motivos que fugiam do seu controle – ele se inteirou de cada passo, sempre torcendo à distância para que os X-Men e os seus aliados saíssem vitoriosos.
Em retrospectiva, lutar lado a lado com os X-Men havia sido mais atraente do que ele estivera disposto a admitir na época. Se tivesse encontrado Xavier antes de Magneto, talvez tivesse ficado tentado a se juntar aos X-Men ao invés dos Acólitos. Oportunidades iam e viam, ele bem sabia. Não havia por que se lamentar. É claro que depois do sequestro (ele não gostava de usar essa palavra, mas infelizmente era a mais apropriada) de um de seus membros, ele havia queimado quaisquer chances com o careca.
De volta ao presente, sua barriga roncou, o que se mostrou motivação suficiente para ele finalmente deixar a cama. Sentiu o gosto ruim na boca e seguiu para o banheiro. Olhou o reflexo de seus olhos pelo espelho, com a boca cheia de pasta de dente, tentando decifrar por que algo parecia estar errado. Talvez fosse o pesadelo que ele tinha certeza de que tivera durante a noite. Não se recordava das imagens, mas ainda sentia um calafrio ao se lembrar de como se sentira.
Ele corria vestindo apenas calças de pijama. O frio era como agulhas minúsculas espetando dolorosamente cada parte de seu corpo. Ele podia ver o próprio hálito esbranquiçado. Seus pés descalços afundavam na neve. Para todos os lados que olhava parecia haver paredões de gelo, como se estivesse dentro de uma caixa, sendo examinado e experimentado. Estava ciente do pesadelo, mas não conseguia fugir das regras dele. Precisava correr, se afastar dele, do rosto pálido, do sorriso cheio de dentes de canibal, dos olhos sinistros. Ele correu, e correu, e correu. A distância entre ele e o paredão parecia nunca diminuir. Como acontece nos sonhos, ele simplesmente sabia que poderia correr por quilômetros e nunca sequer se aproximar do fim. Caiu de joelhos, então de quatro. Resfolegando, não conseguia gritar. Pondo-se de pé, estava então em uma floresta. Amaldiçoando, continuou a correr. Sabia que ele estava se aproximando de algo. Agora vestia todo o seu uniforme. Suas botas por vezes espicharam água lamacenta de poças rasas. O mau agouro de uma coruja enchia o ar ritmicamente. A trilha ia ficando mais apertada e escura. Espinhos lhe incomodavam. Sentiu um galho pontudo rasgar seu sobrecenho esquerdo. O sangue jorrou, embaçando a visão do olho esquerdo. Sentiu o gosto ferroso do seu próprio sangue nos lábios. Cartas escaparam de seus bolsos e voaram pelo ar. Um rei de ouro pareceu flutuar a sua frente. O losango brilhando em vermelho vivo.
Ele cuspiu a pasta de dente e lavou o rosto, espirrando água gelada nele com satisfação. A barba de alguns dias roçou na toalha macia, mas ele não se deu ao trabalho de fazê-la.
Aquele não era o primeiro pesadelo recente. Ultimamente suas noites pareciam ser assombradas de pesadelos angustiantes.
Ele finalmente aceitou que precisava agir, precisava fugir da areia movediça que aquela casa se tornara. Deu ouvidos à consciência e percebeu que não poderia esperar de braços cruzados quando tinha conhecimento de que planos macabros estavam em andamento. Não agir seria o mesmo que contribuir para que esses planos se tornassem realidade em uma escala ainda maior.
Ele se moveu de um ímpeto. Buscou a pasta espessa de capa preta, que há duas semanas estava intocada dentro da gaveta de seu criado mudo. Abriu o armário e apanhou uma mochila. Encheu-a com peças de roupas variadas, sem pensar muito no que levar. Apenas o suficiente para alguns dias. Diria ao seu pai que tinha assuntos que precisava resolver. A rixa com o Clã dos Assassinos continuava a mesma; entretanto, confrontos haviam sido raros nos últimos meses. Enquanto não houvesse disputas nas quais ele precisaria usar seus poderes, seu pai não sentiria sua falta. Vestiu calças jeans, camiseta, tênis, jogou a mochila sobre os ombros e pulou na sua moto.
Gambit sabia exatamente para onde ir.
Ela gostava da solidão. Era o que sempre dizia quando lhe importunavam para ser mais participativa. Era antissocial e ponto final. Não era apenas a natureza dos seus poderes que a forçavam a ser solitária; ela apreciava o tempo que passava sem companhia. Era mais fácil colocar quem era em perspectiva. Era mais fácil se concentrar e se focar.
Sossego, entretanto, era difícil de ser encontrado em uma escola onde moravam dezenas de pessoas. Ainda assim, às vezes ela conseguia. Como naquela tarde, enrolada na cama, com um bom livro. O ano letivo tinha terminado e ela não queria pensar no futuro, pois sabia ser infrutífero. Queria apenas ser deixada em paz. Conseguiu por aproximadamente uma hora até a redoma que criara para si ser abruptamente interrompida quando Lince Negra surgiu através da parede. Vampira deu um pulo de susto. Ainda não entendia como não havia conseguido se acostumar às entradas dramáticas da sua ainda colega de quarto.
"Você não vai acreditar em quem está aqui" disse a garota de rabo de cavalo, quase sem fôlego. Sentou-se na sua cama, encarando a outra garota.
"Mal posso esperar pra descobrir" disse Vampira indolente, a voz se arrastando, sem tirar os olhos das páginas de seu livro, que ainda fingia ler mesmo depois da sua concentração ter evaporado.
Ignorando os óbvios sinais de que a colega queria ser deixada em paz, Kitty desandou a tagarelar. "Eu não imaginei que o veria novamente. Imagina só, depois de tantos meses um ex-Acólito aqui."
Vampira se arrependeu instantaneamente, mas não pôde evitar voltar o rosto espantado para Kitty. Tentou disfarçar, mas corou levemente quando um nome surgiu na sua cabeça. Rapidamente ela ignorou o pensamento estúpido. Inconscientemente enfiando uma mexa de cabelo branco atrás da orelha. Recompondo-se, ela fez expressão de tédio.
"Será que vou lá dizer oi?" perguntou Kitty. Vampira deu de ombros, se esforçando ao máximo para mostrar que não se importava. "É que ele é tímido, né?"
Vampira segurou uma risadinha irônica. Tímido era a última palavra que usaria para descrevê-lo. "Eu não pensei que ele voltaria" ela balbuciou.
"Nem eu. Achei que ele tinha voltado para a Rússia."
"O quê?" Vampira a encarou com o rosto confuso, falhando em esconder a decepção.
"Piotr está aqui conversando com o Professor" Kitty disse, sem entender a confusão de Vampira.
O dia de seu rapto e consequente auxílio em Nova Orleans era apenas uma lembrança distante para todos, incluindo Vampira. Portanto até ela mesma se surpreendeu por ele ter surgido na sua mente tão rapidamente ao ouvir sobre Acólitos.
"Acho que você deveria sim ir oferecer um oi" ela disse em uma tentativa de fazer Kitty desaparecer dali. Funcionou. Por mais alguns minutos ela ainda tentou em vão voltar ao seu livro. Leu e releu a mesma linha várias vezes até se dar por vencida.
Vampira deitou o livro sobre o colo, sentindo os olhos arderem. "Estúpida" sussurrou para si mesma, fungando. Levantou-se, por fim, indo em direção à cômoda do outro lado do quarto. Fechou os dedos em volta do puxador e hesitou. Então puxou a gaveta com repentina raiva. No fundo, debaixo de camadas de meias e luvas, ela encontrou um pedaço de papel retangular com a face para baixo, cuja existência havia caído no esquecimento. Despindo-se da luva da mão direita, ela o apanhou, cravando as unhas por baixo até conseguir virá-lo.
Dama de Copas.
A carta estava levemente amassada das vezes em que ela a segurara nos dias após seu retorno ao Instituto e a derrota de Apocalipse, indagando-se incansavelmente o que ela significava. Levou-a de volta ao dia fatídico.
"Minha dama da sorte. Já me tirou de muitas enrascadas."
"Acho que preciso de um baralho só de damas."
"É bom ter alguém que cuida da gente, Vampira."
Ela retirou a outra luva. Apanhou a carta entre os polegares e indicadores. Iria parti-la ao meio. Alguns instantes mais tarde e ela concordou que não conseguiria. Já tentara antes e não fora capaz. Não entendia por que se apegava àquela merda de pedaço de papel. Apenas não conseguia se livrar dela. Havia um valor sentimental que ela não entendia.
"Você fez a coisa errada, mas pelos motivos certos" ela lhe dissera então.
"E agora?" o tom da voz dele indicando que talvez não tivesse mentido quando dissera que queria ajudá-la.
"Eu vou voltar com os X-Men" ela dissera sem pensar, dando-lhe as costas. "O que você vai fazer não me interessa."
"Claro que interessa" ele afirmara, segurando a mão dela, a impulsionando a se virar.
"Olha, é melhor eu ir" ela se apressara em dizer, antes que começasse a duvidar.
"Você vai ficar bem, chérie, tem gente tomando conta de você."
E ele se fora. Deixando apenas a carta na sua mão.
Furiosa por sua mente tê-la levado àquela lembrança, Vampira enfiou a carta no fundo da gaveta mais uma vez, camuflando-a com bolas de meias. Fechou a gaveta com uma força desnecessária, que fez os objetos em cima da cômoda tremerem.
Enfureceu-se ainda mais ao se forçar a se lembrar de toda a merda e sermões que teve de ouvir de Logan no caminho de volta para a mansão. Mas era assim que tinha de ser. Tinha de se lembrar do que acontecera depois, para que suas lembranças não a enganassem. Para relembrá-la de que não havia terminado em um momento terno.
Ignorando os olhares inquisitivos e confusos, ela se sentou encolhida em uma das poltronas no fundo do Pássaro Negro, molhada e tremendo de frio. Seu irmão a confortou com um cobertor, mas ela percebeu os olhares estranhos que os outros mandavam. Os de Logan eram pura repreensão.
Assim que o Pássaro Negro decolou Logan de sentou ao lado dela. "Desembucha. O que foi que aconteceu lá?"
"Eu fui usada mais uma vez. O que tem de novo nisso?" ela disse com amargura não velada enquanto tentava se aquecer com o fino cobertor. A promessa de que lhe explicaria tudo indo por água abaixo.
Logan rosnou. "Eu quero detalhes, guria."
"Será que podemos não falar sobre isso agora?" ela explodiu.
"Boa tentativa."
Vampira bufou em exasperação. "Ele disse que fez tudo isso porque queria me ajudar" a sinceridade nas suas palavras fizeram seus olhos queimarem.
"E você acreditou mesmo nas boas intenções daquele cajun?" Logan perguntou retoricamente num tom que pareceu acusar Vampira de ingenuidade.
Ela ignorou a pergunta. "Por acidente eu o toquei e descobri que ele fez tudo aquilo porque seu pai precisava de ajuda" então ela se virou para Logan. "Sejamos francos, Logan. Não é como se eu fosse ajudá-lo de boa vontade se ele tivesse me pedido. E ele deve ser orgulhoso demais pra pedir" disse, percebendo o quanto ela mesma era assim. Vampira não duvidava de que seria capaz de fazer algo parecido se estivesse no lugar dele. É claro que sequestrá-la fora condenável, mas Gambit fez o que tinha de fazer. Provavelmente achou que não tinha outra escolha.
"E você o ajudou mesmo assim?" fora mais uma afirmação do que uma pergunta.
Vampira indicou que sim com a cabeça. "Eu não poderia deixá-lo lá. Seria contra os nossos princípios."
"Mesmo depois de ele ter te usado? Te enganado?"
"Para, Logan! Eu sei, tá legal? Você... você nunca entenderia."
"Eu quero entender" disse Logan sem mudar o tom raivoso de voz. "E sei que tem mais além de princípios para as suas atitudes."
"Não tem" ela disse quase em silêncio. Logan sabia que isso era mentira; de certa forma, ela também.
De volta ao presente, Vampira voltou para a cama e se enrolou numa bola, puxando as cobertas sobre o corpo. Há meses não lembrava da existência dele. Continuaria assim.
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N/A: Esta história estava há muito tempo nos meus planos. Finalmente tomei coragem para escrevê-la, pois francamente nunca vou superar esses desenhos =P. O enredo ainda não está completamente mapeado, mas tenho uma ideia de onde quero levá-la. O título, que emprestei de um livro de um dos meus escritores favoritos, que por sua vez foi emprestado de Shakespeare spoila a tal ameaça, mas não consegui resistir, pois faz perfeito sentido.
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