Inexorável

Inexorável.

- Epílogo- É tudo por causa dele. – eu disse para aquela pessoa que mal conhecia, porém seus olhos me traziam uma estranha sensação de segurança. Eu fervilhava de raiva.

Ele deu uma risada debochada.

Se dois anos atrás alguém me contasse pelo o que eu estaria hoje, eu provavelmente desmaiaria ou daria um ataque de mulherzinha afetada. Mas se eu não tivesse essa maldita mania de estragar tudo, não teria que desabafar com esse... colega.

- Tem certeza que é dele? Pelo que soube foi você que errou. – ele se pôs a me encarar.

Quem era ele pra falar aquilo? Nós nunca tínhamos nos falado antes.

Mas eu não sabia o que estava me levando a falar com esse garoto. Ele estava lá na cantina sentado dormindo. Talvez fosse uma boa pessoa para quem eu pudesse contar minhas tristezas, foi o que eu pensei quando eu o acordei.

Mas ele sabia da historia (ou desventura?). Todos na escola sabiam. Malditas garotas fofoqueiras.

- Eu sei que fui eu, mas é difícil assumir a culpa. – disse deixando escorrer uma lágrima teimosa.

As lágrimas estavam vindo lá de dentro. Eu sou uma chorona e sempre chorei a toa. Agora parecia um bom momento pra falar, começar a falar e a chorar. Esse coitado nem sabia o que lhe esperava.

- Posso te contar a historia do inicio? – perguntei àquele garoto. Ele assentiu rapidamente com a cabeça.

Comecei a tagalerar a falar coisas que remontam a quase dez anos atrás.

Capítulo 1 – Haruno

Meu professor costuma dizer que uma narrativa começa quando um fato, ruim ou bom, interrompe a normalidade, ou o usual.

A minha normalidade não era boa, mas era suportável – desde que tivesse aquela barra de chocolate na dispensa para os péssimos momentos.

No geral, eu costumava estudar feito uma condenada para conseguir um mísero sete nas provas, meu colégio é uma instituição tradicional - aquelas escolas que lhe tiram adolescência e cheia de pessoas nerds – que quer tirar o desempenho máximo de seus alunos/escravos.

No quesito mais divertido da adolescência – diversão, bebidas, shoppings, festas, garotos e blá, blá, blá – , eu nunca aproveitei o suficiente. Talvez porque passe a maior parte do tempo inserida em meu mundinho triste e depressivo. Nas poucas festas, como são barulhentas!, vários garotos, alguns bem bonitinhos, pediram para ficar comigo. Eu não fiquei com nenhum deles. Nem com ninguém. Sempre preferi a presença divertida das minhas amigas, que são bem poucas – mas são as melhores pessoas que conheço.

Está bem. Vou contar a verdade. Não disse "não" àqueles garotos porque eles cheiravam a álcool. Eu meio que esperava, inutilmente, que ele pedisse para ficar comigo.
Acho que já deu para perceber que eu, Haruno Sakura, sou apaixonada por ele.Coisa que data oito – ou mais – anos.

Mesmo ele sem ter me dirigido até agora, mais de cinqüenta palavras.

Mesmo ele tendo ficado com quase todas as garotas da nossa série. ( piranhas ù.ú)

Mesmo ele me ignorando, não só a mim, como varias pessoas, como se nos fôssemos vermes.

Ele é assim. E eu também – uma idiota apaixonada.

Resumindo, a minha paixonite não é recíproca e eleé uma pessoa hostil.

Até hoje pela manhã eu levava a "minha normalidade" numa boa. Só que um fato, ou melhor, uma fofoca a interrompeu e levou consigo minha normalidade. Para um lugar que eu duvido que eu consiga trazê-la de volta. (isso ficou extremamente tosco u.u)

Quando acordei hoje pela manhã até que estava me sentindo feliz. Meu pai estava viajando, Londres, e minha irmã, Yuuki, ainda estava dormindo. Vesti-me rapidamente, engoli qualquer coisa e caminhei em direção à escola. Pelo caminho da escola encontrei Ino, a melhor amiga.

- Sakura testuda! Caiu da cama? – Ela tinha furar meus tímpanos logo pela manhã?

Cumprimentei-a com os tradicionais dois beijinhos no rosto.

Ela fez duas referencias a duas coisas péssimas. Primeiro, minha testa enorme que tento inutilmente esconder com uma franja. Segundo, meu péssimo hábito de dormir até tarde e sempre me atrasar.

- Acordei mais cedo hoje. Fez o trabalho do Professor Kakashi? – perguntei a ela sobre o trabalho meio complicado de Física. Ela me olhou de rabo de olho, uma vez que ela detestava estudar.

- Fiz. – ela agarrou meu braço num átimo de excitação e deu um pulinho. Como ela era feliz. –

Você não sabe com quem Uchiha Sasuke está namorando, Sah! – disse ela excitada.

Ela sempre ficava assim quando ia contar uma fofoca realmente boa. Saltitando. Ela estava saltitando freneticamente.

O que era péssimo. Ele não podia namorar uma garota, muito menos um garoto. Uchiha Sasuke é meu. Essa namorada corre um sério risco de aparecer esquartejada no fundo de um rio.

Senti um bolo de tristeza e decepção se formar em minha garganta. Ah. Eu não vou chorar. Não vou.

- Quem? – tentei suprimir a curiosidade de minha voz e empurrar o bolo de minha garganta para o estomago. Ino virou seus olhos azuis para mim e fez uma cara: "Como-você-pode-não-saber?". Nessa hora atravessamos os portões de aparência medievais da escola.

- Sua irmã. Haruno Yuuki.

Aquilo era ruim. Péssimo. Pior do que acetona na cutícula machucada.

Minha irmã mais velha e metida com o garoto de que gosto há anos?

O bolo em minha garganta estava me sufocando e eu estava ficando vermelha. De fúria.

- Está bem? – perguntou Ino, preocupada com a minha expressão.

- Estou.

A mais pura mentira. Ino não sabia que era apaixonada por ele.

A mais pura mentira. Ino não sabia que eu gostava dele. Nem ela, nem niguém. Quer dizer, Yuuki sabia. Um dia, no qual ela estava milagrosamente de bom humor, eu deixei escapar.
Naquele momento estávamos sentadas em um dos bancos de pedra da escola. Ino parecia um pouco incomodada com a minha mudez – eu sempre fico tagarelando o dia inteiro-, mas não liguei. Não era importante. Eu resolvi quebrar o silêncio.

- Você tem certeza que eles estão namorando? – perguntei a Ino. Ela assentiu com a cabeça – Há quanto tempo?

- Não sei. Faz pouco tempo. – disse ela calma - Por que você não conversa com ela? Afinal, ela é sua irmã. – completou

- Você sabe que não é assim tão fácil assim para mim ter uma conversa amigável com ela. – disse com um tom amargurado na voz.

É realmente complicada a minha reação com Yuuki. Desde que nossa mãe morreu – nove anos atrás - ela se tornou alguém com, digamos, dupla personalidade.

Com as outras pessoas, ela é alguém feliz que passa boa parte do tempo sorrindo e fazendo os outros felizes. Em casa, ela é ranzinza, fica trancada em seu quarto boa parte do tempo, nos ignora e se recusa a ter uma conversa amigável comigo – com papai ela tem que ser simpática se quiser ganhar a sua gorda mesada.

- Vai lá falar com ela! – disse Ino, em sua natural voz alta e animada, e me levantou do banco.Ela apontou a cabeleira ruiva vibrante que pertencia a minha irmã do outro lado do pátio. Impressionante como ela pode me convencer facilmente. – Daqui a pouco o sinal vai bater, então vê se tira o máximo de informações possíveis, fofocas quentes, da Yuuki. Vou lá com pessoal. – Ela foi na direção aos nossos amigos, que acenaram para mim. Eu acenei de volta e fiz um sinal de "já vou".

Eu meio que inconscientemente, e movida pela raiva - ciúmes, muito ciúmes na verdade – fui na direção de minha irmã um ano mais velha.

- O que você quer, Sakura? –disse Yuuki. Ela estava de costas para mim, em pé . E se virou na minha direção. O desagrado estava claro em seu rosto perfeito de traços mais delicados que os meus e sua voz deixava transparecer irritação.

Mas as palavras cismavam em não sair da minha boca. Eu gesticulava, mas não saía nada. Veja quão grande é o meu patético medo da minha irmã.

- O que foi? – repetiu ela, em um tom um pouco mais amigável.

- Você está namorando o Uchiha? – perguntei. Aquilo saiu de forma ridícula. Yuuki nunca faria essa pergunta uma pessoa. Ela era uma garota elegante. Mas eu não sou ela. Graças a Deus.

- Isso não te interessa. Eu te pergunto sobre quem você namora ou não? Não. Agora vá perturbar outra pessoa com suas fofocas e curiosidades. – Suas palavras saíram no seu natural tom cruel e irritado, o qual ela parecia reservar exclusivamente para mim. Eu me senti um pouco envergonhada e pequena diante dela. Ela me empurrou para o lado, de leve, e subiu as escadas para sua sala.

O sinal bateu. Que tortura. Cinco horas sentada ao lado do Uchiha. Ele nunca pareceu mais distante de ser meu.

Maldita Haruno Yuuki.

Uma barra de chocolate cairia muito bem agora.