Disclaimer – Não são meus, mas continuarei a torturá-los!
N.A. – Aguardem InuYasha aparecer na história antes de me alugar. XP
Presente de amigo secreto para Juliane.chan.
Espero que goste, mesmo tendo que esperar ela continuação XP
Beijos,
Naru.
O
casamento de Kagome
Parte I
Sabe aquelas memórias irritantes que teimam em te perseguir pelo resto da vida?
Eu tenho uma assim.
Nunca contei a ninguém.
Minha infância foi normal. – Até onde se pode dizer com uma mãe que sorri mesmo quando está triste, um avô que lhe dá presentes estranhos em todas as oportunidades, e um pai que nunca esteve por perto. – Acreditava em finais felizes, me apaixonar, e ter uma vida tipo 'conto de fadas', como aquelas histórias que minha mãe contava todas as noites.
Eu tinha sonhos, tão reais quanto os sonhos podem ser, mas um dia tudo isso terminou. A única coisa que sobrou dessa época tola e inocente é uma estúpida lista do homem ideal.
Um psicólogo diria que ainda me agarro a essas ilusões.
Eu digo que a guardo para me lembrar das coisas que desejo me afastar.
Acho que deveria ter começado me apresentando... Bem, antes tarde do que nunca, certo?
Meu nome é Kagome Higurashi, tenho 22 anos, e ainda estou cursando a faculdade. Em exatamente dez dias estarei me casando com meu amigo de infância:
O adorável, bondoso, sempre prestativo e sorridente... Houjo.
O que mais posso dizer sobre mim?
Oh sim, sou mentirosa compulsiva... Ou quase isso.
Pensando bem, essa talvez seja uma maneira errada de colocar a situação, não é que eu minta sem parar, apenas... Gosto de contrariar os outros, e a única maneira que encontrei de fazer isso sem acabar sozinha foi... Falando o contrario do que desejo.
Não me entenda mal, eu realmente gosto de Houjo e o considero perfeito... Mas é demais, entende? E fica mais evidente a cada dia.
Bondoso demais. Compreensivo demais. Prestativo demais e... Deuses, sorridente demais!
Existem ocasiões, e devo dizer que são cada vez mais freqüentes à medida que o casamento se aproxima, que quando o vejo sorrir daquela maneira quase tola, meu único desejo é esmurrá-lo até que perca os sentidos ou não encontre mais motivos para sorrir.
Droga, estou tendo pensamentos violentos novamente... Isso não é bom, se eu continuar desse modo, acabarei cedendo a tentação de espancá-lo no altar.
Bem, ISSO realmente surpreenderia todos que me conhecem.
Aos olhos do mundo sou a garota perfeita, sempre bondosa, disposta a ajudar, sorridente... Quase uma versão feminina de Houjo.
Meu eterno segredo. A perfeita Kagome é uma farsa. Tudo o que ela deseja é ser como as garotas normais, mas é muito covarde para se permitir sê-lo. Mesmo que isso signifique casar com a pessoa que mais a irrita, apenas para provar ser perfeita, e ser infeliz para sempre.
Aposto como estão se perguntando como cheguei a esse ponto, eu costumava ser normal... Em algum ponto longínquo do meu passado.
Tenho uma lembrança, quase totalmente apagada, de quando ainda era muito jovem. Arrogantes olhos de um tom de dourado que nunca mais vi igual, e que só a lembrança ainda faz meu coração bater mais rápido. Eu o encontrei apenas algumas vezes, por acaso, e quase inconscientemente o segui, eu só queria poder observá-lo o máximo de tempo possível, imaginando se ele desapareceria se eu o tocasse.
Parecia perfeito demais para ser real, e nunca antes alguém me fizera sentir daquele modo.
A lembrança da sensação de vê-lo pela primeira vez é tão vívida quanto a última. Eu sorri, ele meio que rosnou, e se afastou. O desprezo que vi nos orbes douradas foi doloroso como um corte, o suficiente para que eu desejasse nunca mais ter aquele sentimento especial em relação a alguém.
Triste, não é?
A dor parecia me sufocar, então decidi que a maneira mais segura de viver era evitar qualquer coisa que me fizesse sentir daquele jeito. Nunca mais permiti que os outros vissem como realmente me sentia, e fingi cada uma de minhas reações e respostas, apenas para que ninguém, nunca mais, tivesse a chance de me magoar.
A única coisa que sobrou daquela Kagome foi uma estúpida lista infantil, descrevendo o que desejava encontrar no homem dos meus sonhos.
Na adolescência, minha melhor amiga perguntou como eu sonhava que meu namorado seria, e lembro de lhe dar a mesma resposta que repeti várias vezes, tentando a ela e a mim mesma.
'Qualquer um serve.'
Foi engraçado ver a reação surpresa de Sangô, e isso me fez sorrir de verdade. Não a sombra de um sorriso que eu sempre oferecia aos outros, mas de verdadeiro prazer.
Ela não entendeu, ninguém entende.
Eu apenas não quero ser magoada novamente. E qual solução pode ser mais perfeita do que escolher o cara mais normal que exista?
Ok, admito que deveria ao menos ter escolhido um que não me irritasse a cada vez que nos encontramos, mas... A respeito disso só tenho uma coisa a dizer:
'Nenhum plano é perfeito.'
oOoO Dez dias para o casamento OoOo
oOoOoOo Flashback oOoOoOo
- San-gô-chan! – O nome pronunciado em voz cantada provocou na outra garota um franzir de cenho - Como acha que será seu namorado?
- Não sei, - Sangô mostrou a língua para amiga. - mas tenho certeza que será perfeito.
- Bo-boo-na. – A garota morena sentou ao lado da amiga, os olhos claros atraídos por um grupo de garotos que jogava futebol na quadra.
- E você, Kagome-chan?
- Ahn? – Kagome piscou confusa, corando como se tivesse sido flagrada.
- Como será seu namorado? – Sangô sorriu. – Alguém conhecido em mente?
- Não penso nisso, Sangô-chan. – Kagome sorriu, tentando parecer o mais calma possível. – Qualquer um será bom.
oOoOoOo Fim Flashback oOoOoOo
- Kagome?
Pisco, libertando-me da teia de lembranças, e viro-me para fitar a mulher sorrindo para mim no meio do quarto. Aperto o pedaço de papel amarelado, e escondo-o no bolso enquanto forço-me a sorrir de volta.
- Algo errado, mama?
- Parecia distante, nem respondeu minha pergunta. – Ela continua sorrindo, e noto um brilho malicioso em seus olhos. – Sonhando com a lua de mel?
- Mama! – Protesto, corando com a idéia. Uma voz, que me forço a ignorar, grita no fundo de minha mente, dizendo que devo expulsá-la enquanto ela continua a sorrir da própria piada. – Não fale desse modo, por favor.
- Você é jovem, Kagome, quer me convencer que não pensa nessas coisas?
- Não. – Balanço a cabeça, tentando afastar a imagem que suas palavras fizeram aparecer em minha mente. 'Droga de imaginação fértil!' – Pare de rir, mama! – Vejo-a concordar com um aceno e aproximar-se de meu armário, fingindo grande interesse nos vestidos que deixei pendurados ali, desanimada demais para escolher qual devo usar hoje à noite.
A maior parte do tempo, tenho certeza de que ela está tão entediada com a vida que me segue apenas para me torturar. Algum distorcido senso de humor, imagino.
Ela continua analisando os vestidos, e perco completamente o interesse. Suspiro, fingindo prestar atenção em suas palavras, e viro-me para a janela novamente, perdendo-me em minhas lembranças. É a única coisa que me acalma nos últimos dias.
- Está ansiosa com o jantar desta noite?
- Por que estaria? – Respondo depois de alguns segundo, tentando não demonstrar que ouvi sua pergunta por acaso.
- Os pais de Houjo estarão presentes.
Dou de ombros. 'Qual a novidade?' Os pais dele sempre estão presentes, e não há muita novidade quando isso acontece desde que você é criança.
Na verdade, é quase enfadonho demais.
- Você sempre me decepciona, querida. – Ela continua, aproximando-se com um vestido azul que usei poucas vezes desde que o comprei seis meses atrás. – Sempre tão distante, quase como se tudo a sua volta a deixasse entediada. – Observo o vestido em suas mãos, aliviada. Ao menos ela não escolheu o vestido rosa pálido que nunca foi usado porque... Bem, eu simplesmente odeio essa cor e o comprei só para provar que não odiava. – Não parece animada como uma noiva deveria estar.
- Estou animada, mama. – Forço um sorriso que não parece convencê-la. – Apenas há tanta coisa para fazer que me sinto cansada só em pensar. – Pego o vestido de suas mãos, distraída com a renda de tom mais escuro que circunda o decote. – Tem dias que eu gostaria de dormir e não acordar.
- Que coisa horrível de se dizer, Kagome!
Suspiro.
- Você não quer casar com Houjo, Kagome? - A pergunta chama minha atenção, e finalmente a fito diretamente. – Ele não é o homem dos seus sonhos?
Estou surpresa, e por alguns minutos não sei o que responder. Aquela voz estúpida tenta me lembrar da velha lista infantil escrita no pedaço de papel em meu bolso, mas forço-me a ignorá-la mais uma vez, e depois de um tempo consigo sorrir.
- Quero, mama. Houjo-kun é... – 'Comum. ' – Perfeito.
Luto contra a vontade de desviar os olhos e me esconder, já que ela parece analisar cada reação minha. Depois de alguns minutos torturantes, ela enfim sorri, recomeçando a falar sobre o jantar com a família de Houjo, e suspiro aliviada, fingindo acompanhar a enxurrada de palavras, mas a verdade é que estou muito longe dali novamente.
oOoOoOo
Anoitecera há pouco tempo quando Houjo viera me buscar para o que chama de 'O grande jantar'– posso jurar que parte da razão por me sentir tão cansada se deve ao fato de ter que lutar contra o desejo quase irracional de espancá-lo a cada vez que o ouço pronunciar essa frase. É apenas o jantar semanal com os pais deles, mas como estamos a poucas semanas do 'Grande Evento' – outra frase que me tira do sério. – Alguns parentes distantes e amigos foram convidados.
Minhas pernas se negam a caminhar mais rápido quando chegamos ao hotel, sei que Houjo deve ter alguma idéia romântica por causa disso, mas o motivo real é que estou tentando controlá-las para não fugir.
'Será que alguém desconfiaria de mim se uma bomba explodisse no banheiro?'
- Kagome?
A doce voz feminina chama meu nome, e sorrio. É a oportunidade perfeita para me soltar de Houjo sem levantar suspeitas. Enquanto abraço a mãe dele, feliz demais por ter alguns minutos de liberdade, quase posso sentir a reprovação e choque em seu rosto. Provavelmente está pensando que paramos para comemorar com sakê antes do jantar.
- Boa noite, Tia. – Tento continuar sorrindo enquanto desvio disfarçadamente do braço que Houjo insiste em estender.
- Boa noite, querida.
- Adorei seu vestido. – Ignoro a maneira estranha que ela me observa enquanto pratico contorcionismo para fugir do abraço de seu filho.
- Obrigada. – Vejo-a corar e sei que desviei sua atenção. – Bondade sua.
Sinto o sorriso congelar em meus lábios, e algumas minúsculas gotas de suor brotarem em minha testa, quando Houjo cordialmente consegue quebrar minha defesa e passa o braço direito sobre os meus ombros, puxando-me contra seu corpo.
'Por que ele não se toca?' A conhecida voz grita frustrada em minha cabeça.
- Querido, seus amigos estão aqui...
Meus olhos brilham, fitando minha futura sogra com verdadeira adoração. Mordo os lábios, tentando não suspirar de alivio.
- Estavam perguntando por você, por que não vai cumprimentá-los?
Ele parece realmente desapontando por não poder ficar grudado em mim, mas logo o sorriso tolo volta a curvar seus lábios e ele se afasta acenando.
- Kagome, você—
- Onde é o bar, Tia? – Sorrio com o olhar surpreso, sentindo uma veia pulsar em minha testa. – Está quente demais, preciso de um pouco de água.
- Claro, querida. – A mãe dele segura meu braço, sorrindo da mesma maneira tola do filho e isso quase me faz gritar de frustração. – Venha por aqui, tem algumas pessoas que quero que conheça.
- Ok... – O sorriso continua congelado em meus rosto e começo a ficar preocupada se algum dia conseguirei voltar a ter uma expressão neutra.
'Tudo bem...' Penso comigo mesma enquanto sou arrastada pelo salão.' Posso agüentar isso... Só preciso beber algo forte para me anestesiar primeiro.'
oOoOoOo
Passa da meia noite quanto chego em casa. Finjo não notar o desapontamento de Houjo quando me afasto rapidamente depois de um beijo leve de despedida. Minhas mãos tremem enquanto luto com a fechadura e tento convencê-lo a partir sem esperar que eu entre. A única coisa que parece convencê-lo é a porta sendo batida de maneira nada educada.
Sei que pode parecer exagero, mas houve uma vez em que ele não entendeu o 'Estou morrendo de vontade de cair na cama' como um sinal para se mandar e tive que praticamente chutá-lo para fora.
Ok, admito que parte da culpa foi minha. Deveria ter aprendido a não escolher palavras que tivessem duplo sentido.
Suspiro, encostada à porta na sala ainda escura, esperando ouvir o barulho do motor do carro se afastando antes de subir. Estou cansada demais para ter uma surpresa ao entrar no quarto, entende?
Houve uma vez que ele achou muito romântico escalar a árvore, entrar no meu quarto e esperar escondido minha chegada atrás da cortina. Pena que eu não tenha captado a vibração 'romântica' e quase enfartei quando vi a sombra se movendo na janela.
Minha única reação foi gritar, correndo em sua direção e empurrá-lo pela janela aberta. Senti um pouco de remorso quando descobri que o invasor era Houjo com mais uma de suas idéias estúpidas, mas confesso que as duas semanas em que seu tornozelo torcido o manteve afastado foram uma benção.
Não parece incrível que ele não tenha tido nenhum ferimento grave com a queda?
- Kagome?
Pisco quando a luz da sala se acende, e posso ouvir minha mãe rir enquanto se aproxima. Como sempre, ignorando minha irritação. Ela pára a minha frente, sorrindo como se tudo fosse parte de alguma cena humorística.
- Pensei que chegaria mais tarde.
'Como seu eu pudesse agüentar mais um minuto daqueles parentes sorrindo por qualquer acontecimento banal.'
- Alguns colegas de Houjo da faculdade insistiram que ele saísse com ele para uma 'festa particular' – Dou de ombros, afastando-me da porta e caminhando na direção da escada. Não quero que ela veja como esse 'convite' me deixou aliviada.
- Entendo... E suas amigas?
- Acredito que Sangô tenha uma idéia parecida. – Estou cansada demais para fingir animação. Provavelmente não foi uma boa idéia tomar tanto vinho quando haveria o brinde com champanhe.
- Está se sentindo bem, querida?
- Acho que bebi um pouco demais. – Dou meia volta para observá-la, a preocupação em sua voz é genuína e isso me faz sentir mal. Consigo juntar forças o suficiente para sorrir.
- Entendo, mas é uma ocasião especial! – Ela volta a sorrir com a vivacidade costumeira. – Descanse bastante e se sentirá melhor, está de férias, certo?
- Sim... – Aperto a maçaneta com força, girando-a lentamente. – Boa noite, mama.
- Boa noite, querida.
oOoOoOo
Minhas roupas formam uma trilha até a cama onde me joguei. Posso sentir minha cabeça latejar, e sabia que isso pioraria se tivesse demorado mais alguns minutos guardar o vestido.
Mesmo sem acender a luz do abajur, minhas mãos encontram o pequeno pedaço de papel, velho e amassado. Suspiro, não precisando de luminosidade para saber o que a caligrafia infantil diz:
Esta é a lista de Higurashi Kagome.
Quando crescer, encontrarei meu príncipe encantado e sei que vou reconhecê-lo por essas características:
- Vou ficar sem fôlego desde nosso primeiro encontro apenas por vê-lo.
- Ele vai ser belo, do tipo que deixa a gente tonta se passar muito tempo observando.
- Meus pés deixarão o chão quando ele olhar para mim.
- Vou sentir meu estomago dar voltas quando estiver em sua presença.
Sorrio comigo mesma, apertando o papel contra o peito. Palavras tão tolas, provavelmente inspiradas por algum filme romântico bobo que assisti na época, mas em momentos como este, em que estou sozinha e cansada demais para me recriminar, eu realmente sinto falta dessa tonta e inocente Kagome.
Viro-me na cama para fitar o céu pela janela, desejando que o homem com que estivesse para me casar realmente me fizesse sentir todas essas coisas, mas a verdade é que nunca encontrei essa pessoa especial... A não ser aquele garoto que me olhou como se eu fosse a mais desprezível das criaturas.
Fecho os olhos, cansada demais para continuar acordada, pensando em coisas que nunca acontecerão.
'Eu realmente gostaria de conhecê-lo... Meu príncipe encantado.'
oOoOoO Nove dias para o casamento OoOoOo
Tenho uma vaga lembrança de alguém ter batido à minha porta. Provavelmente tentando me acordar inutilmente enquanto eu resmungava e me escondia embaixo das cobertas para abafar o som, desejando que o intruso inconveniente fosse embora e me deixasse em paz.
Acordei realmente algum tempo depois, o despertador tocava alto e insistente, como se ignorasse a dor que isso me causava. Eu quase podia sentir a vibração em meu cérebro. Mais um dos efeitos da mistura de bebidas na noite anterior.
Sentei na cama, agarrando o despertador e jogando-o pela janela. Apenas quando o barulho do vidro quebrado atingiu meus ouvidos foi que meu cérebro entendeu que horas os ponteiros marcavam.
Pulei da cama, tropeçando e caindo várias vezes, zonza de sono, e desejando que a ressaca desaparecesse. Tenho uma vaga lembrança de xingar tudo, inclusive as roupas, que se recusavam a ficar certas em meu corpo. Apenas quando desci as escadas notei que isso se devia ao fato de ter abotoado errado a camisa que escolhera.
Entrei na cozinha ainda resmungando e lançando olhares assassinos a cada pessoa que parava mais que alguns segundos na minha frente. Somente minha adorável mãe continuou sorrindo enquanto me estendia uma xícara de café e murmurava alguma piada sobre pessoas que exageravam na comemoração e bebiam demais.
Engoli o liquido de um gole só, queimando a língua e xingando mentalmente minha própria estupidez enquanto ouvia meu irmão caçula rir. Acho que só não tentei estrangulá-lo porque estava ocupada abanando minha própria língua e, claro precisava que ele me desse uma carona até a loja de vestidos onde passaria o resto da manhã provando o estúpido vestido de noiva.
Acho que só por essa cena dá para perceber que não sou uma pessoa agradável pela manhã. Único período em que ninguém estranha me ver praguejando ou lançando olhares agressivos a qualquer um que me dirige a palavra.
Algum tempo depois, quando sai do carro, ignorando mais piadas idiotas de Souta por causa do meu mau humor matutino habitual, ainda maldizia minha própria estupidez por ter escolhido um vestido que mais parecia o próprio bolo de casamento.
Tenho que dizer que nada muda enquanto observo meu reflexo no espelho, ainda estou tentando imaginar o que se passava em minha cabeça para escolher aquela monstruosidade... Tenho uma vaga lembrança de me esconder no provador...
Ah sim... Houjo estava me irritando com alguma bobagem, e para me livrar dele, peguei a primeira coisa branca que vi e corri para o provador. Ele tinha acabado com a minha paciência, segurando minha mão por todo aquele dia interminável, então me neguei a deixá-lo me ver ou experimentar qualquer outro.
Agora que estou mais calma, começo a perceber um estranho padrão. A presença de Houjo sempre me obrigada a fazer as coisas mais estúpidas possíveis.
Eu deveria aprender a não ser tão teimosa, deveria ao menos ter procurado um outro modelo aquele dia... Ou ao menos ter experimentado esse que escolhi, e não apenas me escondido dentro do provador.
'Agora é tarde demais...' Penso comigo mesma, segurando uma parte da saia que parece que vai tomar vida própria a qualquer momento e me engolir.
- Não acha que está perfeito em você?
'Você só pode estar brincando!'
A costureira sorri para mim, e tenho realmente pena dela. Imagino que tenha um mínimo de bom gosto, e assim como eu, considera essa monstruosidade horrível. Só está tentando agradar uma cliente... que tem mal gosto.
- Sim, perfeito... – Sorrio, desviando meus olhos do reflexo. É mais fácil mentir sem encarar a realidade. 'Tenho que ser positiva. Talvez o vestido realmente adquira vida própria e me engula antes do casamento... Ou pode engolir Houjo!'
- Falta pouco agora. – Ela continua sorrindo enquanto me ajuda a tirar o vestido.
- Sim... – Murmuro, desejando que todo mundo não achasse que tem que me lembrar desse detalhe o tempo todo.
- Está nervosa?
- Demais. – Viro-me surpresa quando percebo que disse isso em voz alta, e a encaro como se tivesse acabado de lhe contar algum plano secreto de assassinato.
- Não se preocupe. – Ela continua sorrindo enquanto pendura o vestido em um cabide cuidadosamente. – Toda noiva fica assim.
- Acho que tem razão. – Apresso-me a sorrir. – Tem certeza que haverá tempo suficiente para arrumar o vestido de minha madrinha?
- Ela chega amanhã, certo?
- Sim. – Respondo, desejando que Sangô estivesse aqui, ela conseguiria me distrair com alguma tolice; - Vou trazê-la assim que chegar.
- Não se preocupe, tem muito tempo.
- Eu prefiro... – Paro de falar, piscando quando um dos vestidos parece se mover sozinho.
- Você está bem, querida?
Concordo com um aceno, pegando minha bolsa e correndo para a saída. Admito que pode ser apenas uma peça da minha mente cansada, mas tenho certeza que vi alguns vestidos se movendo na minha direção e pareciam assustadores.
Paro no meio da calçada, lançando um rápido olhar para o delicado relógio de pulso, tentando lembrar qual era o meu próximo compromisso. Tenho certeza que é perto da loja de vestidos porque não deixaria Souta ficar com o carro e me deixar a pé de outra forma.
Meu estomago ronca e isso finalmente faz a luz se acender. 'Confeitaria!'
Fiquei de escolher o bolo de casamento e por isso preferi não comer nada pela manhã. - Não preciso de peso extra para ajudar com o volume do vestido. – Não é à toa que estou delirando com vestidos fantasmagóricos me perseguindo...
Estou atrasada, e isso está me matando. Por isso resolvo cruzar o parque ao invés de contorná-lo como normalmente faria. Tento correr, mas desisto depois de quase quebrar o estupidamente alto salto do sapato.
'Por que coloquei essa droga pela manhã?'
A resposta é quase óbvia demais, e a imagem de conhecidos tênis velhos e confortáveis aparece à minha frente. Sinto meu corpo congelar, e paro fitando os sapatos brancos, forrados de cetim.
Lembro-me perfeitamente agora, a costureira os entregou para mim junto com o vestido-bolo.
'Coloque-os apenas para checarmos o comprimento da barra, querida.'
- Não acredito! – Escondo o rosto nas mãos, ignorando os olhares que provavelmente estou atraindo. 'Roubei a loja sem querer!' – Malditos vestidos tentando me atacar... – Afasto os dedos lentamente, e fito os sapatos, um pouco sujos de terra agora, e quase grito de frustração.
Respiro fundo, tentando me manter calma. Estou atrasada, a confeitaria não vai mudar de lugar em mais alguns minutos. Dou meia volta, xingando a mim mesma quando sinto terra voar com o movimento, provavelmente manchando ainda mais o tecido antes imaculado dos sapatos. Consigo achar o celular dentro da bolsa, e disco o numero da confeitaria.
'Se eu não tivesse que passar o dia todo correndo de uma lado para o outro...'
- Olá, meu nome é Higurashi Kagome. – Interrompo a garota que atende antes mesmo que termine de pronunciar o nome da loja. – Eu deveria estar ai para provar alguns bolos para o meu casamento e—
Paro de falar, sentindo como se todo o ar deixasse meus pulmões quando algo atinge meu estomago. O celular voa de minhas mãos enquanto caio para trás, agradecendo a grama fofa por amortecer a queda.
Fecho os olhos com força, lutando para respirar quando sinto o mundo começar a girar. Minhas mãos tocam meu estomago, e só posso agradecer se não tiver quebrado algumas costelas. Ouço vozes, mas parecem distantes demais para que estejam falando comigo.
Sinto o peso de uma mão tocar meu ombro, e observo a figura borrada ajoelhada a meu lado. Tenho quase certeza de que está falando comigo...
- Oi?! Você está bem?
Pisco, tentando me lembrar de palavras certas para responder. As coisas começar a entrar em foco novamente e tenho a estranha sensação de conhecer aquele rapaz que me olha para mim de forma hostil.
Isso me irrita, mais do que a queda. Porque eu posso ser culpada por passar na frente dele, mas não há razão para me tratar mal quando estou no chão, certo?
- O que você acha? – Minha voz soa rouca e estranha, provavelmente porque minha irritação é mais do que consigo controlar, já que fui atingida por... Pisco, fitando a bola que o rapaz segura e não consigo pensar em outra coisa além de usá-la para matá-lo. – É algo super comum e divertido ser derrubada por coisas.
- Bola.
- Ser atingida por uma bola! – Odeio quando me corrigem, principalmente de forma tão tranqüila e acompanhada desse olhar que parece dizer: 'Garota estúpida, nem sabe reconhecer uma bola.'
- Sempre fala gritando?
'Grosso idiota!' Estreito os olhos, pensando em como ele pode falar desse modo despreocupado quando eu estou caída no chão, quase morrendo por ter o ar expelido dos pulmões por uma bolada.
- Parece bem. – Ele dá de ombros, sem esperar resposta. Ergue-se lentamente, e começa a se afastar.
E, inferno! Isso me irrita. ' Quem ele pensa que á para me nocautear e sair assim sem se desculpar?'
Não sei exatamente dizer como acontece, mas em um momento estou recuperando a respiração, observando-o se afastar e no seguinte, minha mão alcança o celular e a próxima coisa que vejo é o aparelho atingir sua nuca.
Ouço risadas abafadas enquanto ele pára, e vira-se lentamente em minha direção.
- Desculpe?! – Dou o melhor de meus sorrisos enquanto ele esfrega a nuca e me fuzila com o olhar. – Escapou da minha mão...
Levanto o mais rápido que consigo, tentando não ver a maneira como ele franze a testa, irritado. Só não consigo dizer se esse gesto é pela minha desculpa completamente sem sentido ou por ter sido atingido por uma garota. Prefiro não descobrir, pensando que é melhor fugir antes que ele tente me matar.
- Deixe-me entender... – Ele começa lentamente – O celular... Escapou de sua mão e me atingiu?
- Uh-hum. – Endireito o corpo, mantendo o sorriso no rosto. – Espero que não tenha machucado muito.
- Você acha que sou idiota?
'Sim!' A voz rebelde grita em minha mente, mas consigo ignorá-la. É melhor não irritá-lo ainda mais.
- Claro que não. – Arrumo a alça da bolsa no ombro, e acendo. – Bem, estou atrasada. – Completo, antes de, ignorando a dor nas costelas, correr em direção à loja de vestidos.
Posso ouvi-lo gritar algo que ignoro enquanto continuo correndo, e com isso descubro algo realmente interessante. É realmente simples correr com sapatos de salto quando você corre perigo.
Não consigo entender porque nunca dá certo nos filmes de suspense.
oOoOoOo
Não posso me lembrar quando foi a ultima vez que corri tanto, ou não tive vontade de rir ao ver a expressão assustada de alguém...
O rosto da velha costureira seria muito mais interessante de observar se eu não estivesse completamente sem fôlego. Tentei sorrir enquanto me apoiava na porta, respirando sofregamente, minhas costelas ainda estavam doendo, e o rosto suado pelo pequeno esforço.
Ao menos isso a distraiu o suficiente para que não brigasse pelos sapatos arruinados enquanto me estendia um copo d'água e repreendia por ter fugido do assaltante.
Esqueci de contar essa parte?
Assim que entrei na loja, batendo a porta de vidro e chamando a atenção de todos ali dentro, vi o cenho da dona fechar, o que só piorou quando ela percebeu o estado dos sapatos. Entrei em pânico, e só posso culpar a falta de oxigênio por isso, e disse a primeira coisa que apareceu na minha cabeça.
- Uma gangue quis me assaltar no parque!
O silencio, quebrado apenas pelo som da minha respiração, quase me fez sentir mal por mentir tão descaradamente. Minhas pernas cederam, e cai de joelhos. O pequeno tumulto que se seguiu foi o suficiente para que toda culpa desaparecesse.
- Está machucada?
- Levaram alguma coisa?
- Pobrezinha... Peguem um copo de água pra ela.
Tudo o que consegui fazer foi sorrir fracamente, desejando que nada resolvesse me castigar por mais essa pequena mentira. Tomei a água em grandes goles, usando isso como desculpa para não responder ao resto do 'interrogatório'.
- Acho que seria melhor ligar para o noivo vir buscá-la.
- NÃO!
Pisco, cobrindo os lábios com as mãos ao perceber que pulei da cadeira gritando ao ouvir o que diziam. Forço minha mente a pensar em alguma razão para convencê-las sem que saibam da verdade, mas minha imaginação resolveu me abandonar.
- Eu... – Cubro o rosto com as mãos, fingindo chorar. Bem, as lágrimas são reais, mas não pela razão que pensam. – Não quero preocupá-lo por bobagem... – Baixo as mãos, torcendo a barra da camisa, sem encará-las. – Houjo é tão bom para mim, e está trabalhando tanto para pagar tudo... Não quero deixá-lo preocupado...
Uso todas as forças que me restam para conter o suspiro de alivio quando vejo algumas concordarem e me olharem com simpatia.
- Só preciso descansar um pouco... – Respiro fundo, baixando a cabeça e fitando os sapatos com desgosto. – E pode devolver meu tênis?
Continua...
