Disclaimer: Fairy Tail não me pertence.

Aviso: Spoilers dos capítulos 522 e 523


Depois da chuva

D.T.


A guerra havia acabado, e a Fairy Tail vencera. Mesmo assim, o clima nos destroços da guilda não era de comemoração: muitos haviam caído, muitos não veriam o futuro brilhante que seria construído. Era difícil se alegrar sabendo que Mestre Makarov e outros tantos amigos e membros de outras guildas que lutaram lado a lado haviam partido. Além disso, o medo pelas perdas que quase ocorreram ainda estava muito recente. Por hora, só era possível sentir a tristeza.

A vida voltaria ao normal aos poucos.

Em algum momento, eles acordariam felizes por saber que sobreviveram. Poderia ser um pensamento egoísta, mas era apenas humano: a felicidade por estar vivo. Magnólia era uma cidade forte e alegre: aos poucos, aqueles sentimentos dos cidadãos seriam transmitidos para os membros de sua orgulhosa guilda. Os risos eventualmente voltariam a ser ouvidos, junto com o barulho da cidade que se reconstruía. Aos poucos, a sede da Fairy Tail tomaria a antiga forma novamente, e seus membros voltariam a se sentir em casa.

Aos poucos, tudo voltaria a fazer sentido.

Uma semana após o ataque, quando o luto já terminara e a guilda estava reconstruída, eles se permitiram reunir e comemorar a vitória. Era o fim da ameaça de Zeref e da sombra de Acnologia. Era difícil continuar se sentindo mal quando havia tantas coisas boas pelas quais comemorar. Os risos, os berros de Natsu, Gray, Gajeel e Elfman se provocando, tentando iniciar uma briga, as canecas batendo nas mesas, a música de Mirajane, a fala animada das garotas, tudo aquilo que fazia da Fairy Tail... bem, a Fairy Tail... parecia estar de volta no lugar.

A normalidade poderia voltar.

Exceto que, para Gray, algo estava faltando.

No início, durante o funeral e a reconstrução da guilda, ele não havia realmente se dado conta: sua cabeça estava repleta de pensamentos e, seu coração, de culpa. Mas com o passar dos dias, vendo que todos à sua volta estavam lentamente se colocando nos eixos (e ninguém parecia querer excluí-lo, mesmo após todas as besteiras feitas), ele percebeu que algo estava errado. Demorou um tempo para perceber, até que se tornou vergonhosamente óbvio: ele já não sentia a constante presença de Juvia atrás dele.

Olhando em volta, Gray podia ver que ela não tinha partido: ela estava ali, bem, miraculosamente viva, mas longe. Em um primeiro momento, ele pensou que todo o trabalho e o pesar a estavam mantendo ocupada, e que ela não conseguia juntar animação para estar ao seu lado com um sorriso no rosto e uma voz entusiasmada para dizer "Gray-sama!". Mas a festa daquela noite lhe deu uma nova suspeita:

Juvia o estava evitando.

Ele percebeu isso quando, sentado na mesa com Natsu, Lucy, Erza, Wendy e Elfman, ao relembrar da luta contra Lyon e Chelia nos Grandes Jogos Mágicos, ele se virou para o lado para pedir a Juvia que reinterasse o que ele estava dizendo sobre ter chutado a bunda do irmão de criação, quando percebeu que o banco ao seu lado estava vazio. Entre risos, Lucy cutucou seu braço para mostrar que Juvia estava do outro lado da guilda, de costas para eles, conversando com Lissana e Mirajane. Erza perguntou de forma ameaçadora se ele havia feito algo inapropriado, e Elfman começou um discurso sobre como um homem deve agir (o que arrancou um grito de indignação de Evergreen, da mesa ao lado), e Wendy perguntou, tímida, se eles tinham mesmo brigado.

Natsu riu bastante da cara de surpresa e descrença que o melhor amigo/rival fez ao perceber que estava sendo ignorado há uma semana, e sequer sabia o por quê.

Se alguém lhe dissesse que Gray Fullbuster seria ignorado pela stalker número 1 de Fiore, Juvia Lockser, ele não acreditaria.

Bom, era melhor ter certeza do que estava acontecendo. Talvez fosse só impressão.

Ou não.

A festa seguiu noite a dentro, atingindo níveis de selvageria que quase colocaram a estrutura refeita a baixo. Havia sido uma semana longa e cansativa para todos, então aos poucos os membros começaram a cochilar nas mesas (ou desmaiar de bêbados mesmo). Bisca e Al foram os primeiros a deixar a sede, carregando uma Asuka já adormecida nos braços. Natsu ainda tinha muita energia para gastar, e agora estava desafiando Laxus para um duelo, enquanto Gajeel e Levy tentavam escapar despercebidamente (sem sucesso). Gray então viu Juvia se despedir de Erza e Wendy, com quem conversava, e também deixar a guilda.

Ela não lhe dissera uma única palavra a noite inteira.

Ok, ele estava mesmo sendo ignorado. E iria descobrir o motivo.

Sem se despedir, ele apenas se levantou e foi atrás da garota de cabelo azul, o que arrancou vários comentários daqueles que viram a cena, o que ele simplesmente ignorou. Não era a primeira vez que ouvia piadinhas sobre Juvia e ele, e com certeza não seria a última.

Ela andava sem pressa pela rua vazia, o longo cabelo balançando graciosamente às costas. Se ela ouviu o barulho dos passos apressados em sua direção, decidiu simplesmente ignorar. Foi preciso que ele a alcançasse e colocasse a mão em seu ombro para fazê-la parar.

- Juvia.

Ela se virou lentamente, os grandes olhos arregalados em surpresa. Apenas surpresa.

- Gray-sama? - ele respirou fundo. Ao menos, ainda era o 'Gray-sama'.

- Você vai me dizer o que está acontecendo ou não? - ele perguntou, obtendo como resposta apenas um olhar meio vazio. Inferno, ele se esquecera como Juvia era boa em manter uma feição absolutamente neutra. Ele respirou fundo. - Juvia, se você não me disser o que houve, eu não tenho como saber por que você está agindo assim.

Ela franziu as pequenas sobrancelhas, parecendo chateada agora.

- Gray-sama não sabe?

- Eu não faço a menor ideia. - Não foi a coisa certa para dizer, ele percebeu imediatamente. Se antes Juvia parecia meio chateada, agora ela estava dando sinais de absoluta raiva.

- Gray-sama mentiu para Juvia. Então mesmo que Juvia queira ficar ao seu lado e fingir que está tudo bem, isso machuca.

Ele recuou um passo, surpreso pela resposta, surpreso pela reação sincera dela. Gray sabia que Juvia era simplesmente assustadora quando estava com raiva, mas ela nunca se sentia assim em relação à ele. Bem, não desde a primeira luta dos dois.

- Eu menti para você? Quando...?

Juvia fechou os olhos e respirou fundo, cruzando os braços.

- Lucy-san me contou o que Gray-sama tentou fazer. Se Natsu-san não o tivesse impedido, Gray-sama estaria m-morto agora.

Foi a vez dele respirar fundo, ao se lembrar de sua tentativa em selar Zeref em gelo eterno. Talvez não fosse a melhor ideia do mundo, mas ele realmente achou que estava fazendo a coisa certa naquele momento.

- Juvia, eu não estou entendendo. Primeiro você diz que eu menti e agora isso. Dá pra você ser mais clara?

Ela descruzou os braços, começando a ficar triste agora. Gray viu lágrimas começarem a se formar em seus olhos e ele se sentiu mais perdido ainda. Ninguém, nunca, seria capaz de prever as reações emocionais de Juvia.

- Juvia morreu por você. - ela sussurrou.

A mais recente cicatriz em seu abdomen, imediatamente começou a doer, e ele se sentiu congelado ao se lembrar dos momentos terríveis em que achou que Juvia tivesse tirado a própria vida por ele.

- Juvia...

- Juvia morreu por você! - ela finalmente explodiu, lágrimas descendo copiosamente por seu rosto. - Juvia fez o que achou que devia e faria mais mil vezes, se fosse para salvar sua vida, Gray-sama! E quando estava quase perdendo a consciência, Juvia ainda pôde ouvir sua voz dizendo que levaria os sentimentos de Juvia a sério. Então como pôde? - ela escondeu o rosto nas mãos e começou a soluçar baixinho - Então como Gray-sama pôde pensar em sacrificar a própria vida?

Ele respirou fundo, começando a entender a louca conexão que ela fazia dos fatos.

- Eu não iria realmente morrer, eu continuaria vivo como...

- Não ouse! - ela gritou, pegando-o de surpresa. Ela estava tão furiosa novamente que ele não teve vergonha alguma em recuar mais um passo. - Não ouse dizer que continuaria vivo no gelo ou o que quer que seja. Gray-sama disse que levaria os sentimentos de Juvia a sério. Então como Gray-sama pôde pensar em tirar a própria vida? Você mentiu sim, Gray-sama. Se levasse os sentimentos de Juvia a sério, teria pensado no sofrimento que causaria se morresse!

Ela tornou a esconder o rosto nas mãos, resmungando sobre como era um absurdo que ela estivesse gritando com seu precioso Gray-sama. Aproveitando que ela parecia querer se acalmar, ele se aproximou novamente.

- Juvia, por favor, se acalme, não é bem assim... A Lost Iced Shell sacrifica até mesmo as lembranças que outras pessoas possuem do conjurador. Você... Nenhum de vocês ficaria infeliz por mim, porque sequer se lembrariam da minha existência.

No momento em que terminou de falar, os resmungos pararam e Juvia ficou imóvel. Por um segundo, ele teve a ilusão de que ela tinha entendido suas intenções. No segundo seguinte, ele sentiu que ela emanava uma aura mágica tão assustadora e poderosa que fez arrepios percorrerem sua espinha. Oh, ele tinha feito merda. Com toda a certeza.

- Gray-sama... Ousa dizer... Que Juvia não se lembraria?

Ela se moveu tão rápido que ele mal pôde ver. Apenas sentiu quando a mão dela o acertou em cheio no rosto, em um perfeito tapa que o fez virar a cabeça. Quando tornou a encará-la, absolutamente chocado agora, não havia sequer um resquício de mágoa, apenas tristeza nos olhos muito azuis da maga.

Uma chuva muito fina começou a cair sobre eles.

- Como Gray-sama ousa dizer que Juvia não se lembraria? Ou pior, como pôde querer tirar as mais preciosas lembranças de Juvia?

- Juvia...

Ela ergueu o rosto para o céu, deixando que a chuva varresse seu rosto.

- Estava chovendo no dia em que nos conhecemos, se lembra, Gray-sama? - ela murmurou - Mas isso era apenas natural: a chuva sempre esteve com Juvia, pois Juvia é uma Ameonna.- ela voltou a encará-lo, um olhar ainda triste no rosto. - A primeira vez que Juvia foi capaz de ver o céu azul foi graças à Gray-sama, que congelou a chuva e a fez parar.

É claro que ele se lembrava de quando eles se conheceram: no entanto, nunca tinha realmente prestado atenção nas palavras que ela dissera, até aquele dia. Juvia realmente nunca vira um dia ensolarado até a luta deles?

- Juvia jamais poderia esquecê-lo, Gray-sama, porque você parou a chuva. - ela sorriu tristemente, e ele decidiu que já tinha falado besteria demais por um dia, talvez fosse melhor apenas ouvir. - Juvia só é um membro da Fairy Tail hoje porque veio atrás de Gray-sama. Se Gray-sama fosse apagado das memórias de Juvia, Juvia não teria motivos para continuar na guilda.

- Por favor não diga algo assim.

- Mas é a verdade. - ela afastou os fios molhados que lhe caíam pelo rosto. - Nenhuma das boas lembranças que Juvia tem na guilda faria sentido sem você, Gray-sama. Juvia sentiria que algo estava errado, que algo estava incompleto: esse sentimento com certeza faria Juvia deixar a guilda.

- Eu...

- Mas Juvia não se esqueceria! - ela declarou, ainda triste, mas com uma nova resolução no rosto - Juvia jamais seria capaz de se esquecer de Gray-sama! A sensação de conforto quando Gray-sama segurou a mão de Juvia na hora do ataque de Acnologia... Ou nossa união quando Gray-sama e Juvia lutaram lado a lado nos Grandes Jogos Mágicos... O meio ano em que moramos juntos... Como Juvia poderia se esquecer dos melhores meses de sua vida? Mesmo que Gray-sama surpreendentemente tenha resistido a todas as tentativas de Juvia de seduzi-lo... A tristeza por ter sido abandonada e a felicidade por reencontrá-lo... Ter colocado nossas vidas em risco pela guilda na batalha contra Zeref, e o medo de perdê-lo... Todas essas são as mais preciosas lembranças que Juvia jamais seria capaz de esquecer.

Ela se calou e ele também. Juvia ainda parecia triste, e por isso a chuva continuava caindo. Gray se sentia um pouco assutado pela tsunami de emoções que a maga carregava: sempre soubera que Juvia gostava dele, mas sendo sincero, nunca dera muito crédito à intensidade daqueles sentimentos. Até agora.

- Eu... Não sei o que te dizer.

- Gray-sama não precisa dizer nada, só... só prometa que vai viver.

- Eu prometo. - foi a resposta, e era sincera. Essa era uma lição que ele tivera que repetir várias vezes, até finalmente entender: a resposta sempre seria viver por seus amigos, e não morrer por eles.

- Bom. - ela sorriu verdadeiramente agora, e a chuva pareceu diminuir até quase sumir. - E não ouse tentar algo estúpido que ameace as preciosas memórias de Juvia! - ela acrescentou, repentinamente furiosa de novo, e Gray soltou um suspiro derrotado. Ele não tinha como acompanhar a montanha russa de emoções daquela mulher.

- Nada de feitiços com atributo perdido.

- Gray-sama irá punir Juvia por tê-lo acertado no rosto?.

- O que?! Não, não. Eu meio que mereci. Eu acho.

Ela soltou um resmungo decepcionado, torcendo levemente o nariz. A chuva havia parado completamente agora, e Gray coçou a nuca, incerto.

- Quer dizer que nós estamos bem? - ela arregalou os dois olhos.

- Se nós estamos bem? Gray-sama quer dizer... Se estamos juntos?

- Não, eu quis dizer se você vai parar de me ignorar. Se as coisas vão voltar a ser o que eram.

Ela pareceu confusa.

- As coisas nunca vão voltar a ser como eram, Gray-sama. Não há como. - o braço dele que continuava erguido despencou lentamente.

- E por que não?

- Porque Gray-sama prometeu levar os sentimentos de Juvia a sério, e antes disso, prometeu uma resposta. - ele travou no lugar, olhando assustado para a expressão serena no rosto da maga. - Porque agora Gray-sama sabe a intensidade dos sentimentos de Juvia. - ela deu um passo na direção dele, que não conseguiu mover um músculo sequer. E porque Juvia simplesmente não pode mais... Juvia vai aceitar o que Gray-sama decidir oferecer, sua amizade ou seu amor... Mas Juvia não pode mais continuar se machucando.

- O que isso quer dizer?

- Juvia não está pressionando Gray-sama. Ela não vai embora, e nunca vai deixar de amar Gray-sama... Mas os sentimentos de Juvia são muito maiores que a própria Juvia. Se Juvia não os controlar, eles podem destruí-la.

- Você... Você disse que me ama? Amor tipo... Amor, amor mesmo? - no momento em que as palavras foram ditas, ele percebeu o quão idiotas elas soavam, e seu rosto ficou ligeiramente vermelho, aguardando a reação da mulher sem expressão diante dele.

- Gray-sama... De alguma forma, é meio imbecil, não é? - ela suspirou. - Juvia está cansada. Juvia vai dormir agora. - ela lhe deu as costas, continuando seu caminho em passos lentos - Amanhã Juvia provavelmente voltará a conviver normalmente com Gray-sama, mas nunca se esqueça: - ela virou apenas o rosto para trás - Juvia está aguardando a resposta.

Ele a observou se afastar até sumir na próxima esquina, ainda congelado no mesmo lugar, ainda tentando entender o que acontecera ali. E só conseguia chegar em uma única conclusão:

- Ah, merda.

Ele estava muito ferrado.


N/A: não garanto continuação porque não to continuando nem o que devia hahaha

Mais alguém que leu o capítulo imaginou qual seria a reação da Juvia ao descobrir que o Gray planejava desaparecer junto com as memórias que todos tem dele? Ficar totalmente puta da vida é a única reação possível para a Juvia, sem mais.

Gruvia é meu OTP em FT, sem discussão, e a Juvia é muito importante para mim... Mas o Mashima faz ela aguentar de boas todas as merdas do Gray (e que não foram poucas - é praticamente um Uchiha esse garoto), e isso não é legal, ok? Juvia é uma badass e uma força da natureza, ela é totalmente movida por emoções mas ela não é nenhuma stalker louca sem cérebro, então tudo o que eu peço do final do mangá é que ela mande a real pro Gray cagar ou sair da moita.

Reviews?

D.T.