Disclaimer: As personagens de Card Captor Sakura pertencem às magakas Clamp.
Summary: Sakura Kinomoto é uma caloira normal, com tendência para arranjar sarilhos (como no manga…) e que acredita em seres mágicos, embora não o confesse. Keroberus, o animal guardião, é um bichinho criado pela sua mente infantil, que serve muitas vezes de consciência (um pouco como o Grilo em Pinóquio). A sua vida muda após um estranho encontro com um chinês numa pastelaria, Syaoran Li, que foge do seu passado, do seu presente e daquilo que se pode tornar no seu futuro.
Capítulo I
Caramel Drops
O fim de tarde estava morno e suave. Corria uma leve brisa pela rua, fazendo ondular a saia do uniforme de Sakura Kinomoto que olhava, absorta, para a montra colorida da pastelaria Mikako, iluminada pela luz brilhante dos candeeiros de rua. O objecto que os olhos pareciam querer devorar era um pequeno bolo de chocolate, coberto de pepitas e de um líquido fluído, de um tom castanho claro. Ao lado estavam dois bolos de morangos, grandes, brancos e com pequenos morangos adornados por o que parecia ser uma neve de açúcar. Atrás duas tortas de maçã. À direita, bolinhos de arroz numa bandeja de vidro. Se o Céu existisse, estava à sua frente. Aproximou-se um pouco mais, ajeitando a sua mochila. Pôs uma madeixa do seu cabelo cor de mel, escurecido pela noite que começava a cair. Cheirava a canela e mel, cheiro proveniente do interior da pastelaria, agora vazia e prestes a fechar.
Sakura-chan, até parece qu' um bolinho te estragava o visual… E aquele com caramelo parece tão bom…
Hoeee Kero-chan, não sejas chato, até parece que tenho dinheiro que chegue… Sakura suspirou, enquanto a sua mão alcançava a pequena bolsa, dentro do seu casaco de colegial. Como esperava, pela magreza da bolsa, nem uma moeda lhe restava.
Se não tivesses comprado aqueles elásticos para o cabelo…
Sakura decidiu ignorar a voz irritante que ecoava na sua cabeça e avançou pela rua fora, com o andar levemente cansado, fruto de duas horas extra de treino. A pastelaria Mikako era a nova sensação da cidade e Sakura já há algum tempo que queria comprar um daqueles bolos para Otou-san provar e levar para a Universidade, já que passava cada vez menos tempo em casa, com as investigações in-situ, para as quais era chamado frequentemente. Sorriu enquanto pensava no rosto meigo e cansado do Otou-san, com sombras escondidas atrás dos olhos, enquanto ele lhe contava tudo o que se tinha passado durante os dias em que tinha ficado fora. Sabia que Otou-san providenciava tudo para que nada faltasse a Sakura enquanto ele estivesse fora. E Onii-chan estava na faculdade… Bem longe, em Tokyo. Ele e Yukito-san.
Um esboço de um sorriso tonto apareceu na cara de Sakura. Yukito-san…
Não se tinha afastado nem cinco metros quando ouviu um enorme ribombar de caixas a cair algures atrás de si.
"Hanyaaa!"
Virou-se assustada e correu para a pessoa que as deixara cair, bloqueando totalmente a rua com a imensidão de caixas de cartão. A pessoa em questão estava ajoelhada e esfregava o braço esquerdo com algum ardor.
"Daijoubu? Não se magoou?" Sakura baixou-se, tirando a mochila dos ombros, e estendeu a sua mão para o ombro do que agora via ser um jovem adulto de cabelos castanhos, vestido com o uniforme de empregado. Assim que lhe tocou no ombro, o jovem retirou-lhe a mão e pôs-se de pé, murmurando um simples obrigado, com uma pequena vénia. Um pouco embaraçada, Sakura virou-se para as caixas caídas e apanhou algumas das pequenas, empilhando-as de novo.
"Para onde quer que eu as ponha?"
O jovem não olhou para ela, demasiado ocupado a fechar os caixotes abertos, com o conteúdo espalhado pelo chão. Sakura reparou nas mãos estranhamente morenas, adornadas por mangas abertas, enquanto colocava pequenos embrulhos com todo o cuidado por cima de pequenas caixinhas brancas.
"Deixe-as aí por favor."
Do lado esquerdo de Sakura, a porta da pastelaria encontrava-se aberta, embora vazia. O rapaz tinha tentado levar as caixas empilhadas para dentro da pastelaria, algo difícil até para o melhor dos equilibristas. Suspirou, olhando para o ar aflito do rapaz que tentava desesperadamente compor os tampos das caixas e não perder nada do seu conteúdo. Sorrindo, a garota pegou em três caixas e dirigiu-se para dentro da loja.
"Posso pô-las em cima da bancada?" Gritou, olhando à sua volta. Era a primeira vez que entrava na pastelaria. Não era um espaço grande, de facto. Era uma pastelaria circular, com uma bancada envidraçada reluzente, com rebordos verdes, já sem bolos. As cadeiras estavam empilhadas em cima das mesas, de madeira. As paredes estavam repletas com pinturas relativas a bolos e outras iguarias. Do tecto pendia um antigo candelabro, com pequenos véus caídos, que davam agora um ar sinistro ao lugar. Olhou para a porta pintada de verde, com um pequeno sino em frente dela.
O garoto, ainda ajoelhado, olhou para ela, visivelmente incomodado. As sombras do passeio escondiam-lhe os olhos. Pegou novamente num monte de caixas que lhe tapavam a cara e, obstinadamente, levou-as para dentro da pastelaria.
"Não era preciso incomodar-se, a sério. Eu trato disto."
Sakura sorriu. O garoto não parecia ser muito mais velho que ela. Saiu da pastelaria e agarrou na sua mala e nas caixas que restavam. Ao conseguir equilibrar duas bastante grandes deu-se conta que eram muito mais pesadas do que aparentavam.
Não vai correr bem Sakura-chan… Não vai correr CUIDADO COM A PAREDE!
Sakura apenas sentiu uma forte colisão que a fez bater com a cabeça e tombar para trás. Segurou as caixas com força e esperou o embate no chão. No entanto, ao deixar relaxar o corpo, sem sentir dor alguma, ficou espantada por o pavimentado ser bastante confortável. Sentiu um cheiro adocicado a cacau e baunilha a invadir-lhe os sentidos. Algo forte se mexeu para a frente da sua cintura. Uma mão morena.
"Eu disse-lhe que não era preciso incomodar-se." Um suave sussurrar atrás de si fê-la aperceber-se que tinha sido sentada no chão e que alguém a agarrava pela cintura, de um jeito firme. Ainda com os olhos fechados, e com o corpo a tremer do susto, Sakura virou-se para trás, para balbuciar um gomen nasai arrependido. No entanto, não o pôde fazer porque algo macio e frio se encontrava bem perto dos seus lábios. Num momento, tudo o que viu ao abrir os olhos foi o olhar espantado do garoto, enquanto ele a largava, caindo ele próprio para trás e ela a afastar-se, ainda no chão, derrubando as caixas que transportavam.
Sakura olhou para o pavimento, enquanto se levantava e murmurava desculpas em surdina. O garoto levantou-se e transportou as restantes caixas, parecendo um autêntico robot. Por segundos, Sakura pensou que realmente o tinha ofendido com a sua insistência. Compôs a saia preta, retirando-lhe algum pó. Sentiu que o sangue lhe fervia nas faces, deixando-a com calor, apesar de o Sol já se ter posto há algum tempo e de uns tons azuis-escuros terem começado a tingir o céu.
Entrou dentro da pastelaria, receosa, e parou atrás do garoto. Este pegava agora num pano e passava-o pela bancada. Sakura podia jurar que o garoto ouvia o coração dela a bater, como um comboio quando se aproxima.
De repente, o jovem virou-se para trás, fazendo com que o seu cabelo castanho (Sakura via agora que era da mesma cor que aquele bolo com avelãs) se despenteasse um pouco, e fitou-a nos olhos. Eram grandes, líquidos, do mesmo tom dos cabelos, com sobrancelhas escuras que os tornavam mais frios, contrariando o calor que parecia vir dos mesmos.
Oi, Sakura-chan, vamos embora… O garoto é estranho, não gosto dele.
"Não precisa de se incomodar mais. Espero que não se tenha magoado quando caiu. E, sobretudo… " Notou-se um ligeiro, realmente ténue, rubor nas faces morenas. "… Que não tenha levado a mal aquilo que aconteceu."
Sakura sorriu, timidamente. O garoto falara num tom de voz adulto e severo, bem diferente daquele que lhe tinha dito que não era preciso apanhar as caixas.
"Ah, não se preocupe, já estou mais que habituada a cair no chão!" Falou baixinho, começando a recuar para sair. O garoto avançou para ela.
Ok, já se desculparam mutuamente, podemos ir embora?
"Não me referia a isso."
Ela olhou para ele, inclinando a cabeça para um lado. Estaria ele a referir-se àquele encontro de caras?
"Nani?"
Ele suspirou, virando-se novamente para qualquer coisa que estaria escondida bem para dentro de uma caixa, cheia de papelinhos e plásticos, que agora começavam a preencher o espaço que rodeava os sapatos do garoto. Sakura tentou espreitar o que estaria na caixa, mas achou melhor começar a despedir-se e começou a dirigir-se para a porta, agarrando na mesma. O sininho tocou.
"Melhor eu ir… Peço desculpa pelas caixas…"
O garoto continuou a remexer dentro da caixa.
Vamos Sakura-chan…
Abriu mais a porta e encaminhou-se para a rua, ainda à espera de um cumprimento da parte do garoto. Mal pôs um pé no pavimento, uma mão agarrou-lhe o braço, fazendo-a virar para trás.
O garoto estava atrás de si, com algo que parecia uma flor de cerejeira de chocolate na sua mão direita. Sakura olhou para o pequeno doce e sorriu, murmurando apenas qualquer coisa como "está muito bem feito". Tinha cinco pétalas, recortadas tal como uma verdadeira. No centro tinha pequenos pontinhos a fingir de pólen. A própria flor parecia ter sido simplesmente banhada em chocolate, porque as pétalas não se encontravam esticadas, mas sem dobradas para cima, como uma flor real. Uma verdadeira maravilha em ponto pequeno. No entanto, o encontro estava a tornar-se demasiado insólito e ela só queria correr para casa. Sentiu suores frios a escorrerem-lhe pela espinha abaixo.
Sem sorrir, o garoto pegou no chocolate com os dedos e levou-o aos lábios da garota, roçando-o apenas. Se tivesse sorrido ou murmurado qualquer gentileza, Sakura teria de bom grado aberto a boca num jeito divertido, agradecendo em seguida e ter-se-ia ido embora. Assim, ela retraiu-se apenas, com o braço ainda preso. O chocolate mantinha-se ainda à frente da sua boca, sem se mover. Olhou os olhos do rapaz, da cor do chocolate trabalhado – uma cor quente, quase avermelhada, com pequenos brilhos. Como dois pingos enormes de chocolate numa superfície marmórea. Dois pingos que pediam paciência, tempo. Pediam refúgio. Hipnotizada, Sakura inclinou-se para a flor e deixou que a sua boca a cobrisse e que as pontas dos dedos do garoto lhe tocassem nos lábios.
No momento em que Sakura deixou que o chocolate se derretesse na sua boca (quente, com um sabor doce e ao mesmo tempo forte a cacau, canela e, oh, caramelo, como se, de repente, tivesse provado seda, de tão suave que era), o garoto largou-a e um esboço de um sorriso apareceu na sua face, iluminada apenas pelo candeeiro de rua.
"Que tal estava?"
Ainda a saborear o doce, Sakura olhou-o com estranheza. A voz tímida e de um jovem voltara, bem como o tom moreno.
"Sou eu que os faço e este foi o primeiro que me correu realmente bem…É muito complicado fazer com que o caramelo não endureça dentro do chocolate quando o trabalho…"
O medo de Sakura dissipou-se. O garoto era estranho, sem dúvida, podia não bater até bem da cabeça, mas talvez isso se devesse a um desejo enorme de ser bom na arte da pastelaria. Sorriu, de uma maneira que achou encorajadora.
"Estava divinal, nunca comi chocolate tão bom como este…"
Aí, o garoto deixou descair os ombros, revelando o cansaço. Um novo rubor subiu-lhe às faces. Endireitou-se de seguida.
"Peço desculpa se a assustei… Só queria recompensá-la pela ajuda que me deu."
Da garganta de Sakura soltou-se uma gargalhada de alívio e algum constrangimento.
"Ora essa, sou eu quem tem de pedir desculpa…" Saiu da pastelaria, sem tirar os olhos do garoto. Sorriu e acenou. "Ja ne."
Ele apenas lhe acenou, voltando para dentro da pastelaria e desapareceu na escuridão. Sakura correu pelo passeio fora, fazendo com que os seus sapatos fizessem um barulho rouco no pavimento. Agora, o céu estava todo de um tom azul-escuro e as primeiras estrelas despontavam.
Quando chegou, finalmente, ao quarto e se atirou para a sua cama fofa e quente decidiu que os olhos do garoto não eram como pingos de chocolate… Eram como pingos de caramelo.
Se havia coisa que o Clã Li lhe apontava desde pequeno, era a sua curiosa incapacidade para comunicar decentemente com garotas. Não que lhe fosse muito necessário, como diziam, ele só precisava delas para se "inspirar"… Não tinham ficado muito satisfeitos quando repararam que o seu quarto estava vazio e que não havia sinais dele. Morram agora, cobardes.
Tinha apagado todas as luzes da cozinha, arrumado todo o material de cozinha que chegara e o seu uniforme estava impecavelmente dobrado dentro da sua mala. Em cima dela, uma pequena pasta de plástico cobria as palavras CV. Acariciou-o ao de leve. Só Deus sabia o quanto aquilo lhe tinha facilitado a vida.
Olhou em seu redor, inspeccionando tudo. Já podia ir para casa. Dentro da sua cabeça vagueavam ainda imagens do insólito encontro daquela tarde com uma garota de olhos verde-esmeralda. Tinha a certeza que a tinha assustado e estava verdadeiramente arrependido de o ter feito, mesmo que não o quisesse. Mas era estranho que alguém lhe tocasse, ou tentasse ajudá-lo…
Um rasgo de dor passou-lhe na cabeça e Syaoran tentou apoiar-se na mesa que estaria algures à sua esquerda. A sua visão ficou turva e os seus globos oculares pareciam querer explodir algures dentro da sua cabeça. O seu punho embateu contra a parede, enquanto Syaoran arquejava em sofrimento, com a outra mão na garganta. Tinha passado demasiado tempo, tempo a mais desde a última vez que… Que fora aquilo que era agora, sem escolha ou fuga possível.
A sua garganta estava seca e cada golfada de ar que respirava era como facas afiadas que o trespassavam. E, no entanto, o seu coração batia, lento, num compasso de marcha fúnebre. Como se fizesse troça dele.
Deixou que as pernas cedessem devagar, enquanto se agarrava à bancada, em busca de uma garrafa de água. Uma picada atravessou-lhe o peito, fazendo-o arquejar mais e mais. Os seus olhos arregalavam-se-lhe, querendo sair das órbitas. Quando alcançou a garrafa, dentro de uma gaveta, os seus membros paralisaram, subitamente. Não conseguia ver, tudo estava turvo e escuro. A tremer, embateu contra a bancada, numa estúpida tentativa de fazer com que a gaveta caísse. O esforço valeu-lhe uma forte dor no ombro. Caiu no chão, impotente e com convulsões.
Na sua mente ecoavam cânticos e uivos. A sua pele estava em brasa e parecia pulsar.
Não, hoje não, Deus tende piedade, hoje não…
Na sua mala estava a chave, ele sabia disso. Tentou chegar-lhe com a mão a tremer. Assim que sentiu o peso frio, rastejou até à porta, sentindo sangue na sua boca. Fechou-a, atirando-se contra ela e conseguiu dar uma volta à chave.
Depois, deixou-se escorregar e cair para o chão.
A última coisa que ouviu foi "Sempre a tentar ser maior que os outros, não é, Pequeno Lobo?"
