Nota: As personagens desta fanfiction são da autoria de Masami Kurumada.

"APÓS A TEMPESTADE..."

Capítulo 1 – "Prelúdio"

Por Blue-haired girl Amamiya.

15 de agosto. Uma data memorável. Era o aniversário de Ikki Amamiya, namorado de Mino Nakayama. Felizmente, naquele ano, aquela tão importante celebração coincidia com um sábado. De acordo com a previsão meteorológica do noticiário da noite anterior, o dia seria de sol, com possibilidade de chuva à tarde. O relógio de ponteiros em cima de um pequeno criado-mudo de madeira escura, que dividia o espaço com alguns famosos livros da literatura inglesa, marcava nove horas da manhã. E, apesar de ser relativamente cedo para um fim de semana, Mino já se arrumava para sair. O clima de verão a fizera escolher uma blusa rosa clara, sem gola e sem mangas, para combinar com uma bermuda jeans, que chegava até os joelhos. Prendia seus cabelos médios, azuis, enquanto uma outra moça se enrolava ainda mais nos lençóis brancos com estampas florais. Eiri, sua melhor amiga há tempos e com quem morava junto naquela quitinete, situada em uma cidade litorânea popular entre os turistas, acordara com o barulho do chuveiro, mas recusava-se a levantar da cama. Percebendo o desconforto da loira, que costumava dormir tanto quanto a princesa Bela Adormecida dos contos de fada, Mino quebrou o silêncio:

- Bom dia, Eiri. Desculpa por te tirar do mundo dos sonhos tão cedo, em pleno sábado...

- ... dia... – murmurou, sonolenta. – Aonde vai?

- Vou fazer compras... Vou comprar o presente de aniversário do Ikki e, depois, vou ao supermercado... Quer alguma coisa de lá?

- Não, acho que não... O que você vai comprar pro Ikki? – perguntava, agora curiosa.

- Na verdade, ainda não sei... Você tem alguma sugestão? – a moça de rabo de cavalo sorria.

- Não faço a menor ideia... Ei, o namorado é seu... – Eiri ria.

- Tudo bem, futura senhora Alexei Hyoga Yukida. – Mino disse ao pegar sua bolsa de tecido bege a tiracolo. – Ah, e o café já está pronto na cozinha. Acho que devo voltar até a hora do almoço... – calculava.

- Tá... E, Mino... – falou, quando esta se aproximava da porta.

-Sim?

- Traz sorvete pra mim? – pedia a amiga de cabelos dourados, com o rosto inocente. – De chocolate! – acrescentou.

- Pode deixar... Tchau, Eiri! – a senhorita Nakayama respondeu, com um sorriso, calçando seu par de tênis.

- Tchau! – a namorada do advogado russo se despediu de sua praticamente irmã e retornava ao universo de Hypnos, satisfeita...

Do lado de fora do prédio humilde, a moça de trajes simples retirava sua bicicleta azul do estacionamento. Os planos para a comemoração dos vinte e nove anos de idade de seu amado Ikki mudara a rotina das duas: Mino, em geral, esperava por Eiri para irem ao centro e resolverem tudo o que não conseguiam durante a semana. Ambas trabalhavam em uma escola primária, eram professoras. A loira lecionava ciências e era fascinada também por música. Sabia tocar piano muito bem. Mino ensinava língua inglesa para as crianças e seu hobby era ler romances. "Se eu não fosse professora, seria escritora..." – pensava.

Ao começar a pedalar em seu precioso meio de transporte, ela passava por uma avenida que tinha vista para o mar. Era seu trajeto favorito em direção às ruas dos estabelecimentos comerciais que frequentava com sua grande amiga. Porém, que exigia bastante cuidado e atenção, pois o tráfego de veículos era quase sempre intenso. Eiri, da mesma forma, apreciava o belo oceano que podia ser observado dali. Entretanto, não gostava de se arriscar a andar de bicicleta em meio aos carros. Havia uma ciclovia, logicamente... Que, na sua opinião, ainda era perigosa. Insistia para que Mino não fosse por aquele caminho... Quando uma fazia a companhia da outra, seguiam por um bairro residencial. Só que a dona das madeixas azuladas era teimosa. Sozinha, não se importava em se locomover por aquela área...

Ikki abria seus lindos olhos azuis. Despertara devido aos raios de sol que infiltravam pelo quarto, através das cortinas acinzentadas. Vivia em um luxuoso apartamento, localizado em uma região nobre da cidade, um dos frutos de seus esforços como diretor executivo de uma multinacional alemã. Há um ano, seu querido irmão mais novo, Shun, morava com ele. Mas, após o casamento com June, os irmãos Amamiya se separaram pela primeira vez. Os casados decidiram partir para os Estados Unidos. A recém integrante da família era uma típica norte-americana, de cabelos louros que contrastavam com os verdes de seu marido. Segundo o último telefonema de Shun no final de julho, ele e a esposa eram agora proprietários de um pequeno restaurante japonês em Nova Iorque. No entanto, o que realmente contava era a felicidade que sentiam.

Sem pressa alguma, o rapaz se levantava da enorme cama para apanhar seu sofisticado celular sobre uma cômoda. Eram dez e meia. E o aparelho registrava duas mensagens de texto não lidas. Uma era do irmão, dizendo que ligaria mais tarde para conversarem, porém, já lhe parabenizando pelo aniversário. O outro recado fora enviado por uma remetente muitíssimo especial... As congratulações eram de sua namorada, Mino. Para não perturbar seu sono, ela optara por digitar aquelas palavras gentis, que mexiam com seu coração... O Amamiya mais velho não era romântico, nem meloso. Era um homem prático, racional. O que não significava perda total de sensibilidade... Apenas possuía um certo grau de dificuldade para demonstrar seus sentimentos com clareza... Algo que mudava, devagar, pela influência da mulher que amava, sem sombra de dúvida. No passado, Ikki sofrera com a morte de Esmeralda, a garota loira e meiga que o ensinara a amar... Depois de sua viagem sem volta, o adolescente, na época, enfrentara obstáculos quase intransponíveis para ele... No momento em que se tornara adulto, transformara-se em alguém que buscava relacionamentos superficiais, evitando qualquer vínculo afetivo. Extremamente bonito, forte e inteligente, o que não lhe faltava eram candidatas dispostas a satisfazê-lo... Envolvera-se com várias... Até conhecer Mino.

Sua simplicidade, sua doçura e inclusive sua timidez o conquistaram por completo. Sua beleza era notável, mesmo que ela negasse. Talvez não fosse voluptuosa... Não, de fato, não era. Era verdadeira, original, e capaz de se sobressair justamente por isto. O rapaz e a moça de cabelos azuis chegaram a se entregar, de corpo e alma, um para o outro... Unir-se a ela, em todos os sentidos, foi a melhor vivência de Ikki desde que se deixou levar pelo sofrimento... Mino era o melhor presente que poderia ter recebido... Se dependesse dele, jamais permitiria que sua namorada o abandonasse... Tomá-la-ia para si, seria sua esposa para sempre...

O toque de seu celular o tirou de sua breve divagação. "Será a Mino?" – imaginava. Na mensagem, além dos parabéns, ela avisava que faria compras e que viria ao seu apartamento. Terminaria seus afazeres e telefonaria para saber a que horas poderia vê-lo. Verificou o número da chamada. Desconhecido... Atendeu.

- Alô?

O interlocutor, entretanto, não proferiu uma palavra sequer. O aniversariante tentou novamente, com sua voz grave.

- Alô?

- Ikki... – falou a pessoa do outro lado da linha. – Que bom ouvir você... – a mulher parecia chorar.

- Pandora? – estava chocado. Como ela descobrira seu número de telefone atual? O que ela queria? – O que houve? Por que está chorando?

- Ikki, eu preciso muito da sua ajuda... Por favor... – implorava.

Atordoado, o irmão mais velho de Shun consentiu...

Pandora Heinstein. Jovem alemã, mas de mãe japonesa. Os pais eram incrivelmente abastados, uma das famílias mais ricas da Alemanha. Existiam rumores de que, entre seus bens, incluía-se um castelo da era medieval... A única herdeira dos Heinstein era considerada uma das beldades mais cobiçadas – informavam as colunas sociais dos jornais daquele país. Ademais sua conta bancária milionária e seu talento para dedilhar a harpa, sua aparência era motivo de inveja para o público feminino. Cabelos longos, lisos e negros; olhos de um tom exótico (lilases naturais)... Sua face era bela e o corpo, escultural... Mas, tanta perfeição dissimulava uma personalidade difícil. Poderia se mostrar dócil para os privilegiados por ela... E cruel com quem fosse indigno ou indigna de sua requisitada atenção. Para Ikki Amamiya, Pandora não media regalias...

Os dois tiveram uma relação quando este participava de um programa de intercâmbio na Europa. Ele investia em um curso de pós-graduação em Administração e ela estudava Música. Frequentavam a mesma universidade em Berlim. Sobrava atração física entre ambos, porém, faltava um sentimento genuíno de amor... Pandora fora a última namorada de Ikki antes de Mino. A harpista o manipulara a acreditar que era uma moça frágil e que seria incapaz de lidar com o fim do relacionamento. Isto ainda o incomodava bastante, apesar de o rompimento fazer aproximadamente cinco anos... O remorso por não poder lhe dar o que dizia desejar era um fardo. Culpava-se porque ele a usara: era este o argumento mais forte dela... Foi o motivo que o impulsionou a aceitar se encontrar com a senhorita Heinstein na praça em frente à praia, pois ela estava hospedada no hotel de cinco estrelas à beira-mar...

O céu já indicava que um temporal cairia. Os sinais eram as nuvens escuras, que pareciam carregadas o suficiente para se desmancharem em gotículas de água em breve naquela tarde... A melhor amiga de Eiri Dunst caminhava, trazendo sua bicicleta consigo. Não resistira à tentação de se aproximar um pouco mais do litoral. Não estava tão cheio de visitantes quanto de costume. Comprara o agrado para seu namorado em um antiquário. Uma estatueta de bronze da Fênix, a ave mitológica que renasce das cinzas. Não sabia explicar exatamente a razão, entretanto, achara que o objeto possuía afinidade com seu futuro dono... Por ser pequeno, ela o guardara em sua bolsa de pano. Na procura pelo presente ideal, gastara o dobro do tempo que previra... Em acréscimo, Seiya, seu amigo desde a infância, e a esposa Saori também aproveitavam o sábado para as compras, pela vinda do primeiro filho, Kouga. Por acaso, o casal se deparara com a moça de cabelos azulados em uma das ruas e, empolgado, lhe contara os detalhes da mais recente consulta com a obstetra. O bebê nasceria somente em meados do mês de dezembro, mas, marinheiros de primeira viagem que eram, queriam caprichar em tudo... Mino suspeitava que o menino seria parecido com o pai, de olhos castanhos... Da mãe, esperava que herdasse a calma e a elegância. Precisaria aguardar a chegada do novo membro dos Ogawara para confirmar... De qualquer forma, ela o adoraria... Amava crianças...

O destino seguinte seria o supermercado... Não podia esquecer a encomenda da loira que partilhava a quitinete e os momentos marcantes de sua vida, a sobremesa predileta dela – o sorvete de chocolate. Preparava-se para ir até a loja... No entanto, algo lhe chamou a atenção. Ao observar a praça adiante, à esquerda do calçadão em que estava, reconheceu a silhueta masculina. Alto e forte, vestindo uma camiseta preta e jeans, com seus fios azuis rebeldes ao vento suave... Sim, nunca se enganaria. Era Ikki. "Que sorte!" – pensava. Assim, poderia lhe entregar o bonito embrulho e lhe cumprimentar pessoalmente pelo aniversário, com abraços e beijos apaixonados, como sempre... Ante esta possibilidade, a namorada sorriu. Porém, reparou que havia alguém com ele... Aproximando-se da cena, notou que era uma mulher. Uma belíssima mulher... Morena, com um vestido azul-marinho, com certeza de grife, que realçava suas curvas... Mino sentiu vergonha de si mesma, naquelas roupas simplórias...

Pandora acabava de explicitar ao antigo amante a situação complicada que a afligia – situação forjada por sua mente perspicaz... Relatara, em poucas palavras, que, naqueles cinco anos após o término do tórrido caso que tiveram, ela tentara se relacionar com outros homens da sociedade... Mas, nenhum se comparava ao seu ouvinte... Para piorar, um deles teria ficado obcecado pelos encantos de Heinstein e a perseguia. Segundo a milionária, manter seguranças ao seu redor era inoportuno e não era a solução. O que solucionaria, de fato, seria reatar o romance com Amamiya. Afinal, ao lado de Ikki, o rapaz, inglês, perceberia o quão insignificante era lutar por seu coração: que pertencia eternamente àquele estudante de pós-graduação que saíra do Japão para morar na Alemanha... Esta parte era autêntica. Na verdade, a moça de cabelos negros distorcera sem pudor as informações sobre o suposto perseguidor...

Tratava-se de um dos mais respeitáveis advogados de Londres, Radamanthys Wyvern. Beirava a casa dos trinta. Seu tipo físico assemelhava-se ao de Ikki Amamiya, com relação à altura e à força. No entanto, o cabelo revolto era loiro e os olhos, castanhos. As peculiares sobrancelhas, que formavam somente uma única linha, eram uma característica marcante de Radamanthys. Era real que nutrira sentimentos sinceros por Pandora. Trabalhara prestando seus serviços advocatícios para sua família e fora enfeitiçado pela jovem... Tanto o senhor quanto a senhora Heinstein aprovavam o namoro, se o rapaz solicitasse. Era de boa índole e reservado... Contudo, infelizmente, a filha o desprezava... Cansado das constantes humilhações, Wyvern desistiu. Demitiu-se e, de volta à capital inglesa, abriu um escritório de advocacia com dois grandes amigos, colegas de faculdade. A eficiência e a honestidade os levaram a um sucesso merecido.

Ikki escutava o relato da ex-namorada sem esboçar emoções. Gostaria de ajudá-la, se lhe fosse possível... Só que o pedido dela era um tremendo absurdo! Em hipótese alguma, cogitaria se distanciar de sua Mino. Além disto, fora a própria harpista que causara aquilo. Recordava-se da sedução proposital que ela utilizava para se exaltar diante das pessoas... Ele mesmo fora vítima de suas artimanhas... A resposta era definitivamente não.

- Sinto muito, Pandora... Mas, nessas condições, não posso fazer nada por você. – disse, com firmeza.

- Por que, Ikki? A gente sempre se deu tão bem... – persistia a linda moça. – Ou você se envolveu com mais uma?

- Não é "mais uma". É a mulher com quero viver, até o fim da minha vida. – o fiel namorado da senhorita Nakayama se pronunciou. – Pandora, se esse seu admirador a incomoda tanto, por que não pede ajuda aos seus pais? Estou certo de que eles não vão te negar nada... – por fim, sugeriu.

- Você está se dirigindo a mim como se eu fosse uma criança... – começava a se irritar. Respirou fundo, para manter o controle. – Então, você não vai me ajudar mesmo... – completou, com a voz pesarosa.

- Não. Não desse jeito. – o Amamiya mais velho repetiu, convicto.

Resignada, a alemã perguntou, mudando o rumo da conversa:

- Posso, ao menos, te dar os parabéns pelo seu aniversário?

- Tudo bem... – Ikki concordou, visivelmente aliviado pela conformação dela.

O rapaz de cabelos azuis manteve-se em pé, imóvel. Imaginava que seria parabenizado com a singeleza de um abraço de Pandora. Esta diminuiu a distância entre eles ao avançar alguns passos em sua direção. Todavia, sem que pudesse reagir, a morena encostou seus belos lábios de um rosa delicado nos seus.

Naquele exato instante, Mino, que presenciara o desenrolar dos acontecimentos há poucos metros da praça à beira-mar, não suportou mais. Nunca venceria uma concorrente tão superior a ela... Com lágrimas em seus olhos verdes intensos, pôs-se sobre sua bicicleta e saiu, em sentido contrário. Voltaria para o conforto de seu pequeno lar... O restante das compras poderia esperar...

Seu namorado, entretanto, fora leal a ela. Segurou a insistente senhorita Heinstein pelos ombros e a afastou com impaciência.

- O que pensa que está fazendo? – falou, aborrecido.

- Fazendo a minha vinda até aqui valer a pena. – a moça com o olhar atrevido rebateu, sem medo.

Nervoso e arrependido amargamente por ter se disponibilizado a atender às extravagâncias da pobre menina rica, Ikki Amamiya partiu. Não se despediu da harpista.

Observações:

Olá, caros leitores! =)

Em primeiríssimo lugar, o meu "Muito Obrigada" por terem acompanhado o Capítulo 1 da minha mais recente produção "Após a tempestade". =D

"Prelúdio", como o próprio subtítulo já diz, é uma caracterização do contexto (Universo Alternativo) e das personagens. Um pouco mais de ação ocorrerá nos próximos episódios – em um total de cinco, provavelmente. Para quem se interessar, na data em que editei esta fanfiction, finalizei o terceiro capítulo e estou no quarto (bem, na verdade, sendo mais específica, eu estou na sala da minha casa...rs)... Brincadeiras à parte, o Capítulo 4 foi começado, sim. =) Apenas necessito editar os dois textos anteriores para postá-los aqui...

Caso alguém tenha notado alguma semelhança com a minha outra história, "Misunderstanding", não é mera coincidência. Na realidade, havia pensado em incluir este mal-entendido naquela fic... Mas, achei que seria um grande exagero e desisti. A ideia persistiu e quis aproveitá-la... De um jeito incrementado e estranho, resolvi colocá-la em prática...rs Peço desculpas por alterar a nacionalidade da Amazona de Camaleão, June...

Novamente, agradeço a vocês, de coração, pela paciência. =D

Até breve,

Blue-haired girl Amamiya.