Foi um dia cheio, o tempo passou correndo. Quando Flug resolveu olhar as horas, já se aproximava das cinco da tarde.
Ele tinta tantas coisas para fazer que mal sabia por onde começar.
Não havia tempo para pensar- Tinha que terminar a porcaria do protótipo.
O laboratório estava virado numa bagunça e ele não encontrava de jeito nenhum a chave de fenda. Era difícil até de andar naquela confusão sem tropeçar em alguma coisa. A mesa, bem a mesa nunca foi lá um lugar organizado, mas havia tanta sucata — o que restou dos outros protótipos que explodiram — que o cientista se pegou surpreso com o seu mais novo recorde de desleixo.
Quem no mundo, contudo, se preocuparia com organização quando um demônio nada compreensivo esperava pelo fim do prazo, pelo ponteiro bater às seis horas, ansioso para conhecer a nova engenhoca que venderia, uma arma, um desintegrador funcional capaz de reduzir qualquer herói às cinzas, seja do que ele for feito- Ou quem sabe um cientista atrapalhado, uma pedra no sapato.
— Ele vai me matar — era o único pensamento que flutuava dentro daquele saco de papel suado, exasperado. Precisava terminar aquilo, precisava muito.
Jogou tudo o que encontrou pelo chão para o alto, sem se importar com o que acertaria ou quebraria. Ele não tinha tempo para ser cuidadoso. Eram blueprints, frascos, sucatas, todos os tipos de ferramentas... Mas nada da chave de fenda.
Olhou o relógio. Cinco e dez.
Lamentando sua sorte, Flug parou para respirar fundo, raciocinar uma alternativa, mas só conseguiu pensar em como começaria a cavar a própria cova.
Foi quando notou uma pilha de jornais velhos perto da mesa.
Ele se lembrou de não ter descartado aquele lixo porque pretendia usá-lo para ensinar 505 a não fazer suas necessidades em qualquer lugar, quando, de repente, percebeu a chave de fenda bem ali, caída ao lado.
Passou a mão na ferramenta e correu para a mesa, para o protótipo. Levantou a cabeça para ver as horas: o ponteiro marcava cinco e meia.
Meu deus o tempo voa.
Apertou parafuso por parafuso, consertou a mira, verificou a carga pelo menos quatro vezes.
Agora sim, desta vez não explodiria. Ele tinha certeza.
Então, incerto entre se sentir satisfeito por ter consertado todos os defeitos que encontrou ou sentir agonia por quem sabe se deparar com outros ainda desconhecidos, o Dr. Flug se levantou da cadeira com a sua mais nova invenção em mãos e a apontou diretamente para a porta.
A porta era feita de chumbo e, se os seus cálculos estivessem certos, um único disparo a reduziria num monte de pó.
Tentou não pensar muito sobre isso, pois sua mente era a rainha do pessimismo. Talvez Black Hat não gostasse da ideia, afinal a casa era dele, mas o cientista fingiu não se importar.
A porta que se dane, era agora ou nunca.
Ele apenas deslizou o dedo para o gatilho e-
— Dr. Flug! — surgiu de repente à voz rouca que só podia pertencer ao capeta, abrindo a porta do laboratório — Dr. Flug, onde esta a minha arma?! Já são seis e vinte!
Os olhos do cientista se arregalaram e a alma pulou pela garganta.
Ele sentiu o gatilho afundar, era tarde demais.
Flug abriu a boca para gritar, avisar o chefe, qualquer coisa- Mas antes que algum ruído subisse a garganta, nada aconteceu.
Por deus nada aconteceu.
Levou um tempo para processar a informação, mas quando ele enfim percebeu o ocorrido, soltou o gatilho e observou a arma em silêncio, incrédulo.
Foi por tão pouco. Que alívio ele sentiu, arrepiando-se.
— Então? — da porta, a impaciência de Black Hat, junto a careta de desprezo que o demônio fez para a bagunça do laboratório, o lembrou que aquilo significava que o protótipo era um fracasso e ele iria morrer.
— Uh, senhor... — o cientista engoliu em seco, encolhendo os ombros — E-eu... Me desculpe, mas..
— Mas?!
— Eu estava terminando o protótipo e a regularem, eu acho que ela-
— Você ainda não terminou?! — Black Hat levantou a voz, largando a batente da porta para vir na direção do cientista.
Flug se encolheu ainda mais.
— N-não, senhor- Espera, por favor — ele recuou cautelosamente, com medo que a distancia a mais entre eles deixasse o demônio ainda mais irritado. A arma abraçada ao peito como uma mãe que protege o filho — Ela funciona- Eu juro! Eu só preciso de mais tempo, eu-
As garras de Black Hat vieram antes que ele pudesse implorar mais, agarrando-lhe do colarinho e o levantando do chão.
— Eu te dei um dia inteiro! — Black Hat rugiu, balançando Flug como uma boneca de pano. O cientista só conseguiu gemer amedrontado em resposta — Uma porcaria de um dia inteiro, Flug!
— D-desculpe — ele conseguiu dizer, já levantando as mãos protetoras em direção ao rosto, rezando para que o soco que viria não doesse tanto.
O demônio, no entanto, escolheu jogá-lo no chão.
Seu corpo acertou a lajota num baque surdo, longe de bater a cabeça no chão. Pelo menos ele estava começando a aprender a cair com as mãos para baixo de tanto ser arremessado.
— Seu inútil! Idiota! — veio à destilação de ódio em seguida — A única razão para eu não te quebrar inteiro agora é que eu tenho mais com o que me preocupar! — Black Hat rosnou, chutando o cientista, que gritou mais pelo susto do que pela dor — Levante-se, anda! Eu não tenho à tarde inteira!
Num esforço para se levantar, Flug se apoiou na mesa.
— Você tem sorte que o meu cliente só vai chegar mais tarde — o demônio apontou o dedo afiado, ameaçador — Eu vou te dar mais uma maldita hora para terminar isso ou eu juro que vou fazer algo muito desagradável com você, entendeu?
— Sim... Chefe — ele murmurou, cabisbaixo.
— Ótimo — Black Hat resmungou, agora mais calmo, tomando um tempo silencioso para endireitar a postura e a gravata — E antes que eu me esqueça, tem mais uma coisa.
O cientista respirou fundo.
E como quem estivesse começando a se divertir com aquilo, o sorriso malicioso já ia crescendo no canto da boca do demônio.
— Você vai dar um jeito de ocupar Demencia e 505 até a meia noite.
Flug estalou, soltando um grunhido frustrado. Ele não iria aceitar isso.
— Ah, senhor- Pelo amor de deus, ninguém merece conviver com Demencia por mais de meia hora nesse mundo!
Black Hat não conteve uma risada.
— É sério que você vai apelar para deus logo comigo?
— V-você entendeu! — ele retrucou, desviando o olhar para esconder sua irritação — Eu posso lidar com 505, m-mas Demencia não, senhor- Ela é insuportável!
— Não ouviu o que eu disse, seu idiota? — o sorriso largo, revelando todos os dentes afiados, então apareceu — Eu vou ter visita! Clientes, Flug! — e, transbordando o que parecia ser excitação, acertou um tapa 'amigável' no ombro do cientista, que por pouco foi arremessado de novo — E eu vou vender alguma coisa esta noite nem que seja a tua alma!
— Ouch...— foi tudo o que o cientista conseguiu dizer, esfregando o ombro ferido.
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Quando às sete horas chegaram, Dr. Flug já não estava mais no laboratório.
Apesar do esforço, ele não tinha chegado a uma conclusão sólida do porque a arma não era capaz de disparar- Ou sequer explodir como as outras.
De qualquer forma, ele se lembrou de enfiá-la no bolso interno do jaleco e de pegar algumas ferramentas antes de deixar o único lugar naquele inferno que podia encontrar silêncio e harmonia.
Agora na cozinha, ele resolveu dar mais uma olhadinha rápida enquanto preparava duas xícaras de chocolate quente muito "específicas".
Mas ao ouvir um grito agudo e energético vindo do corredor, ele não pensou duas vezes e escondeu o protótipo de volta sob o jaleco.
Com Demencia todo cuidado era pouco.
E falando no diabo, ela adentrou a cozinha pela porta, se esgueirando pelas paredes.
Flug arregalou os olhos ao vê-la. O tempo era curto até ela perceber o que ele estava fazendo- Ou pelo menos tentando fazer.
Do bolso de trás da calça, ele retirou um pequeno saco plástico cheio de comprimidos coloridos. Colocou duas doses cuidadosas numa xícara porque, bem, era o suficiente para derrubar um urso adulto, mas já a destinada à pervertida de cabelo cor-de-rosa, ele despejou o saco inteiro.
Os comprimidos boiaram sobre o líquido viscoso, se recusando a desaparecer. Flug, desesperado, se esforçou para dissolvê-los os espancando com uma colher.
Quando ele foi se dar por conta, ela já estava no teto, em cima dele.
— Yuummm~ — e dali ela desceu se jogando sem o mínimo de cuidado, quase acertando o cientista. O cheiro de chocolate intoxicando seu organismo como uma droga.
Flug recuou ligeiramente. Se ele queria que aquilo funcionasse, então ele pelo menos precisava fazer com que aquilo parecesse real.
— Hei, hei! Tire suas mãos daí! Isso não é para você, Demencia! — ele tentou afastá-la, estapeando de leve as mãos inquietas delas.
Ela gritou de surpresa ao ser acertada, recuando os braços, mas soltou uma risadinha mal intencionada em seguida.
As mãos da garota então vieram de novo, mais ansiosas do que antes, e Flug tentou resistir insistentemente. Era para ser engraçado, inocente, mas ele tinha esquecido por um momento que quando Demencia começa a se divertir, a brincadeira acaba.
De repente eles estavam estapeando um ao outro de verdade.
— Para, Demencia! Chega !— ele grunhiu, furioso, ao ser acertado bem no meio do rosto — Tá bom, tá bom! — e envolveu os braços em torno de si mesmo para se defender. A garota não parou — Você ganhou, chega disso!
Demencia bateu mais algumas vezes antes de empurrá-lo com força para o lado. Flug saiu tropeçando nas próprias pernas.
Rindo baixinho, ela já ia se apoderando da xicara destinada a 505 quando Flug se pronunciou, jogando as mãos em direção a ela, nervoso:
— H-hei, essa daí não! Essa não é para você- Er — a garota ergueu uma sobrancelha, olhando diretamente para ele com uma expressão cheia de diversão e malícia — Sem a-açúcar- Você gosta de açúcar, não gosta? Essa é para o chefe, ele não gosta- Tá lembrada?
— Você fez chocolate quente para o Black Hat?
— S-sim...
— Ele gosta dessas coisas?
— E-eu penso que sim...?
— Mesmo? — o sorriso dela se alargou.
— Sim — o cientista forçou o ar pela boca, num suspiro trêmulo, relaxando os ombros. Ele precisava manter a calma — Agora, se você vai roubar uma das minhas xícaras, por favor, leve a outra. O chefe vai me bater muito se eu demorar mais- Você sabe disso.
Em vez de se compadecer, no entanto, Demencia só conseguiu rir em resposta.
— Eu sei! — ela revelou com alegria, levando a outra xícara, para o alívio de Flug, até a boca, bebendo um gole antes de continuar: — Eu adoro quando ele bate em você. Black Hat é tão sexy quando fica zangado!
O cientista fez uma careta, fazendo a garota rir ainda mais.
Então, sem qualquer aviso prévio, ela deixou sua xícara calmamente sobre a mesa antes de agarrar a de 505 e sair correndo como um raio pela cozinha.
— Hei, o que você esta fazendo?! — Flug gritou, virando-se para encontra-la na porta, prestes a desaparecer pelo corredor.
— Ué, mas é simples! — ela sorriu com um olhar ligeiramente maldoso — Quando eu der isso para o chefe, ele vai me amar! — e, de repente, do nada percebeu que aquilo não fazia muito sentido — ...Uh, ou vai te esmagar como um inseto por ter demorado tanto e eu vou ficar olhando porque- Eu já disse que ele é muito sexy?
— Demencia! — veio o grito de Flug e a garota disparou, cacarejando.
Sem outra alternativa senão impedi-la, o cientista correu atrás dela.
Se aquela maluca entrasse nos aposentos de Black Hat enquanto ele atende um cliente, meu deus... Meu deus do céu! Ele não precisaria mais de um pacote para encobrir a cabeça, pois ele sequer teria uma!
No corredor, 505, distraído com sua limpeza noturna, ouviu a risada de Demencia e os palavrões enfurecidos do cientista se aproximarem.
Flug já estava ficando sem fôlego de perseguir Demencia quando, a garota, que derramou metade da xícara em si mesma ao fugir, começou a desacelerar, cambaleando com uma risada exaurida.
Ela estava prestes a parar quando Flug se jogou, pegando-a pelas costas. A xícara voou longe e quebrou. Os dois caíram no chão e rolaram num combate cheio de risadas, tapas e xingamentos. O urso, inerte bem ali em frente, ficou chocado.
— Hummm, mas o que é isso, hein? — ela balbuciou, confusa, meio chapada pelo medicamento, ao apalpar o jaleco do cientista, enfiando a mão atrevida dentro da roupa do outro para tocar o que parecia ser a silhueta de uma arma.
— Tira a mão daí! — ele lutou, mas estava por baixo dela e, embora Demencia estivesse perdendo suas forças, ela ainda era mais forte do que ele — Para! Não toque nisso, maldita! Argh!
Sabia que nada adiantaria protestar, mas continuou gritando, irado. Demencia puxou facilmente a arma para si, rindo sem graça enquanto sua outra mão, ocupada, segurava o cientista preso no chão, se debatendo e reclamando loucamente.
Com a visão turva, a mente embebida em calmante, ela apontou a arma para a cabeça de papel de Flug.
— Oh, ótimo! — ele rosnou — Vá em frente, exploda minha cabeça, retardada!
Uma vez incentivada, Demencia até cogitou a ideia, mas no fim acabou levantando a mira, desta vez se concentrando no pobre urso azul, que gritou e correu em pânico, jogando a vassoura para o alto.
Sim, seria definitivamente mais engraçado atirar nele.
No que puxou o gatilho, a ponta da arma começou a brilhar e Flug arregalou os olhos.
Oh, não, não!
Ele teve um tempo precioso de adrenalina para girar em torno dela, a empurrando para baixo. Demencia errou o disparo, que saiu no que pareceu ser um inofensivo raio colorido, até acertar a parede bem ao lado deles, a explodindo por completo.
A casa inteira estremeceu num estrondo poderoso, ensurdecedor, que terminou por derrubar os escombros em cima dos dois azarados.
Quando a nuvem de fumaça escura subiu, Flug ainda teve um segundo de consciência para se perguntar o que diabo havia acontecido.
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Não foi Black Hat quem chegou ali primeiro.
Mas foi ele quem, reclamando de alguma coisa que Flug não era capaz de ouvir, apareceu sob a cortina de poeira escura, numa silhueta embaçada, confusa, puxando o cientista semiconsciente de baixo do monte de ruinas que se transformou a parede do corredor.
O capturou pela gola da camisa, erguendo-o.
A cabeça de papel do outro pendeu para o lado. Os olhos relutaram em abrir. A consciência foi despertando anestesiada, tonta, tão amortecida quanto Demencia devia se sentir com o efeito da medicação.
Demencia...
Onde ela esta...? O que aconteceu...?
A voz do demônio, no entanto, despertou-lhe a audição, quebrando seus pensamentos:
— Flug, você conseguiu! — o sorriso de Black Hat parecia verídico... Talvez alegre- Ou... Orgulhoso? O cientista não podia ver claramente, pois tudo de repente estava girando, desfocado.
A arma- O protótipo estava bem ali, nas mãos dele... Rodopiando por entre os dedos de unhas pontiagudas.
Black Hat estava finalmente contente com uma de suas invenções...?
Piscando os olhos com dificuldade, Flug não era capaz de responder.
— Eu não disse? Mas é claro que eu disse! — o demônio então de repente virou a cabeça para encontrar alguma coisa que o cientista não podia ver, largando-o de qualquer jeito no chão empoeirado, tomado por destroços.
Desta vez ele não teve energia para cair com as mãos para baixo, deixando um gemido estrangulado escapar ao bater nas pedras.
Talvez não tão contente assim, afinal.
— Você nunca mais vai ter problemas com heróis, eu garanto — o demônio afastou-se, gesticulando para além do campo de visão de Flug. Ele parecia tão cheio de confiança- Tão narcisista como de costume — Um disparo só vai acabar com qualquer idiota que se colocar no caminho. Ninguém sobrevive a isso!
— Ninguém sobrevive... Hm? — perguntou uma voz desconhecida, maliciosa. Flug arrastou a cabeça na direção dela, tendo a impressão de ver, através da parede de poeira escura, uma figura desfocada, demoníaca, sorrir para ele.
