Um dos vários esboços perdidos nesse computador. Achei que valeria a pena publicar.


Memento Mori
Recorda-te que morres

O menino que brincou de Cristo


A boca que outrora louvava, agora profana. Inda que as mãos tuas ainda devotem-se à divina arte de salvar almas, o santíssimo mascara o Diabo em Messias. A própria Dama em ébano lhe predissera o santo do quadro. O santo que levaria a salvação a seu mundo. E, para o santíssimo artista, uma sacerdotisa envolta no negrume da noite, em mistérios e presságios, de lábios cruéis em carmim. Um beijo para derruir. Um beijo para demarcar. E ele sabia que aquele beijo seria a sua ruína.

Um menino que desafiou uma eternidade por ele desconhecida, confinando deus em seu estojo de paixões e medos. O tespiano em sua perfeição atuou o papel de mártir, encenou o cinismo ou, talvez, a hipocrisia. E, nas horas vagas, vertia sangue em tinta, pintando mentiras no meridiano azul. Ele, fingindo ser deus, esqueceu que morria. Fingia a realidade tão bem que estava além da atuação. Esqueceu que morria. Mesmo sozinho, esqueceu que morria. No fim, quando morreu e, talvez por auto anamnese, recordou-se de que não era deus, santo, messias, nem diabo – apenas e somente humano – nem sua sacerdotisa estava lá para saudá-lo com palmas. Sem galardão final, sem coroa de louros, sem glória.

Lembrou-se do beijo.


Piegas. Um conjunto apelativo de bobagem e palavras esquisitas. Críticas, sugestões, palavras de baixo calão, review.