Disclaimer: Inuyasha pertence à Takahashi Rumiko.
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A GRAVAÇÃO
"I get a little bit nervous around you
Get a little bit stressed out
When I think about you
Get a little excited
Baby, when I think about you, yeah…"
(Shawn Mendes – Nervous)
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- Você deveria se declarar para Sesshoumaru.
Eu quase cuspi a cerveja estava tomando depois dessa frase. Felizmente consegui evitar o vexame e engoli o gole de Budweiser através de uma série de tossidas, batendo a mão na mesa para tentar controlar o espasmo de acertar um tapa na cabeça de Kagome Higurashi, minha melhor amiga.
- Você ficou louca, Kagome?
- Por que isso deveria ser uma loucura? Vocês vão juntos para o trabalho quase todos os dias, são vizinhos… Isso quando não ficam conversando um tempão, o que é um grande passo. Afinal, quem diabos não fica intimidado perto de Sesshoumaru? Ah, já sei! Você. – E então Kagome me olhou com um sorrisinho feliz, juntando as mãos ao me encarar.
Arqueei uma sobrancelha, disfarçando meu embaraço. De repente encarar a madeira do balcão parecia muito mais interessante.
- Isso não quer dizer nada. Sesshoumaru… - Parei para lembrar do objeto da nossa conversa. O objeto alto, de ombros largos, olhos maravilhosamente dourados, cabelos longos, compridos e prateados, voz grave, cheiroso, inteligente… - Sesshoumaru está saindo com Kagura. Nunca aconteceria nada entre nós. – Me obriguei a voltar para o mundo real, balançando a cabeça para os lados.
Não era segredo para ninguém que eu era apaixonada por Sesshoumaru. Aliás, vamos reformular a frase: não é segredo para meus amigos que eu sou apaixonada por ele. Convivi com muitos anos vendo Kagome e Inuyasha brigando igual duas crianças para então ficarem noivos, e nem entrarei em detalhes sobre Sango estapeando Miroku pelos cantos até eles engatarem num relacionamento que começou no ensino médio e que dura até hoje. No meio disso tudo, havia eu e Sesshoumaru girando os olhos ou rindo dessas pequenas confusões. Estávamos sempre juntos, lado a lado. Eu não me intimidava perante a presença dele e ele aparentemente gostava do meu jeito meio estabanado e tímido. Desse modo, como éramos parte do pequeno grupo que havíamos formado ao longo do tempo, estávamos sempre juntos.
A princípio achei que era apenas uma paixonite aguda. Afinal, que garota nunca havia tido secretamente uma paixão pelo poderoso, imponente e lindo Sesshoumauru Inokuma? Nenhuma, obviamente. A lista de admiradoras de Sesshoumaru era enorme. Havia muitas, muitas mesmo. E ele, que não era nada bobo, tinha saído com boa parte delas. Acontece que no meu caso a paixonite boba havia se revelado sólida e forte, a ponto de eu ficar nervosa, gaguejar e suar frio quando o via. Era sempre constrangedor e tinha nos distanciado um pouco. Mas era melhor assim, provavelmente.
- Você não se vê claramente, Rin-chan! Kagura é uma mulher superficial. O que ela e Sesshoumaru têm é casual. Você por acaso já o viu apresentando ela para alguém como namorada? Além do mais, você é linda! – E então, subitamente Kagome ficou de pé e me fez levantar junto com ela. Arregalei os olhos, alarmada. – Olha pra você mesma! Não há motivo para não tentar, bobona!
Nós estávamos sentadas diante do balcão do Shikon Jewel, bar cujo dono não era ninguém menos do que Miroku. Era tipo nossa segunda casa. Estávamos sempre por ali. A parede onde o barman ficava era toda espelhada, de modo que consegui me visualizar sem maiores problemas.
Eu não era muito alta, mas costumava compensar isso usando salto alto vez ou outra. Meu cabelo era comprido, escuro e liso, me alcançando a cintura em ondas levemente aneladas. Para suavizar o corte, havia uma leve franja sobre meus olhos. Kagome dizia que eu tinha um rosto delicado, mas na realidade eu sempre me achei meio miúda demais. Ainda sim eu gostava do meu nariz arrebitado e dos meus olhos. Não que houvesse nada demais neles, eram castanho-chocolate, mas eu sempre tinha achado a parte mais bonita de mim.
- E se você retocar esse batom vai ficar mais linda ainda! – Só notei que Kagome tagarelava porque ela segurou meu queixo.
- K-chan, pare de surtar. – Bufei, tirando a mão dela do meu rosto. – Vamos pra casa, você está começando a ficar bêb…
- Nada disso! – Kagome me olhou indignada. Assim que se sentou, ela me puxou, me fazendo cair sentada ao lado dela. – Vamos treinar essa declaração!
- O quê? Tá doida, criatura? Eu vou embora, não adian…
- Jakotsu, desce mais uma!
Jakotsu, um grande amigo nosso e barman, que até então estava ocupando provavelmente flertando com alguém, surgiu do absoluto nada com um balde de gelo lotado de cerveja.
- Qual a comemoração, queridas?
- Rin-chan vai se declarar para Sesshoumaru!
- O QUÊÊÊ? Até eu vou beber! Finalmenteeee!
- Eu não vou me declarar coisa nenhuma, vocês estão ficando malucos! – Eu sentia minha cara inteira pegando fogo só de pensar nessa hipótese.
- Qual é Rin-chan, você tem que tentar querida! Imagina que casalzão maravilhoso você e o Sesshy-delícia vão formar!
- Vocês esqueceram que estamos falando de Sesshoumaru?
- E daí? Já vi ele te dando umas olhadas nada inocentes! – Kagome gargalhou. A maldita já estava bêbada, não era possível.
- Eu também! – Jakotsu entrou na onda de Kagome, rindo de se acabar atrás do balcão.
Passei a mão pelo rosto, não acreditando no que eu estava ouvindo.
- Não vou me declarar para ninguém.
- Vai sim menina, tome aqui um golinho. O álcool entra e a verdade sai, não se preocupe! – E então Jakotsu me empurrou uma caneca enorme de cerveja.
Encarei aquele copo enorme de cerveja gelada e suspirei. Minha vida amorosa era um marasmo. Eu estava nessa de estar apaixonada por Sesshoumaru a tanto tempo que mal conseguia me lembrar da última vez em que estive perto dele sem tentar lidar com frustração, medo, ciúmes, inveja e até ressentimento. Estava cansada de carregar um sentimento tão grande e suas consequências gigantescas sozinha. Eu não sabia se ele tinha conhecimento sobre isso, e não pretendia me declarar, mas talvez eu precisasse de um porre. De vez em quando é bom.
Sem dizer nada, dei uma boa golada na cerveja.
E aquele foi meu último vislumbre de sanidade numa sexta-feira extremamente gelada de outono-quase-entrando-no-inverno. Depois daquela caneca houve outras muitas e, em certo ponto da noite, o bar estava apinhado de gente e eu estava bem louca abraçada a Kagome e Jakotsu cantando "Boogie Wonderland" enquanto minha cabeça girava. Eu estava tonta a ponto de pensar que as baratas se sentiam assim quando levavam uma chinelada de seres humanos. E estava tonta porque na verdade estava em pé pulando igual uma retardada.
- K-chan… Eu…
- Você é maravilhosaaa! – Jakotsu me interrompeu. Eu não sei quem tinha assumido o lugar dele, mas alguém havia o colocado ali dizendo que ele tinha tentado improvisar um moonwalk mal sucedido e que tinha se estatelado no chão ou algo assim. Eu estava ocupada mandando mais um canecão de cerveja para dentro, não vi esse fatídico momento. Mas de repente fazia sentido, já que Jakotsu estava mancando. – Entendeu? Maravilhoosaaa!
- Jako-kun! – Comecei a rir e o abracei. – Você… Você… É… Incrível… - Eu comecei a rir de novo. Eu era esse tipo de bêbada.
- Onde está a K-chan? – Jakotsu, com o braço ao redor dos meus ombros, olhou em volta para logo em seguida soltar uma gargalhada espalhafatosa. – Meu Deus, ela está dançando! Olha aquilo, Rin-chan!
E eu cometi o erro de olhar. Kagome estava no meio da pista fazendo uma dancinha ridícula ao som de, que Deus nos ajude e isso não vá parar no Youtube, Sweet Dreams, do Eurythmics.
- Jesus… - Foi tudo que consegui balbuciar.
Rimos muito aquela noite. No alto da madrugada estávamos os três escorados no balcão rindo molemente. Nenhum de nós tinha a menor condição de fazer qualquer coisa naquele momento.
- Então… Estamos fugindo do que nos propusemos a fazer! – Kagome, como sempre, estava fazendo uso da pilha Duracell que ela tinha, porque não havia explicação lógica para alguém continuar tão animado depois de tudo que havíamos bebido. A sensação que eu tinha era que toda cerveja do mundo estava em meu corpo. – Vamos… Wic!… Ensaiar a… Wic!… Declaração!
Girei os olhos. Eu não conseguia fazer muito mais do que isso.
- K-chan… - Comecei a rir. -… Isso… Isso… Não vai acontecer.
- Vai sim. – Jakotsu endireitou a postura e me puxou para cima, me fazendo ficar escorada nele e em Kagome. – Vamos, bota isso pra fora! – Ele deu um tapa na minha cabeça.
Comecei a rir de novo, jogando a cabeça para trás. O álcool estava no comando quando eu me endireitei e agarrei o celular da mão de Kagome.
- Ok, vamos falar então, nesse inferno. – Respirei fundo, e então me senti encorajada o suficiente para ir em frente. – O que posso dizer? Eu sou apaixonada por Sesshoumaru Inokuma. – Botei pra fora de uma vez e, para meu completo espanto, isso me fez sentir um imenso alívio. Continuei a falar, dessa vez mais convicta. – Eu sou completamente apaixonada por um sujeito que sequer me nota e que provavelmente me vê como uma menininha boba que integra o fã clube dele. – Gargalhei alto, mas dessa vez havia uma ponta de amargor. – Eu não consigo mais guardar isso comigo. Eu sou apaixonada por alguém frio, que todos têm medo, mas que me faz sentir borboletas no estômago e euforia apenas por simplesmente me olhar. Porque quando ele me olha eu sinto que minha alma está exposta e que meus ossos estão derretendo. Sesshoumaru enxerga quem eu sou de verdade. Eu tenho quebrado minha cara todos esses anos, mas a cada vez que eu o vejo eu me apaixono mais um pouco.
Eu comecei a rir ao entregar o celular para Kagome, mas para minha surpresa, nem ela e nem Jakotsu riram.
- O quê? – Balbuciei, confusa.
- Ah, Rin-chan. – Kagome finalizou a gravação e me abraçou. Jakotsu se juntou ao abraço coletivo. – Você… Wic! É boa demais… Wic… Para esse mundo.
Não entendi direito a razão da frase, mas os abracei de volta. Depois disso, nos entreolhamos e começamos a rir de novo, como os três idiotas que éramos naquele momento.
Não sei direito como, mas em algum ponto da madrugada nos colocaram num táxi. Depois de uma última rodada de sakê, e eu não sei ao certo quem havia nos dado aquela última garrafa, resolvemos ir embora. Como éramos praticamente "da casa/bar", alguém nos colocou em táxis e deu nossos respectivos endereços.
O resumo é que quando desabei na cama, não fazia ideia de como o dia seguinte iria bagunçar minha vida totalmente.
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Dia seguinte…
- Rin-chan, você está atrasada!
A voz estridente de Kagome me fez afastar o telefone da orelha. Massageei levemente minha têmpora direita enquanto colocava o celular no viva voz. Não era seguro conversar com qualquer coisa perto do meu crânio naquele momento.
- Kagome, me deixe em paz. – Resmunguei, abraçando meu travesseiro. – Eu estou de ressaca! C omo você pode estar tão bem? – Choraminguei, molemente.
- Meu fígado é calejado. Não mandei você beber loucamente noite passada. Ande, levante logo e se arrume. Hoje é o jantar de aniversário de Inuyasha!
- Inuyasha sobreviverá sem mim.
- Rin-chan! Deixe de ser pinguça! Sabe tanto quanto eu que Inuyasha sentiria sua falta!
Gemi em resposta. Eu já tinha vomitado minha alma, tomado todo tipo de remédio pra ressaca imaginável, mas minha cabeça continuava a doer como se houvesse uma bomba atômica explodindo dentro dela. Fora isso, eu estava extremamente sensível à luz e a sons altos, para não falar do enjoo. Parecia que eu tinha sido surrada por uma garrafa gigante de cerveja portando um taco de beisebol igual ao de The Walking Dead. Bizarro, eu sei. Mas a sensação era essa. O álcool havia me dado uma surra.
- Okay. – Suspirei, depois de notar que Kagome estava silenciosa do outro lado da linha. Ela fazia isso quando estava brava. - Te vejo no apartamento de Inuyasha daqui a pouco.
- Obaa! Até já, Rin-chan!
E desligamos. Eu demorei basicamente uns dez minutos para conseguir levantar e andar como uma criatura normal. Precisei de mais uns minutinhos para me deslocar até o banheiro e perdi um bom tempo debaixo do chuveiro. Mas quando saí, me sentia um pouco melhor. Mandei um remédio para dor de cabeça para dentro e bebi muita, muita água mesmo enquanto escolhia o que vestir.
Como estava terrivelmente frio, me enfiei num vestido vermelho de lã que ficava alguns dedos acima do meu joelho, meia calça preta também de lã e botas de cano curto. Por cima de tudo vesti meu sobretudo mais quentinho e o fechei até o pescoço. Sorte que ele era acinturado e não me fazia parecer um cabide ambulante.
Quanto ao cabelo, apenas o sequei. Para não parecer um fantasma de ressaca, usei rímel, delineador e batom. Era o máximo que Inuyasha iria ter de produção minha aquela noite.
Pretendendo não depender e nem tampouco fornecer caronas, dado o meu humor aquele dia, fui de táxi. Mais ou menos meia hora depois eu estava sentada confortavelmente no sofá da sala da casa de Inuyasha enquanto ele discutia com Kagome alguma coisa sobre ela ser uma bruxa louca. Ou seja, sem novidades.
Com um suspiro, levantei, pretendendo ir ao banheiro checar minha roupa. Eu tinha me livrado do sobretudo e estava um pouco arrependida da escolha do vestido. Estava o achando meio justo demais.
- Feh, chega disso. Estou com fome. – Subitamente Inuyasha também levantou. – Por que não podemos comer logo?
Nesse momento a porta da frente se abriu.
- Sesshoumaru ligou avisando que já está chegando! – Sango anunciou, surgindo ao lado de Miroku no apartamento. Eles tinham acabado de chegar de algum lugar, provavelmente de uma adega, já que ambos tinham pacotes de bebidas nos braços. Reconheci de longe que eram garrafas de vinho. – Oi, pessoal! E uau, Rin-chan está maravilhosa!
Fiquei vermelha na hora, sem graça.
- Deixe de ser exagerada, Sango. – Cruzei os braços, desconfortável.
- Está linda mesmo, Rin-chan! – Miroku sorriu de um jeito animado, e então me deu uma checada maliciosa. – É hoje que mata o cara de lua do coração!
- Ela poderia estar vestida num saco de pão que aquele idiota não notaria. – Inuyasha bufou, se intrometendo na conversa. O olhei surpresa.
- Inuyasha! – Kagome deu um sonoro tapa no braço dele. – Insensível!
- Feh, eu estou do lado dela, bruxa! Pensa que eu não gostaria que aquele babaca namorasse alguém bacana como a Rin?
Franzi o cenho, espantada. Não esperava aquele gesto de Inuyasha. Na realidade, ninguém esperava também.
- Alguém deveria ter gravado isso. – Sango entoou, e então começou a rir – Vamos levar essas bebidas para a cozinha, gente.
Kagome e Inuyasha se prontificaram a ajudar Sango e Miroku e eu acabei me deixando cair de novo no sofá. Deus, ressaca é simplesmente a pior desgraça que pode ocorrer a um ser humano. Por isso me resignei a ficar em silêncio, massageando minhas têmporas enquanto jurava que eu jamais beberia novamente.
Alguns instantes se passaram antes do silêncio ser interrompido pela campainha. Tudo o que pude ouvir em seguida foram as vozes de Inuyasha, Sango e Miroku num animado "atende aí, Rin-chan!" alto o suficiente para eu achar que minha cabeça ia explodir igual uma panela de pressão. Jesus amado, por que eu bebi tanto mesmo?
Suspirei, balançando a cabeça diante da pergunta. Eu nem queria pensar na resposta, então apenas me encaminhei até a porta e abri de sopetão sem me incomodar em parecer mais apresentável.
Foi um erro, obviamente. Porque do outro lado da porta estava um cara alto, cujos olhos dourados pareciam ouro derretido. Um cara de cabelos longos e prateados que emolduravam um rosto arrasadoramente lindo. Um cara que tinha sido a razão do meu porre na noite anterior. Sesshoumaru, é claro.
Imediatamente senti meu estômago gelar.
Mal sabia eu o que aquela noite iria me proporcionar…
"Eu fico um pouco nervoso perto de você
Fico um pouco tenso
Quando eu penso em você
Fico um pouco animado
Querida, quando eu penso em você, sim"
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N.A: Olá, pessoal! Quanto tempo não apareço por aqui, não é mesmo? Me desculpem mesmo. Não tenho tido muito ânimo para escrever, mas mesmo assim queria postar algum presentinho de Natal porque vocês super merecem! Então encontrei essa história que estava mofando há algum tempo no meu pc decidi investir nela. O que vocês acham que vai acontecer com nossa querida Rin-chna? Muahahahah. Quem viver, verá!
Deixem reviews por favor! Elas serão fatores determinantes para a postagem do próximo capítulo, hihi.
Beijo grande para vocês,
Mille Evans
