Esta fanfic é inspirada em alguns jogos de RPG dos quais eu participei muitos anos atrás. Estou numa fase de reviver bons e antigos momentos. O resultado é esta fic. Espero que gostem.
Capítulo 1: A Origem
Meu nome é Ikki Amamiya e esta é a minha história:
Vejamos... Já faz quanto tempo? Uns dez anos?
Sim; eu tinha por volta de 19 anos quando finalmente deixei o vilarejo.
Não sei se eu poderia chamar aquele lugar de lar.
É certo que lá foi onde me criei como pessoa. Onde eu tive um pai e uma mãe e outras pessoas que sei que se preocupavam comigo.
Mas lá nunca foi o local com o qual me identifiquei.
Eu nunca me senti realmente em casa.
Eu sempre quis sair de lá.
Não; minha vida não era terrível. Nem sofri grandes traumas. Apenas não conseguia me sentir completo.
Sequer consigo me recordar de quando foi que comecei a me revoltar. Sei apenas que essa sensação, de não me encaixar, de não sentir que faço parte... Essa sensação parece me acompanhar desde sempre.
O vilarejo em que vivi até os 19 anos é um lugar completamente isolado do mundo. As pessoas que moram lá gostam que seja assim. Os fundadores do lugar idealizaram a pequena vila como sendo um refúgio. Um pedaço de mundo onde a vida fosse boa, pura. Onde as pessoas fossem honestas, onde a humanidade ainda não tivesse se perdido de si mesma.
Entretanto, ninguém era obrigado a viver ali. Só ficava quem realmente quisesse. E, de fato, bastantes pessoas vinham de muito longe para viver naquela terra tão distante de tudo e de todos. Essas pessoas ficavam sabendo da existência do lugar quando algumas delas, por algum motivo, abandonavam a vila. As pessoas que iam embora do vilarejo tinham suas razões, mas elas nunca deixavam aquele local com raiva. Pelo contrário, havia muita gratidão e também bastante reconhecimento. Todos sabiam do que aquela vila representava e, se tinha uma coisa que ninguém jamais faria, era acabar com o lugar. Por isso, aqueles que iam embora somente falavam a respeito da vila e de sua existência sigilosa quando encontravam pessoas em quem sabiam poder confiar, indivíduos que demonstrassem o quanto saberiam valorizar aquele povoado.E isso tem dado certo desde sempre.
Mas, de todo modo, as pessoas eram livres para ir e vir. Ou melhor, poderiam ir e vir se fossem adultas e maiores de 18 anos. O vilarejo tinha regras. Uma criança não poderia ir embora de lá, a não ser que estivesse acompanhada de um adulto. O mesmo valia para um adolescente de 16 anos, por exemplo. Até que completasse 18 anos, teria de viver ali.
Nesse ponto, é tudo bastante compreensível. Segundo diziam os mais velhos, o mundo lá fora era cruel e uma pessoa teria de ter o mínimo de maturidade possível para sobreviver, caso desejasse abandonar o lugar em que nasceu e viveu e começar vida nova em outras paragens. Assim, estipulou-se essa idade como forma até mesmo de proteger aqueles que decidissem seguir outro rumo, outra vida.
Eu quis sair. Sempre quis. Não sei desde quando esse desejo existiu em mim, mas sei que sempre foi muito forte.
Meu pai faleceu quando eu tinha apenas 10 anos. Mesmo assim, eu me lembro bastante dele. Ele me ensinou carpintaria. Era seu trabalho no vilarejo e ele queria que eu herdasse seu ofício. Quando ele morreu, eu era muito novo; mesmo assim, dei continuidade ao aprendizado e cheguei a me tornar um bom carpinteiro. Essa poderia ser a minha vida por lá. Mas eu nunca quis isso.
Mesmo com todos da vila sabendo que meu sonho era ir embora, imaginando que, tão logo eu completasse 18 anos, iria desaparecer de lá, não foi o que aconteceu. Minha mãe, que nunca superou bem a morte do meu pai, era uma mulher muito frágil, que ficava doente com certa frequência. Ela precisava de mim. E eu a amava muito, ela era a âncora que ainda me prendia àquele lugar. Quando fiz 18 anos, ela adoeceu mais gravemente. Eu jamais poderia deixá-la. Permaneci ao seu lado até o último instante. Ela faleceu quando completei 19 anos.
Aí sim, eu fui embora. Não havia mais nada para mim ali. Juntei minhas coisas, uns poucos pertences, e parti.
Não posso negar que, ao sair, o susto foi grande. No vilarejo, a vida era quase medieval. Não tínhamos qualquer contato com o mundo externo. Os mais velhos da vila achavam que era melhor assim. Não tínhamos energia elétrica. Só para dar uma ideia, eu nunca tinha visto uma televisão até sair de lá. Mas, de certa forma, eu já esperava pelo susto. Eu sabia que o mundo fora da vila era muito maior do que eu poderia esperar. Eles não escondiam isso de nós. Todos tínhamos plena consciência de que a realidade fora do que conhecíamos guardava coisas que nem éramos capazes de imaginar. Porém, os mais velhos também falavam sobre os horrores dessa vida. Falavam de como, lá fora, as pessoas eram mais cruéis, egoístas, mesquinhas. Contava-se que, além do nosso pequeno mundo, a humanidade ia-se tornando mais e mais fria. Por esse motivo, muitos dos que nasceram no vilarejo nunca tiveram vontade de se aventurar e conhecer o que poderia existir do lado de fora.
Eu nasci no vilarejo, mas, por mais que ouvisse as terríveis histórias sobre esse outro mundo desde a minha infância, não pude evitar a curiosidade. Aliás, sempre foi mais que curiosidade. Simplesmente, eu não me sentia parte daquele lugar. Eu precisava de mais.
Então eu saí de lá. E literalmente conheci um mundo novo. Eram tantas novidades, tanto deslumbramento... Sim, no início fui feito de idiota algumas vezes. Mas aprendi rápido e aprendi inclusive a me tornar mais esperto que a maioria das pessoas que conheço. Consegui me virar. Não posso mentir e dizer que o processo de adaptação foi fácil, mas também não foi impossível. Eu tinha algumas habilidades. Não só a carpintaria; eu era bom de cálculo. Na escola que frequentei, eu era bom em Matemática - sim, tínhamos uma escola em nosso vilarejo. Mas íamos à escola apenas quando crianças e somente até aprendermos o básico: ler, escrever e fazer contas. De resto, o que realmente importava por lá era a parte prática. Saber caçar. Conhecer bem a mata que cercava o vilarejo. Saber quais eram as árvores cujos troncos formariam bons e resistentes móveis. Saber quais árvores estavam mais velhas, para usarmos sua lenha a fim de nos aquecermos no inverno. Conhecer os bons frutos, diferenciá-los dos venenosos e prejudiciais à saúde. Conhecer as plantas medicinais. Usar o algodão para fazer nossas roupas, que, às vezes, eram feitas das peles dos animais que caçávamos. Saber arar a terra. Conhecer bem as estações, para entender como e quando plantar. Esse tipo de conhecimento era passado dos mais velhos para os mais jovens. O mundo seguia assim e tudo parecia certo para os habitantes da vila. Mas não para mim.
Acredito que tudo começou a se tornar realmente insuportável quando eu conheci os livros. Sempre fui do tipo inquieto e, devido ao meu jeito de ser, nunca tive muitos amigos. Eu era diferente demais e, por isso, ficava mais isolado. Então, eu tinha o costume de ficar andando a esmo no meu tempo livre; de preferência em lugares mais vazios.
Foi assim que, um dia, eu descobri um depósito. Ficava em um armazém, onde guardávamos alimento e estocávamos o suficiente para o inverno. Eu estava por lá, andando sem rumo, quando descobri um alçapão no local. Entrei ali e descobri vários livros.
Eu nunca tinha visto um livro. Mas eu sabia ler e não hesitei em mergulhar naquelas histórias, que foram descortinando novos horizontes para mim. Creio que esse foi o maior contato que eu pude ter com o mundo externo antes de finalmente conhecê-lo de fato. Os livros tinham sido trazidos do mundo que os mais velhos quiseram abandonar. Talvez, em um primeiro momento, eles tivessem pensado em apresentá-los àqueles que nasceriam por lá, como forma de educar ou algo assim. Não sei ao certo. Mas acho que mudaram de ideia e decidiram mantê-los escondidos. Certamente perceberam o que poderia ocorrer: aqueles livros terminariam despertando curiosidade demais. No meu caso, aumentou a curiosidade já existente.
De qualquer modo, esse se tornou meu passatempo. Eu adorava ler. Era uma forma de fugir dali e ir para outros lugares. Em pouco tempo, li todos os livros ali existentes. Foi quando o desespero de me ver naquele lugar começou a crescer de uma forma insustentável. Minha obsessão por abandonar aquela vila tornou-se visível, já não dava mais para esconder. E acredito que os mais velhos compreenderam que isso tinha a ver com os livros. Quando eu estava arrumando minhas coisas para ir embora, dei um jeito de voltar ao depósito, porque queria levar alguns livros comigo. Alguns deles tinham se tornado verdadeiros amigos. Meu autor predileto era Julio Verne. Queria levar comigo as obras dele de que eu mais gostei: "Cinco semanas em um balão", "Viagem ao centro da Terra", "Vinte mil léguas submarinas", "A volta ao mundo em oitenta dias". Perdi a conta de quantas vezes li e reli esses livros. Mas o motivo para levá-los comigo era mais do que uma carinhosa lembrança; eu pretendia fazer deles uma espécie de guia. Ali havia lugares que eu queria conhecer. E, principalmente, eu achava que, com o conhecimento das fantásticas máquinas e engenhocas presentes nas obras, as quais Julio Verne tão incrivelmente apresentava, eu estaria preparado para o que o mundo me reservava lá fora.
Qual não foi a minha surpresa quando encontrei o depósito vazio! Nada, nenhum livro. Todos haviam sido retirados. Como eu disse, eles certamente terminaram por descobrir que eu tinha encontrado aquele local. E resolveram dar um jeito para que o meu caminho não fosse seguido por outros.
Não falei nada a respeito com ninguém. E ninguém falou sobre isso comigo. Foi como se nada tivesse acontecido. Não me despedi de ninguém; eu já havia perdido meus pais e eles não apenas eram a minha única família, como também foram as únicas pessoas com quem eu realmente me importava por lá.
Fui embora em uma manhã chuvosa. E nem olhei para trás.
Hoje, uma década depois, eu sinto que essa época da minha vida é tão distante que praticamente me parece uma outra vida. Quase não consigo me reconhecer.
Aliás, nem sei se conseguiria viver novamente naquele vilarejo. Longe de toda essa tecnologia, de todos os confortos que o século XXI oferece...
Por sinal, mesmo que eu tivesse conseguido trazer os livros de Julio Verne comigo, eles não teriam servido para me preparar para o mundo que eu conheci. Apenas depois de sair da vila é que eu compreendi que aqueles livros retratavam um passado já distante. Os livros que eu encontrei naquele depósito não foram poucos, mas a época mais recente retratada em suas histórias era o século XIX. Então, eu realmente não tinha noção do que era o mundo aqui fora.
Entretanto, eu me adaptei. Posso até mesmo dizer que me adaptei bem. Eu soube usar minhas habilidades a meu favor. Tudo bem que encontrei muitas dificuldades no caminho. Essa foi, possivelmente, a parte mais chata que eu descobri nesse mundo. É muita burocracia. Precisava de papéis demais; papéis que eu não tinha. Certidão de nascimento? Eu não tinha isso. Cheguei a pensar em ir atrás dessas coisas, mas era complicado demais. Resultado: nunca tirei uma carteira de identidade. A partir daí, dá para entender que eu nunca fui o tipo de cidadão regular. Não tenho documentos. E, sinceramente, nunca me fizeram muita falta. Certo; há alguns impedimentos por conta disso. Mas eu consegui sobreviver sem alguns luxos.
Eu não tinha um emprego fixo até então. Na verdade, durante muito tempo, eu nem tinha residência fixa. Viajei muito; era como se eu quisesse compensar o tempo perdido. Não viajava de avião, porque não teria como pagar e nem possuía documentos... mas isso não foi um problema. Sempre gostei de caminhar e era um verdadeiro prazer poder andar por lugares que eu nunca tinha visto antes. No meu antigo vilarejo, eu já estava cansado de andar sempre pelos mesmos lugares. Então, uma coisa que fiz muito - e que sempre adorei - era viajar a pé. Ir apreciando cada pedaço do caminho. De vez em quando, eu pegava uma carona. E fui muito longe assim.
Ganhar uns trocados para ir sobrevivendo enquanto viajava era tranquilo. Como eu disse, possuía algumas habilidades. E fui aprendendo outras. Trabalhei como garçom, atendente, balconista... A carpintaria me serviu bem também. E aprendi outros ofícios. Eu nunca ficava sem trabalho, mas também nunca fiquei muito em um emprego, apenas o bastante para tirar algum dinheiro. Mas quando trabalhei em uma garagem que consertava motos, eu adorei. Descobri uma paixão. O dono era um senhor de idade, os filhos é que consertavam as motos. Ele simpatizou comigo e, depois de quase seis meses trabalhando lá, quando eu senti que era hora de ir embora, ele me deixou levar uma moto velha que estava lá encostada. Eu mesmo a consertei e depois tratei de aprender a dirigi-la. Nunca tirei uma carteira de habilitação. Nem precisei; modéstia à parte, eu sou um excelente piloto.
E foi possivelmente esse fator que me trouxe hoje aonde eu estou.
Era madrugada e eu estava em uma parte mais remota da cidade. Por lá, apenas alguns bares frequentados por um pessoal mais barra pesada. Eu dirigia minha moto por uma estrada deserta quando, de repente, um homem é praticamente jogado na pista. Precisei fazer uma manobra arriscadíssima para não atropelá-lo, colocando até a minha vida em risco. Mas consegui. Depois desci da moto e fui verificar se estava tudo bem. O homem estava sendo amparado por outro e, quando me aproximei de ambos, eu levei um susto. Os dois eram iguais! Irmãos gêmeos, mais precisamente falando.
O que quase tinha sido atropelado por mim chamava-se Kanon. O outro atendia por Saga.
Os dois me contaram que estavam em um bar que ficava ali perto e que acabaram fazendo com que alguns homens no lugar perdessem a paciência, a ponto de o tal Kanon ser praticamente arremessado para fora do bar, indo parar na pista em que estávamos. Saga meio que deixou claro que, na verdade, o causador da confusão tinha sido o irmão, que não havia se portado muito bem no local. Eu dei de ombros e ia seguir meu caminho, mas os dois insistiram em me agradecer por não ter atropelado o Kanon. Por mais que eu dissesse que não precisava, eles insistiram e acabei aceitando que me pagassem uma bebida. Fomos então para um bar; obviamente não o bar de onde eles haviam sido expulsos.
Assim que entramos, todos os olhares de lá se voltaram para nós. Eu não precisei olhar ao redor para buscar o motivo; era meio óbvio. Aqueles dois irmãos estavam vestidos de forma extravagante demais para um lugar como aquele. Era notável não apenas que eles tinham muito dinheiro, mas que possuíam um gosto peculiar. Vestiam-se como modelos e como se estivessem em uma festa altamente badalada. Por sinal, Kanon conseguia estar ainda mais chamativo que Saga, por vestir cores mais vibrantes.
Um grupo de homens mal-encarados logo se aproximou de nós com um ar bastante hostil. Senti que os gêmeos atrás de mim ficaram um pouco tensos. Eu parei onde estava e apenas olhei aqueles homens firmemente. Depois de encará-los por alguns segundos, falei com a voz fria e pausada que os dois estavam comigo. Que eram negócios e que eu não queria confusão. Então segui para uma mesa vazia tranquilamente. Sempre tive um jeito de impor respeito com a minha presença, sem que precisasse de mais que isso. E quando eu lançava um olhar ameaçador, aí é que ninguém chegava perto mesmo. Graças a isso é que eu consegui sempre ter o meu espaço. Mesmo fora do vilarejo, eu mantive esse espaço, que sempre era respeitado. É algo inato, acho. E eu gosto de ser assim.
Enfim; minhas palavras, acompanhadas da minha atitude e do meu olhar foram suficientes, como sempre. Fui até a mesa sem problemas e os dois irmãos, percebendo que o ambiente agora lhes parecia mais propício, vieram atrás de mim. Assim que nos sentamos, eu pedi uma cerveja e não disse mais qualquer palavra. Estava apenas apreciando a minha bebida quando Saga me disse que eu parecia bem à vontade em um ambiente como aquele.
Não respondi nada, mas meu silêncio pareceu convidativo para os gêmeos. Eu não dizia nada, mas eles pareceram sentir-se à vontade para começar a falar. Disseram que aquele ambiente não era um com o qual estivessem muito acostumados - o que, obviamente, não foi nenhuma novidade para mim. Permaneci calado e Saga então contou que ele e o irmão eram atores. Celebridades, na verdade. Perguntaram-me se eu os reconhecia e eu disse que não. Cheguei a indagar em que filme eles atuaram, ao que me responderam que não tinham feito um filme, apenas uma série para TV. Como eu não vejo muita TV, não seria possível reconhecê-los mesmo, mas como ambos pareciam muito orgulhosos de seu trabalho, falei que um dia tentaria assistir ao programa deles. Eu tinha dito isso mais por educação, mas os gêmeos então me responderam que o programa já havia chegado ao seu fim há alguns anos e que, aliás, era exatamente por isso que estavam ali. Eles estavam com um projeto para um novo programa, uma série que os dois acreditavam ser o novo sucesso da TV. Eles estavam bem confiantes disso e começaram a falar a respeito. Segundo eu entendi, a série em que eles atuaram trazia os dois como protagonistas e irmãos, tal qual na vida real. Cada um tinha suas histórias que, por serem irmãos, terminavam sempre entrelaçadas de algum modo no programa. O novo seriado que eles queriam produzir giraria em torno de três irmãos e as histórias deles estariam, de alguma maneira, ligadas, até pelo fato de serem irmãos. Eu me lembro de ter achado muita graça disso, porque me pareceu que os dois programas seriam idênticos, já que a premissa parecia ser a mesma. Mas não cheguei a falar nada; terminei de tomar a minha cerveja e fiz menção de que iria embora. Já tinha ouvido muito o papo deles e a verdade é que eu já começava a sentir falta do meu espaço.
Kanon, percebendo o meu intento, segurou em meu braço e resolveu apressar o que eles estavam querendo dizer. Os gêmeos disseram que estavam visitando os bares daquela região porque estavam em busca de um ator para representar um dos irmãos. De acordo com o programa, um dos irmãos seria o tipo lobo-solitário, que vive com a cara fechada, sem amigos, cuja companhia inseparável seria sua moto. Estava achando o estereótipo curioso, enquanto eles me explicavam que por isso foram parar naquele lugar. Haviam até encontrado alguns tipos que poderiam se encaixar no papel, mas que os convites não foram muito bem recebidos. Então me disseram que, pelo que estavam vendo, eu parecia me encaixar perfeitamente no papel. Segundo eles, era como se estivessem vendo o personagem ganhar vida diante deles, ao olharem para mim. Achei aquilo tudo esquisito e surreal demais e a minha primeira reação foi simplesmente perguntar por que estavam procurando um ator no meio de pessoas que não atuavam. A resposta foi até um pouco intrigante: eles queriam dar mais veracidade ao show e os atores convidados a participar não seriam, de fato, atores. Os gêmeos queriam pessoas verdadeiras, para que a série ficasse mais crível. Para tanto, eles estavam buscando pessoas reais, do jeito que imaginavam que esses personagens seriam. Confesso que, nesse ponto, eu tinha achado a ideia interessante. Mesmo assim, aquilo não era a minha praia. Embora eles insistissem muito, eu fui mais incisivo e neguei a proposta. Ainda assim, Saga retirou um cartão de seu blazer e fez questão de que eu o pegasse. Terminei levando o cartão ao bolso da minha calça jeans, porque só assim para eles me deixarem partir.
Fui embora dali imaginando que nunca mais veria os dois novamente.
E me enganei profundamente.
Continua...
N/A: Sim, eu me inspirei também no filme "A Vila", de M. Night Shyamalan.
