AVISO: fic de baseada no livro "A ilustre casa de Ramires", de Eça de Queiroz. Neste livro, o rapaz Gonçalo Ramires, vivendo no século XIX, resolve contar a história de um ancestral seu que viveu no século XII, em Portugal. E é sobre essa história que a fic vai tratar.
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Prefácio
No Solar dos Ramires, a noite era mista: havia luto e havia comemoração. Luto, pela morte de D. Lourenço Ramires, único filho varão do imponente patriarca, o soberbo castelão D Tructesindo Ramires. E comemoração, pois seu assassino, o Bastardo Lopo da raça de Baião, havia sido morto no dia anterior. Tructesindo havia acabado de chegar da expedição vingativa e ordenava que tão-somente terminasse o período de luto por D. Lourenço, haveria uma lauta comemoração pelo triunfo da ilustre Casta dos Ramires.
A única que se encontrava totalmente de luto e tristeza era D. Violante Ramires, a filha mais moça do Patriarca. Ela era, justamente, o motivo de toda a matança. Da morte de seu irmão e da morte de Lopo, a quem a jovem donzela não gostava de alcunhar como "o Bastardo", como tantos faziam.
Na verdade, ninguém havia lhe indagado coisa alguma. Não era costume a um pai respeitar ou consultar a opinião de um filho; muito menos um homem levar em conta o que pensa uma mulher. Ela, portanto, ficara à mercê da vontade dos homens envolvidos, nada podendo fazer senão rezar.
A verdade... era que a bela manceba amava a Lopo, o Cavaleiro chamado de "Claro-sol" por sua beleza loura. E o quanto exultara quando o Patriarca dos de Baião viera pedir a seu pai a permissão para que se cassasse com o "Claro-sol"! Pois eles já haviam se encontrado num torneio em Lanhoso, e lá, conhecendo a linda donzela, o Claro-sol fez o máximo que poderia sob os olhos da família da moça: tomou sua alva mão entre as suas, beijou-a e fez a bela dama estremecer, pois era o contato mais próximo que um homem já havia tido para consigo.
- Qual vossa graça, ó formosa dama dos olhos de ébano?
- Chamo-me Violante Ramires, ó meu senhor. Vós sois o "Claro-sol", o bravo Cavaleiro do solar de Baião, não é verdade?
- Não diga assim, ó nobre donzela... pois o que é o brilho do Sol, senão uma reverência à Lua e sua bela sombra quando esta é crescente em seu esplendor? Pois assim é, minha senhora, com sua alvíssima pele de luar e seus lustrosos cabelos de noite limpa e iluminada. Deus deu-me grande ventura ao dar-me esta vida para poder contemplá-la, ó grande dama!
A fidalga sorriu, encabulada. Nunca homem algum havia lhe dito palavras tão belas. E apesar de ser guardada na Torre de Santa Irenéia, como costumeiramente eram guardadas nas propriedades familiares as moças daquele tempo, D. Violante sabia o que era o amor de um homem e de uma mulher. Sua irmã mais velha, a já casada D. Teresa, dizia o quão era gratificante ser amada por um varão. Não dava detalhes à sua casta irmãzinha, mas dizia que a vida de mulher amada era boa... ainda mais quando os feitos do garboso consorte eram proclamados a todos os ventos e paragens! Ainda mais quando era um homem belo e de origem goda, como o era Mendo Paes, o bem-aventurado marido de D. Teresa!
E belo assim também era o "Claro-sol", mas ao contrário de Mendo Paes, que era ruivo, Lopo era louro como o ouro novo e recém-polido, engastado numa armadura de castelão! A formosa moça, flor desabrochante em seus ainda ingênuos dezessete anos, sentiu uma crescente semente de primeiro amor surgir em seu puro coração. Mas sabia também, posto que ingênua mas não tola, que a família dela deveria determinar com quem se casaria. Sim, pois em tempos tão rígidos moralmente falando, o namoro sequer existia; ou o rapaz casava, ou a moça abandonava aquele homem que não lhe dava um futuro certo.
- Deus o abençoe, senhor D. Lopo. Pois como é habilidoso com as armas, também o és com palavras! Agradeço-lhe tamanha gentileza.
E, chegando mais perto da donzela, o máximo que poderia se aproximar sem levantar rumores contra a honra de tal esplêndida menina, segredou-lhe o que ia em seu coração.
- Louvado seja Deus, Senhora D. Violante! Pois sou moço já realizado em vários aspectos de minha vida. Sou honrado e afamado pelos meus atos, bem como já recebi a pranchada de cavaleiro de D. Afonso. Apenas necessito, ó formosa dama, encontrar bela e valorosa mulher para me casar e dar continuidade à raça dos de Baião. E veja só que ventura, ó bela D. Violante! Parece que encontrei a minha flor, futura mãe de meus filhos, bem aqui, nesta justa! O que lhe parece, senhora? Ser a nobre dama do solar de Baião seria desejável a si?
Ao ouvir tal pedido, vindo de tal formoso mancebo e de forma tão direta, D. Violante sorriu mais uma vez.
- Seria a ventura das venturas, meu senhor!
Com o coração transbordando de felicidade, Lopo beijou mais uma vez a mão da filha de D. Ramires, e após isto arrematou:
- Ó formosa dama! Ainda sou moço em demasia pra tratar de igual para igual com os Senhores e Patriarcas de nossas terras e feudos. Seria, pois, desonroso pedir a mão de tão nobre donzela diretamente a D. Tructesindo. Um homem experiente e fazendo vez de meu pai deve, pois, pedi-la em meu lugar. Tenho certeza que meu tio, irmão de minha mãe, que Deus a tenha, poderá fazer as honras. E então, ó amada minha! Quão bela será a boda do Claro-sol com a Esplêndida-lua! Não pensas assim também, ó linda manceba?
- Seria o melhor dia de minha existência nesta Terra, por Deus...!
E assim, em seus corações jovens e esperançosos, ainda não embotados com as decepções que a vida traz, Lopo e Violante declararam-se noivos um ao outro. Dançaram também, quando houve sarau na propriedade de Lanhoso. E no fim das comemorações, quando as famílias já se recolhiam para suas propriedades, o "Claro-sol" se despediu da dama ao lhe entregar uma rosa branca.
- Até mais ver, ó bela donzela! Quando ouvires o soar do toque de filho de algo em teu solar e verdes que é meu tio que lá aporta, saberás que o tempo de nosso doce reencontro será em breve!
- Eu o esperarei ardentemente, meu senhor!
Tructesindo, o velho e austero pai de D. Violante, havia visto tudo o que acontecera entre sua filha e o famoso D. Lopo. Como os cortejos não haviam passado do moralmente aceitável, deixou passar. Mas decidiu, em seu duro e rude coração, que não daria jamais aquela filha, aquela descendente de reis e puras linhagens, a um bastardo, cuja mãe, barregã capaz de se entregar a um homem sem com ele ter contraído matrimônio, era também daquela terrível raça de Baião, a qual ostentava terríveis lutas e lides com o solar dos Ramires no passado.
E assim, por uma briga secular de família e pelo fato de Lopo, o magnífico mancebo que era denominado "Claro-sol", tão resplandecente era, ser um homem bastardo, a felicidade do jovem casal ficou minada.
No fatídico dia em que o tio de Lopo pediu a mão de D. Violante, houve contenda. O duro senhor Tructesindo negou-lha de forma veemente. A tristeza e o espanto embotaram o coração da moça, e em sua humildade criada pela condição de filha e de mulher, apenas pôde, em voz mansa e olhar voltado ao chão, indagar ao progenitor: "Por que, meu pai?"
Tructesindo mirou terrivelmente aquela menina sua, sabendo que no coração verdejante dela já nascia uma semente de amor àquele maldito Bastardo, e apenas lhe disse, secamente:
- Não é homem para ti! Agora avia-te, esqueça-o! Outro marido certamente está em teu destino.
A donzela nada mais pôde fazer senão recolher-se a seus aposentos e lá ficar, dia após dia, sem esperança de melhoras. A tristeza tirava já o brilho característico de seus olhos e de suas madeixas. As criadas tentavam consolá-la, mas era inútil...
Apenas reacendeu-se a alegria no coração de Violante quando recebeu, em esquema mui secreto e perigoso para Lopo, uma mensagem escrita.
"Minha amada:
Estou em chamas. O que vosso pai designou a meu tio, negando-lha apenas por uma tola e avelhantada rusga de família, não se faz a filho de algo como eu. Posso ser bastardo, mas sou filho de reis também! Sei que por tua vontade, ó linda donzela, te casarias comigo. Não posso, porém, deixar de sentir-me despeitado em relação a teu pai.
O que lhe proponho, ó bela Violante, é que venha comigo, pois, e esqueça essa tua família que não deseja a tua felicidade. Se assim desejares, ó amada minha, eu a raptarei em campo aberto e a levarei como se fosse contra tua própria vontade. Assim, não cairá desonra alguma sobre vós.
Chegando em minha propriedade e dos meus, não pense que eu a terei como concubina. Trarei os sacerdotes e a casarei comigo.
Tais planos, porém, só os realizarei caso tenha seu consentimento, ó nobre senhora. Responda-me, se assim desejar que seja feito, e caso assim seja, agirei de minha parte para que nosso matrimônio se realize."
A fidalga exultou; olhou à janela e foi como se pudesse finalmente respirar outra vez. Decidida, Violante escreveu uma longa carta, derramada de sentimentos, amores, angústias e esperanças. Nela, combinou onde e quando poderia ele executar o rapto mais seguramente. Diria ela a seu pai que desejava visitar uma parenta sua, e iria em cortejo para lá. Indicou a Lopo o caminho que faria e, aproximadamente, quantos homens haveria em sua comitiva. Sim, pois nenhuma mulher ousava jornadear ou sequer sair de casa sem a companhia vasta de parentes homens; quanto mais uma donzela de linhagem nobre.
Mandou tal mensagem por uma criada sua muito íntima, pedindo-lhe segredo absoluto, pois seu pai poderia até mesmo entregá-la à morte caso soubesse que ela armava mesmo uma situação para ser colhida pelo homem repudiado pela casta de Tructesindo.
E assim foi. Alguns dias passaram sem novidade. Para não fazer seu pai desconfiar de suas intenções, Violante partiu imediatamente. Enfim, dois meses depois, durante os quais ainda trocou alguns recados de amor e planos com seu amado, D. Violante partiu em jornada com extenso grupo de parentes. Precavido e sábio, D. Tructesindo mandou mais gentes do que havia usualmente numa comitiva comum.
Com o coração batendo em seu peito cada vez mais forte, Violante atravessou o limiar da Torre de Santa Irenéia, orando para que tudo corresse bem. E qual não foi o seu espanto ao, logo no meio do caminho, ver a comitiva ser assaltada pelo Claro-sol e os seus... sabia que ele viria em seu resgate, mas não que seria algo tão repentino.
As esperanças de dois meses se desfizeram. Lopo não logrou êxito, interceptado como foi pelos da cas de Ramires. Violante nada dizia ou expressava, mas desesperava-se em seu íntimo.
Seu irmão, D. Lourenço Ramires, foi raptado e atado em cordas. Para Violante, mero joguete nas mãos de tantos homens, era uma tremenda tristeza. Utilizando seu esquema de mensagens, pediu a Lopo que não matasse a seu irmão, visto que este não tinha responsabilidade sobre o casamento de ambos. O "Claro-sol" apenas respondeu que aquilo tudo muito o desagradava, pois queria amar a Lourenço como irmão... e não podia, justamente por uma recusa tola do Patriarca.
Dias de desespero a donzela passou em sua casa, quando retornou a seu lar, e viu a tamanha contenda que estava prestes a se realizar. Frio como aço, D. Tructesindo apenas afirmou que haveria grande vingança contra aquele terrível Bastardo. E, ao ver que D. Violante fraquejava, disse a ela:
- Não te entregues pois ao pranto, ó filha minha! Pois se teu irmão morrer, antes a honra dele viva!
E assim o Patriarca dizia, como que animado por ver que, se Lopo ao irmão de Violante, ela contra ele também se revoltaria, e em breve o esqueceria por completo.
Mas assim não foi. Dias depois, chegou um mensageiro da casa de Baião, anunciando a vinda de Lopo. A moça aguardou, tentanto impingir a seu coração alguma esperança, mas em seu íntimo sabia que o orgulho excessivo de seu pai não o deixaria ceder.
O embate fora realmente terrível. Lopo ofereceu a Tructesindo uma oportunidade de paz, mas o velho castelão não deixou de lado a sua palavra. Desde que houvesse dito "não", era "não" até o final. E preferiu ver Lourenço morrer com um golpe de punhal na garganta, do que contradizê-la.
Mesmo afeita às tragédias que povoavam aqueles tempos de violência fácil e mortes em idade jovem, Violante sentiu aquele golpe em si mesma. Desfaleceu e foi levada pelos criados a seu quarto, para que pudesse descansar. A mente da donzela, porém, ainda se encontrava confusa e dorida. Era certo o desespero e a ofensa na alma do "Claro-sol", mas tudo que ele fizera apenas deixaria as coisas piores.
O fim da história foi trágico. Partindo ao encalço do Bastardo, Tructesindo Ramires e seus homens o capturaram e mataram. Mas não de maneira simples: ataram-no com cordas a uma ponte em ruínas no "Pego-das-bichas" , um lago estagnado e negro infestado de sanguessugas. Morreu lentamente, de agonia tremenda, com o sangue chupado pelas bichas até o fim, consciente, a tudo sentindo e presenciando.
D. Tructesindo não se absteve de dar detalhes da causa-mortis de Lopo de Baião, nem mesmo em presença da filha. O sino da Torre de Santa Irenéia tangia a finados, e o coração de D. Violante, ante àquelas duas mortes tão recentes e trágicas de dois homens que amava, nada pôde fazer senão recolher-se a seu quarto e lá ficar.
Tructesindo, o homem que fora capaz de ver o filhos morrer sem demover de sua palavra para salvá-lo, não deu importância àquele "arroubo de mulher" de Violante. Ela choraria, se desesperaria no começo, mas logo estaria feira para outra.
Para tentar lhe fazer companhia no luto, veio D. Teresa passar alguns dias em casa de seu pai com o marido. Enlutada também estava, mas sabia que tudo aquilo estava sendo mais difícil para Violante do que para todos os outros.
- Não te preocupes, ó Violante! – dizia ela, tentando ser amorável – Homens vão e vêm. Este seu Lopo não prestava; logo terás um noivo à tua altura. E quanto a Lourenço, não temais! Ele está bem assegurado ao lado de nossa mãe e de Nosso Senhor.
Violante, porém, nada respondia. Ou era vista olhando ao nada, como louca; ou encontrava-se deitada. Nunca saía de seus aposentos, e não dava atenção a quem quer que fosse.
Tructesindo, ainda aferrado à sua arrogância,, sequer acudiu a filha; e ela também não queria sua ajuda. Depois de alguns dias, D. Violante deixou mesmo de comer e beber, e não saía ou levantava de sua cama. No fim de tudo, por conta da inanição, Violante perdera muito peso em apenas dez dias. Não lembrava mais a donzela resplandecente e bela que um dia fora, embora em seu suplício guardasse uma beleza diáfana de anjo que à Terra não mais pertence.
Em sua aflição, D. Teresa, mesmo sendo filha e mulher, procurou seu pai.
- Senhor meu pai, Violante morre se assim continuar. Duas vidas jovens e preciosas a nós terão se perdido caso ela se vá.
- Apenas os fortes têm direito de viver, filha minha! Se este é o caminho que tua irmã escolhe, deixe-a segui-lo!
Ainda inconformada, Teresa foi até sua irmã e ainda tentou reanimá-la, mas foi em vão. As rosas que sequer brotaram direito no coração de D. Violante murcharam antes mesmo de florir plenamente, e de forma cruel. Desta feita, já não tinha alento para viver.
E, de fato, D. Teresa estava certa. Ao fim de quinze dias, entregue ao destino como estava, D. Violante morreu. Mais um período de luto seria cumprido na Torre dos Ramires;
E é aí, precisamente aí, que nossa história se inicia.
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Grande ousadia, fazer fic de livro do Eça de Queiroz! Rs... mas não resisti. Eu e essa minha obsessão por vida após a morte estão me fazendo explorar esses temas.
Primeira fic fora do fandom de Saint Seiya, joguem pedras se quiserem!
