Ato 1

Faziam dias que ela estava "presa" naquele quarto, não conversava com ninguém a não ser aqueles que lhe traziam a comida e a levavam para o lavatório, ainda assim não era um laço de amizade ou qualquer coisa do tipo que a fizesse lembrar sempre de seus nomes. Seus suspiros preenchiam o pequeno local, seu olhar triste encarava o claro tatame, ela não parava de pensar na possibilidade de encontrar seu pai, já que estava na capital, mas também na punição que poderia ou não levar.

- "Já fazem dias que estou aqui... Trancada. Se eu continuar aqui, eu... Nunca vou conseguir encontrar o meu pai."

Então finalmente seus olhos se ergueram, analisando a porta deslizante diante de si, mesmo com seu fino revestimento de papel, ela podia notar que o sol ainda fazia-se presente lá fora, era o pôr-do-sol, um tom forte alaranjado que pintava o pálido quarto.

- "A noite está chegando... É melhor eu esperar um pouco mais e então fugirei."

O som dos insetos noturnos chegavam aos seus ouvidos, era a deixa para pôr seu plano em prática. Ela estava sem sua espada curta, mas não teria como descobrir onde estava sendo retida, não poderia perder aquela preciosa oportunidade. Esgueirou-se até a janela redonda ao lado da porta, abriu-a somente o suficiente para que sua cabeça passasse. Olhou para a esquerda e o corredor estava vazio, olhou para a direita e não havia ninguém, tornou a fechar a janela e dessa vez abriu a porta, deslizando suavemente. Ela sabia mais ou menos o caminho que deveria tomar para escapar dali, por isso seus olhos miravam apenas o corredor da direita:

- "É agora..!"

Não conseguiu nem ao menos dar três passos apressados, uma voz familiar congela seu corpo e coração:

- Se eu fosse um prisioneiro escolheria fugir à noite.

Chizuru virava seu rosto lentamente até que seus olhos castanhos podiam ver o dono daquela voz:

- Souji-san!

- Exato.

Ele sorriu gentilmente se levantando debaixo da janela enquanto apoiava uma das mãos na espada em sua cintura:

- Na verdade, Hijikata-san disse que você tentaria fugir à noite, então fui escalado para ficar de olho em você.

- "Nossa, sou assim tão óbvia?"

- Como é a primeira vez que tenta fugir serei um pouco complacente, mas...

O sorriso gentil que Souji trazia nos lábios some de repente dando lugar a um olhar extremamente frio que parecia fuzilar os olhos medrosos de Chizuru:

- Da próxima vez, torça para que não seja o meu turno de ficar aqui, senão não hesitarei em matá-la.

As mudanças de humor em Souji sempre a deixava com um pé atrás, e naquele momento ela engole a seco, sentindo seu corpo inteiro gelar, ela sabia que ele não estava mentindo, mesmo mudando seus olhos frios para o sorriso mais caloroso do mundo. Com um movimento rápido, Souji dá um impulso com seu pé que o faz parar bem atrás da garota, que por medo estava paralisada. Sua mão sobe pelo braço dela e lhe agarra o queixo impedindo-a de se mexer. Seus lábios começavam a se mexer em um sussurro de forma que só ela poderia ouvir:

- Eu voltaria para o seu quarto, se eu fosse você.

Aquele sussurro parecia desconsertar Chizuru, mas ela não compreendia as batidas do seu coração, estava acelerado porque sentia medo pela possibilidade de morte? Ou porque Souji estava tão próximo que podia até sentir o calor de seu hálito em seu pescoço? Ela não conseguia reagir à nada, e aquele transe é cortado por passos que viam pelo corredor da direita:

- O que está fazendo Souji?

A figura séria de Hijikata apareceu como uma estátua no meio daquele breu que estava o corredor. Apesar de ter longos cabelos escuros, o vento faziam-os balançar e o brilho da lua iluminava todos seus fios:

- Hijikata-san, boa noite.

Na presença de seu subcomandante, Souji parecia suavizar suas reações e palavras:

- Faziam dias que Yukimura-kun não respirava ar puro, permiti que saísse um pouco aqui fora. Mas avisei que a mataria se tentasse fugir.

Com certeza a última frase soou como uma indireta, ela podia sentir os olhos dele a fuzilarem.

- Hum, seja como for...

Hijikata imediatamente fechou seus olhos já suspirando, sabia que algo estava errado mas ainda assim não queria se preocupar com pouca coisa. Tornando a abrir seus olhos violetas, encarou a figura sem reação de Chizuru:

- Yukimura-kun, venha comigo, temos algo a conversar.

- Ah, hai!

Chizuru sentia-se aliviada por escapar da presença de Souji, ela não conseguia reagir diante de suas ações e via em Hijikata o seu salvador naquele momento. Souji olhava os dois se distanciarem, indo em direção o corredor da esquerda, e seu sorriso permanecia até o momento em que os dois desapareciam na curva.

A sala a qual estavam era bem maior que o quarto a que estava confinada, provavelmente seria uma sala de reunião pois haviam algumas velas acesas nos cantos do cômodo e ao redor haviam almofadas para que sentassem. Hijikata terminava de acender a última vela quando ela exclama em alívio:

- Sem punição?

- Sim. Você estava lá naquela noite por coincidência, mas se fosse o contrário já estaria morta.

- "Etto... Por que eles gostam de me dizer essa possibilidade?"

- Além do mais, você me disse que estava em busca do paradeiro de seu pai. Shinsengumi também está atrás dele, então acho que podemos unir forças. Permitirei que saia em turnos de vigia, mas deverá obedecer às ordens do líder de cada turno, enquanto a vigia é feita, poderá perguntar por seu pai aos cidadãos da capital.

Chizuru estava feliz com aquela notícia, seus olhos brilhavam como nunca. Saber que não seria punida era uma boa notícia, mas ainda receber a oportunidade de procurar por seu pai era melhor ainda. Abriu um sorriso delicado enquanto fazia conclusões em sua mente, definitivamente Hijikata era completamente diferente de Souji, apesar de seu jeito sério, parece estar sempre preocupado com as pessoas ao redor. Souji já era mais brincalhão, a certo ponto, e sempre aproveitando cada momento, que ele classificaria como "interessante" ou "oportuno". Hijikata estava distraído, mas sem querer notou o rosto alegre que a garota fazia para ele, o silêncio havia o deixado sem graça, tentou não demonstrar virando o rosto enquanto sentia suas bochechas queimarem:

- O que foi?

- Ah, nada... É que eu estava pensando...

- No que?

Seus olhos violetas fixaram-se nos olhos castanhos de Chizuru parecendo interessado pelo que ela estava pensando:

- Hijikata-san é sério e rígido, mas tem um bom coração por trás.

Não havia como esconder, seu rosto muda pra um espanto. Teve de respirar fundo para não ficar de bochechas vermelhas. Tomou coragem para se erguer da almofada e se dirigir à porta:

- Ah, perdoe-me senhor, eu não quis falar nada que não gostasse...

- Yukimura-kun, quero que mantenha seu disfarce, não quero que meus soldados se desvirtuem de seus treinamentos pela presença de uma mulher no dojô.

Sem dar a vez para que ela falasse, Hijikata deixa a sala assim como a deixa lá sentada, apenas dizendo ao longe:

- Retorne ao seu quarto, e não tente fugir no meio do caminho, estou de olho em você.

- "Como ele sabe...? Que eu sou uma garota...?"