I

Tempos Atuais, 6 Meses antes da Guerra Santa.

O salão se enchia com a melodia triste da harpa de Pandora.

Por anos ela se dedicara ao Imperador do inferno. Por anos, fora sua mais fiel seguidora. Era responsável por seu exército, e considerada por todos os espectros subordinados a seu irmão como sua Imperatriz. Porém, estava cansada de tudo isso.

Faltavam apenas seis meses para que o selo que prendia os espectros se quebrasse e estes pudessem novamente espalhar o mal pela Terra. Todos os preparativos estavam prontos, a Alma de Hades já estava no seu hospedeiro. Então, por que tinha que continuar a ficar ali, naquele castelo horrível, onde tudo o que conseguia lembrar era de morte e sofrimento?

Às vezes, desejava nunca ter desobedecido a seu pai, nunca ter aberto aquela pequena casinha proibida no fundo do quintal do castelo, nunca ter encontrado com Hypnos e Thanatos.

Seu dedo tocava a sétima corda de sua harpa, quando sentiu então algo que mudaria sua vida pelos próximos meses.

O cosmo de Hypnos, que a sufocava, sumira. Simplesmente sumira.

Teve vontade de correr aos Elíseos e descobrir o que acontecera ao Semi-Deus, mas sabia que se o fizesse, perderia a única chance de viver que tivera durante anos.

Levantou-se e pegou seu tridente, sem hesitar. Abrindo a porta do enorme salão redondo, cruzou o corredor com janelas, onde era possível ver toda a extensão de morte nos arredores do castelo de Heinstein, que se ampliara desde a morte de sua família, e desceu a escadaria circular, indo em direção ao enorme hall que dava para os andares inferiores do castelo.

O castelo estava silencioso como sempre. Os únicos que ali apareciam, às vezes, eram os três juízes e Zelos, o subordinado de Radamanthys, que era visto com desprezo em qualquer lugar que fosse. Há muito tempo a vida sumira do castelo, que era cinzento e macabro, apesar de belo. Pandora o conhecia muito bem, afinal de contas, residia naquele local desde o momento de seu nascimento.

Desceu por uma enorme escadaria de mármore, ornamentada com corrimãos de ouro e se viu no grande salão principal do castelo. Abriu as portas e saiu para o enorme pátio do castelo. Dali, apenas uma escadaria e o portão do castelo a separavam de uma vida que lhe fora tirada quando tinha apenas 3 anos.

- Aonde a senhora vai?

Pandora tremeu. Conhecia bem aquela voz.

- Agora tenho que te dar satisfações, Radamanthys?

- Perdoe-me senhora Pandora, não foi minha intenção interrogá-la ou sobrepujá-la – Radamanthys ficou em um joelho, fazendo uma reverência.

- Sei que não foi sua intenção. Preocupa-se comigo.

Radamanthys levantou a cabeça, olhando-a.

- Senhora Pandora?

- Estou indo embora.

- Como?

- Indo embora.

Radamanthys sorriu.

- Certo.

- Toma-me por alguém engraçada?

- Não senhora, jamais.

- Então, na certa me toma por uma tola.

- Desculpe minha senhora, mas a sabe que é impossível partir.

- Pois partirei. E você não vai me impedir.

Radamanthys hesitou.

- É meu dever como Juiz...

- ...Obedecer ao senhor Hades, e na sua ausência, me obedecer. Não me impedirá, Radamanthys. Pagará com sua vida se tentar – Pandora tinha o olhar fixo e pesado em Radamanthys. Ele sabia que o que dizia era verdade. Apesar de todo seu poder, jamais poderia se opor a Pandora. Era como ir contra Hades.

- E o que será dos espectros sem o seu comando, minha senhora?

- Logo o selo de Athena se romperá. Quando isso acontecer, nosso Imperador comandará suas forças e matará Athena.

O juiz não sabia o que fazer. Sentia-se impotente pois jamais conseguiria impedir sua senhora de deixar o castelo. E sabia que pagaria por esse ato.

Pandora deu uma ultima olhada no castelo onde viveu. Esperava nunca mais ter que vê-lo novamente.

- Senhora Pandora, onde posso... – Ficou com medo de perguntar, mas terminou assim mesmo – Onde posso encontrá-la?

- Use seu cosmo, e descobrirá – Respondeu, com um sorriso. Pandora nunca sorria.

- S-sim, senhora.

- E uma ultima coisa, Radamanthys: Você está no comando agora.

E deixando seu tridente aos pés do juiz, Pandora desceu a enorme escadaria que dava para os portões, pensando em ir atrás da única pessoa viva com quem tivera contato em seus 16 anos.