Dois dias haviam se passado desde a noite de Natal.Sam e Dean já tinham resolvido que pegariam a estrada logo depois pra voltarem a ativa.Estava nevando, o que não ajudava Dean a dirigir durante a noite pra chegarem mais rápido em seu destino.Pararam em um hotel qualquer de beira de estrada, ficariam lá até amanhecer e a neve diminuir um pouco.
Sam estava debaixo do chuveiro há alguns minutos, a água quente caia pelas suas costas e escorria pelo seu corpo, ele queria relaxar, queria se sentir melhor, mas simplesmente não a mão na boca e começou a chorar, o choro que começou a se misturar com a água quente que saia do chuveiro, chorou tudo que precisava chorar.Chorou tudo que deveria chorar pela situação que estavam passando.
- Sammy?! - ouviu batidas na porta do banheiro e a voz do irmão.
Tinha perdido a conta de quanto tempo havia passado debaixo do chuveiro, aquele desabafo tinha lhe feito muito bem, mas ainda não tinha conseguido tirar o peso que carregava nas costas, a culpa que sentia pelo irmão ter feito aquele trato por ele.
Tirou a mão da boca e abriu os olhos, assustado. Será que Dean tinha ouvido o choro dele? Respirou fundo, tentando se acalmar.
- O que, Dean?
- Vai ficar pra sempre nesse banheiro é? Não sei se está fazendo coisas indevidas ou preparando-se para um casório. Mas bem, qualquer uma das possibilidades é estranha. Apenas noivas demoram tanto tempo pra se arrumar.
- Cala a boca, Dean! Já estou de saída! - esbraveja Sam, tentando ao máximo disfarçar a voz.
- Vamos logo, tem mais gente pra usar o banheiro... - Dean responde, suspirando logo depois.
Aquela realidade tornava-se cada vez mais dificil de ser aceita. Dean morrendo após o período de um ano e deixando sozinho o irmão que sempre protegeu? Tal sacrifício era uma maneira de proteger Sam, mas como morreria em paz sabendo que deixaria seu ente mais querido num mundo que considerava-o uma aberração e desejava vê-lo, acima de tudo, morto? Como num filme, diversas cenas invadem a mente de Dean, num flash único, confuso e, ao mesmo tempo, fácil de entender. As caçadas, os ganhos, as perdas, as pessoas que deixaram para trás... Todos os momentos que passaram, todos os sacrificios que foram obrigados a fazer, será que no final das contas tudo aquilo valeu a pena?
De fato, graças a eles o mundo tornava-se dia após dia um lugar melhor, mas e quanto às suas próprias vidas? Como aceitar tantas mudanças provenientes de atitudes que não traziam nenhum benefício direto a eles? Os irmãos viviam bancando os heróis, com essa história de "salvar vidas de pessoas desconhecidas". O problema era que a vida de herói não servia para Dean. E estava ficando cansado de viver uma vida que não era sua...
- Pronto! Feliz?
- Hã, o quê?! - Dean levanta-se rapidamente, com uma expressão surpresa e assustada. Não viu o tempo passar.
- Haha, o que foi?! Atrapalho o momento "Dean e sua consciência"?
- Não enche, ok? Se me dá licença... - Dean levanta e murmura - Nem sei porquê demorou tanto tempo no banho...
- Espera, Dean! Eu... - Sam não consegue achar as palavras pra expressar verbalmente aquilo que pensava.
- O quê?!
- ... ah, não é nada importante. Vou comprar alguma coisa pra comer aqui por perto.
- Ah, vamos lá Sam, não tente me enganar. Notei há algum tempo que está diferente. Desde a noite de Natal, pra ser mais exato. Vai, desembucha, o que é?
- Já falei, não é nada! - Sam diz isso dirigindo-se a porta que dava acesso a área frontal do hotel.
- Cara, até sua risada tá diferente. Se eu não te conhecesse bem, até falaria que...
- NÃO É NADA, OK? NADA ! - Pra finalizar a frase com o efeito desejado, Sam abre e fecha a porta bruscamente. Estava agindo daquela maneira que Dean temia acima de tudo...
Logo após fechar a porta Sam caminhou com as mãos dentro do casaco, fazia frio naquela época! Era a noite, não sabia onde ele iria encontrar comida, sabia que Dean já estava desconfiando, não poderia continuar daquele jeito, tinha que mudar o seu comportamento.
Caminhou por mais alguns metros, totalmente longe com os seus pensamentos, entrou na recepção do hotel, poderia perguntar ali onde encontraria comida naquela hora da noite.
Logo que colocou os pés dentro do local, um senhor que estava com os pés em cima do balcão abaixou o jornal e colocou o cigarro de lado, olhando pra Sam.
- Boa noite! - Sam disse, meio nervoso. - Me desculpa pela hora... Mas o senhor saberia onde eu poderia encontrar comida? Eu e meu ... - foi interrompido.
- Garoto, nós não servimos nada. Por isso a tarifa do hotel é tão baixa, mas há um posto de gasolina com serviço 24 horas a poucos quilômetros daqui. - ele suspirou.
- 'Você tá de brincadeira?' - pensou Sam. - Oh ok! Obrigado! - ele sorriu levemente, de boca fechada.Não queria andar poucos quilômetros até o posto mais próximo pra conseguir comida.Mas estava faminto!
Deu as costas pro tal senhor e voltou o mesmo caminho que tinha feito há minutos atrás.Respirou fundo antes de abrir a porta do quarto de hotel, pra ser sincero ele estava cansado daquela situação toda, ele e Dean mereciam férias!
Abriu a porta e não viu o irmão em nenhum canto do quarto, ouviu o chuveiro ligado, possivelmente Dean ainda estava no banho!Fechou a porta com cuidado e aproximou-se de sua cama, colocou a mochila de lado pra poder colocar as suas pernas em cima da mesma, apoiou a cabeça com as mãos e respirou fundo.
Ficou por alguns minutos daquele jeito, somente perdido em seus pensamentos, seus pensamentos que só envolviam o irmão, o futuro. Tinha que ajudar Dean, devia isso a ele, mas Sam não sabia como fazê-lo.
Ouviu o barulho da porta do banheiro sendo aberta e abriu seus olhos rapidamente, assustado. Viu Dean caminhar do banheiro até a sua cama com uma toalha enrrolada no corpo.
- Não foi comprar comida?
- Fui. - respondeu seco.
- E cadê? Não me diga que você comeu tudo, Sam! - debochou e sentou-se na cama, de costas pro irmão.
- Não enche, Dean! - disse rápido. - Não tem comida aqui nesse hotel, o senhor da recepção me disse que a gente iria encontrar em um posto de 24 hrs há quilômetros daqui, você tá afim de dirigir agora?
- E você tá afim de passar fome? - virou-se olhando pro irmão.
- Ok, ok, então vamos!
- Claro. Você dirige! - Diz Dean, com um sorriso sarcástico nos lábios e jogando a chave do carro na direção do irmão.
- Ah, claro, previsível...
Os irmãos seguem em direção da garagem, onde o carro está estacionado. Sam senta-se no banco do motorista enquanto Dean acomoda-se no banco do passageiro. No caminho do quarto até a garagem, nenhum deles proferiu uma palavra sequer. Talvez estavam ambos preocupados com o futuro que esqueciam de viver o presente e, principalmente, o pouco tempo que ainda possuiam juntos. Seguindo até o posto de gasolisa, Dean inicia novamente o assunto que Sam fez questão de encerrar há poucos minutos atrás.
- Sam, quando iremos falar sobre isso?
- Isso o quê? - Sam sabia o que era. Mas evitar era melhor do que lidar com o problema.
- Você está impaciente, nervoso, e não me deixa...
- O QUE, DEAN? - Sam se exalta novamente. - Não deixo você me ajudar? Veja só, estou me sentindo da mesma forma que você se sentiu quando soube que nosso pai morreu para salvar a sua pele. E veja só, você fez o mesmo por mim.
- Eu não acredito que estamos tendo essa conversa de novo... - Dean vira o rosto e passa a observar a paisagem.
- Foi você que tocou no assunto, Dean. O que espera? Que eu diga "obrigado por se sacrificar por mim"? Esqueça! Eu não quero perder todas as pessoas que amo dessa forma...
- O que quer dizer com isso Sam?
- Dean... Nossa mãe morreu por minha causa...
- Ah, isso de novo...
- ... Jess morreu por minha causa. Agora, vou ser obrigado a perder você por um mero descuido meu! Como quer que eu me sinta?
- Como ousa se culpar pela morte delas? - Dean começa a se exaltar também. - Não foi você que puxou o gatilho, Sam! Azazel fez tudo isso...
- Sim, mas fez por minha causa! Se eu não existisse, elas ainda estariam vivas.
- Ah, claro. Lembre-se que tudo o que fez, caso desfeito, poderia mudar a vida de todos nós. Inclusive a minha.
- Pelo menos você estaria vivo, fosse agora, fosse daqui um ano.
- Sam, pare, ok? Um carro poderia nos atingir agora na estrada e poderiamos ambos morrer. A vida é imprevisivel, não sei nem se estarei vivo amanhã! Eu acho qu...
- Veja só, chegamos. Este deve ser o posto. Falamos sobre isso depois. - Sam abre a porta do Impala, deixando a chave no contato do carro, mantendo assim o mesmo ligado. Não pretendia demorar muito tempo no local.
Dean observa o irmão dar a volta no carro e entrar na loja de 24 horas que ficava por ali no posto, a situação não estava boa, os dois estavam nervosos e estressados, Dean sabia que cedo ou mais tarde os dois iriam discutir por causa daquilo.Respirou fundo, cansado, passou as mãos pelos cabelos.Pensou em tudo que estava acontecendo, em tudo que tinha feito pra trazer Sam de volta, não se arrependia, ele não ia conseguir viver um minuto sequer sem o seu irmão. Viu Sam voltando com vários saquinhos de salgadinhos e refrigerantes.Ele entrou no carro em silêncio e deu as coisas nas mãos do irmão.
Sam colocou as mãos na direção e no câmbio e voltou a dirigir, aquela estrada estava vazia e o silêncio no carro era mortal.Virou o rosto pro lado e ficou observando a paisagem, na verdade a única coisa que Dean conseguia ver era a fina neve caindo, a estrada estava escura, não se via nada.
Estacionaram novamente no hotel.Sam desligou e tirou rapidamente a chave do contato.
- Sam, espera! Sam, espera, droga! - Dean disse alterando o tom de voz.
Sam parou o que estava fazendo, ia abrir a porta pra sair de lá o mais rápido possível.Olhou pro irmão e franziu o cenho.O que ele queria? Voltar naquele maldito e torturante assunto? Era dificil pra ele também, era dificil pensar que daqui a uns meses ele não teria ninguém pra protege-lo, ninguém pra compartilhar os seus problemas, ninguém pra ajuda-lo em suas caçadas.Ficou em silêncio esperando o irmão falar.
- É dificil pra você, é dificil pra mim também! - parecia que ele tinha simplesmente lido seus pensamentos.Sam sentiu o coração bater mais forte e os olhos arderem. - E eu sei que você quer fazer alguma coisa pra me salvar, afinal você é meu irmão.Mas você não pode, se você fizer algo você morre, Sammy ! E eu nunca iria me perdoar por isso.
Sam balançou a cabeça positivamente, praticamente sentindo as lágrimas cairem de seus olhos. Olhou pro lado, não queria que o irmão o visse naquela situação. Abriu a porta do carro rapidamente e saiu dali dali o mais rápido que pode, entrou no quarto do hotel e engoliu seco, engoliu o choro, aquela situação não poderia continuar.
Aproximou-se da sua cama e a primeira coisa que fez foi entrar debaixo das cobertas, iria dormir daquele jeito mesmo, não sentia fome, estava enjoado.
Dean permaneceu no carro por mais alguns minutos, sabia que o irmão estava sofrendo, mas não havia nada que ele pudesse fazer. Saiu do carro com as comidas e entrou no quarto de hotel, viu o quarto todo escuro e Sam já dormindo, achou estranho, mas resolveu não atrapalha-lo. u
