O Boêmio.
(Resposta ao desafio "Anjos, Demônios e Patos")
"Tu te perderás, não é forte, é frágil. A que dança cancã lhe roubara. Entre vestido vermelhos, você irá partir para jamais voltar".
E subiu ele, sem se importar. No primeiro instante, era uma rua chuvosa, sem segundas intenções, lama escorrendo em versos e canções. O estabelecimento não funcionava tanto. Sentou-se em uma cadeira, ajeitou os cabelos de cor celeste, o terno preto. Ajeitou-se todo. Era perdido sim, porém, perdido por ela. Aquela demônia.
As cortinas ergueram-se e os poucos homens, bêbados na sua maioria, tentaram aplaudir com os poucos reflexos que lhes restavam.
A demônia sorriu a eles, e sorriu a ele também, afinal, era um dos seus. Disse doçuras, ninguém as escutou. Todos queriam vê-la dançar.
E quando a demônia dançava, ele lembrava dela entre lençóis, numa dança como entre peixes e anzóis. Quando o vestido escarlate farfalhava entre as coxas morenas, ele sentia-se farfalhando nelas, como na noite anterior. E quando seus olhos o olhavam, o rubi deles, o rubi do fogo dos sete infernos lhe tomava. A demônia era bruxa, feiticeira. Podia matar com o olhar. Porém, preferia enfeitiçar.
Cantou de leve uma canção no seu pobre francês e ele não evitou a risada. Tanto sua ânsia de agradar, de mostrar um valor que não tinha. Era uma dália negra em decadência. E ele, decadente cavalheiro, obviamente, não podia salvar.
Sem graça nenhuma, ela desceu do palco, até ele foi, sentou-se sobre a mesa, seu charuto começou a fumar. A fumaça transformava-a em bela, em estrela. Se a fumaça afastava-se, mostrava-a prostituta, inválida.
"Desiste, seu boêmio. Tuas palavras não vão pagar mais o que eu estou lhe oferecendo".
"Nada, sua satã. Eu é que lhe ofereço tudo".
"Quem abre as pernas sou eu".
"Quem a ama sou eu".
Demônios não amam, ele sabia. Podia amá-la o quanto seu tempo infinito desejasse, porém ela não o amaria. Ela riria de seu amor e o chamaria de troça.
Diziam que anjos amam com loucura. E demônios? Como aquela demônia ama? Ou será que ama, ele deveria acreditar que uma criatura vinda das Trevas conheceriam o amor?
"Não insiste, não quero mais teus poemas. Quero graça. Graça que achei no pierrô".
A graça, tola graça dela. Seguiu seus olhos em fogo para a figura patética sentada num lugar distante, com aquela lágrima fétida caindo de seus olhos, se pudera, mais fétidos ainda. Fedia a desgraça, a pena. Olhou-o com tal sentimento de ódio. Não havia nele próprio um resquício de humor. Ironia, sarcasmo, egocêntricas atuações. Porém nunca humor. A risada não se manifestava em seus lábios feitos pra tocar.
"Não há graça no pierrô".
"Mais graça do que há em você".
"Não a poesia nele, tão pouco".
"Poesia é barata, poesia alimenta mente não corpo".
"Piada alimenta o corpo, satã?".
"Alimenta? Não sei. Faz ele movimentar-se".
"E quando a jogo contra a cama, teu corpo não mexe?".
"Mexer mexe, porém cabe a ti a acreditar se mexe de prazer ou de nojo de você".
Nojo tinha dela. Como a odiava. Odiava seu perfume barato, sua roupa barata, seus enfeites baratos, baratos e lapidados para parecerem caros. Fora enganado quando a vira pela primeira vez, achando-a dama, coitada por estar naquele lugar. Porém, o Inferno a liberara da clausura por algum motivo. Se soltaram tal besta letal na Terra, fora para fazer vítimas. Vítimas como ele, que de ciúme e desprezo, quebravam e reconstruíam o coração apenas para vê-la começar a quebrá-lo novamente.
"Então vai. Vai com teu pierrô".
"Não sente ciúme?".
"Todo do mundo".
Ela sorria. Inveja, ciúme, cobiça. Despertando esse sentimento nas pessoas, a demônia já se dava por satisfeita. Sorria e voltava a amar.
"Agora indecisa estou, se tomo a ti ou se tomo ao palhaço tristonho".
"Nenhum dos dois tem dignidade".
"Nenhum dos dois tem nada".
"Eu tenho a ti".
"Então ele me tem também".
Ele tinha era olhos castanhos. Castanhos de piadas sobre ruas de Veneza, teatros azul-turquesa. Um brocado de sonhos, vestidos perdidos em preto e achados no branco. Pierrô é triste, porém mais triste é a colombina que por ele se apaixona.
E a demônia não se apaixonaria por ele.
"Vem, contigo fico".
"Comigo fica. Por quê?".
"Porque assim me deu vontade. Negas? Posso ter outro, outro que tenha ouro, outro que tenhas jóias".
"Não nego a ti, nunca. Não sou louco, eu a quero".
"Então me queira".
Pegou sua mão com a dela, longas unhas, finas, destinadas a marcar costas sem medo.
As escadarias que subiram, os lábios que uniram. A noite era criança e ela sua doce mãe, ordenando mais, sempre mais, de alguém que só menos pode oferecer.
Desceu sem vergonha, sendo lá recebido.
O amigo o olhou com pena, detestava pena. Pena tinham que ter de pierrôs e prostitutas.
"Demônia ela, meu irmão. A pior".
"Nem o fale".
"Demônia de língua afiada, carne saborosa. Como criatura assim pode existir?".
"Não o sei, meu irmão. Só sei que satã é, pra roubar de mim tudo, tornar-me um nada e ainda sim, um nada contente".
O pierrô perdera sua graça. Perdera sua noite, voltara para sua triste praça, onde contava ao luar suas desilusões. Tonto pensa que o luar o escuta, o luar quer mais é saber da diversão. E que diversão um palhaço a chorar pode oferecer?
O cabaré perdera seu vermelho. O cinza dançava com as prostitutas e os antes grandes cavalheiros seriam cafetões eternos, juntando amor ao dinheiro, combinação não certeira, lucrativa de certo. Acostumar-se a amar por vender e comprar por amar é simples. Desacostumar-se é inimaginável.
Pobre dele, youkai do Sétimo Inferno. Fora Terra com seus cabelos prateados, seus sorrisos ensaiados e chegara ao lugar da onde sabia não poder voltar. Porém entrara, arriscara, entregara, fora herói e vilão, na cama depositou seu próprio coração.
E ela, a demônia humana. Humana menina, que já fora mendiga, até descobrir a beleza, a destreza da mulher que como borboleta, abre as asas para conseguir o que quer. Fora de seu palácio de virtudes, de seu harém de quitutes ela torna-se indefesa.
Torna-se rainha do pierrô triste, do cabaré cinza, do francês rebuscado.
Torna-se rainha, certamente, do demônio boêmio apaixonado.
Que Lúcifer, o pior e o melhor dos Anjos, perdoasse o pobre Sesshoumaru, rei dos youkais prateados. Que entendesse que Deus criara a humana mais morena, menos serena, agressiva. Uma semi-deusa. A única capaz de domar um rei.
"Melhor história que essa, a da humana demônio e do demônio humano, contar não sei".
Atrasada, no último dia de prazo
Mas aqui estou, honrando esse divertido desafio :)
Porém, o que posso dizer? Demônios são criaturas muito divertidas. Eu continuo a achá-lo deliciosamente mais naturais que os anjos, tão sublimes em sua perfeição.
Nessa história, mostrei a proximidade irritante que há entre humanos e demônios. Seja desejos ou vontades.
Sesshoumaru, logicamente, incorporou meu demônio.
Quem mais poderia fazê-lo? ;)
Boa diversão.
Como certamente foi para mim escrever esse desafiooo :D
