O céu parecia uma aquarela em tons de azul misturados ao laranja do nascer do sol. A floresta ao fundo dando o verde e alguns pássaros cantando o som da manhã. Se não houvesse uma guerra explodindo, Regina acharia o dia maravilhoso. Ela não conseguira dormir aquela noite. Sua meio-irmã verde chegou em Storybrooke fazendo alvoroço logo depois do enterro de Neal. Pobre coitado, Regina pensou. Ele podia não ser sua companhia preferida, mas ainda era o pai biológico de Henry, mesmo que ele não se lembrasse. Regina o respeitava, assim como Emma. Eles deram a ela, por onze anos, o presente mais bonito que alguém podia ter. E ainda assim seu coração doía. Doía ao ver seu filho não se lembrar quem ela era. Doía ao ver a dor em seus olhos quando viu seu pai desconhecido sendo sepultado. Seu coração doeu ao ver Emma jogar o último punhado de areia sobre o caixão. Ela sabia como era perder alguém que amava, ela se lembrava bem como foi perder Daniel. Duas vezes ela sentiu aquela dor. Por duas vezes ela perdeu seu grande amor. Ela entendia Emma mais do que gostaria de admitir.

Então veio Zelena e a revelação de que sua mãe e Rumple, mais uma vez haviam mentido para ela. Regina tinha esperanças de que tudo não passasse de uma armação, mas ao encontrar a carta, tudo fez sentido. Aquela carta que ela lera tantas vezes para encontrar conforto ou inflar seu ego. A carta que ela pensou a vida toda ser sobre ela, e na verdade, não era. Então veio Robin e tudo pareceu ruir. O homem com a tatuagem de leão de quem fugira tantos anos atrás estava ali. O homem que Tinker Bell profetizou ser seu verdadeiro amor. Regina não sabia o que pensar, queria correr, mas algo naquele ladrão a puxava, como um imã. Ela queria se fechar, mas não conseguia, não com ele. Ela não tinha ideia do porque confiou a ele uma tarefa tão importante como proteger seu coração. A primeira pessoa que veio a sua cabeça foi Emma, mas logo pensou que seria a primeira pessoa a quem Zelena iria procurar. Depois, Archie, que mesmo que Regina nunca confessasse, tinha sua confiança, mas pensou que ele não tinha meios para tanto. Mas Robin estava parado a sua frente, e parecia ser sincero. Ela deixou com ele a missão de guardar seu coração enquanto ia para o que parecia um duelo do velho oeste. Por pouco, Regina não perdeu seu coração pelas mãos da Bruxa Má do Oeste. Mas a mulher disse algo que a deixou pensativa. Regina sempre teve tudo e nunca mereceu, ela nem sequer dava valor. E isso era uma verdade. Por esse motivo, ela decidiu dar uma chance a si própria, dar uma chance a Robin e deixou com ele seu coração e a promessa de um drink. Com ele tudo parecia tão fácil, tudo fluia tão leve. Nunca fora assim, nem com Daniel. Talvez por isso nunca dera certo, talvez ela só devesse tentar.

De pé, na janela de seu quarto, olhou novamente para o horizonte e sentiu o aroma do café quente na caneca em suas mãos. Respirou fundo e imaginou o que Henry deveria estar fazendo naquele momento. Então uma batida na porta da frente. Regina desviou o olhar para baixo e viu o fusca amarelo estacionado do outro lado da rua. Emma. Deixou a caneca de café sobre a mesinha de cabeceira e desceu as escadas rápido, não lembrando sequer que estava apenas com seu pijama de seda azul. Abrindo a porta, viu Emma com dois copos de café num suporte do Granny's e um saco de papel pardo, que devia conter sanduiches ou panquecas. A jaqueta de couro vermelha foi substituída por uma blusa de manga comprida xadrez azul e branco. Os mesmos jeans e as mesmas botas. Emma sorriu e mostrou os embrulhos.

-Bom dia, Regina. – Regina não sabia o que dizer quando Emma passou por ela na porta e seguiu para a cozinha.

-Bom dia, Swan. – Regina respondeu baixo, duvidando que a loira tivesse ouvido, visto que já estava longe. Ela fechou a porta olhando para os lados e, respirando fundo, seguiu para a cozinha. – Eu não me lembro de ter feito um convite para o café da manhã. – Regina falou enquanto se aproximava observando Emma colocar a mesa, mexendo em seus armários, pegando suco e geléia na geladeira. Emma sorriu.

-Eu imaginei que você acordaria cedo hoje, e com um humor não muito agradável. – Emma deu uma risada com a careta que Regina fez e se sentou, esperando que a prefeita fizesse o mesmo. – E eu precisava conversar com você, longe dos meus pais. – Regina, desconfiada, então se sentou. – E antes que você pergunte, Henry está bem. Ele está tomando café da manhã com David e Mary Margaret no Granny's. – Regina suspirou aliviada.

-O que é então? – Ela pegou o garfo e partiu uma das panquecas doces que Emma trouxera.

-Primeiro, quero saber como você está. – Emma olhou séria para Regina, que viu que não haveria escapatória senão responder.

-Eu estou ótima, levando em conta que minha meio-irmã verde-esmeralda tentou me humilhar na frente de toda a cidade, me jogou sobre um carro velho, me impediu de fazer magia, me lançou na torre do relógio, e tentou arrancar meu coração... Melhor impossível. – Emma olhou para Regina enquanto falava e soube que ótima era a última definição que Regina deveria dar a si mesma. Regina percebeu o olhar preocupado. – Eu estou bem, Emma, não se preocupe.

-Você ainda está sem seu coração? – Emma perguntou cautelosa enquanto bebericava seu chocolate quente. Regina ficou um momento em silêncio contemplando seu próprio chocolate.

-Sim. Ele está bem guardado. – Regina deu um sorriso pela primeira vez naquela manhã.

-No seu cofre? – Emma tentou.

-Não. Porque a curiosidade? – Regina olhou nos olhos de Emma e viu algo que não imaginou ver. Mágoa.

-Porque você não o deixou comigo? –Emma disse sem encarar a morena sentada a sua frente. Regina suspirou entendendo a situação. Emma estava chateada porque não foi a escolha feita por Regina para proteger seu coração. – Quero dizer, você poderia confiar em mim, Regina, eu achei que você soubesse disso. – Emma ainda não a olhava.

-Não é questão de confiança, Emma. Foi uma questão de pensamento rápido. – Regina respondeu suave. Emma a olhou com curiosidade. – Eu estava conversando com alguém, e esse alguém me pareceu ser sincero. Quando eu pensei em tirar meu coração, eu não podia deixá-lo com você, Snow ou David. Vocês seriam as primeiras pessoas com as quais Zelena iria procurar. Precisei deixar com alguém que não tem uma ligação visível comigo, mas que eu confio. – Emma acenou com os olhos presos nos castanhos de Regina. – Mas se isso serve de consolo, minha primeira ideia foi você.

-E quem é esse alguém? – Emma mordeu uma panqueca grosseiramente sem tirar os olhos da prefeita.

-Eu preferia deixá-lo no anonimato. – Regina respondeu baixo.

-Então é um homem... Um homem com quem você está tendo um romance, eu suponho. – Emma continuou olhando nos olhos de Regina, e viu uma oscilação.

-É claro que não! – Regina rebateu rápido.

-Você está mentindo. – Emma disse.

-Não, não estou. – Regina baixou as mãos e pôs os talheres de volta na mesa. – Eu não tenho um romance com ele. – Disse olhando nos olhos de Emma, que entendeu que era verdade.

-Mas existe algo entre vocês. – Emma disse baixo.

-É claro que existe, ele está protegendo meu coração. Eu dei a ele um voto de confiança porque há anos atrás ao arruinar a minha vida, arruinei a dele também. E agora ele está de volta. Eu não sei o que é isso, e nem como o que eu fiz vai afetar no agora, mas uma parte de mim diz que eu devo confiar nele. – Regina disse rápido.

-E quanto a outra parte? – Emma a encarou.

-A outra me diz que é um erro. – Regina suspirou. – Por que isso tudo agora Emma?

-Eu não sei, só estou preocupada. – Emma sussurrou.

-Porque essa preocupação toda? Eu sou uma mulher, não uma garotinha indefesa...

-Essa bruxa quer arruinar você, Regina. – Emma cortou a mulher. – E se ela estiver usando esse homem para te atingir? Regina, eu preciso que você tenha cuidado.

-Mais uma vez, Emma, porque essa preocupação agora? – Regina se inclinou sobre a mesa. Castanhos em verdes. Lá estavam elas, as faíscas. Regina sentiu falta delas, que só apareciam nas brigas com Emma.

-Pelo Henry. Mesmo que ele não se lembre, você ainda é a mãe dele. E nós temos que derrubar essa bruxa, Regina. E só podemos fazer isso se estivermos bem, e juntos. – Regina sentiu seu estômago afundar. Pensou que, talvez, Emma dissesse algo diferente. Seus olhos ainda estavam conectados quando Emma segurou sua mão. – Nós estamos juntas nessa, Regina. Essa mulher não vai vencer. Nós duas, juntas, fizemos um eclipse, então acho que podemos fazer qualquer coisa. – Regina não tirou sua mão debaixo da mão de Emma. Elas simplesmente se olhavam. Regina, baixou os olhos para o braço da xerife e viu em seu pulso uma pequena flor. Suas duas mãos vaguearam até o pulso da mulher e tocaram o desenho na pele branca.

-Não sabia que você tinha uma tatuagem. – Regina disse simplesmente, olhando fixamente para a flor.

-Ah, isso? É muito antiga, eu tinha dezesseis, eu acho. –Emma disse sem dar muita importância, mas hipnotizada pelo toque das mãos da rainha.

-É bonita. – Regina disse simplesmente.

-Obrigada. – Emma agradeceu com os olhos nos dedos ágeis de Regina. O celular no bolso direito de sua calça vibrou e Emma saiu do transe, assim como Regina se recostou em sua cadeira confortavelmente. A loira olhou aparelho e viu uma mensagem. Digitou algo rapidamente e se virou de volta para Regina. – Eu prometi ao David que iria ajudar com o berço do bebê. Mary Margaret vai surtar se der a luz sem um berço digno de um príncipe. – Emma riu, acompanhada de Regina. A xerife se levantou. – Preciso ir. Você vem mais tarde?

-Sim. Estou trabalhando num feitiço de proteção para o apartamento dos seus pais. Quando estiver pronto, e se funcionar, o apartamento vai estar seguro contra Zelena. – Regina falava enquanto caminhava com Emma até a porta da frente.

-Você realmente faria isso? – Emma parou de frente para a dona da casa e a observou.

-Não faria, estou fazendo. Não se preocupe, vai dar certo. Estamos juntas, não estamos? – Regina disse com a sombra de um sorriso e a sobrancelha levantada. – Emma sorriu e acenou, passando pela porta. No último degrau da varanda de mármore branco polido, Regina a chamou de volta. – Emma, obrigada! – Emma sorriu mais uma vez e caminhou para seu fusca. Quando deu a partida no carro, observou a porta da mansão ainda aberta e Regina em seu pijama azul. Emma sorriu para si mesma. Nunca imaginou que veria Regina de pijamas!