"Escura obsessão em nome do amor
Este vício de que ambos fazemos parte
Nos leva profundamente no mistério
Nos mantêm suplicando infinitamente"
(I Am You – Depeche Mode)
Vocês e ele
Por Enfermeira
Vocês, minhas queridas. Minhas cabeças, meus troféus. Vocês fedem a carne pútrida e a sangue velho e choram, choram por um arrependimento que nunca vai existir. Minhas vítimas. Vocês me odeiam, e choram ainda mais quando passo meus dedos por suas têmporas.
Vocês são a fama que me precede.
Vocês, minhas confidentes. Vocês choram, mas não me questionam. Vocês me escutam e sabem do que eu preciso falar. De quem eu preciso falar.
Ele. Ele. Meu companheiro de guerra, meu comparsa, meu maldito, meu. Meu Afrodite.
Tudo me lembra ele, tudo me lembra dele.
O cheiro de rosa fica impregnado no cheiro de morte de vocês, quando ele me visita. Ainda consigo sentir, mesmo que já tenha passado tantas horas.
Eu não preciso dizer, vocês vêem, vêem quando ele vem aqui. Na nossa casa, na minha casa. Só ele, só Afrodite pra ousar me atiçar na minha própria casa, porque ele sabe, ele sabe que eu jamais daria a ele o mesmo fim que dei a vocês, por mais que eu goste da idéia da cabeça dele acima de todas vocês. A mais bela. Seria meu melhor troféu, se eu tivesse coragem. Se eu quisesse. Afrodite tem muito mais valor vivo do que morto. Pro Santuário tem. Pra mim tem.
Vocês viram. A mão dele no meu pescoço, o "Máscara da Morte" sussurrado no meu ouvido. O beijo dele. O gosto do beijo dele, ainda na minha língua. Agridoce no amargo. Os lábios dele nos meus, as unhas dele cravadas em mim. O sorriso dele antes de jogar a rosa no ar e sumir daqui.
Tudo dele, tudo ele.
Afrodite, meu Afrodite. Minha obsessão. Ele é tudo que eu penso, tudo que eu quero e que odeio pensar.
Minha obsessão. Quando vai terminar?
Vocês não me respondem, mas eu sei. Não preciso de resposta.
Obsessões são mortais. E essa ainda vai me consumir, porque não vai acabar tão cedo.
