Crônicas De Londárion - A Nova Terra
Conto 1 - O Invasor e o Cego Vidente
Numa taberna em meio a Capital Imperial de Londárion um jovem procurando respostas às encontra com um velho mal-encarado e bêbado de rum.
Homem Mal–encarado: O que vocês querem é saber sobre mim, não é? Então vou lhes contar uma história que eu não vi... E sim vivi! "Numa tarde de outono como em outra qualquer eu, como muitos outros guardas, estava de prontidão no portão do templo do Oeste. O nosso Sumo-Sacerdote era homem intrigante com longos cabelos grisalhos que apesar de não enxergar conseguia saber tudo a sua volta e ainda por cima conseguia ver o que ninguém mais podia... A própria alma de uma pessoa e o futuro!".
Ron!
Sentado numa cadeira de balanço na sacada da torre central do templo um homem cego chamava um jovem mago que estava lhe preparando chá.
Sim, vossa excelência Johen, o que deseja?
Transmita a última visão que tive ao comandante da armada.
Sim, diga-me e o comunicarei! "Mas o que precisaria de tanta urgência?"
Diga-lhe que seremos invadidos ainda hoje.
Sim, mas por quantos?
Um.
Um silêncio duvidoso instalava-se num súbito entre o vento da sacada e os dois que conversavam polidamente.
Como assim um? Uma armada, um exército, um reino?...
Não, nada disso... Apenas um.
Perplexo Ron relutava olhar para Johen mesmo sabendo que ele não poderia ver t6eu rosto.
Apenas um invasor?
Isso mesmo apenas um.
Ainda impassível e inerte, Johen, mantinha cada afirmação sabendo o estado de espírito do jovem mago.
Mas, por favor, Vossa Eminência, me explique como apenas um invasor vai ser um empecilho para uma frota de cinco mil magos experientes, novecentos mil soldados do reino e sete muralhas de pura rocha sólida?!
Não sei meu jovem, mas será apenas um... Agora vá, por favor.
Sim, estou a caminho!
Ele corria a escadaria em direção a sala do comandante com uma grande incógnita que lhe incomodava: "Quem seria insensato ou insano o suficiente para invadir um templo dedicado aos anjos onde há um exército de quase cem mil soldados e magos que o protegem com suas vidas e sete muralhas de rocha com cinco metros de espessura, dez metros de altura e quinze metros de distância uma das outras?"
Senhor comandante!
O comandante era do tipo de pessoa que se dedicava a seu trabalho até que não mais tivesse em seu horário e naquele instante ele estava preenchendo relatórios. Interrompe-lo no meio do trabalho era quase um pecado capital ao seus olhos, principalmente esbravejando do jeito que Ron o fizera.
Sim Ron, o que é tão importante para te fazer me interromper o trabalho?
Ron sentiu o tom seco e áspero do comandante, mas não tirava sua razão, pois da última vez o assustara com seus gritos e o fizera criar um furação de papeis borrados de tinta atrasando seus relatórios em meio ano.
O sumo-sacerdote Johen teve mais uma de suas visões e me pediu que lhe contasse com urgência!
Sim entendo. "Esse homem me surpreende, mesmo sendo cego e idoso ele pode ter visões do futuro que nos salvam de massacres horríveis" Diga logo!
Si-sim! Ele disse que seremos invadidos hoje e por um só invasor!
O quê!? Com todo o respeito Ron, mas como Vossa Eminência acha que um invasor somente é problema para um exército tão numeroso, bem treinado e disposto a dar suas vidas para proteger este lugar? Além do mais ainda há o fator principal, as sete muralhas!
"Não sei" foi o que me disse quando lhe perguntei o mesmo.
E mencionou a aparência do nosso invasor? Seu nome ou pelo menos como ele viria?
Ron percebia a cada palavra uma despreocupação estranha e também um aborrecimento que parecia ser jogado por cima de seus ombros como blocos de mármore.
Na verdade não, mas pediu que você preparasse as tropas com total urgência!
Sim, eu o farei, mas não creio que um invasor seja lá grande problema para nós!
Sim, também acho isso, mas não ousaria contrariar as ordens de Vossa Eminência. Mas estarei no quarto dele para esperar por outra visão senhor.
Sim Ron, agora vá!
Sim senhor, adeus. —Disse quase sem voz pelo temperamento estranho do comandante.
Passam-se cinco horas após a conversa do comandante e Ron, mesmo assim não há noticias de novas visões ou de alguma invasão deixando Johen preocupado e nervoso.
Vossa Santidade ainda acha que seremos invadidos hoje tão facilmente?—Disse desinteressado, mas ainda curioso.
Não Ron... Tenho a sensação de que seremos arrasados ainda esta noite.
A calma e preocupação nas palavras de Johen deixam Ron espantado e nervoso duvidando de suas próprias suposições e até de sua certeza de vitória. No portão da quinta muralha dois soldados conversam matando o tempo em serviço.
Será que estamos aos postos de batalha para nada?
Nunca repita isso novamente! As visões de Vossa Santidade nos salvaram de milhões de massacres devastadores, não será esta uma exceção. Por isso não repita o que disse nunca mais!
Calma, cara, calma... Estava só brincando... Puxa que cara mal humorado.
Acho bom mesmo!
Ainda se completam nove horas da noite no templo do Oeste e a tensão das histórias que os guardas contavam para ficarem acordados os deixava mais nervosos e inseguros, ainda mais do que Ron e Johen. Somente uma pessoa no templo todo estava calma e segura de si esse era o comandante, pois para ele as visões de Johen sempre os levavam a vitória na certa, sem sequer uma margem de erros ou problemas para chegar a ela. E nos portões da muralha três parece que algo está para acontecer.
Ah... Já está quase na hora de trocar de turno e nenhum sinal de invasores.
Num súbito uma explosão, que mais parecia ter sido feita por um projétil imenso, destrói o lado sudeste de todas as sete muralhas de pedra deixando um rombo de vinte metros em cada uma delas e trazendo consigo uma confusão de magos e soldados que logo se instalou ali. Quando o comandante chega à confusão, começa logo a armar uma estratégia imediata de combate a curta distância.
Soldados... Ao meu sinal! —Gritou com uma voz imperiosa e forte.
Sim senhor! —Responderam de imediato num coro.
Na nuvem de poeira dos destroços uma silhueta humana caminha calmamente até os soldados e em instantes salta por cima de todos rasgando o silêncio repentino causado pela preparação de uma batalha e ansiedade de dar-se o primeiro golpe. Quando toca o chão essa silhueta mata soldado por soldado até dos quinze mil que ali havia não restar mais que cinco mil quatrocentos e vinte e três homens mais o comandante que suava de ódio, medo e dessa mesma ansiedade.
Vozes agonizantes ecoavam cercando o comandante na nuvem de poeira deixando-o com ainda mais medo e ansiedade, mas após alguns minutos de chacina um silêncio inóspito e medonho ocorre. O comandante usufrui desse tempo de trégua que o invasor os deu para se juntar com os poucos soldados remanescentes que estavam por volta de cinqüenta preparando uma nova estratégia de batalha, agora com visão zero.
Preparem a "célula", agora! —Esbravejou nervoso e irritadiço.
A "célula" era uma estratégia que requeria muito treinamento e dedicação, distinguindo-se por unir vários círculos um dentro do outro onde o círculo mais próximo do centro defendia o circulo que o circundava e assim por diante um circulo dando suporte ao outro numa tática de defesa multua.
Vocês acham que uma misera célula é capaz de me abater? Tolos! —Sussurrou em meio a escuridão.
Não se abalem pelas palavras dele... Nós venceremos! —Gritou imperioso diante da intensa certeza de vitória.
Nem se fossem mil células vocês me venceriam, muito menos fariam-me um arranhão! —Rindo em escárnio e apreciando o prazer de matar sentido o medo de seu oponente crescendo e o consumando em desespero.
Com outro salto o invasor usufrui dos destroços para não necessitar de tocar o chão e separa a célula em seis partes matando cinco delas em instantes deixando tão poucos que a derrota era certa.
Droga... Vão e chamem reforços, agora! — Gritou desesperadamente com dois dos soldados mais próximos da brecha na muralha logo atrás da batalha.
Sim, senhor! — Responderam com medo nos olhos.
Dois dos poucos soldados correm desesperados para uma torre próxima e chamam todos os guardas que ainda estavam no templo. Logo setenta e cinco mil soldados fazem uma barricada humana para impedir a passagem do invasor por qualquer direção protegendo os rombos nas muralhas e o caminho entre elas que levava até o templo, mas o invasor não demonstra reação alguma, como se não houvesse ninguém lá.
Agora sim... Começou a ficar divertido... — Riu em escárnio assustando cada soldado presente com esta reação repentina.
Ataquem sem piedade! —Disse o comandante como se fosse uma ordem do próprio imperador.
Todos os soldados atacam sem remorsos, como se não houvesse um manhã, mas o invasor continua calmo e imóvel como antes.
Isso... Venham! Quero me divertir mais! — Gargalhando como se realmente estivesse se divertindo com a situação.
Os guardas intimidados pelas faces e palavras que o invasor mostrou agarraram-no com todas as forças, após observar o ataque falho.
Comandante! Assim não iremos conseguir! — diz um dos soldados que o seguravam firmemente.
Vocês não estão nem se esforçando... Assim irei matá-los muito rápido e não irei me divertir com essa luta! — Sussurrou para o soldado com um olhar decidido em tirar cada vida que ali havia.
Droga, ele é forte demais! — Gritou outro soldado que também tentava segurá-lo com todas as forças.
Mesmo com todos os soldados no confronto e com todo o melhor armamento da frota em batalha o esforço deles era inútil, o invasor prosseguia cada vez mais matando soldado por soldado.
Esforcem-se, se não os mato agora! — Gritou o invasor com olhos desapontados e ainda decididos em matar a todos lá.
Protejam o templo a todo custo! Não podemos perder! —Incentivou o comandante como se ainda pudesse ganhar naquele momento.
Uma nova explosão mata metade dos soldados restantes e deixa a outra metade deles feridos, porém o comandante continua ileso... Até agora.
Ah! Maldito... — Sentindo as lâminas das garras perfurarem cada órgão de seu corpo.
Agora... Ao templo. — Segue calmamente como se o mar de sangue que ele mesmo jorrou não existisse.
O comandante na sua última tentativa de impedir o progresso do invasor o agarra a capa.
Hã?! Ainda está vivo? — Diz um tanto confuso com o fato.
Quem é você? Por que nos invadiu? — indagou com seu último suspiro.
Não se preocupe com coisas que não pode compreender... Ah! Sim, agora morra!
O invasor estoura o crânio do comandante com uma das mãos e prossegue ao templo onde encontra muitos soldados que protegiam as escadarias e o salão que as conectavam ao quarto do topo do templo ou o quarto do sumo-sacerdote Johen. Matando cada soldado que lhe interrompia a passagem ele chega ao último salão que estava vazio com sua única porta e suas quatro tochas mágicas que iluminavam toda a sala.
O quê?! Como ousa invadir um templo sagrado e profanar-lhe com tal derramamento de sangue? Ah... — Sentindo um soco lhe derrubar ao chão.
Não me atrapalhe criança! Só quero o cego velhote. — Disse impaciente o invasor.
Maldito, O que quer com ele? — Disse ainda sentindo o soco que lhe tirou o ar dos pulmões.
Vim matá-lo... Como meu mestre ordenou... Está pronto? — Disse com seu sorriso de escárnio e prazer de matar.
Se os anjos querem assim... Estou. — Disse Johen calmamente sem demonstrar emoção alguma.
O invasor crava-lhe suas garras no peito de Johen que simplesmente morre com o veneno delas instantaneamente.
Não! Johen!
"Foi tudo o que pude ouvir lá na brecha da muralha sete onde pude ver o invasor ir para fora do templo com um só salto. De lá eu vi Ron dizer claramente 'Helmond' e mais nada pude ouvir, pois desmaiei."
