Oi, gente! Essa é a minha primeira fic no universo do Hércules, tive a ideia para ela ouvindo uma música da Tiê chamada "Isqueiro azul" (por isso o título da história, mas o isqueiro nem chega a aparecer, rsrs), e achei que casava muito bem com o que a Meg deve ter sentido depois de ter sido abandonada pelo namorado por quem ela tinha dado a alma para o Hades (lembram que o Hades conta a história bem resumidamente?). Então resolvi escrever o que imaginei que ela pensaria sobre isso usando alguns trechos da música - os que estão em itálico. Recomendo ouvi-la, porque além de dar o clima acho a música linda!

Espero que vocês gostem!


Meg gostaria de ter ouvido seu ex-amado ter dito algumas coisas. Às vezes vinham na sua cabeça algumas frases que ela gostaria de tê-lo ouvido dizer...

Travei, parei, parou meu coração

Te disse sim, te disse não

Depois neguei de um jeito frio

O amor que te prometi.

Teria sido apenas a verdade, por mais que ele não gostasse de admitir. Se pudesse faze-lo beber uma poção que o fizesse sentir e enxergar qual realmente foi a situação, mesmo que ele ficasse com a cara de quem havia sido hipnotizado, aquele teria sido um bom começo.

Ela, por sua vez, diria algo assim:

E quantos "quase" cabem num segundo,

Me vi chegar no fim do mundo,

Me vi sofrer na solidão

De um jeito que não suportei.

Ela havia, afinal, dado a alma para salvá-lo. E ter sido tão mal retribuída, bem... foi como chegar ao fim do mundo, e o único que a esperava era Hades. Se a promessa de "sua alma pela de seu namorado" havia sido cumprida e ele sobrevivera, agora ela tinha que cumprir a sua parte. Mais penosamente do que poderia ter imaginado. Não havia previsto sofrer na solidão de um modo que às vezes a fazia se sentir sozinha no mundo. E por isso tornou-se descrente no amor, olhando tudo com ceticismo... para evitar fazer outra promessa mal pensada. Mas quem é que pode culpar alguém por não ter pensado direito sob efeito do Amor? Nem os mais céticos escapam.

Mas a história continuava, e ele dizia:

Eu sei que fiz você chorar,

E luto tanto pra esquecer.

Talvez essa parte soasse meio fantasiosa. Pela rapidez com que ele a abandonara assim que pôs os olhos na outra donzela, era esperar muito. Mas esperava sinceramente que ele soubesse, e ao menos soubesse, que a fez chorar com mais sinceridade do que ela havia antes chorado. A sensação de desamparo, do absurdo que era aquilo, a havia feito cair sobre os joelhos, esconder o rosto entre as mãos e desaguar, tal como Hades havia representado em fumaça. Agora desejava que ele ao menos houvesse dito algo assim:

Valeu por todo o dia que te vi,

Valeu, mas eu vou resistir

Seria pelo menos um aviso, ainda que fosse um aviso de algo muito ingrato e pouco fizesse pela dor dela. Era pouco para o que ele fizera. Mas ainda assim, se ele ao menos dissesse que iria resistir a ficar o resto de seus dias com ela, seria mais gentil.

No fundo, eu te espero em outra vida

Também não vejo outra saída

E já nem é a primeira vez

Cê sabe, eu já te conhecia

Isso seria ela a dizer. Pelo menos tinha o trunfo de saber que ele não era alguém constante. Não era o primeiro de seus abandonos, embora fosse o mais sério. Em outras vezes, já havia sumido sem dizer para onde ia e depois de dias, voltar como se voltasse de um passeio. Em outras, tentara convencê-la do caráter extremamente fluido do amor, que permitia não se prender a uma pessoa. Mas tudo isso garantindo que a amava. E ela, apaixonada que estava, não se deu conta de para onde aquilo ia. Mas quem teria adivinhado o final tão brusco?

Eu sei que vou chorar também

Da falta bruta que me faz

Me vi descer na contramão,

De um jeito que não quero mais

Bom, aquilo seria se ela houvesse sabido o que ele ia fazer. Teria de admitir o quanto iria chorar, e a falta bruta que ele faria para ela. A descida na contramão foi descer do ponto mais alto, que foi vê-lo de volta à vida graças à sua promessa – que ela então cumpriria com gosto – e pouco depois escapar de seus braços para que ele pudesse correr atrás de um novo amor. Ou de uma nova ilusão. Preferia pensar assim. Fosse como fosse, o caminho descendente foi o mais árduo que já fez, da euforia à mais pesada solidão, como se descesse ao canto mais esquecido da Terra. Era algo que ela realmente não queria fazer de novo. Se agora as florestas e bosques sombrios eram familiares para ela, preferia ficar assim a se arriscar a descer ainda mais.

Travei, parei com tudo por aqui

Não vou entrar, não vou sair

Ainda que esses dizeres fossem os mais confusos na boca dele, seria pelo menos um anúncio do final. Deixaria bem claro para ela, e aí quem sabe o impacto poderia ser menor. Ou não? O peso do trato com Hades sem aquele por quem ela havia trocado a sua alma seria sempre uma dor que de tão inesperada só o tempo apaziguaria, quer ele se explicasse quer não. E talvez não houvesse nada o que explicar. Nada que valesse a pena pelo menos. O que o tempo pôde fazer foi transformar aquela aflição em uma marca quase física, para lembra-la de um risco corrido e de seus amargos resultados. E de nunca mais arriscar tudo daquele jeito de novo.

Bom, mas agora ela carregava a sua marca na maior parte do tempo como se ela não existisse. O problema era lembrar dela. E aí, só fazendo um pacto com a própria Memória para apaga-la.