Anata no Koe

A sua voz

Capítulo 1

-

-

Para Mary Marcato

-

-

Kinomoto Sakura tinha os olhos grudados na tela, um papel em mãos, os lábios secos e voz embargada.

-Eu... Eu nunca pensei... – ela falava sem tirar os olhos da tela. A voz estava fraca e era possível perceber que controlava o choro – Você... De todas as pessoas...

Subitamente, sem nem ao menos piscar ou desviar o olhar da tela, a mão esquerda levou à boca um lenço. Nele, ela começou a fungar.

Um homem ao lado dela começou a falar depois de dar um longo suspiro:

-Cho... Eu... Eu só posso dizer que sinto muito... Eu nem tenho mais coragem de olhar para você por causa vergonha que eu... – ele, que também segurava um papel e não piscava para a tela, precisou fechar os olhos ao começar a tossir, deixando cair no chão o papel que antes lia.

A imagem na tevê congelou e Sakura virou-se para ajudar o colega, batendo levemente nas costas dele:

-Eu falei que era pra ficar em casa se essa garganta ainda estivesse ruim, Yamazaki! – ela o repreendeu – Como pode trabalhar assim?

-Ah... – a voz dele saiu meio rouca – Mas eu tinha prometido pra Chiharu que faríamos a cena do reencontro de Jang com Lee. É o ápice da novela.

-MAS EU NÃO QUERO FAZER COM VOCÊ! – uma garota gritou da sala ao lado.

-Yamazaki, quer pelo menos terminar essa cena hoje e tirar uma folga de um dia? – uma garota abriu a porta da sala ao lado e ficou encostada à batente, olhando algumas fichas numa prancheta – A cena das descobertas das mentiras de Lee pode ficar para amanhã. E também vamos começar a dublar uma outra novela.

-É? – tanto Yamazaki quanto Sakura correram a ela para olhar os nomes.

-Vamos ter uma reunião daqui a meia hora sobre isso. E entrou mais um membro na nossa equipe. – a garota sorria gentilmente enquanto pressionava a prancheta contra o corpo esbelto, como se não quisesse que lessem os nomes escolhidos – Você e Yamazaki também devem ir.

-Ei... Então isso aí já terminou, Rika? – Sakura apontou um polegar por cima do ombro, indicando a tela congelada.

-Sim, sim. – ela assentiu com a cabeça também – Podem descansar. A reunião será no segundo andar, sala 5.

-Bom dia. – mais uma garota falou. Estava parada atrás de Rika, piscando um pouco confusa – O trabalho de vocês já acabou?

-Ah, Tomoyo... – Rika virou-se para ela – Há uma reunião daqui a pouco. Um novo trabalho a partir de amanhã.

-Oh... – ela inclinou o rosto para o lado e sorriu – O que será, o que será?

-Eu vou tomar um café. – Sakura passou por Rika e foi a Tomoyo, pegando a mão dela – Quer ir comigo, Tomoyo-chan?

-Será um prazer. – ela respondeu num tom que já era habitualmente educado e Sakura deu um sorriso antes de virar o rosto para os outros dois.

-Vocês também querem?

-Não. – Rika recusou – Tenho que ajudar o senhor Terada em algumas coisas antes da reunião.

-E eu preciso treinar minhas falas com Chiharu sobre a reconciliação entre Lee e Cho. – Yamazaki tinha um dedo erguido como se explicasse algo sério – Vocês sabiam que é comum na Coréia do Sul a segunda mulher traída perdoar o marido antes do divór...

-Chega, Yamazaki. – alguém bateu nele com uma pasta cheia de scripts. Era uma garota de longos cabelos castanhos encaracolados, e era, na opinião masculina, muito bonita – Você não está doente demais pra trabalhar hoje?

-Mas você sabia, Chiharu, que se eu for beijado...

A garota deu as costas para ele e foi até Sakura e Tomoyo, que riam discretamente daquele fato. As três saíram juntas pela outra porta do escritório - que levava ao corredor do terceiro andar do estúdio de dublagem Koe!, em Tokyo.


À mesa da sala de reuniões do segundo andar, Sakura aproveitava os minutos que antecediam a reunião com o diretor do estúdio para conversar com a amiga Tomoyo. As duas se conheciam desde que começaram a trabalhar juntas, sempre encontrando um papel e outro num mesmo estúdio.

-Rika falou que teremos um novo projeto a partir de amanhã... – Sakura comentou ao ouvido da amiga – E uma pessoa nova na equipe.

Tomoyo piscou curiosamente e sorriu, olhando discretamente para a secretária do diretor. Ela conversava com ele e fazia anotações numa prancheta, sorrindo de vez em quando. Até parece que ninguém notava o que havia entre os dois.

-Vocês sabiam que a novela que vamos traduzir é uma produção independente norte-coreana, censurada em todo país e cujos produtores foram condenados pela... – Yamazaki começou a explicar com a habitual pose de quem tudo sabe, mas ficou calado ao sentir um puxão na orelha da garota de cabelos castanhos ao lado dele. Baixou o rosto e ficou quieto.

-Olha, Sakura... Será que é ele? – Tomoyo puxou o braço da amiga para perto dela e indicou com a cabeça um rapaz que entrou na sala e curvou-se respeitosamente diante do diretor Terada.

Sakura ficou branca e sentiu o sangue congelar. Ela o conhecia, não? Claro que conhecia! E ele com certeza não a esqueceu. Quer dizer, seria ótimo se isso acontecesse. A última coisa que queria era ter Li Syaoran fazendo comentários tolos no ouvido dela a respeito de um segredo que dividiram no passado. Mas... Por que justamente ele? Quando ele tinha voltado de Hong Kong? E... Era ele? Ele ia trabalhar com ela?

-Ah... – ela escondeu o rosto entre as mãos e Tomoyo tomou-lhe a mão direita para massagear.

-Está se sentido mal?

-Mal... – Sakura assumiu um tom dramático – Muito mal. Não posso mais ficar aqui. – levantou-se de súbito e pegou a bolsa – Eu te vejo depois, Tomo—

Um puxão na blusa fez com que ela afundasse novamente na cadeira, principalmente quando o diretor e os outros dois se sentaram à mesa, indicando o início da reunião. Pior sentiu-se ela quando percebeu que o rapaz a olhava... E ainda sorria!

Ah, por que, depois de tanto tempo, ela teria que voltar a encontrar Li Syaoran em Tokyo? Ainda mais no trabalho dela! Eles não haviam concordado que não se veriam mais? Quer dizer, ela dissera isso, por isso ele tinha a obrigação de concordar!

Relembrou a época que o conhecia. Os dois eram amigos de infância, estudaram juntos quando cresceram, separaram-se quando os pais dele decidiram mudar para Hong Kong. E da promessa que fizeram quando os dois voltassem a...

-Sakura? – o diretor Terada a chamou – Você está prestando atenção?

-Claro! – ela ajeitou-se na cadeira e enfrentou o olhar curioso dele.

-Este rapaz – apontou Syaoran, ao lado dele – será o diretor dessa dublagem. – usou o pronome que substituía um nome, o que significava que Sakura teria que adivinhar a respeito do quê ele estava falando – Você será a principal.

-Oh? – ela ergueu as sobrancelhas – Tem par?

-Infelizmente eu soube, há alguns minutos, que a pessoa que faria o seu namorado numa produção como esta – Syaoran também fez a substituição vocabular – está doente. – indicou Yamazaki, num acesso de tosse, com o polegar – Mas não se preocupe, senhorita Kinomoto... – falou o nome dela suavemente e sem desencontrar o olhar – Ainda hoje conseguirei um substituto.

-Que tal Yukito? – ela sugeriu a Terada, como se fosse com ele que tivesse que falar no momento e não com Syaoran – Ele sempre diz pra chamá-lo quando faltasse alguém.

-Yukito Tsukishiro está trabalhando em outro estúdio, em outra cidade, Kinomoto. – Rika inclinou o rosto ao sorrir.

Sakura deu um suspiro. Era melhor entregar o troféu da vitória a Li e terminar pelo menos os serviços que tinha para aquele dia e se preparar para o próximo.

Mas que ela não ia se deixar levar por ele, isso ela não ia.


Ao final da tarde, na sala onde guardava a bolsa, Sakura suspirou desanimada ao se jogar no sofá. Que coisa mais desgastante... Ainda não sabia coisa alguma a respeito do novo trabalho, nem conversara direito com Syaoran, não sentia vontade de saber de nada.

Olhou o teto por longo tempo; um braço estava por cima da testa; uma perna balançava por cima do outro joelho.

Os dois haviam feito uma promessa quando crianças. Como eram muito amigos, e as famílias também, tinham prometido que casariam quando crescessem. Mas, infelizmente, dois anos depois, a família de Syaoran dissera que mudaria para Hong Kong. E Syaoran escrevera de lá uma vez falando a respeito de uma noiva que a família arranjou por lá.

Sakura nunca mais quisera saber dele.

-YAMAZAKI! – Syaoran entrou abruptamente na sala. Sakura sentou-se no sofá e olhou-o meio confusa.

O rapaz olhou para os lados e – para infelicidade dela – precisou perguntar:

-Yamazaki passou por aqui?

-Hmm... Ele foi embora antes de eu entrar aqui...

Viu-o franzir a testa e correr a ela, agarrando-lhe a mão para saírem dali com pressa.

-Aconteceu um problema. – ele explicava pelo caminho até a sala de áudio – Yamazaki prometeu que arranjaria alguém pra fazer o papel dele, mas eu já o procuro por horas! – deu um suspiro meio irritado – Aposto que ele sabia daquela cena e resolveu dar no pé sem arranjar alguém antes!

-Hein? – lembrou-se então de que não sabia nem o que dublariam.

Syaoran reprimiu um sorriso. Se a teoria dele estivesse correta, nem ela sabia sobre o se tratava e ia, no mínimo, querer morrer quando descobrisse. E ele ia adorar ver aquela cena.

Entraram na sala, fecharam a porta, ofereceu a ela uma cadeira que não foi aceita. E então Syaoran ligou o equipamento, falando:

-Yamazaki ia fazer um dos papéis principais, mas não podia por causa da garganta. E disse que ia arrumar alguém pra fazer o papel. – ele colocou um DVD pra rodar e entregou sem um pingo de educação um roteiro nas mãos dela – Vai treinando enquanto eu te mostro uma coisa. Quero ver se você é boa mesmo.

Sakura estreitou o olhar. "Quero ver se você é boa mesmo", foi isso o que ele disse? Ah, mas precisava mesmo de uma lição! Ela nunca ganhou prêmio, como acontecia com outros dubladores mais conhecidos e experientes do ramo, mas sempre fora uma boa aluna no teatro e atualmente não precisava de fama para fazer o trabalho dela, para fazer os papéis que sempre a designavam. Abriu o roteiro, ainda sentindo-se frustrada com o comentário, e leu a primeira página.

O que é ruim nesses momentos de raiva é você se sentir perdido – como quando abrimos um livro ao meio para tentar saber sobre o que se trata. Ela precisou voltar à capa e ler o título, arregalando os olhos:

-"Os amantes da senhora Xin Yang Lin"? – até o título causava-lhe horror – Aquela novela chinesa pornô?

-Ué, não sabia que os direitos dela foram comprados pelo canal NCH?

Sim, ela sabia. O NCH era um conhecido canal adulto da televisão paga, que recentemente anunciara os novos pacotes de atrações. O que chamava atenção de muitos era o sumiço de "produções" nacionais e presença de novelas e filmes adultos chineses, tailandeses, coreanos e até filipinos. A novela "Os Amantes da Senhora Xin Yang Lin" era a adaptação de um livro japonês de contos eróticos, publicado ainda na era Meiji. A adaptação chinesa contava com a presença de uma conhecida atriz japonesa – que aceitara o papel sem pudor em troca de um cachê considerado "gordo" pelos atores da mesma categoria, e que abandonou o país de origem para trabalhar no exterior.

-Claro, mas... – ela lia algumas falas e cada vez ficava mais assustada com o pensamento de como deveria falar – Mas por que nós devemos dublar?

-Por que o canal pagou pra nós fazermos isso? – ele tentou responder com uma pergunta óbvia.

-Ora, poderiam legendar! – ela fez um gesto exasperado com o roteiro – É ridículo; ninguém vai concordar com isso!

Syaoran pegou uma prancheta e leu alguns nomes:

-Daidouji Tomoyo: criada Mei; Mihara Chiharu: Soi Yang Lao, irmã de Xin Yang Lin – a cada nome, percebia que Sakura ficava com os olhos mais arregalados -; Yamazaki Takashi: Ho Lao, primeiro amante de Xin Yang Lin... E isso é só no primeiro episódio que devemos dublar amanhã de manhã, porque à tarde vamos dublar mais dois episódios. – baixou o papel que lia e os olhos encontraram os dela – Nós discutimos isso nesta manhã, minha cara. E pelo que eu lembro, você estava lá.

Viu-a morder o lábio inferior. Aquilo era prova! Ela nem tinha prestado atenção na reunião! Mas o que diabos ela pensava na hora? Será que era em outro homem?

-E o problema só pra amanhã é Yamazaki. Ele não poderá usar a voz, precisamos arranjar alguém pra substituí-lo. Só que...

Como ele hesitava, a garota ergueu uma sobrancelha meio receosa, pedindo daquele modo que continuasse a sentença.

-Você dá conta desta cena, não é? – procurou uma cena específica no DVD e deixou que ela visse umas das cenas mais explícitas do capítulo. Viu o olhar esverdeado de Sakura sumir e um rubor ainda mais forte tomar conta do delicado rosto que há anos não via. Simplesmente era tentador não deixar de provocá-la, e tentou disfarçar um sorriso divertido ao vê-la cobrir os olhos.

-Eu não posso ver essas coisas! – ela protestou, ainda negando-se a ver aquilo.

-Ah, que pena. – ele cruzou os braços – Tenho que procurar outra pro seu lugar?

Aquilo tocou no ego dela. Sakura lançou-lhe um olhar de ódio e pareceu esquecer o que rodava na tela da sala de áudio.

-Eu posso dublar tão bem quanto qualquer outra pessoa. – sentiu uma veia saltar na testa com a provocação. Contava até vinte para voltar ao normal – Só que eu nunca fiz essa cena antes... Poderia dar um tempo tanto para mim quanto para Yamazaki? Assim posso treinar um pouco e trabalhar com ele melhor.

-Não. – foi a rápida resposta dele, o que a irritou ainda mais e a fez ranger os dentes.

-E por que não?

-Daidouji já foi avisada. Mihara também. Com certeza virão amanhã depois de decorarem todas aquelas falas. Se vierem aqui amanhã e não tiver nada, elas poderão ficar tristes porque perderam a chance treinar outras falas para outros trabalhos e ficarão a manhã toda sem ter o que fazer. Não pensa nelas, não?

-'Tá bom, 'tá booom... – ela falou entre os dentes – Não precisa fazer todo esse drama. – guardou na bolsa o script depois de enrolá-lo para que coubesse lá – Eu só queria saber como vou dar conta disso... Nunca tive que dublar cenas desse tipo antes... – por que tanto alarde com esse Yamazaki? Ela só poderia treinar com ele?

-Ué, não sabe? – ele foi irônico – Tente treinar em casa. Menos o sexo, claro.

Definitivamente, Li Syaoran voltara ao Japão apenas para provocá-la.

-

-