A escuridão abrangia toda cidade, as ruas eram debilmente iluminadas, uma iluminação inútil perante toda densidade que a madrugada proporcionava. Passos solitários podiam ser ouvidos vagamente em meio a todo silêncio, passos lentos e incertos.Os olhos azuis resplandecentes contemplavam o nada, estavam claramente perdidos em meio a pensamentos.
Quanto tempo se passara desde a última vez em que pudera caminhar sem o perigo eminente de qualquer batalha... Que pudera pensar e se concentrar unicamente nisso. Estava com seus 19 anos, há sim, 19... Aproximadamente 13 anos sem sua amada mãe, 5 anos desde que se tornara um dos devotados cavaleiros de Atena, isso bem sabia, mas algo o incomodava imensamente, corroia-o por dentro durante seus dias...
Parou em frente a uma construção, a qual se destacava das outras, uma instituição, um orfanato. Suspirou longamente ao perceber aonde chegara involuntariamente e contemplou brevemente o lugar antes de perceber a tímida luz que escapava por entre uma das janelas do que bem sabia ser a sala de estar. Fechou o portão atrás de si antes que pudesse pensar em qualquer coisa que sobrepujasse sua vontade de entrar, subiu os degraus lentamente e surpreendeu-se ao perceber a porta destrancada, abriu-a no mesmo instante em que uma pontada de preocupação o atingia: era muito tarde e a porta nunca ficava aberta pelo que sabia, a não ser que algum estranho...Ao pensar nessa possibilidade seus olhos estreitaram-se e sentiu seu coração apertar-se, fechou a porta cuidadosamente atrás de si e caminhou até a sala de onde provinha a escassa luz.
Não percebera nada de anormal, nem mesmo um som qualquer, tudo estava silencioso, o que não era comum considerando-se os pequenos moradores daquele lugar, não conseguiria imaginar aquele local tranqüilo daquela forma nem mesmo quando todas as crianças estivessem dormindo.Aproximou-se da sala, mas não conclui sua entrada, seus olhos dançaram percorrendo cada centímetro do cômodo: não havia nada fora do lugar, estava tudo praticamente muito organizado, uma pilha de brinquedos encontrava-se próxima a sua perna esquerda e a luz de um abajur travava uma luta acirrada contra a escuridão.Seus olhos pousaram sobre o grande sofá vinho a sua frente e lá permaneceram enquanto ele sentia seu coração palpitar de forma assustadora e rápida, estava completamente hipnotizado, encantado com aquela visão.
Ela não trajava o volumoso vestido azul anil acompanhado do avental branco naquela noite, estava com um vestido de tecido leve, azul petróleo de alças que deixavam os ombros delicados e alvos expostos, debruçada sobre o braço do sofá de lado oposto à entrada do aposento, parecia tomada por seus pensamentos, assim como seu admirador ,havia um livro fechado sobre uma mesinha, que também sustentava o abajur, seus cabelos pareciam relutantes em conservar-se presos, os fios dourado pálido descansavam sobre as costas também parcialmente nuas, suas curvas perfeitas e suas pernas à mostra desde um pouco acima dos joelhos em conjunto com os pequenos pés descalços suspensos sobre o chão harmonizavam de forma sublime como em vários sonhos do observador .
Ele pôde sentir o encerrar imediato de seus devaneios novamente na mesma e torturante questão; afinal, há quanto tempo já não sentia? Já provocara algum sentimento diferente de dor e tristeza a alguém?Quando fora a última vez que deixara de ser o cavaleiro de cisne, o cavaleiro de gelo impassível e indiferente...Há quanto tempo não era apenas ele,sem máscaras,menos parecido com seu mestre...Queria ser apenas um jovem como os outros, ser, depois de 5 anos e apenas para poder tê-la, Alexei Hyoga Yukida novamente.
