Grapefruit
Also
known as citrus
x paradise
"Eu
possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto
que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure."
(Soneto
de fidelidade, Vinicius de Moraes)
Aquela não foi a primeira
vez que a viu, mas foi a primeira que achou que ela era bonita. Ela
sorria, com os olhos – dourados - fechados. Chegara ali
contrariado, mas talvez essa visita fosse melhor do que esperava. Ele
preferia ficar na casa de algum de seus amigos, mas seu pai impôs
uma única condição: ir num almoço chato, brincar de família
feliz, ir embora e então fazer e ir onde desejasse. Uma tarde contra
todos os dias que ainda restavam nas férias de verão. Ele achou que
seria uma troca justa, até. Não pensou que poderia encontrá-la lá.
Nem se lembrou disso. Mas lá estava ela, brilhando sob o sol. Ele
não diria que ela estava brilhando mais do que o sol, mas era uma
boa briga. Ela se parecia com uma garota que apareceria numa revista
como a modelo ideal. A pele normalmente branca estava um pouco
bronzeada, luminosa de um jeito que apenas quem não tem o que fazer
e passa os dias no sol com um protetor solar FPS 20 e demora séculos
para ganhar qualquer cor fica. Não que ele soubesse como ela ficava
daquele jeito, mas dava para notar que a cor era diferente. Na
verdade, ele tinha certeza que ela nem mesmo era bonita. Quanto mais
tão
bonita quanto ele a via agora. Além do bronzeado, duas coisas
chamavam atenção: os cabelos e os lábios. Os fios castanho-escuros
estavam levemente queimados de sol, com algumas mechas mais claras,
todas repicadas de modo irregular até os ombros. A moldura que
melhor valorizava o quadro, com certeza. Pansy Parkinson certamente
sabia o que melhor caía nela.
Mas os lábios... Ele nunca fora
bom com palavras, embora jamais o admitisse, e ele não sabia como
descrevê-los. Não que tivessem algo de anormal, mas sim pelo fato
que criavam uma harmonia com todo o conjunto, com a luz fraca do
bronze que lhe dava um ar sexy,
com os cabelos queimados que a deixavam ingênua. O tom de magenta
claro mesclado ao coral alaranjado e um pouco reluzente pelo brilho
que vinha do batom, jogado na mesinha ao lado de um copo de suco de
fruta com a mesma cor. A mesmíssima cor dos lábios hipnóticos de
Pansy.
Suco de grapefruit.
I
like you a lot lot
Think you're really hot hot
Coral,
magenta. Nunca sentira tanta vontade de fazer algo. Ela parecia tão
irresistível ali, indefesa, completamente vulnerável. Ainda assim,
deliciosa. Ele tinha que tê-la. E seu inconsciente tinha uma vaga
noção do que aconteceria - se ele não fosse até ela agora,
o encanto se perderia. Então ele foi. Por impulso, por pura vontade.
Talvez para não perder aquela tarde. Talvez por causa do verão. Por
causa do calor. Ou talvez porque ele sabia que nada pensasse o
impediria de ir até ela.
Chegou silenciosamente por trás da
cadeira branca de praia onde ela se sentava e parou quase ao seu
lado. Não tinha medo, só um pouco de insegurança. Não era a
primeira garota que abordava, mas ainda assim. Beijou seu ombro. Ela
não se moveu, nem mesmo abriu os olhos. Um leve movimento de sua
boca e uma covinha se formou em sua bochecha.
"Olá, Pansy", sussurrou em seu ouvido.
Ele pôde ver, então, os dentes brancos dela se abrirem em um sorriso. E também viu que um de seus caninos era levemente torto, algo tão sutil que só poderia ser visto bem de perto. Assim como as poucas mechas ruivas que havia nos cabelos da garota, camufladas entre o castanho e o dourado.
"Olá,
Draco", respondeu, em tom igualmente baixo. "Tenho sentido um
pouco
a sua falta essas férias"
"Um pouco?"
"Arrã. Um
pouco."
"Então eu tenho sentido um
pouco
a sua falta também."
"Não é a mesma coisa sem os Sly. Tenho
me sentido sozinha."
Então ela virou seu rosto para o lado
dele e abriu os grandes olhos de íris douradas, o maior destaque em
seu rosto. Ele encontrou sua deixa para aproximar-se dela, mas
devagar. Segundos, milésimos de segundo, onde ela fechou os olhos
novamente, mordeu o lábio inferior, foi beijada. Por pouco,
pouquíssimo, os dentes de ambos não se bateram. Mas parecia haver
ali algo mais do que desejo, algo que fazia tudo entre eles parecer
certo. Não romântico, nem perfeito, só certo.
Nem mesmo eles conseguiriam entender ou explicar aquilo depois, mas
havia a certeza de algo diferente. Talvez o encanto, talvez química,
ou talvez a mágica da primeira paixonite. No momento, eles não
poderiam dizer que aquilo era diferente de todo o resto que viria, só
que era certo. Então parecia certo que eles se beijassem de novo e
de novo, antes e depois do almoço, durante a tarde, durante aquela
semana, durante todo o verão.
Sempre o mesmo: bittersweet,
cítrico, perigoso. Aquela era a visão dele de Pansy, a visão que
ele jamais se livrou. A garota um pouco bronzeada, um pouco
brilhante, um pouco ingênua, um pouco doce, um pouco amarga, um
pouco magenta, um pouco coral. Uma covinha, um copo de suco, um tubo
de batom.
You
taste just like glitter
Mixed with rock and roll
Ela
jamais seria tão bonita, tão bronzeada ou tão magnética. Não
tanto quanto naquele verão. E o resto do tempo que eles permaneceram
juntos também se pareceu com o verão, mesmo que tenha se passado
bastante tempo. Sempre parecia quente, agridoce, novo, informal.
Nunca se passou pela cabeça de nenhum a possibilidade de um "para
sempre". Eles se davam tão bem que o tempo não pareceu passar. O
verão jamais pareceu terminar. Pansy sempre parecia ser suco de
grapefruit, o gosto em sua boca, a cor em seus lábios.
A cor em
sua pele desbotaria, e ela se deitaria sob o sol novamente. O batom
acabaria, e ela compraria outro tubo. O suco em seu copo se
esgotaria, e ela o encheria novamente. Poderia ser um ciclo sem fim,
o eterno verão. O romance entre Pansy e Draco seria o verão, a
sensação que só aquela estação tinha. A alegria. O sentimento de
que tudo acabaria no seu devido tempo, mas a certeza de que acabaria.
A certeza, simples e pura. A impulsividade, inquestionável, a melhor
amiga do calor. Mas, apesar da certeza do fim, a sensação de que
jamais acabaria.
E acabou. A realidade bateu, da forma mais dura,
como freqüentemente bate em romances: com uma guerra.
E então
já não havia mais o agridoce, nem a informalidade, nem o batom, nem
o suco, nem o bronze.
Baby is a bad boy
E cada um seguiu seu caminho, com suas lembranças, suas primeiras impressões. Ele não se esqueceu dela. Tampouco sentiu sua falta. Ela já viera, já tivera sua participação na vida dele, e fora embora.
Don't forget my lipstick
E ela sempre seria o bronzeado mais brilhante, suco de grapefruit e o batom coral alaranjado e magenta claro. Ela sempre seria o verão. O seu verão. Nada mais, nada menos.
I left it in your ashtray
E talvez, anos depois, eles se encontrassem novamente e ele teria encontrado a sua primavera, ela teria encontrado o seu outono, e o tempo já não passaria do mesmo modo, e tudo já não pareceria tão certo, e o verão já não seria o mesmo.
Watch your heart when we're together
E, se você olhar bem, vai ver que nada mudará.
