— Sakura, eu preciso falar com você.
— O que foi, Shoran?
— É que... eu... eu vi —
— PIPOCAAAA! Pipoca! Pipoca! Pipoca!
— Sssh, Kero, não pule assim, podem te ver!
— Mas eu quero pipoca...
—Já vou te comprar, espera —
— Por favor...
Kero lhe lançou um olhar de misericórdia que ele sabia que a garota jamais poderia resistir.
— Ta bom. Moço, moço, vem cá!
Sakura, Shoran, Tomoyo e Meilin estavam sentados na primeira fileira de cadeiras do teatro do colégio Seijyo, esperando que começasse o espetáculo. Aquele era o Festival de Artes de Primavera, onde os alunos do colegial faziam amostras culturais para a cidade; naquele dia, o último do festival, Touya e Yukito fariam suas grandes aparições na peça de "Alice no País das Maravilhas".
Contavam no relógio todos os quarenta minutos que aguardavam o início da peça. Meilin e Tomoyo suspiravam impacientes, embora não tivessem coragem de deixar seus respectivos acompanhantes. Sakura e Shoran, ansiosos, tinham seus olhos brilhantes a cada movimento suspeito.
Quando ouviram uma voz familiar nos alto-falantes, seus corações não puderam deixar de bater forte.
— Senhoras, senhoritas e senhores — disse Yukito Tsukihiro, narrando dentro de uma cabine nos fundos do teatro —, pedimos desculpas por nosso atraso. Houve um pequeno problema com as fantasias e esperamos corrigi-lo o mais breve possível. Enquanto isso, passaremos um documentário sobre o autor da história que nossa classe apresentará hoje, Lewis Carroll. Boa noite.
Enquanto algumas pessoas batiam palmas, iniciou-se a projeção do vídeo no cenário branco do teatro. A bagunça de pessoas que falavam e andavam, saíam e entravam, instantaneamente silenciou – e tudo seria silêncio absoluto não fossem os cochichos infindáveis "coincidentemente" vindos do quarteto.
— Que coisa chata — resmungou Kero.
— Eu também acho — Meilin falou mais alto.
— Ssssh!
— Fala mais baixo!
— Por que? Ninguém falava baixo até agora!
— Ssssh!
— Se fosse a Sakura você deixaria falar mais alto, Shoran!
— L-LÓGICO QUE N-NÃO!
— Ssssssh!
— Sssssh!
— Gente, o Yukito deve ter perdido um tempão pra fazer esse vídeo, vamos assistir...
O pedido de Tomoyo pareceu válido. Por alguns instantes, o recinto pôde se concentrar somente no narrador do documentário.
Só por alguns instantes.
— Ai, que sede...
— Melin, não dá pra falar mais baixo?
— É ruim falar com a garganta seca!
— Eu não queria falar nada — Tomoyo sussurrou —, mas eu também estou sede...
— É, eu também... — Sakura parecia sem-graça.
— Moleque! Vai comprar suco pra gente!
— Kero, não faz isso, entra na bolsa —
— POR QUE EU?
— Ssssh!
— Pra você parar de fazer a gente passar vergonha — Meilin o empurrou para o corredor — Você fala muito alto.
— Mas Meilin, você também fala...
— Sakura, ele é o MEU namorado, só eu posso defendê-lo!
— Até agora, quem estava atacando ele é você —
— Eu quero suco... — Kero saía novamente da mochila, com seus olhos pidões.
Sakura suspirou.
— Não vou ficar discutindo. Vamos comprar suco, Shoran!
Levantaram-se e juntos seguiram até o final do corredor que dividia as seções par e ímpar do teatro. Onde tudo acabava, do lado da cabine do narrador, estava a porta por onde haviam entrado, fechada. Ao seu lado, uma figura bizarra, de terno verde, gravata vermelha e cartola guardava a entrada.
— Touya?! O que você ta fazendo aqui..?
— Sou o Chapeleiro Louco — respondeu mal-humorado —, e no momento estou fazendo bico de segurança.
— Não deveria ter marcado o bico pra outro horário..?
— Sou eu que estou bancando seu passeio, monstrenga, não reclama...
— Não precisa ser grosso. A gente só queria sair pra comprar sucos.
— Ninguém pode sair nem entrar aqui.
— E por que?!
— Ordens.
— De quem?
— Da Lebre Maluca — ele apontou para a cabine do narrador, onde um Yukito de terno vermelho e orelhas de coelho acenava empolgado.
Os dois sentiram suas bochechas ficarem surpreendentemente quentes.
— Então — Touyra os trouxe de volta à realidade —, podem dar meia-volta.
— Mas estamos com sede — Sakura recomeçou.
— Muita sede.
— Sede demais.
— Sede extrema.
— Estamos morrendo de sede.
— Morrendo de desidratação.
— Vamos secar.
— E não teremos nem mesmo lágrimas...
— ...pra chorar de dor...
— ... de tão secos que ficaremos...
— Chega! Quanto drama — ele olhou feio e impaciente — OK. Pode sair, moleque. A Sakura fica.
— Por queeee?
— Porque você é a monstrenga, não morre tão fácil assim — ele zombou — E eu não quero pagar o suco de todo mundo. Ele que gaste o dinheiro dele.
Com olhos grandes e irritados, Shoran deixou o salão e Sakura voltou para seu assento.
A garota cobriu seus ouvidos com as mãos, protegendo-se contra as lamúrias e provocações de Meilin e Kero, e se pôs a esperar. E esperou. Esperou. Esperou. Esperou. Cinco, dez, quinze, trinta minutos. O vídeo, então, finalmente acabava, mas o garoto ainda não havia voltado.
— Será que a fila da lanchonete está tão grande assim..?
A resposta para a pergunta de Tomoyo fora interrompida por um grito agudo de mulher vindo dos fundos, além das portas do teatro. Como num impulso automático, todas as pessoas se levantaram, cochicharam, fizeram tumulto. Quando conseguiram passar pela porta, se arrependeram por isso.
Sakura passou por baixo de pernas e se esquivou das pessoas altas. Adiantou-se na frente de todos e, ao enxergar o motivo o grito, quase caiu para trás.
Shoran.
Ali, no chão, seu corpo pequeno e frágil estava estendido. Seus olhos ainda estavam abertos, sua expressão aterrorizada, seus dedos duros e contorcidos. Não havia sinal de luta, não fosse a marca vermelha em seu pescoço; ainda assim, cada músculo transmitia o sinal da dor, do pânico, de violência. Estes eram os detalhes – cada parte descoberta de seu corpo, assim como suas roupas, estava suja por um vermelho muito forte. Em letras garrafais e tortas, lia-se ao seu lado: ESTA ALMA FORA SACRIFICADA PELA RESSUCITAÇÃO DE LEAD CLOW.
A vista de Sakura embaçou.
Escorreu em forma de lágrima.
Ficou cega. Até de manhã.
