OBS: Life-ning é o título de uma das músicas do Snow Patrol (sim, essa banda de novo, eu sei, estou obcecada). Tentei de todas as formas encontrar algo que se encaixasse na proposta da história – de preferência algo que não fosse em inglês – mas bem, não teve jeito, nada pareceu se encaixar tão perfeitamente quanto isso. Quem tiver curiosidade escute a música, ela é muito boa.


Lifening


Capítulo 1

Cause everything must belong somewhere.
You lock the devil in the basement, God up into the air.
Yeah, everything must belong somewhere.
I know it's true, I wish you'd leave me here.
I know it's true, why don't you leave me here?

Everything Must Belong Somewhere – Bright Eyes

Draco Malfoy não era alguém que poderia ser chamado de bacana, pelo contrário, era uma pessoa insuportável, quase impossível de se conviver. Ele sabia disso, o mundo sabia disso e o mais engraçado é que ele não estava nem aí.

Desta forma, quando a guerra finalmente acabou e Voldemort pereceu, a ideia de se refugiar no mundo trouxa não lhe pareceu assim tão desagradável. Cansado da perseguição da mídia e do Ministério confiscando seus bens, não demorou muito para que ele jogasse tudo para o alto e ligasse o foda-se. Decidido, em pouco tempo conseguiu falsificar documentos, transfigurar galeões em dinheiro trouxa e comprar um pequeno sítio em um vilarejo no meio do nada. Deixou para trás o prestígio de seu nome, sua mansão e toda a confusão que acompanhava seu passado como espião.

Agora sua vida não poderia ser melhor e por este exato motivo, também não poderia ser mais entediante, não que ele tivesse muito do que reclamar. Ganhava dinheiro trabalhando com pequenas encomendas, geralmente análises de alguns feitiços e encantamentos, projetos com runas antigas e até mesmo algumas poções. Era um negócio que não gerava muito lucro, mas era o suficiente para ele manter a casa e não passar fome. Se ele sentia falta de alguma coisa talvez fosse do contato humano, mas a verdade era que mesmo que tivesse permanecido no mundo bruxo ainda estaria sozinho, afinal, eram raras as pessoas que conseguiam suportá-lo por muito tempo.

A rotina do campo rapidamente o colocou nos eixos e não demorou muito para que seu relógio interno se adaptasse ao cantar do galo e ele passasse a acordar todas as manhãs às cinco horas. Ele gostava de aproveitar o silêncio da madrugada e começava o dia com o pé direito, colocando a água para ferver e reabastecendo religiosamente as tigelinhas do gato com ração e água.

O tempo que gastava para ir ao banheiro lavar o rosto e escovar os dentes era suficiente para que uma coruja surgisse na janela e deixasse o Profeta Diário sobre a mesa da cozinha. Já mais desperto, ele coava o café e preenchia uma de suas canecas favoritas com o líquido negro. Descalço, caminhava até a porta da frente para pegar o jornal do pequeno vilarejo, bem a tempo de ver os garotos Madson sumirem pela estrada de terra, continuando com sua rota.

Este pequeno ritual era o suficiente para que ele se sentisse bem disposto para começar um novo dia. Voltando para cozinha, ele preparava o café-da-manhã, sempre dois ovos fritos e algumas bandas de bacon e quando finalmente se sentava para comer, iniciava uma leitura breve tanto das notícias do mundo bruxo, quanto do mundo trouxa. Tudo isso era feito sem pressa, degustando cada minuto, e até mesmo assistir com o canto dos olhos a forma lânguida de seu gato preto surgindo na porta, caminhando lentamente em direção à tigela de ração, lhe dava certo prazer.

Às seis e meia da manhã, já de barriga cheia e devidamente vestido para um dia de trabalho, com seu macacão marrom surrado e botas, ele ia até a horta checar as verduras. Suas cenouras sempre exigiam um cuidado especial por conta dos inúmeros coelhos e roedores da região, ele demorava um bom tempo reforçando alguns feitiços para repelir os animais, que sempre conseguiam burlar todas as suas armadilhas.

Seguindo para o lado da casa ele finalmente entrava em sua estufa e se ocupava em regar as diversas plantas mágicas que cultivava. Vez ou outra perdia um pouco mais de tempo checando algumas experiências de cruzamentos híbridos que realizava, mas o que realmente dava mais trabalho eram as mandrágoras que teimavam em não florescer corretamente por conta do clima mais quente da região. Feito esta tarefa, ele caminhava em direção ao fundo da propriedade para finalmente alimentar as galinhas.

Quando tudo estava pronto ele retornava para casa, geralmente no exato instante em que o relógio da sala deixava escapar um som suave, indicando que já era oito horas e que ele precisava começar a trabalhar em suas encomendas.

O restante da manhã seguia de forma pacata, com ele passando grande parte das horas dentro do celeiro que ele adaptara e protegera com inúmeras camadas de feitiço e encantamentos para repelir trouxas curiosos. Era ali que ele mantinha uma área específica para formular e testar algumas coisas que eram encomendadas.

Das encomendas que recebia a maioria se tratava de coisas quase ilegais ou arriscadas demais, mas ele não se importava. O senso de perigo dava uma certa emoção a vida pacata do campo e evitava que ele enlouquecesse com o tédio. Já tivera que expurgar azarações de diversos objetos, criar feitiços específicos para certos comerciantes e até mesmo desenvolver rituais. Era muito difícil que alguém encomendasse algo que ele não fosse capaz de resolver.

Ao meio dia ele finalmente fazia uma pausa e voltava para casa com o intuito de preparar um pequeno almoço. Ele nunca confessaria isso para ninguém, mas não havia nada mais prazeroso do que se alimentar do que ele mesmo havia plantado e a verdade é que agora, com a horta atrás da casa, ele conseguia comer com certa frequência nabos, tomates, cenouras, abóboras e até mesmo alho, tudo fresquinho.

No início cogitara manter um dos elfos domésticos de sua família, mas logo aboliu a ideia, se a guerra havia lhe ensinado alguma coisa era que ele precisava cultivar da melhor forma possível à própria independência, e não existia jeito mais perfeito de praticar isso do que morando sozinho e ficando responsável por todos os afazeres domésticos.

Os primeiros meses naquele novo mundo foram complicados. Adquirira um fogão, mais por curiosidade do que por necessidade, acreditava que tudo podia ser resolvido através de mágica, e quando finalmente criou coragem para tentar fazer um bule de chá usando o bendito, conseguiu explodir a cozinha. Foi neste dia que ele aprendeu uma das coisas mais importantes do mundo trouxa, a existência dos manuais.

O fogão foi o primeiro passo do que seria uma obsessão momentânea por eletrodomésticos. Em seu porão poderiam ser encontradas pilhas de máquinas completamente inúteis que ele havia comprado mais para satisfazer a curiosidade do que para realmente utilizar. Se Arthur Weasley algum dia tivesse a chance de fazer um tour pelo local, não iria querer sair de lá nunca mais.

Com o tempo ele também aprendeu que toda a comida feita a mão era mais saborosa do que a feita por magia. Só agora, depois de muito tempo, que ele conseguia compreender porque os elfos tinham tanto trabalho para alimentar seus mestres, nada superava um pão quentinho caseiro, feito na hora.

Limpar a casa também havia sido um desafio e era com muita vergonha que ele precisava admitir que chegou um momento em que foi preciso que ele visitasse disfarçadamente o Beco Diagonal só para adquirir um livro sobre feitiços domésticos. Em suas primeiras tentativas conseguiu encolher todas as suas roupas devido a um movimento errado com a varinha, e quando tentou limpar a lareira, acabou falando de forma engasgada uma parte do feitiço, fazendo com que um punhado de fuligem fosse expelido para a sala, envolvendo tudo em uma densa fumaça preta.

Mas com o tempo foi aprendendo, pegando o jeito, e quando menos esperava se deu conta de que apreciava aquelas atividades, faziam com que ele se sentisse no controle, sintonizado com a própria vida. Era uma sensação que há muito tempo havia perdido.

Não demorou muito para que ele prestasse atenção nas fazendas vizinhas e começasse a montar alguns projetos. Em pouco tempo construiu a estufa, depois, por sugestão da velhinha da mercearia da cidade, arriscou montar uma horta. Para o seu espanto ele tinha o que chamavam de dedo verde, o que contrariava todas as suas péssimas notas de herbologia em Hogwarts.

Agora ele era capaz de cultivar grande parte dos ingredientes das poções que vendia e mais algumas verduras que utilizava para o próprio consumo.

O galinheiro no fundo da propriedade era uma aquisição recente e ele só tivera a ideia ao perceber a quantidade de ovos que costumava ingerir diariamente, ele poderia ser considerado um viciado nos malditos. E era de se espantar, mas depois de muito tempo acostumado a não ter perspectiva, começara a fazer planos e dentre eles havia o projeto de construir um pequeno chiqueiro com alguns porcos e quem sabe, talvez mais para frente, ele não arriscasse adquirir uma vaca. Porque não? Nada no mundo o prendia, ele podia ser o que quiser, mesmo que isso significasse virar um fazendeiro. Se Pansy o visse agora provavelmente teria um enfarto, mas ele não ligava, pela primeira vez na vida estava em paz.

Suas tardes também eram recheadas de atividades. Geralmente ele tentava se concentrar em seus projetos pessoais, fosse à manutenção de equipamentos ou até mesmo a elaboração de algumas pesquisas.

O único hábito que ele não abandonava era o chá das seis horas, este era um ritual sagrado. Como todo inglês, as cinco e quarenta e cinto em ponto, ele parava tudo o que estava fazendo e ia preparar um bule, alguns minutos depois se sentava em um das cadeiras da varanda, observando o horizonte bem distante enquanto bebericava uma xícara com seu chá preferido, darjeeling.

Mas naquele dia em específico enquanto caminhava com sua porcelana predileta em direção à porta, preparado para relaxar um pouco depois de um dia tenso devido a um livro amaldiçoado que precisou purificar, quase tropeçou e caiu de cara no chão quando viu ninguém menos do que Harry Potter parado em sua varanda, parecendo mais do que pronto para bater na porta de tela.

Por alguns segundos ficou paralisado, sem saber se voltava para cozinha e fingia que não havia ninguém em casa ou se trotava até a porta e expulsava o bruxo com pontapés. Porém não precisou tomar nenhuma decisão, porque no instante seguinte os olhos verdes do grifinório se ergueram e o rapaz finalmente o viu.

- Ei – o bruxo cumprimentou sem graça, coçando a parte de trás da cabeça com uma das mãos enquanto sorria de forma acanhada.

Recuperando-se no último minuto, Draco disse a única coisa que poderia dizer:

- O que diabos você está fazendo aqui, Potter?

- Será que eu posso entrar? – o grifinório retrucou, ignorando completamente o que fora questionado e quase fazendo Draco espumar de raiva.

- Você sempre responde as perguntas com outras perguntas?

- Só quando estou cansado demais para ficar de pé em uma varanda enquanto sonho em tomar uma xícara de chá – Potter explicou dando de ombros e olhando de forma sugestiva para a porcelana impecável que se encontrava firmemente presa aos dedos alvos.

Draco ficou em silêncio por alguns momentos avaliando a situação. Seu chá da tarde já havia sido arruinado e seu bom humor, da mesma forma que seu darjeeling, já estava congelado. A visão de Potter em sua varanda, carregando o que parecia ser uma mala, não era um bom presságio e ele preferia que a casa eclodisse antes que ele permitisse que o maldito grifinório colocasse os pés em sua sala e as patas em sua porcelana.

Tomando uma decisão rápida, simplesmente girou nos calcanhares e deu as costas para Potter, que imediatamente arregalou aos olhos ao ver que ele iria simplesmente ignorá-lo.

- Ei, Malfoy, espere! – E Draco conseguia ouvi-lo praguejando baixinho enquanto tentava encontrar alguma coisa que pudesse falar que o faria voltar atrás. Mas o loiro sabia que nada do que o grifinório dissesse seria capaz de amolecer seu coração o suficiente para que ele permitisse que sua privacidade fosse invadida.

Já estava quase dentro da cozinha quando inesperadamente ouviu um zumbido e o campo mágico ao redor da casa reagiu. Um sorriso perverso surgiu em seus lábios.

- Porra! - Potter gritou da varanda com um pequeno uivo de dor – Mas que merda é essa?

Rindo, Draco pousou a xícara com o chá frio na bancada da cozinha e retornou para sala, só para assistir o outro bruxo massagear uma das mãos, a cara contorcida em uma expressão de dor.

- Isso, Potter, é uma barreira de proteção. – ele informou cruzando os braços sobre o peito e fazendo questão de arrastar a voz - Só pode entra nesta casa as pessoas que eu convidar.

O moreno o encarou boquiaberto.

- Você só pode estar brincando!

- Ora, Potter, se está duvidando porque não tenta girar a maçaneta novamente? – Draco o desafiou, impaciente com toda aquela situação. – Agora se você me dá licença, eu tenho coisas mais importantes para fazer.

E sem esperar para ouvir uma resposta, pela segunda vez ele deu as costas para Potter, muito satisfeito com seu próprio autocontrole.

O grifinório demorou algum tempo para se recuperar, mas ao perceber que aquela era sua última chance de ser ouvido, começou a chama-lo de forma desesperada.

- Não, Malfoy, espere! É sério, precisamos conversar – Mas Draco não estava interessado e abrindo o armário debaixo da escada, começou a separar diversos utensílios que iria utilizar para confeccionar alguma poção. Do lado de fora Potter continuava implorando por sua atenção.

– Malfoy, por favor!

E se ele não tivesse tão ocupado teria ficado escondido no alto da escada, só para continuar escutando a forma desesperada que o menino-que-sobreviveu o chamava.

Já com tudo que precisava em mãos, conjurou um Wingardium leviosa nos objetos e os fez flutuar ao seu lado enquanto caminhava em direção a entrada do porão.

Antes que começasse a descer as escadas e a voz de Potter se tornasse apenas um ruído muito fraco, ele ouviu um último grito do rapaz:

- Não adianta me ignorar, Malfoy, vou esperar aqui sentado na sua varanda o tempo que for preciso até você aceitar falar comigo, você não poderá me ignorar para sempre.

E revirando os olhos diante disso, Draco fechou a porta atrás de si e se preparou para mais uma noite dedicada a confeccionar as diversas poções que lhe foram encomendadas.


Quase quatro horas depois ele finalmente terminou de armazenar a poção que havia feito. Erguendo-se e se espreguiçando, conjurou rápidos feitiços de limpeza, eliminando toda a sujeira dos caldeirões, da bancada e dos utensílios.

Cansado, bocejou e decidiu fazer um pequeno lanche antes de ir se deitar. Saindo do porão, fechou a porta atrás de si e avançou em direção ao corredor, congelando no meio do caminho ao olhar para a porta de entrada da sala e ver ninguém menos do que Harry Potter sentado nas escadas de sua varanda, aparentemente dormindo com a cabeça recostada no corrimão.

Ficara tão entretido com seus afazeres que se esquecera completamente do infeliz, mas quem poderia culpa-lo? Quem em sã consciência iria se dispor a ficar plantado do lado de fora da casa de uma pessoa simplesmente para obriga-la a ouvir seja lá o que for? Principalmente quando essa pessoa era ninguém menos do que Draco Malfoy?

Passando as mãos no cabelo, impaciente, sentiu longas ondas de raiva começarem a varrer seu corpo. Só mesmo Potter para conseguir estragar seu dia. Só mesmo Potter para descobrir exatamente a onde ele estava e se achar no direito de ir bater em sua porta.

Com passos pesados e pronto para uma briga, ele avançou em direção a varanda, abrindo a porta de tela com tamanha brutalidade que ela ricocheteou contra a parede, fazendo um barulho infernal.

Potter, que até então estivera dormindo, acordou com um pulo, cambaleando para frente e quase saindo rolando escada abaixo.

- O que você quer, Potter? – Draco praticamente cuspiu, tendo que se controlar para conseguir verbalizar o que tinha para dizer ao em vez de simplesmente partir para a agressão física.

Parecendo se recuperar do susto, o grifinório se ergueu e se virou para encarar o outro bruxo.

- Ah, sabia que cedo ou tarde você teria que sair da casa – comentou de uma forma meio convencida, ignorando pela segunda vez naquele dia uma pergunta direta de Draco.

- Potter, não me faça perder a paciência, fale logo o que você quer e vá embora daqui antes que eu amaldiçoe até a sua última geração.

- Malfoy, acredite, se eu tivesse outra opção eu não estaria aqui. – o moreno informou com um suspiro.

- Do que diabos você está falando? – Draco rosnou.

- Eu preciso ficar com você por alguns dias – Potter informou, muito sério, seus olhos verdes brilhando na escuridão.

E Draco fez a única coisa que poderia fazer nesta situação que era ficar de queixo caído. Uns bons minutos se passaram e ambos os bruxos permaneceram imóveis, nenhum dos dois arriscando desviar o olhar, até que Malfoy piscou e finalmente exclamou:

- Isso só pode ser uma piada.

- Não, não é. Eu realmente estou te pedindo isso.

- E porque infernos, Potter, você quer ficar logo aqui na minha casa, de todos os lugares do mundo?

Potter soltou um suspiro.

- Preciso me esconder por alguns tempos.

Ainda incrédulo Draco tornou a perguntar:

- Na minha casa?

- Sim, Malfoy, na sua casa.

- Que mal lhe pergunte, Potter, porque logo na minha casa?

- Francamente, Malfoy. Quem é que iria me procurar aqui?

E Draco tinha que admitir que era uma ideia brilhante, seu sítio seria o último lugar no mundo que alguém iria pensar em procurar Potter, principalmente devido ao passado turbulento que eles compartilhavam.

- E então? – o grifinório pressionou.

Fazendo uma carranca, Draco o olhou com firmeza.

- Não, Potter. Você ficou maluco?

- Por favor, Malfoy, só por alguns dias, até eu conseguir resolver tudo. – Potter implorou.

Aquilo pareceu atear fogo na curiosidade de Draco, mas ele se controlou, no instante em que ele perguntasse do que o bruxo estava fugindo ele começaria a ceder ao pedido absurdo.

- Não, eu não sei nem o que você está fazendo aqui. Porque não você vai atrás daqueles seus amigos idiotas?

Potter respirou fundo.

- Não chame eles assim e não, não dá, seria muito óbvio.

- Potter, tenho coisas demais para fazer amanhã de manhã para ficar aqui fora perdendo o meu tempo precioso com você. Não me interessa que você está em apuros, já disse a minha resposta e vou repeti-la mais uma vez para ver se ela entra nessa sua cabeça dura: não, você não pode ficar aqui.

E com isso levou as mãos ao rosto enquanto finalmente ficava de costas para o bruxo e começava caminhar para dentro da casa.

Bufando e deixando escapar um gemido de frustração, Potter avisou:

- Malfoy, você sabe que eu vou ficar aqui plantado na sua varanda até que você me deixe entrar, né?

Optando por ignorá-lo mais uma vez, Draco fez apenas um gesto com uma das mãos, como se o estivesse dispensando, enquanto abria a porta de tela e adentrava a sala.


Draco se mexeu sobre a cama inquieto, não estava conseguindo dormir e já eram quase três horas da manhã. Tudo aquilo era culpa do maldito Potter, por algum motivo o infeliz o estava deixando com peso na consciência, como se ele fosse obrigado a abriga-lo em sua casa para protegê-lo de seja lá o quê.

Depois de ficar se revirando em meio aos lençóis por longos quinze minutos, ele finalmente se deu por vencido e decidiu se sentar. Não tinha jeito, não teria paz se continuasse com aquilo. Potter tinha o estranho poder de despertar o melhor nele.

Esfregando o rosto com as mãos e sem se preocupar em calçar nada, ele saiu do quarto e desceu as escadas, parando no meio da sala. Olhando para fora, ele viu que como prometido Potter permanecia sentado em sua escada, todo encolhido contra o corrimão, adormecido.

Suspirando, ele caminhou de muito mal gosto em direção a portar, abrindo-a e enfiando só a cara para fora.

- Tudo bem, Potter, seu idiota, você pode entrar, não quero ter que explicar para o Ministério porque o menino-que-sobreviveu morreu congelado na minha varanda – rosnou o mais alto que pode, sentindo o vento frio da noite açoitar suas bochechas e se perguntando como que o outro bruxo ainda não virara um picolé, sentado como estava naquele canto.

O grifinório pareceu despertar de supetão e virou a cabeça para o lado para olhá-lo, uma expressão de gratidão se espalhando em seu rosto.

- Obrigado, Malfoy, de verdade. – disse de forma suave, mas Draco apenas revirou os olhos e o ignorou, tornando a colocar a cabeça para dentro da sala.

Em poucos segundos Potter se ergueu com certa dificuldade, e apanhando sua pequena mala, finalmente entrou na casa, suas bochechas estando extremamente coradas pelo frio enquanto seu corpo tremia de leve.

Os dois ficaram algum tempo se encarando, cada um esperando o que o outro tinha para dizer, até que Draco finalmente tomou a dianteira.

- Você pode dormir aqui, eu não me importo, se vire. – anunciou de qualquer jeito. – A casa está envolta em feitiços de aquecimento então não precisa se preocupar em acender a lareira.

Potter apenas concordou com a cabeça, grato demais pelo favor para fazer qualquer tipo de exigência. Percebendo que o bruxo não ia dizer mais nada, Draco jogou as mãos para cima.

- Okay. Agora se não for pedir demais, vou tentar dormir um pouco, Merlin sabe quanto trabalho eu tenho que fazer amanhã. – e resmungando se dirigiu para escada, começando a subi-la enquanto Potter aproveitava a sua ausência para se acomodar na sala.

Parecendo se lembrar de alguma coisa no último instante, Draco parou quase no último degrau e se abaixou um pouco para tentar olhar dentro do outro cômodo.

- Ah, Potter, já ia me esquecendo, acho melhor você transfigurar algo em um colchão porque o meu gato só dorme em cima do sofá.

Mas o aviso veio tarde demais, porque no mesmo instante em que as palavras escapuliram de sua boca, um grito alto ecoou vindo da sala, acompanhado por um miado agudo e sons de briga.

Não se contendo, Draco começou a gargalhar, voltando a caminhar em direção ao quarto, escutando Potter urrar do andar debaixo:

- Gato filha da puta!


N/A: Um Draco Malfoy tomando conta de diversos afazeres domésticos, quem diria, hum? Hahahaha.

De certa forma esta será uma fanfic AU, irei ignorar praticamente todo o epílogo de Deathly Hollows, mas manterei algumas outras coisa dos livros originais.

E um detalhe, o chá do Draco, o tal darjeeling, é horrível, eu particularmente odeio o gosto hahahaha.

Espero que tenham gostado deste capítulo e se quiserem deixem algum recadinho elogiando ou criticando.

Até a próxima!