Alayne o chama de Passarinho, mas em outra vida, ela foi o Passarinho.

Alayne é sufocada pelo Ninho da Águia por todos os lados. Alayne não encara o Portão da Lua – seus lábios estão cerrados e o segredo irá morrer com ela. Todos os segredos morrerão com ela, afinal, Alayne é uma simples bastarda sem segredo algum. Os cabelos são naturalmente escuros e ela sempre preferiu vestidos simples, não é? Alayne também sempre foi muito obediente a seu pai.

Algumas vezes, ela pensa em bolos de limão, em dividir a cama e segredos com uma amiga, em brigar com uma irmã mais nova, em admirar a beleza de uma mãe, em ter uma obediente loba. Ela lembra também de uma rainha que parecia ser doce e de um rei que parecia amá-la. Ela lembra de seu corpo dolorido por socos, ela lembra do cheiro queimado dos lençois de quando veio seu primeiro sangue da lua. Mas são todas lembranças que não deveriam pertencer a ela.

Ela se lembra do Norte, de Winterfell. Lembra-se das lições de como uma donzela deveria se portar e de como ela se irritava por sua irmãzinha sempre estragar tudo. O coração de Alayne dói, porque ela sente falta de uma irmãzinha – os dedos dela desenham o nome Arya no ar, mas ela não ousa falar em voz alta. Alayne pensa que poderia ter sido melhor, mais compreensiva, mais acolhedora.

Alayne pensa no Jovem Lobo, o Rei do Norte, morto no Casamento Vermelho. Ela pensa em um lobo cinzento, ela pensa em alguém chamado Robb Stark que ela conhecera como um irmão mais velho sempre atencioso e carinhoso, tão bonito! Imaginava sempre a donzela que o irmão tomaria para esposa, imaginava que seriam grandes amigas e dariam muitos bailes. Alayne sente os olhos arderem e os limpa rapidamente, porque a jovem Alayne Stone não tem motivos para chorar por um rei que ela nunca conhecera.

Ela também se lembra de uma sombra, alguém com quem ela era cordial, mas que a mãe sentia tanta raiva que ela quase tinha vergonha de conversar com esse alguém. Agora, ela também era uma bastarda, como Jon Snow. Ela pensa em como ele era tão obviamente diferente – e tão parecido com Arya. Não a espantava que eles se dessem também. Um dia, talvez, ela tenha feito esse comentário com desprezo. Mas Alayne agora apenas sente saudade da vida que não aproveitou.

Em outra vida, Alayne tinha um irmãozinho que ficara quebrado. Alayne pensa nele escalando as grandes muralhas e suas mãos tremem, ela sente um impulso tão grande de segurá-lo. Mas agora era tarde demais, ele já tinha caído e sua última memória era Bran deitado numa cama, sem ninguém saber se ele acordaria. Alayne sente tamanha ternura por aquela lembrança que seus lábios ardem com a vontade de dar um beijo nos cabelos ruivos de seu irmãozinho.

Um riso se forma na sua boca, um riso que ela logo quer suprimir, porque Alayne Stone nunca teve um irmão bebê que engatinhava pelo chão de Winterfell e que dera o nome de Cão Felpudo para um lobo gigante. Alayne Stone nunca viu sua mãe limpar Rickon e nunca imaginou quando seria sua vez de ter um bebê, de torcer para que ele herdasse os cabelos vermelhos que ela tinha. Alayne Stone não tinha cabelos vermelhos, lembrou-se.

A memória de um lobo gigante quase a faz sufocar de dor. Ela poderia ter dito a verdade, ela fora tão tola, o rei que parecia amá-la não passava de um serzinho cruel. Por que ajuda-lo? Ela poderia ainda ter sua loba. Ela poderia ainda ser uma loba.

Mas Alayne Stone nunca foi e nunca seria uma loba e o pequeno Lorde Jon Arryn exige sua companhia, então ela deixa todos os pensamentos de lado, memórias de uma vida distante.

(à noite, em seu quarto, é Sansa Stark que chora)


N/A: Então, só pra situar que a fic é antes da Sansa saber que o Petyr pretende que ela conquiste Winterfell de volta e etc. Acho que a leitura dela ficou um pouco cansativa, mas é isso. A quem quer que tenha paciência para ler e comentar, um obrigada.