Disclaimer: Eu não possuo Yu Yu Hakusho, e nem seus personagens, infelizmente.

O Desconhecido

Já era a terceira ou quarta vez que passava por aquela mesma trilha, tinha certeza pois sempre encarava a mesma árvore de aspecto humanoide como se estivesse levantando grandes e pesados braços retorcidos a beira do caminho, era assustador, e não lhe dava um bom presságio, afinal encontrava-se perdida realmente.

Fora tola de achar que conhecia bem o lugar na ausência do pai que sempre que possível a acompanhava numa trilha perto do templo da velha Genkai, adorava fazer esse percurso quando criança, geralmente ela ia no alto dos ombros dele tendo uma vista privilegiada do topo de algumas montanhas da região, sem falar na grandiosidade que via no tamanho de tudo, engraçado, pois agora as árvores já não lhe pareciam tão grandes como nos tempos de infância.

Nem se lembrava bem o motivo que a impeliu a vir ao templo da falecida senhora sozinha, fora pra passar o tempo ou porque brigara com os pais a respeito da escola? Bem nesse momento nada disso importava mais, já a pouco os tons matizados de azul do céu começavam a assumir tons rosáceos o que indicava que a noite se aproximava e a viagem de trem não era lá muito curta mesmo após a extensão da linha há alguns anos.

Já esperava uma boa bronca e algum castigo da mãe quando chegasse em casa fora de hora.

Começava a sentir uma espécie tremor se apoderar de seus membros periféricos um nó na garganta e uma sensação de vazio na boca do estômago, estava claramente entrando em pânico, isso não era bom.

Lembrava se bem dos conselhos do pai em situações de emergência como num terremoto já que eram eventos frequentes e inevitáveis no país, manter a calma se concentrar na respiração e contar mentalmente até se acalmar totalmente.

Porém ela não herdara o sangue frio do mesmo, era muito emocional como a mãe. Estava ali desde o fim da manhã e metade do tempo perdida andando em círculos.

Estava quase sem esperanças quando avistou ao lado da trilha principal um caminho paralelo que estranhamente não havia percebido nas intermináveis voltas, parecia quase sombrio, mas já estava mesmo perdida, ia arriscar, de qualquer forma não ia parar em nenhum outro mundo mesmo…

O pior que poderia acontecer era ficar vagando a noite por aquele lugar até ser localizada no máximo até o dia seguinte, agora começava também a sentir fome, o parco lanche que trouxe na mochila já havia sido devorado a algumas horas, e esquecera do principal para uma longa caminhada: água.

Sua incompetência sobre a administração das próprias necessidades era ultrajante até pra ela mesma, não era mais criança, já tinha 15 anos afinal.

No percurso recém descoberto começava a sentir a atmosfera do local um pouco diferente dessa vez, a umidade do local aumentara sentia isso pois começava a suar, e sorte sua ter ido com uma roupa mais leve: uma regata, um short não muito justo e para caso esfriasse uma jaqueta jeans, agora amarrada a cintura.

O inconveniente era sentir os pés suados dentro do tênis e começando a formar calos de tanto caminhar. - "Estranho, as cigarras já deveriam ter começado a cantar" . Disse pra si mesma, lembrando que estava no verão e a presença desses seres era quase onipresente em todas as áreas florestais nessa época do ano.

Nesse momento foi checar se o celular tinha sinal aquela altura, mas nada, nenhuma barra e logo iria ficar sem bateria, na tela indicava apenas 5% e já se aproximava das seis da tarde - " Inferno, se a merda da bateria acabar antes de eu conseguir sinal tô ferrada".

Praguejou enquanto andava levantando o aparelho em busca de sinal, mal percebendo aonde os pés a direcionavam e nesse momento escorregou em uma ribanceira, tudo fora muito rápido, tentou manter o equilíbrio mas uma parte da terra sobre seus pés se desintegrou a impedindo de se ancorar ao solo firme, daí foi rolando morro abaixo no caminho até o vale tentou se segurar de algum modo a vegetação enquanto via o mundo ao redor girar, quando se deu conta, bateu o tornozelo contra uma árvore de aspecto bem maciço, parecia mais uma pedra, a dor agora era sua companheira nessa caminhada solitária, a próxima ação ainda deitada foi olhar pra cima e perceber que o céu agora estava não com os tons sublimes e quase infantis de fim de tarde, mas vermelhos e com raios e trovões vez ou outra cortando aquela visão quase marciana.

Presumiu ela que fosse um indicativo de uma chuva torrencial, mais uma desgraça pra fechar seu dia pensou.

-" Aí drogaaa, alguns dias é melhor nem levantar da cama".

Tentou se erguer e percebeu um riacho paralelo a si, o seu pai conhecia bem a região com certeza saberia onde estava, era como um grande paraíso pra ele já que era botânico, e conhecia todas aquelas espécies vegetais e até chegou a catalogar algumas ainda desconhecidas, tendo em vista que a área era uma propriedade de muitos hectares quase intocada pela ação humana e que fora deixada de herança para ele e alguns amigos pela velha Genkai.

Prontamente começou a se levantar, tentou forçar o lado do tornozelo atingido, mas a dor pulsante e irradiante não lhe permitia tal movimento, lentamente tentou se escorar na curva leve da ribanceira para se erguer novamente, meio cambaleante e ainda um pouco tonta conseguiu se levantar. Só aí percebeu que o celular que lhe distraiu não estava mais nas suas mãos ela havia deixado escapar enquanto tentava se ancorar na vegetação rasteira, lembrou-se. Não conseguia visualizar nada que se parecesse com seu celular, procurou em vão próximo onde havia caído com alguma dificuldade pois não conseguia se abaixar sem sentir seu tornozelo dolorido reclamar. Agora estava manca, sem celular e perdida, maravilhoso, pensou agora ia pro hospital e estava fora da dança por tempo indeterminado a depender da gravidade da lesão.

Antes de começar a xingar em voz alta ouviu a voz de sua mãe clara e firmemente chamar:- " Naru, venha cá".

Sim, era a voz da sua mãe, estava aliviada e com uma boa dose de preocupação, já que havia saído de casa dizendo que iria para escola e não para o Templo, droga era definitivamente impossível esconder algo das mães.

Revirando os olhos e respirando fundo antes de seguir a direção em que a voz de sua mãe vinha começou a dizer: - "Mãe, desculpa por mentir, mas eu não aguentava mais aquela chatice eu não quero mais voltar pra escola, vocês não entendem, sofro bullying o tempo todo só porque não sou igual a todo mundo, não sou a melhor aluna da classe, sou medíocre eu sei."

Agora dizendo essas palavras que a muito lhe afligiam a alma, começava a sentir os olhos e nariz queimarem com as lágrimas ainda represadas, não sabia se pela situação que se encontrava ou pelos últimos acontecimentos em sua vida ou as duas coisas juntas.

Simultaneamente, aproximou-se mais um pouco na direção da voz de sua mãe seguindo adiante,percebendo agora também o som do fluxo de água cada vez mais forte à medida que se aproximava.

E lá estava ela recostada a uma árvore com o semblante sereno e composto, nenhum sinal de ira ou impaciência preenchia suas feições marcadamente indígenas, nesse momento, Naru se aproximou e disse: -" Mãe me ajuda aqui, por favor, eu cai daquele morro e acabei perdendo o celular, tava tendo achar sinal pra te ligar quando perdi o equilíbrio e rolei morro abaixo, acho que lesionei o tornozelo também " dizia ela enquanto apontava com a mão indicando de onde tinha caído, enquanto batia com a outra nas roupas agora sujas com folhas e terra.

Naru lembrava-se vagamente da mãe estar com aquela mesma roupa de manhã, só que ela sempre se vestia de forma mais requintada pro trabalho, achou estranho, mas não tanto quanto o que se seguiu após -" Tudo bem querida, eu te ajudo, vem cá, vamos pra casa agora, logo logo seu pai chega do trabalho e vai ficar preocupado com nossa ausência" disse a mãe da moça da forma mais doce e natural possível.

Algo muito estranho estava acontecendo, primeiro sua mãe aparece literalmente do meio do nada, até aí tudo bem ela poderia ter sido informada que a filha não fora para aula e foi atrás dela no templo, mesmo assim,pouco plausível, sua mãe não era conhecedora daquela região, mas dizer que papai estava pra chegar em casa era absurdo, seu pai estava em um congresso internacional de botânica na China, e só voltaria na semana seguinte, sem falar na calma e tranquilidade que ela transparecia.

Sua mãe levantaria o tom de voz e ficaria brava com ela por estar gazeando aula, e andando pela floresta que só iam acompanhadas do pai, já que ele afirmava ser local fácil de se perder, um ponto pra ele nessa afirmação, anotou mentalmente. O que quer fosse aquela mulher não era sua mãe, Naru sentia agora no íntimo de sua consciência.

Continua…