Peter entrou no espaço estreito entre armários, tapando boca e nariz com uma máscara. Aquilo mais parecia um depósito puído de varinhas.

Era impressionante a capacidade de seu tio de não cuidar do próprio espaço de trabalho.

A lombada que estava buscando se destacou entre os outros volumes e ele chamou a escada deslizante com um gesto de mão por conta dos feitiços convocatórios já definidos no espaço reservado aos funcionários. Feitiços que não surtiam efeito nos livros. Algo pensado por seu tio. Medida de segurança.

Peter suspeitava das razões e as compreendia, apesar de um leigo no assunto achar aquela medida boba e fácil de burlar. O som suave correndo na prateleira e vindo até ele quebrou o ligeiro silêncio.

Seus pés se firmaram na madeira secular da escada. Degraus e degraus. A poeira manchou levemente as lentes dos seus óculos. Estendendo uma das mãos alcançou o que buscava, mas parou no instante em que ouviu o som de muitas coisas caindo metros distante. Mais uma pilha torta de livros feita por ele havia desabado na loja. Sempre esquecia do feitiço de semi-aderência. Fechou os olhos, condenando a si e esperando a voz grave de seu tio minutos depois num possível sermão. Mesmo que curto.

Ele caminhou até a loja, escondendo-se atrás de uma estante. Percebeu que o estrago tinha sido maior do que imaginara. Um grupo de pessoas auxiliava alguém a se levantar. Seu tio pedia desculpas pelo incidente.

Dois compradores ajudaram a vítima a se erguer. Os cabelos loiros desciam pelas costas. O homem limpava as próprias vestes com uma das mãos sem a luva que outrora a aquecia. A voz acalmava seu tio, dizendo que nada de mais havia ocorrido. Apesar disso, Peter captou discreta irritação com a preocupação de todos.

-Scórpio, meu filho... Vamos.

Foi o ultimato. Um cliente perdido... E um cliente de peso.

Peter encostou-se na estante e pressionou o livro contra o peito...

Ele era um desastre.