50 dias com ele – Dohko e Shion Version - 02
*Paternidade – I*
Mu sentou-se calmamente na escadaria, relembrando a cena de minutos atrás. À sua maneira infantil, já tinha lá suas certezas. Mas vê-las se concretizando era encantador. Sempre gostava das visitas "secretas" que o mestre de Libra fazia ao Santuário, porque podia ver seu pai com cara de bobo por dias depois disso. E então, olhando longamente para o céu. Era sempre assim que Shion ficava, invariavelmente. De repente, o pequeno ariano se viu acompanhado do garotinho loiro que Dohko trouxera com ele dessa vez. "Futuro cavaleiro de Virgem. Futuro Conselheiro do Grande Mestre." A segunda parte normalmente lhe faria ser tomado por ciúmes, porque queria dizer que aquele loirinho um dia iria ficar mais tempo com seu pai do que ele mesmo. Estranhamente, esse ciúme não veio. O garotinho loiro retorceu as mãos juntas, incomodado.
– O que foi, Shaka? – Mu preocupou-se com ele.
- Os mestres… eles… - Ficou vermelho e não prosseguiu, temia estar desrespeitando-os ou dizendo algo a Mu sobre seu pai que não lhe agradasse.
- Então você também viu? Ufa, achei que fosse ter que guardar isso sozinho… - Shaka ficou mais vermelho ainda.
- Vi… Então eles são… hum… casados?
- Sim, algo assim. Eu não sei bem se algum dia tiveram uma cerimônia de casamento, mas sempre me pareceu como isso. Embora eles precisem viver em lugares diferentes.
- Que triste me parece!
- Triste?
- Sim, viver tão longe da pessoa com quem você escolheu se casar… eu sei que tem coisas na existência que são inevitáveis e necessárias. Mas isso não as torna menos tristes. – Mu concordou com a cabeça. – Como você se sente sobre isso?
- Mais feliz agora que "tenho certeza".
- Tem certeza de quê? – A voz de Shion se fez ser ouvida alta e clara, mas antes que os pequenos pudessem se virar no susto, Mu já estava sendo erguido para o colo do pai.
- Nada importante, pai… só… ah… - Achou melhor nem prosseguir, porque qualquer prosseguimento seria mentira e a verdade estava fora de cogitação no momento. Shaka analisou as circunstâncias e pensou que Mu era uma criança afortunada e amada pelos deuses para ser lhe dado um mestre que era seu pai e com quem podia ficar tão junto daquela forma. Não tinha percebido Dohko o observando logo atrás, pensando na solidão daquela criança encerrada desde sempre num Templo até que fora lhe buscar, somente aos cuidados dos deuses. De que faltas e desafetos deveria sofrer, assim? Sem pensar muito, ergueu Shaka nos braços como há pouco Shion fizera com Mu. O loiro se assustou no primeiro momento, mas logo entendeu.
- Shion, vamos levar os pequenos para dentro, está ficando tarde para eles.
- Sim, sim, estava pensando nisso. Eles precisam de um banho, uma tigela de sopa e ir direto para baixo das cobertas. – Shion riu baixo dos olhinhos dos pequenos lhe fitando enquanto ele e Dohko os levavam para dentro dos aposentos particulares do Grande Mestre.
- Mas eu ainda não estou com sono, pai… - Mu resmungou, grudado ao pescoço de Shion.
- Mas vai estar, logo depois que Dohko lhes contar uma das histórias magníficas sobre o Senkyou, não é mesmo, Dohko?
- Pensei que hoje fosse seu dia de contar histórias…
- Não quer que eu conte para os meninos aquela do…
- Não! Pode deixar, eles vão ter uma bela história sobre dragões nas terras encantadas… - Dohko tinha certeza que Shion era bem capaz de contar alguma de suas inúmeras histórias embaraçosas de juventude para o delicado parzinho de meninos. E tinha certeza de que, mesmo sendo engraçadas, a maioria era de cunho duvidoso, já que envolviam chegadas repentinas de um adolescente chinês a Jamiel, choramingando dezenas de xingamentos contra Shion por morar num lugar tão inacessível, um Hakurei com planos casamenteiros nada convencionais disfarçados nas entrelinhas de suas conversas e pequenos primos e pupilos lemurianos confusos.
…Depois de uma história divertida e cheia de encantos das quais só Dohko era capaz de contar, os pequenos estavam pacificamente adormecidos na cama de Mu. E Dohko girou a chave do quarto de Shion para garantir que nenhuma miniatura com insônia ou medo do escuro lhes pegasse num flagrante difícil de explicar para tão doces criaturinhas como aquelas. Enlaçou o pescoço do amado, sentindo-se preso a ele pelos braços em sua cintura.
- Por que deixou que os dois nos vissem aos beijos mais cedo? Era só ter parado um segundo antes de eles tentarem entrar no salão, Shion…
- Porque nada faria o Mu sossegar sobre você e eu se alguma certeza não lhe fosse dada. Não consegui fazer isto com palavras, por mais que tenha lhe dito muito, no final, nunca lhe disse nada porque sempre fico perdido quando falo de você… E Shaka, afinal, um dia vai ser meu Conselheiro, acho que é bom estar ciente do tipo de pessoa que eu realmente sou, e sou uma que ama você intensamente.
- A última parte foi para me fazer calar a boca e ir logo pra cama?
- Quero aproveitar a noite, já que amanhã você precisa ir embora bem cedo…
- Eu também. Acho que foi bom que os dois tivessem suas certezas juntos, desde que colocaram os olhos um no outro, senti que irão criar um vínculo muito forte…
- Eles já o possuem, Dohko. Igual a nós. Algumas coisas vem da eternidade e para a eternidade. – Ambos sorriram um para o outro, cúmplices. Queriam ver seus meninos crescerem, fortes em sabedoria, poder e principalmente, vívidos de amor. Rezavam para todos os seus deuses que o destino dos pequenos, algum dia, fosse tão generoso quanto o de si mesmos.
Dohko afundou o rosto no peito de seu ariano, aspirando seu cheiro, embora nunca o esquecesse. Shion afagou os cabelos avermelhados do outro, brincando com as mechas. Queria prolongar cada segundo da noite, adiar a despedida. Talvez na próxima manhã, com os dois pequenos dependendo totalmente de si, conseguisse conter um pouco da saudade.
Notas da autora:
Não resisto ao Mu e ao Shaka pequenininhos, na minha imaginação eles sempre estiveram de alguma foram ao redor um do outro e também sempre pensei que o Mu nunca acharia esquisito ter o Dohko na família, hehe.
Dedicado para a confusa libriana Bárbara que tem certeza que vai se divertir nesses cinquenta dias com o Dohko heuheuehue.
Miro – Se dependesse do Dohko, a fanfic ia ser interminável, algo do tipo "243 anos com ele…"
Beijos!
