Olhava para a menina, assustado. Harry engolia cada um de seus traços com os olhos, observando cada detalhe. A menina era tudo de diferente do que ele havia pensado.

Seu rosto era encovado como o do pai, assim como a pele era amarelada, os cabelos eram negros, os lábios eram finos e as sobrancelhas eram grossas (mas arrumadas e bem-feitas). Também possuía o mesmo semblante sério. Mas a semelhança com Snape parava por ali. Seu cabelo era curtíssimo, no estilo militar (e não era seboso). Não era espetado para todos os lados, como os de Harry, mas arrumados. Era uns dois dedos mais altos que Harry. Possuía o mesmo nariz que o da mãe (Graças a Merlin, Harry pensou). Vestia uma camisa simples branca e uma calça preta simples com botas preto e bem engraxadas, o que era estranho, já que Harry havia convocado para si vestes bruxas, enquanto ela preferia as roupas trouxas. Ela também possuía a cicatriz em forma de raio na testa, o que fez Harry deduzir que seus pais haviam tomados o mesmo destino que os dele.

Os seus olhos eram iguais. Verdes e amendoados, como os de sua mãe. Mas havia algo diferente naquele olhar. A falta de brilho, a frieza mostrava que apesar dos olhos serem iguais, a alma era diferente entre ambos.

Para terminar de completar a estranheza, havia o corpo dela. Não era magro e raquítico como o do pai na adolescência, mas levemente musculoso, como o de alguém que estava preparado para uma boa luta caso surgisse a oportunidade. E como se não coubesse mais espaço para tantas esquisitices, haviam, desde pequenas, que quase não chamavam atenção, até enormes, que cobriam o braço esquerdo inteiro, tatuagens. Estavam espalhadas nos dois braços e Harry poderia imaginar que haveriam mais pelo resto do corpo.

O garoto não seria capaz de engolir tamanho choque ao ver a filha de Snape assim. Já havia visto muitas coisas inacreditáveis no mundo bruxo, mas aquilo... Pensava que ela seria mais... regrada. Mas se bem que o pai tinha a Marca Negra tatuada no braço, então não deveria ser tão surpreendente assim.

A menina o encarou e engoliu cada um de seus traços, assim como ele fazia. Logo após, fez uma cara de desprezo e ironia, dizendo:

-Obviamente, a cara do pai.

Harry não poderia esperar recepção melhor de uma Snape. Até o tom de voz, a fala lenta e arrastada, as palavras carregadas de sarcasmo, ela possuía.

- Deixem-me apresenta-los- disse Dumbledore – Harry, esta é Johanna Snape. Johanna, este é Harry Potter.

Johanna encarou o garoto que estava a sua frente e se dizia ser filho de Potter e Lily, sua mãe. O garoto era o pai, sem tirar, nem pôr. A mesma altura, o mesmo cabelo espetado e negro, o mesmo nariz longo, os mesmos lábios finos. Mas havia os olhos, que eram iguais o de sua mãe, e por consequência, iguais aos seus. Havia a mesma cicatriz também, do mesmo lado que o dela e com o mesmo formato.

O garoto exalava normalidade. Se não fosse pela marca em sua testa, poderia ter sido um qualquer que encontraria pela rua. Exceto pelo fato de que ele era a cara de James Potter, então, se o visse na rua crisparia os lábios de ódio ao fosse lhe dar uns bons murros. E estava tentada a fazer aquilo, se não fosse pelo fato de que o menino não tinha o olhar e nem a postura arrogante de seu pai.

Após Johanna tê-lo recebido de forma calorosa (Ele esperava o que mais de mim, a mesma pensou) os dois se encararam por um bom tempo, ou tempo algum. A falta de medida do tempo lhe incomodava, assim como os sentimentos contraditórios ali. Mas não era aquilo que ela era? A contradição em pessoa?

Dumbledore e Anna sentiram o clima. Logo, Anna disse:

-Não vão querer fazer perguntas? Ou entender o porquê de estarem aqui reunidos?

-Acredito que você e Dumbledore sejam os únicos aptos a responde-las – Disse a menina, com as palavras secas.

Havia herdado esse dom do pai. O tom sarcástico era um método de defesa e ataque, um dos melhores que ela conhecia até então. Havia alguns problemas, claro: as pessoas, por vezes, interpretavam mal o que ela queria dizer. Mas estava acostumada a oferecer explicações com um tom entediado, como se ninguém realmente tivesse a capacidade de entender a sagacidade de suas palavras. Seu pai também deveria ser assim.

Anna se endireitou com essas palavras. Respondeu-lhes, um tanto acuada:

-Vocês estão aqui porque Voldemort tentou matar vocês para que ele conseguisse ser o vencedor. Porém, há um problema: na tentativa de assassinar vocês, as Horcruxes que ele jamais desejou fazer, ele se esqueceu que o corpo dele tem o sangue de vocês, portanto, tem a proteção que a mãe de vocês fez ao se sacrificar. O que vocês farão é muito simples: em vez de voltarem para os respectivos mundos, haverá uma troca de mundos.

"Harry vai para o mundo de Johanna e vice-versa, para que tenham a oportunidade de conhecer os devidos pais. A mãe de ambos está morta, pois, como eu havia dito, Lily Evans se casa, seja com James Potter ou com Severus Snape e, com seus respectivos maridos, se sacrifica e salva seus respectivos filhos".

-Espere, então, no mundo da Johanna, meu pai está vivo, mas não sabe de minha existência – disse Harry – Ele pensa que nunca se casou com minha mãe e teve um filho. Então, como ele está agora e como vou acha-lo?

-Ele está na mesma situação que Severus Snape. Seu pai também foi para Hogwarts, dar aulas de Poções. Ele também detestava a matéria e queria dar aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas, como Snape. Também era Comensal da Morte, mas diferente de Snape, aceitou o cargo porque servia a Ordem da Fênix e seria espião, coisa que não dava para o Snape do mundo dele fazer pois ele estava sendo perseguido pelos comensais.

-Mas James Potter está morto no meu mundo – disse Johanna – Então presume-se que meu pai também esteja morto no mundo do menino Potter. Por que devemos trocar de mundo para ver nossos pais se eles estão mortos?

-Quando vocês voltarem para os mundos de seus pais vivos, voltarão algumas horas mais cedo, para impedir a morte dos dois e de mais algumas – Dumbledore interveio – Recomendo que salvem Remus Lupin e Tonks. Apenas esses. Parece frio e doloroso, mas é muito complicado mexer com linhas do tempo.

"Vocês terão total capacidade de derrotar Voldemort, afinal, somente Aquele-Que-Sobreviveu derrota Voldemort, independente de quem seja O Que Sobreviveu".

Houve um silêncio e Johanna sentiu o peso da missão em suas costas. Queria conhecer o pai, mas percebera que ele havia se tornado um Comensal da Morte. Valeria a pena? Johanna achava que não, mas tinha tendência ao pessimismo. Anna, cortando os seus pensamentos, disse:

-Vamos deixar vocês a sós por algum tempinho. Para se conhecerem mais. Depois mostrarei as lembranças e o que cada um deve fazer e o que cada um vai levar.

Ela e Dumbledore saíram através da névoa, deixando os dois a sós. Ambos se sentaram em um banquinho e olharam para os trilhos do trem, sem coragem de dizer algo para o outro. Johanna era péssima em começar assuntos, quanto mais em continuá-los. Mas deveria fazer algum esforço, afinal, independente do que Potter tenha feito para estragar a sua vida, não seria muito justo descontar no menino, apesar que seria gostoso ver o menino sofrer em suas mãos como ela sofreu na de Potter.

Foi aí que ela se reteve. Não. Não desejaria ao pior inimigo o que Potter fez a ela. Mesmo que ele estivesse tentando protege-la, talvez jamais aceitasse o que havia feito. Só esperava que Harry também não tivesse sofrido tanto na mão de seu pai como ela sofrera com seu antigo professor de Poções.

Harry começara o assunto, sem jeito:

-Hmmm... Você não parece gostar muito do meu pai. Ele te deu aulas, huh?

-Durante cinco anos foi Poções e um ano de Defesa Contra as Artes das Trevas. E não, ele não gostava de mim e muito menos eu dele – disse Johanna secamente.

-Ele descontava pontos de sua casa, né?

-Não, pois ele era da mesma casa que a minha.

-Espera: você não é da Sonserina?

-Claro que não – Johanna olhou em seus olhos – Eu sou da Grifinória.

Harry não se aguentou e começou a rir. A filha de Snape era da Grifinória? Que ironia da vida. Johanna se demonstrou irritada, pois entendia o motivo das risadas. As pessoas sempre haviam dito que seu pai era um sonserino orgulhoso.

Harry, após chorar de tanto rir (e não perceber os lábios de Johanna se crispando de irritação), disse:

-Putz, eu queria ver a cara que ele fará quando descobrir que a filha é da Grifinória.

-Arrogante e presunçoso igual ao pai, Potter. É de se admirar que tenha mais de um neurônio na cabeça – sibilou Johanna – Não tolerarei piadinhas contra mim ou minha família. Minha mãe era grifinória e meu pai a amou muito.

-Desculpa, é que seu pai odeia os grifinórios e vive perseguindo a gente.

-Faria a mesma coisa. Por vezes, os grifinórios tendem e serem imprevisíveis e não planejarem suas atitudes.

-Você fala igual ao seu pai. Mas serei obrigada a concordar que os grifinórios tendem a ter defeitos: afinal, todos nós temos.

Johanna olhou desconfiada.

-O que foi,? - disse Harry - não esperava algo assim de mim, não é? Pensou que eu seria igual ao meu pai. Snape me detestava e nunca deixava eu mostrar que eu não me parecia nada com o meu pai em personalidade.

Johanna se assustou. Ela também sofria isso com Potter.

- Você é bom em Quadribol? – disse ela na defensiva.

-As pessoas dizem que sim. Se você considera meu pai bom em Quadribol, então eu devo ser, pois jogo igual a ele, como apanhador, que nem ele. E você? É boa com feitiços e poções?

- As pessoas dizem que sim. Se você considera meu pai bom em poções e feitiços, então eu devo ser.

Ambos sorriram levemente. O clima estava melhorando.

-Você viveu com os Dursley? – Harry perguntou

-O Senhor Foca e a Senhora Palito de Dente? Sim vivi – Harry riu dela – Onze anos terríveis. Duda gostava de fazer pequenas torturas comigo, desde puxar meus cabelos até me deixar a noite toda trancada na garagem de tio Vernon em pleno inverno. O que você fazia para escapar deles?

-Hmm nada. Eu corria, mas era só isso. Eu já era veloz na época.

-Mas não fazia nada para tentar ficar o mais longe daquela casa?

-Eu andava pelas ruas.

-Só?

-Só. O que você fazia? Participava do clube da biblioteca?

Johanna se acuou. A intimidade dela estava sendo revelada. Ela não queria contar para Harry o seu intímo, a única coisa que a salva da escuridão. Mas talvez, o próprio garoto seja a chave para retirá-la de lá. Droga, esse lugar está me alterando de novo, pensou.

-Também. Mas eu dançava.

Outra coisa que espantou Harry. Jamais imaginara que a irmã possuía algum talento artístico. Mas a menina se tornava cada vez mais interessante.

- Dançava o que?

-Ballet. Eu iria para o circo, mas meus tios não deixaram. Obviamente, queriam ver se eu era bruxa ou não.

Harry olhou para ela com um olhar de interesse.

- Pode fazer algo de circo?

-Por quê?

-Eu quero ver.

-Mas eu não sou exibida que nem seu pai, Potter - disse Johanna sorrindo presunçosamente.

-Seu pai adorava exibir as habilidades em feitiços e me humilhar, Johanna. Eu não ligo. Vai.

-O que? Tá maluco?

-Anda logo – disse ele revirando os olhos – Faz algo.

Apesar da relutância, ela ficou de pé e tomou espaço. Andou para longe e veio correndo. Quando chegou perto da frente de Harry, tomou impulso nos pés, jogou as pernas para o ar e ia fazer uma estrelinha: tirando o fato de que ela não colocou as mãos no chão para fazer a estrelinha. Assim, quando ela caiu, abriu um espacate perfeito e juntou as mãos para cima.

Harry aplaudiu, impressionado com o talento. Ninguém que ele conhecia fazia isso. Sabia que ele só conseguia fazer aquilo por conta de sua magia. Ela se levantou e sentou ao lado dele novamente.

-Um dia, verei seu talento em Quadribol.

-Um dia, verei mais do seu talento dançando.

O tempo de conversa parecia ter se esgotado, pois Anna aparecera com Dumbledore. Parecia ter um tom urgente em seu rosto. Logo quando chegou, disse:

-Venha, vou mostrar-lhes as lembranças e o mundo de cada um.

Então Anna tocou na cicatriz de Harry e Johanna ao mesmo tempo e foi como se estivesse fazendo a Legilimência em alguém, pois um monte de memórias que não eram deles entraram em suas mentes e Harry viu todo o passado de seu pai, sua mãe e Snape no mundo da Johanna em um segundo e o passado da própria Johanna em outro. E o mesmo acontecia com Johanna, que vira o passado de Harry e suas pais em um segundo no mundo de Harry.

-Não há tempo para choques ou comentários – disse Anna, após tirar as mãos da testa dos dois, que olhavam um para o outro chocados – Para cada tem um frasco de lágrimas de fênix para curarem as feridas de seus pais e um frasco das memórias de seus respectivos mundos, para que mostrem aos seus pais, as Hermiones e aos Ronys. Primeiro, nós voltaremos ao mundo de Harry e deixaremos Johanna lá, então, Harry partiremos para o mundo de Johanna. Combinados?

-Mas Anna... O que acabou de acontecer? - disse Johanna

-Combinados?

-Mas Anna?

-COMBINADOS?

-Sim – ambos responderam em uníssono, sem entenderem como conseguiram compreender a situação.

-Vamos, não temos tempo a perder. Vocês voltarão até o momento após a destruição do Diadema.

A névoa começou a entrar entre os três e Dumbledore, que acenava gentilmente para eles e dizia:

-Por ora adeus, meus queridos meninos corajosos.

-Espera, gritou Johanna – Se existe dois mundos, deveria existir dois Dumbledores, certo?

A névoa cobrira Dumbledore e via-se somente sua silhueta, mas o mesmo respondeu, com sua voz ecoando distante:

-Minha querida, apesar de dois corpos em dois mundos diferentes, a alma permanecerá a mesma.

E a névoa cobriu os três para o distante.


Já vou avisando que os personagens e o mundo, assim como alguns trechos do livro de Harry Potter pertencem a J.K. Rowling e a Warner Bros. Essa fanfic não tem intuitos lucrativos e serve somente para diversão.

Reviews são bem vindas! Gosto de saber o que vocês estão achando. Críticas construtivas também são bem vindas ;)

Enfim, curtam a fic que sábado que vem tem mais 3