Jared tentou ir segurando a mão de seu ômega até o jardim onde estava sendo realizado o banquete de boas-vindas para dar uma boa impressão aos outros lobos, mas o loiro se recusou. Aquilo já era demais para ele.

Desceram as escadas lado a lado, usando suas túnicas nas cores adequadas e calças jeans escuras, e, ao chegarem na porta que dava acesso ao jardim, a música foi cessada e alguém os anunciou através de um microfone, atraindo os olhares de todos do pack para os dois homens que em poucos dias se tornariam companheiros para toda a vida e mesmo assim pareciam completos estranhos um para o outro.

Conforme iam andando pelo meio das pessoas até os seus lugares na mesa principal, Jensen ia ouvindo as pessoas sussurrarem coisas maldosas a seu respeito e que não tinham nenhuma ligação com a realidade, enquanto Jared sorria para os seus lobos e cumprimentava os que lhe chamavam.

Jensen segurou-se para não mandar todo mundo calar a boca, e fechou os punhos de raiva, respirando áspero como se tivesse areia no ar e se concentrando para tentar bloquear o que as pessoas diziam.

Ele é um espião.

Como o alfa pôde aceitar esse acordo com um maldito cachorro dourado?

Ele vai nos atacar enquanto estivermos dormindo.

Ele não é confiável, não vou deixar meus filhos chegarem perto dele.

Esse maldito já deve ter matado muitos de nós. Se eu pudesse, estraçalharia a garganta dele agora mesmo. Depois de foder com vontade essa bundinha gostosa que ele tem, com certeza.

Essa boca de ômega dele deve chupar um pau gostoso.

Quem sabe nós possamos organizar um acidente para ele. Não faria falta para ninguém.

Jensen deu graças a deus quando finalmente chegaram a mesa, ali era um pouco afastado dos outros lobos e permitia que o loiro pensasse com um pouco mais de clareza.

Jared estava alheio a tudo que acontecia no subconsciente dos membros do seu pack, da insubordinação criada involuntariamente por eles sobre o mais novo membro do pack.

— Meus amigos... hoje é dia de celebrar! – Jared gritou levantando sua taça de vinho para o alto. — Os packs mais poderosos dos Estados Unidos finalmente tiveram sua tão desejada paz, sem mais derramamento de sangue; sem mais perdas desnecessárias; sem mais brigas infundadas por um território que é apenas da deusa e não nosso! – Ele completou e todos saudaram, erguendo seus copos e prestando atenção no que ele dizia, agora sim Jared parecia um alfa comandando sua alcateia e não um lobinho birrento qualquer, como tinha sido a primeira impressão de Jensen sobre ele. O domínio e o respeito que todos tinham pelo moreno podia ser sentido por qualquer um que presenciasse aquele tipo de interação entre eles. — Hoje o ômega Jensen Ackles, filho de Roger Ackles, alfa do pack de Tuskegee, se une a nós em sinal de paz. E em troca dele a tão necessitada água foi oferecida aos Lobos Dourados, enquanto eu viver e a minha linhagem for alfa desse pack, eu garanto que haverá paz entre nós! Saúde!

Jared terminou seu discurso, sorrindo orgulhoso para todos os seus lobos, que o saudaram no final da fala e beberam do vinho.

Jensen mordeu o lábio nervoso, não gostava de quando as pessoas ficavam olhando para ele por tempo demais e era exatamente isso que estava acontecendo no momento. Sua concentração em bloquear os sussurros dos outros na sua mente o desgastava muito, e até mesmo doía.

— Agora vamos comer... – Jared disse, autorizando que o banquete fosse servido, e sentando-se na sua cadeira especialmente demarcada na mesa. Jensen deveria sentar ao seu lado, mas tinha puxado a cadeira para o mais longe possível do alfa, e Jared achou melhor deixar ele ali. Mandar que ele viesse para mais perto só começaria uma briga sobre poder, o que não era o intuído do mais jovem, porém Jensen parecia achar que tudo se resumia a quem mandava e quem obedecia.

Não é bem assim. Jensen disse na mente do alfa enquanto comia uma coxa de frango com as mãos. Jared se assustou com aquela voz estranha na sua mente e olhou para Jensen sem nem tentar disfarçar. Pensou em abrir a boca e dizer para ele dar o fora da sua mente, mas achou melhor conferir se ele ainda estava por ali.

Não disse para parar de bisbilhotar minha cabeça? Jared tentou pensar naquilo com uma voz zangada para saber se Jensen entenderia que ele não estava satisfeito com a sua atitude.

Não é como se eu quisesse entrar nela. Mas você, acima dos outros, força seus pensamentos na minha mente. Quase grita. Jensen devolveu e suspirou longamente quando ouviu mais um comentário imbecil de algum dos outros convidados sobre os seus terríveis planos para acabar com o pack Shawnee enquanto todos dormiam.

— Eu sou o alfa, é natural que eu seja mais forte nessa parte também. – Jared disse em voz alta, com um sorriso presunçoso nos lábios, como se a conversa tivesse se iniciado naquele tom, mas se dando conta de que tudo se passara na sua cabeça alguns segundos depois de fechar a boca. Para a sua sorte Chad estava distraído com algo e não tinha ouvido.

Jensen riu e continuou comendo seu frango, dando aquele breve papo por encerrado. Não queria ficar dirigindo a palavra com aquele sujeito que dizia ser seu alfa. Quanto menos contato tivesse com ele, melhor seria.

A festa se seguiu tranquilamente, vez ou outra, alguém passava na mesa cumprimentar o novo integrante do pack com um sorriso enorme no rosto, porém desejando a morte dele em pensamento.

Quando o relógio marcou dez horas em ponto as pessoas começaram a se dispersar e ir para suas casas. Jensen achou que aquela era sua deixa para poder ir para o quarto também, mas assim que se levantou, Jared o impediu de sair da mesa.

— Será que você não estudou nada sobre os rituais dos lobos, ômega? É falta de respeito sair antes dos convidados. – Jared lembrou-lhe e Jensen bufou.

— Estou pouco me fodendo para os convidados, já fiquei sentado aqui por mais de duas horas e tudo que eu quero é poder me deitar e dormir depois desse dia idiota. Será que é possível, alfa? – Perguntou Jensen, debochando.

Jared franziu o cenho de irritação e aproximou mais sua cadeira de Jensen, olhando-o nos olhos daquele jeito intenso que não admitia desobediência.

— Eu mandei ficar na mesa, então você vai ficar na mesa, porque eu não quero que meus lobos pensem que eu não posso controlar nem meu próprio ômega.

O lobo dourado abriu e fechou a boca com aquele comentário, levantando-se da mesa no mesmo instante e dando a volta nela.

Você não manda em mim. Disse na cabeça do lobo negro e Jared trincou os dentes de raiva.

Se você der um passo em direção a porta vai se arrepender.

Ah, é? Jensen respondeu e olhou por cima do ombro para o moreno ainda na mesa, as pessoas ao redor pareciam desavisadas sobre a guerra fria que estava instaurada ali. Observe.

E então ele saiu andando tranquilamente em direção a porta que dava acesso a mansão, subindo as escadas rapidamente quando percebeu que estava fora do campo de visão de Jared.

O lobo alfa sentiu seu sangue esquentar de raiva, a sua vontade era de ir atrás do lobo ômega e subjuga-lo, fazer ele obedecer nem que fosse à força. Mas o que fez no fim das contas foi continuar sentado no seu lugar até que todos tivessem ido embora, a não ser pelo seu amigo Chad.

— Cadê o ômega? – Ele perguntou assim que avistou o alfa sozinho na mesa, procurando com os olhos por todo o jardim.

— Foi para o quarto.

— Antes dos convidados? – Chad questionou, surpreso.

— Sim, ele é muito pior do que eu pensava. – Jared suspirou irritado. — Quero que a cerimonia do elo chegue logo para mim marca-lo e obriga-lo a me obedecer.

Chad se aproximou do alfa na mesa e colocou as mãos sobre ela.

— Bem, ele é cabeça dura. Já pude ver isso. – O loiro comentou e balançou a cabeça. — Qual o dom dele?

— Telepatia. E provavelmente memórias, mas acho que ele não sabe que tem ou nunca tentou usar essa habilidade.

— Então quer dizer que ele ouve tudo que nós falamos nas nossas cabeças? – Chad pareceu preocupado com aquilo e levou o dedão a boca, mordendo a unha como sempre fazia quando ficava nervoso com alguma coisa.

— O que foi?

O alfa questionou confuso, porque Chad ficaria preocupado do ômega ouvir os pensamentos alheios? Na verdade aquilo poderia até ser útil para momentos de conspiração.

— Ele não pode estar presente durante as reuniões, Jared. E você tem que tomar cuidado com o que pensa na presença dele.

Jared olhou ainda mais perplexo para o amigo e conselheiro.

— Por que isso?

Chad limpou a garganta e olhou para os lados.

— Ele é um lobo dourado, alfa, e sempre será. Pode passar informações secretas sobre o nosso pack para o dele.

Jared se levantou da mesa impaciente e esfregou as mãos umas nas outras.

— Jensen agora é do pack Shawnee, Chad. Ele não vai passar informações para o pack natal dele, ainda mais que logo ele será marcado e aí sim vai fazer parte definitivamente do nosso lugar.

— Só estou lhe avisando, ele pode ser perigoso com essa coisa de ler mentes e talvez alterar e apagar memórias.

Chad advertiu e Jared deu um soquinho no braço dele de brincadeira.

— Eu agradeço, mas tente não pensar sobre isso na presença dele ou vai demorar ainda mais para nos aceitar como sua nova família. Desconfiança infundada nunca é bom.

Chad estranhou aquela postura do moreno.

— Gostou dele, não é? Quem diria que o alfa pegador e mulherengo iria gostar de um ômega homem. – Chad disse rindo e Jared fechou a cara.

— Chad, eu não gostei de ninguém. Ele é a porra de um mal-educado e desobediente, a única coisa que eu quero fazer é com que o acordo não seja desfeito e a paz continue a prosperar entre os packs, tudo bem?! – Disse o alfa, aborrecido com a insinuação.

O loiro sorriu de lado e levantou os braços em rendimento.

— Okay, okay. Não está mais aqui quem falou. Aliás, amanhã cedo precisamos ir até os novos limites do nosso território perto do rio e conferir se eles estão respeitando o espaço concedido ou invadindo.

— Tudo bem. Antes das seis me espere no stricker, deve ser por esse horário que eles vão começar a trabalhar lá e nós podemos dar uma avaliada à distância.

Despediram-se e cada um foi para um lado, Jared para dentro da mansão e Chad para sua casa. O alfa subiu as escadas e passou pelo quarto de Jensen, tendo uma ideia na hora sobre qual seria o você vai se arrepender que prometera a Jensen.

Foi para o seu quarto e procurou na calça que havia tirado mais cedo a chave da porta do quarto do loiro, voltando até lá e trancando a porta. Quem sabe um dia inteiro de castigo e em jejum não fizessem o ômega repensar sobre suas rebeldias.

Às cinco e quarenta, Jared já estava no lugar próximo a floresta onde os homens deixavam suas roupas para se transformarem e irem correr na forma de lobos para aflorar seu instinto animal.

O recinto nada mais era do que uma grande sala com vários armários demarcados por nomes a qual Chad havia apelidado de stricker. O alfa ainda era curioso sobre o motivo daquele nome, mas nem perderiam seu tempo perguntando ao amigo. Chad adorava dar apelidos para as coisas e geralmente eles não tinham o menor sentido.

O alfa esperou Chad por dez minutos até que ele finalmente apareceu, recebendo uma reclamação do moreno.

— Antes das seis, Chad.

Chad tirou seu celular do bolso e mostrou a Jared a hora, que marcava cinco e cinquenta e três.

— É antes das seis. – Ele riu. — Vamos logo, se está com tanta pressa assim.

Jared concordou e ambos tiraram suas roupas, guardando-as em seus devidos armários e então tomando a forma de dois lobos incrivelmente negros. Jared era maior, seu pelo reluzia quase uma luz azulada própria, enquanto Chad era um pouco mais modesto que ele e tinha um tom opaco de preto, quase um cinza muito escuro.

O alfa saiu na frente, correndo e ganhando velocidade rapidamente. Chad o acompanhava alguns metros atrás, mas tinha que se esforçar para manter aquele ritmo. Não era à toa que o moreno era o alfa do pack.

Em poucos minutos chegaram até o lugar demarcado como limite para os lobos dourados pisarem. Alguns homens estavam lá, tinham plantas de construção nas mãos e analisavam o território, demarcando alguns pontos e algumas árvores.

Jared olhou para Chad e eles se comunicaram mentalmente, essa era uma coisa que somente o alfa conseguia fazer com seus lobos e isso somente na forma animal.

Eles vão desviar o rio? Jared perguntou.

Acho que sim, é mais prático do que fazer algum tipo de encanamento para levar a água. O loiro pontuou e o alfa concordou. Eles não perderam tempo, hein. A situação devia estar critica.

Não perderam tempo mesmo. Vamos sair daqui antes que eles percebam e achem que estamos tentando fazer algo. Disse o alfa e Chad concordou, saindo aos trotes atrás dele.

Correram pela floresta por entre as árvores já conhecidas e passaram pelo lago que pertencia ao seu território. Shawnee era abundante em nascentes, rios e lagoas. Várias formações rochosas estavam espalhadas por certo ponto da floresta, eles formavam o que os lobos negros chamavam de Floresta de pedra.

Jared voltou a forma humana no topo de um dos pedregulhos mais altos, que mais se parecia uma grande mesa de longe. Chad não conseguia subir lá, pois não era capaz de dar os pulos longos entre os três montes ao redor daquela pedra. Somente o alfa com toda a força de suas pernas malhadas saltava daquele jeito e ali ele tinha paz. Olhou ao redor e fechou os olhos logo em seguida, sentindo o ar puro da natureza nos seus pulmões e sentindo os primeiros raios do sol por trás das montanhas do leste tocando sua pele nua.

Algumas horas mais tarde, alfa e conselheiro estavam de volta ao stricker para vestirem-se e irem tomar café. Já passava das oito e meia da manhã e Samantha, a cozinheira, com certeza lhe daria uma bronca por ter chegado tarde. O café da manhã era servido na mansão às oito horas.

— Jared Tristan Padalecki, você tem relógio, garoto? – A mulher disse assim que o alfa entrou pela porta da cozinha, olhando sério para ele.

— Desculpe, Sam. Acabei me distraindo na floresta, sabe como eu gosto de ficar lá...

Hum. – Ela reclamou. — Sorte a sua que eu sou muito legal e guardei seu café. – A mulher abriu um sorriso leve e serviu a mesa novamente. Tinha visto Jared crescer e era quase uma segunda mãe para ele.

— Obrigado, Sam. Você é demais! – Jared agradeceu e começou a atacar as comidas deliciosas postas à sua frente.

Sam guardou uma geleia de frutas, que acabara de preparar, na geladeira e voltou para a mesa onde o alfa estava, sentando-se em uma cadeira vazia.

— O ômega não vai tomar café?

Jared tinha quase esquecido do loiro trancado no quarto, porém lembrando-se que ele estava lá ou não, o alfa manteria sua decisão de punição.

— Não. Aliás, ele não vai comer nada hoje, ficará trancado no quarto em jejum, para aprender a ter um pouco de respeito por mim.

Informou ele, enfiando uma torrada inteira na boca e recebendo um olhar severo da beta.

— E acha que ele vai te respeitar de alguma forma com você fazendo isso? – Ela perguntou, arrumando a toalha da mesa com os dedos, impaciente.

Jared a olhou confuso e tomou um gole da xícara de café.

— Eu acho. Ele me desobedeceu ontem e saiu da festa antes dos convidados, isso é uma falta de respeito!

Samantha o olhou feio novamente.

— Não é assim que se conquista respeito, Jared. Você não pode tranca-lo num quarto e deixar que ele passe fome para puni-lo quando ele fizer algo que te desagrade.

— Meu pai fazia isso com os ômegas desobedientes...

Sam rolou os olhos e apoiou os cotovelos na mesa.

— E ele conseguiu algum respeito?

— Claro que conseguiu.

— Não, ele conseguiu medo. Medo e rebeliões. Preciso te lembrar do que resultou a última?

Jared suspirou e balançou a cabeça.

— Não, não precisa. Mas o que eu faço para ele me obedecer então? Tudo que eu mando ele fazer, ele quer discutir e fazer o contrário. E isso que só passamos algumas horas juntos ontem...

A beta sorriu de lado e esticou sua mão na mesa, pedindo silenciosamente para que Jared fizesse o mesmo.

— Você é um alfa melhor que o seu pai...

— Sam...

— Jared. Você é. Por mais que eu gostasse do seu pai, já que ele era bom para mim, você sabe o quanto ele podia ser cruel. – Disse a mulher, olhando o moreno nos olhos. — Você não é como ele e nem precisa ser, os seus lobos não precisam ter medo de você, eles podem te amar. E eles já fazem isso, mas precisa conquistar seu novo lobo. — Completou Sam.

— Então o que eu faço para o ômega me obedecer?

— Primeiro passe a usar mais o nome dele do que o seu título biológico. Eu ouvi ontem o quanto ele odeia isso, e converse com ele. Eu sei que você não gosta de homens e não vai conseguir amar ele, mas amando ou não, vocês vão ter que ficar juntos, e você não acha que é melhor que a convivência de vocês seja amigável do que essa coisa de "você não faz o que eu quero então vai ficar trancado no quarto"?

Jared sentiu o peso sobre seus ombros das palavras da beta. Ela estava certa, em tudo que disse, não podia começar sua relação com o ômega, com Jensen, desse jeito. Suspirou e passou as mãos pelos cabelos nervosamente.

— Tudo bem, você tá certa, Sam. Eu vou tentar entender um pouco o lado dele de tudo ser novo e diferente da vida que ele tinha em Tuskegee.

— Faça isso, garoto, e eu tenho certeza que as coisas vão ser melhores entre vocês. Agora suba até o quarto dele e o chame para tomar café, pode ser um bom começo...

Jared pensou sobre o assunto, quem sabe fazer aquilo fosse uma boa coisa realmente, mesmo que tivesse que dar o braço a torcer.

— Tudo bem. Arruma a mesa como se eu ainda não tivesse comido? Quero que ele pense que o esperei para tomar o café, quem sabe ele goste disso. – Jared deu de ombros e Sam disse que poderia fazer aquilo.

Logo em seguida o alfa subiu para o andar onde ficavam os quartos e enfiou a chave na fechadura lentamente, tentando não fazer o barulho que denunciasse o seu objetivo anterior de trancar Jensen ali.

Após destrancada a porta, Jared bateu nela como se tivesse acabado de chegar.

— Estou entrando. — Avisou o moreno. Jensen ainda estava esparramado na cama, com o edredom bagunçado sobre o seu corpo e a cabeça enfiada no travesseiro. — Ôme... Jensen! – O alfa chamou e o loiro nem se mexeu. — Jensen acorda! Está na hora do café.

Dizendo isso, Jared, na tentativa de acordar o loiro, puxou o edredom de cima dele. Tão grande foi a surpresa do alfa quando viu o corpo nu do homem, com uma perna flexionada e a outra estendida, o que fazia a curva de sua bunda ficar ainda mais acentuada. Ele era todo alvo, com poucos pelos sobre as coxas e quase nenhum nas bandas da bunda.

Jared ruborizou, o que raramente acontecia, e se virou de costas para o mais velho.

— Jensen, acorda porra! – Ele gritou e finalmente o loiro soltou um grunhido, se mexendo rápido em cima da cama e procurando algo para se cobrir.

— Que porra você tá fazendo, seu tarado! Sai do meu quarto! – Jensen esbravejou e o moreno se virou novamente para ele, irritado com a rispidez do loiro.

— Eu vim te acordar para tomar café. Está na hora de levantar.

— Eu não quero tomar café, sai daqui! – Jensen disse mais uma vez, sentindo suas bochechas queimarem.

— Eu não vou sair porra nenhuma. Eu disse que vim até aqui para te acordar e descer tomar café e é exatamente isso que vai fazer. Vai se trocar agora mesmo. – Jared rosnou e fechou os punhos.

Jensen bufou e sentiu uma raiva insana se apossar dele. Quem aquele cara pensava que era para mandar nos seus horários de comer?

— Ou o que? Mais ameaças vazias? – Jensen disse e riu debochado, lembrando da ameaça feita por Jared na noite anterior que não tinha dado em nada.

O alfa bufou, as narinas dilatadas de ódio e os olhos num tom mais escuro e profundo.

— Tudo bem, se não quer comer e nem levantar, pode fazer isso durante o dia todo. Bom jejum, Sr. Ackles.

Jared disse e então saiu para fora do quarto pisando duro e batendo a porta com força às suas costas, sem se esquecer de tranca-la.

Jensen mordeu o lábio e soltou a respiração lentamente, percebendo que tinha passado dos limites e então batendo sua cabeça na cabeceira da cama.

O alfa desceu as escadas e voltou a cozinha, transtornado e irritado.

— Pode tirar a mesa, Sam. Ele não vai mais comer. Eu devia ter ficado na minha decisão desde o começo, eu realmente não sou como o meu pai, mas existem algumas pessoas especificas como esse ômega que precisam aprender com a dor.

Sam ficou confusa com a forma como Jared, o alfa estava animado quando subiu as escadas. A relação daqueles dois seria pior do que ela havia imaginado.

Depois de Jared dizer aquilo, saiu pela porta sem dar chance da beta perguntar o que havia acontecido para deixa-lo tão bravo.

O dia passou devagar para Jensen trancado dentro do quarto, a fome aumentava cada vez mais e ele ficava com mais raiva ainda do alfa e sua arrogância. O loiro até poderia ter sido um pouco mais flexível durante a manhã, pois o lobo negro realmente parecia disposto a começar uma relação educada com ele, mas ficou com tanta vergonha do outro estar observando-o enquanto dormia pelado, que gritou tudo que veio a sua cabeça.

O loiro não fazia ideia se o alfa do pack Shawnee apreciava se deitar com homens e a possibilidade de ter que fazer isso sempre que ele quisesse, depois que fosse marcado, deixava Jensen morrendo de medo. O sexo seria uma tortura para ele, Jensen tinha certeza, por mais que seu corpo fosse propicio para ser feito de passivo. A única vez que a experiência quem sabe pudesse ser menos traumática seria durante o cio, pois naquela época seu corpo precisava se um alfa. Ou quase isso.

Jared mal teve tempo para se preocupar com seu stress trancado dentro do quarto, pois o dia fora corrido sendo consultado sobre as áreas que deveriam ser vigiadas com mais empenho a partir de agora, além das ocupações diárias tradicionais. A paz fora estabelecida somente com o pack mais próximo, porém o alfa gostava de deixar seu território bem vigiado e protegido. Ainda haviam os lobos do sul e os coiotes ao sudoeste. Por mais que eles não representassem perigo algum, Jared não gostava de ficar a própria sorte. Seu pai tinha cometido esse erro no passado, ele não repetiria.

Mais tarde, quando o lanche da tarde fora servido na mesa somente para o alfa, Chad e mais alguns membros do concelho interno – que circulavam pela casa livremente durante o dia –, Jared lembrou-se de Jensen e do fato dele não ter comido nada desde que acordou.

No quarto, Jensen estava com a televisão ligada, mudando de canal em canal para tentar se distrair com alguma coisa e esquecer da fome, ele ouviu batidas na sua porta e então o barulho da chave na fechadura. Imediatamente o ômega fechou a cara e já preparou suas respostas ácidas para Jared, que com certeza entraria ali.

Mas, para a surpresa do loiro, quem entrou no quarto não foi o alfa, e sim a mulher que cuidava da cozinha. Jared tinha apresentado ela na noite anterior pelo nome Samantha Ferris, dizendo que a sua comida era a melhor que existia. A mulher carregava uma bandeja com uma jarra de suco e três sanduíches em cima de um prato e naquele momento Jensen pensou que nunca vira sanduíches mais bonitos e apetitosos.

— Jared disse para mim não trazer comida para você, mas eu sei que está com fome, então desobedeci ele e peguei a chave escondida. – A mulher se justificou e Jensen sorriu, se levantando da cama pegando a bandeja das mãos dela.

— Muito obrigado, eu... eu nem sei como agradecer... estou morrendo de fome! Aquele desgraçado do seu alfa me deixou trancado aqui só porque eu subi pro meu quarto mais cedo do que os convidados. – Jensen olhou para os sanduíches e sua barriga roncou.

— Só não deixe ele saber disso. – A beta completou, mas seus pensamentos a traíram. Se você soubesse que na verdade foi Jared que me mandou trazer essa comida porque se sentiu culpado por te deixar sem comer o dia inteiro, mas não queria dar o braço a torcer vindo ele mesmo, tenho certeza que mudaria seu conceito a respeito dele.

Jensen sentiu seu sangue esquentar e por pouco não mandou a mulher levar a comida de volta. Aquilo só podia ser algum plano do alfa. É!, com certeza era um plano arquitetado por ele. O ômega só não sabia o que Jared queria com aquilo.

Agradeceu Sam mais uma vez e então ela saiu, voltando a trancar a porta. Jensen sentou na cama com a bandeja de comida e não pensou duas vezes antes de servir um copo com o suco e enfiar metade de um sanduíche na boca.

Enquanto mastigava, ele pensava que talvez aquele alfa não fosse tão filho da mãe quanto sua primeira impressão havia passado. Quem sabe se o ômega fosse mais aberto para receber algum tipo de contato com o moreno eles não pudessem se dar bem.

Jensen estava decidido que o faria, seria menos arredio com Jared, porém não sabia se conseguiria manter seu objetivo depois que seu cio chegasse e ele fosse praticamente estuprado na frente de toda a alcateia.

O próximo cio viria dali a duas semanas. Durante aquele tempo quem sabe eles dois pudessem ter uma convivência melhor. Jensen pensou e sorriu com isso.

Continua...