ii. Lembranças

"O tempo não comprou passagem de volta. Tenho lembranças e não saudades ²".

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Bellatrix faria o caminho de volta até Hogwarts através de um longo e tortuoso túnel que se iniciava sob um alçapão localizado no porão do prostíbulo, provavelmente escavado durante a Rebelião dos Duendes de 1612 quando aquela construção, a exemplo de outras inúmeras existentes em Hogsmeade, serviria como adendo do quartel-general dos bruxos e não como sede do pecado e do prazer.

Ela levava a varinha um pouco acima da cabeça, com sua extremidade incandescente a iluminar-lhe o caminho, mas sua mente estava entrevada e seus pensamentos eram obscuros. Apesar da noite extremamente agradável que passara, Bellatrix mantinha-se apreensiva com o desfecho do provável encontro entre seus pais e Rosmerta. Seu interesse era principalmente sobre até onde eles seriam capazes de chegar para proteger o bom nome dos Black.

Sua curiosidade a levava a imaginar o imponente Cygnus Black tratando, com "uma vadia qualquer" – como ele próprio denominara a amante da filha no dia de Natal, quando Bellatrix revelara a relação pecaminosa entre as duas –, qual a melhor maneira de extirpar aquele câncer, antes que tal acontecimento chegasse aos ouvidos dos mais nobres integrantes da sociedade bruxa.

Aquele retorno ao ocorrido em um passado recente a levou um pouco além, fazendo-a se recordar das primeiras vezes em que começara a prestar atenção em Rosmerta, pouco menos de seis meses atrás. As aulas haviam recomeçado há pouco e, como naquele ano também o verão se apresentara mais forte e intenso que o habitual, os passeios nos finais de semana para Hogsmeade haviam se multiplicado, com os jovens se mostrando ávidos pelas visitas às sorveterias e casas que serviam bebidas geladas.

Desde o ano anterior, sempre que fora ao vilarejo, Bellatrix percebera o movimento dos rapazes mais velhos em direção à antiga casa de madeira ao largo da Vila. Rodolfo e Rabastan, os famosos e desejados irmãos Lestrange, eram figuras constantes entre os freqüentadores da Casa.

Apesar de localizar-se mais afastada do centro e do comércio local, pequenos grupos de alunas curiosas se enveredavam pela estradinha de terra batida que levava até o lugar a fim de poderem dar uma olhada nas "mulheres da vida". Por várias vezes, após uma tocaia que poderia durar horas, elas eram brindadas por um ou outro rapaz que saía da Casa sendo acompanhado até a porta por uma das mulheres: os irmãos Lestrange, cada um à sua vez, sempre eram acompanhados pela bela loura Rosmerta.

Muitos dos alunos de Hogwarts a apontavam com asco e deboche como "a prostituta", apesar de haverem várias outras como ela na Casa e nem sequer serem lembradas. Talvez o fato de ela ser a mais bela entre todas, além de também se mostrar a mais jovem, a tornasse o centro das atenções daqueles que desejavam escolher um símbolo e nele descontar toda a aversão por representar a escolha pela "vida fácil".

Mas, Rosmerta também era a preferida da maioria dos clientes da Casa, pelo menos daqueles que podiam pagar por seus serviços, uma vez que, justamente por sua fama e qualidades singulares, ela era a acompanhante de maior preço entre as suas colegas de profissão, e muitos diziam que a Casa só conseguia se manter ainda em atividade pela sua presença.

Ela era uma jovem bonita, perto de seus vinte anos, corpo de medidas quase perfeitas, cabelos louros encaracolados e profundos olhos de um azul intenso. Mas, sua postura é o que mais chamava a atenção entre as demais, e a destacava. Seus modos refinados, o caminhar sensual, o olhar provocante e uma altivez que beirava à nobreza. Muitas das garotas que espreitavam as breves aparições das raparigas se detinham com um interesse bem maior quando era Rosmerta a desfilar à sua frente. E, quando se encontravam longe dali flertando com os rapazes mais velhos e experientes, a maioria delas se via imitando os gestos e poses da vadia.

Bellatrix cuspia ao chão à sua visão. Achava o fato de uma bruxa depender de seu corpo para sobreviver, além de uma atitude indigna e torpe, um desperdício e desrespeito com os poderes que lhe foram auferidos. Mas, a exemplo das demais alunas, ela tinha que admitir que Rosmerta lhe chamava a atenção em especial, ela não era igual às demais mulheres que serviam na Casa, e não era apenas por seus dotes já explanados: sua altivez levava a garota a compará-la com as mais tradicionais damas da alta sociedade bruxa, e seu porte não devia em nada a uma legitima portadora do sangue dos Black.

Certa noite, após uma das primeiras visitas realizadas a Hogsmeade naquele ano letivo, a troca de palavras entre duas alunas no Salão Comunal da Sonserina, que haviam ido até as cercanias da Casa de Má-Fama para espiarem as prostitutas, chamou-lhe a atenção:

"Não vejo o porquê da maioria dos rapazes escolherem esta loura vadia!" – disse uma garota que cursava o mesmo ano que Bellatrix, visivelmente desdenhando de uma preferência que obviamente era desejosa em possuir.

"Está brincando?" – respondeu-lhe outra, um ano mais velha. – "Até eu gostaria de estar com Rosmerta... se tivesse a oportunidade!" – A expressão no rosto da jovem demonstrava uma corajosa sinceridade, apesar do assombro gerado ao seu redor.

"Jura?" – rebateu a primeira com ar de nojo. – "Teria mesmo coragem de ficar com outra mulher?" – E insinuou afastar-se da colega, como se essa apresentasse uma doença purulenta eclodindo em sua pele.

"Não te digo que teria coragem" – continuou a outra, como se flutuasse em seus pensamentos –, "mas, se o fizesse, com certeza desejaria que fosse com ela!".

Aquelas palavras calaram forte no íntimo de Bellatrix: ela nunca pensara nas coisas daquela forma e, sem sequer perceber, imaginou como seria ser tocada por outra mulher... Como seria ser tocada por Rosmerta...

O teto girou ao seu redor, o som das vozes das garotas distanciou-se até tornar-se um mero zumbido, seus pés pareceram levitar no ar por um instante e, quando ela deu por si, estava sendo erguida do soalho por inúmeras mãos que a instalaram em uma das poltronas do salão. Apesar da insistência de que ela se apresentasse na enfermaria, principalmente por parte de suas duas irmãs mais jovens, ela recusou-se e preferiu apenas recolher-se mais cedo aos seus aposentos.

Aquela inexplicável vertigem que sentira, aliada à sua curiosidade natural, a levaram a pesquisar aqui e ali, sem muito êxito, sobre a origem e o passado da notável prostituta que, por ser tão jovem, não deveria estar a muito tempo "na vida". Certo dia, quando já estava quase desistindo de descobrir alguma coisa sobre a mulher, havia terminado sua refeição e, na saída do Salão Principal, o fragmento da frase de uma aluna do sétimo ano da Lufa-Lufa, ouvida ao acaso, lhe chamou a atenção:

"... você não quer terminar como a Rosmerta, não é mesmo?" – dizia a uma colega sua, artilheira da equipe de quadribol da Lufa-Lufa, assim como ela.

A frase perdida chamou-lhe a atenção: ela havia sido dita com propriedade, como se aquela jovem realmente soubesse alguma coisa a respeito da cortesã. Possuída pelo interesse e curiosidade e vislumbrando conseguir a informação almejada, Bellatrix passou a inventar maneiras de se aproximar da lufana e, sem demonstrar grande interesse, colher a maior quantidade possível de dados. É claro que os sonserinos sempre tiveram a fama de não se misturarem com os alunos das demais Casas, e isso dificultou a sua proximidade.

Finalmente, após simular uma casualidade ao se encontrarem na saída de um dos treinos do time de quadribol da Lufa-Lufa em que ela "impediu" que outras colegas da Sonserina azarassem a garota, pois se encontravam às vésperas de uma partida entre as duas Casas, ela conseguiu convencer a outra que suas intenções não eram escusas e, após abordarem o tema da prostituição, pois fora assim que as duas trataram as idealizadoras da pequena emboscada, obteve um relato valioso e completo da sétima-anista:

"Rosmerta era aluna da Lufa-Lufa... Ela estava alguns anos à minha frente e me lembro bem dela porque sempre foi muito bonita, muito mais do que é agora, que a 'vida' a está consumindo" – contou-lhe.

"Ela... estudava em Hogwarts?" – Bellatrix estava boquiaberta. – "Então, ela se formou e foi trabalhar num prostíbulo?".

"Não..." – Corrigiu-lhe a outra. – "Ela não chegou a se formar. No dia seguinte em que completou dezessete anos, ela simplesmente abandonou a escola".

"Hein? Abandonou Hogwarts? Você quer dizer que... Foi expulsa, ou algo assim?" – Ela não conseguia compreender.

"Não! Ela apenas e tão somente deixou a escola... E apenas com as roupas do corpo. Não levou nada mais do que lhe foi comprado pela sua família... E tem pessoas que dizem que, assim que ela foi aceita no prostíbulo, queimou as suas vestes".

"Então o problema era com a família dela?" – Sem saber explicar a si mesmo o porquê, aquele fato causou em Bellatrix uma simpatia repentina pela ex-companheira de Hogwarts.

"Exato! Não sei bem qual foi o problema... Uns dizem que foi devido a um casamento arranjado pela família, que ela recusava... Outros, que a mãe tivera um relacionamento extraconjugal onde ela teria sido concebida, e o caso havia vindo à tona... O fato é que ela odiava a família e a família a odiava".

"Entendo..." – Aquela situação mexia confusamente com os sentimentos da jovem Black, sem ela atinar o real motivo: alguns fatos lhe pareciam estranhamente peculiares.

"O que se sabe é que nenhum dos seus pais foi atrás dela... O próprio Dumbledore esteve diversas vezes na Casa para tentar convencê-la a voltar atrás... Mas, de nada adiantou". - A garota fitou seu rosto por alguns instantes, tentando imaginar se haveria algum interesse oculto por trás das perguntas de Bellatrix, mas não percebendo nada incomum, concluiu: – "Não perca seu tempo com ela: não passa de uma vadia suja e vulgar".

Bellatrix recuou ante aquela observação da aluna da Lufa-Lufa, seu semblante tornou-se uma máscara indecifrável, não se podendo especificar se sua reação havia sido de concordância ou indignação. Ela apenas afastou-se da outra ruminando as recentes informações adquiridas.

"Me procure para que possamos conversar novamente: creio que poderemos ser boas amigas!". – Ainda ouviu a jovem dizer, mas lhe pareceu que sua voz soava muito distante.

Infelizmente, aquelas foram as únicas informações que a artilheira da Lufa-Lufa pôde revelar à sua recente "amiga" da Sonserina: dois dias depois um inexplicável acidente a vitimou durante o jogo de quadribol entre as duas Casas. A única certeza era de que ela quebrara o pescoço após uma repentina queda de sua vassoura, os medibruxos que a examinaram, porém, constataram que ela já estaria morta ao atingir o solo, vítima de uma asfixia fulminante: todos concluíram que ela havia se engasgado.

Após aquele dia, alguns fatos – aparentemente sem nenhuma relação direta, mas que acabaram por culminar num desenlace específico – se sucederam numa velocidade impressionante. Retornando de uma visita à casa de seus pais num final de semana, Bellatrix sentia-se extremamente angustiada e aflita, chegando quase ao desespero sem mesmo saber o porquê: talvez, por um acordo recente entre seus pais e a família Lestrange que deveria ser selado com o casamento de sua filha mais velha com um dos dois cobiçados irmãos, talvez, por algum outro fato menos relevante que acabara sendo bloqueado por sua mente. O importante era que o seu estado era da mais total desesperança.

Ela correra no meio da noite para os jardins da escola, chorando e puxando os próprios cabelos, quando percebeu um rapaz saindo do meio de um bambuzal viçoso que havia a meio caminho da orla da Floresta Proibida. Aquilo a intrigou e a fez recuperar momentaneamente a razão e, após certificar-se que o aluno havia adentrado ao castelo, ela explorou o local e encontrou a passagem que levava até o prostíbulo.

Ao chegar ao porão, que atualmente lhe era tão familiar, ela voltou a sentir a tristeza e a amargura deixadas de lado durante aqueles momentos de curiosidade, e voltou a chorar copiosamente. Seus soluços e lamentos foram ouvidos pelas prostitutas da Casa, que a descobriram e a queriam expulsar a todo custo. Mas, Rosmerta a recolheu ao seu quarto, a ouviu e a amparou. A empatia foi instantânea e, após duas ou três visitas que Bellatrix lhe fizera nas noites que se seguiram, ela já era aceita nos braços e nos lençóis da cortesã, conhecendo seus dotes e habilidades e entregando-lhe seus anseios, seu corpo e o seu coração.

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Voltando ao presente, seus pensamentos lhe arrancaram um breve sorriso, enquanto seguia pelo corredor estreito e tortuoso. Aquelas lembranças pareciam ter ocorrido a tanto tempo! Parecia que o convívio entre as duas sempre existira e, quando verificava o curto período de sua cumplicidade, sentia-se como se sua vida antes de conhecê-la tivesse sido um mero lapso de tempo passado despercebido na linha da vida.

Ela não se sentia como os seus pais e tradicionais integrantes da família Black no que se referia àquela relação não natural – que ela talvez tivesse levado adiante, logo no início, justamente para contrariá-los – mas, que acabara por seduzi-la e conquistá-la. Ao contrario deles ela dava valor ao amor, à segurança de poder contar com o abraço amigo e amante de uma cúmplice de seus pecados.

Não! Ela não era igual aos seus pais! E lhes atirara isso no rosto recentemente. Ela poderia perdoar Rosmerta de todos os seus pecados mundanos e juntas viverem uma vida florida e perfumada, com muita luz e uma brisa suave soprando seus cabelos, sentindo as cores e os aromas da estação do amor a lhes embalar. Para as duas, seria sempre primavera.

Ela se recordava, apesar de confusa e vagamente, das confissões e desabafos que Rosmerta lhe fizera e dos motivos explicados por ela ter abandonado Hogwarts e se entregado àquela vida desprezível: seu pai abusava de seu corpo desde tenra idade e, mesmo ela tendo ido para Hogwarts, o assédio continuara quando ela retornava para casa. Ele lhe dava poções, que a confundiam e prejudicavam sua mente, para que ela não contasse suas investidas a ninguém. E pior, ela acreditava que sua mãe tinha conhecimento do que acontecia, e fechava os olhos à sua sorte para que o nome da família não fosse atirado na lama. Ela também tinha culpa! Sua mãe sabia e se calava! Ela também deveria pagar por aquela tortura... Os dois deveriam pagar. E ela os castigaria... E assim salvaria suas irmãzinhas do mesmo destino.

A luz que vinha da saída do túnel ofuscou seus olhos e a fez voltar à realidade. Bellatrix balançou a cabeça ao perceber o pequeno trote que sua mente havia lhe aplicado: Rosmerta não tinha irmãs. Era em suas próprias irmãs, Andy e Cissa, que ela estava pensando. Seus pensamentos a confundiram... Talvez, por suas irmãs e sua amante serem a pessoas mais importantes da sua vida. Ela não deixaria que nenhum mal lhes acontecesse. Aquilo poderia parecer uma loucura... Mas, a loucura fazia e sempre fizera parte dela.

Uma ratazana acompanhou seu movimento, avançando paralelamente ao longo do túnel com passos rápidos e miúdos, com o corpo longo curvado na altura das costas. Ao perceber que seus caminhos se cruzariam na saída do túnel, ela se apoiou sobre as patas traseiras e soltou um breve grunhido, tentando intimidar aquela que invadia os seus domínios.

Bellatrix ergueu seus olhos e mirou a aparência arrogante do animal: os olhos miúdos e cheios de maldade definindo seu território, os longos bigodes farejando o ar e contorcendo-se de asco pela presença que ousava desafiar sua autoridade. O roedor lembrou-lhe a orgulhosa empáfia dos Black, mais especificamente a expressão fuinha de seu pai, em seu pedestal intocado, aguardando que suas vontades fossem satisfeitas a um simples olhar seu.

A jovem esticou o braço agilmente, empunhando sua varinha, e murmurou um feitiço ao chegar no ponto de encontro com o roedor, seguindo em frente sem dar-lhe maior atenção. O animal soltou um curto guincho, que agora era de terror e, após seu corpo tremer brevemente, tombou com um baque quase inaudível. Estava morto: havia sido letalmente asfixiado.

A jovem bruxa subiu os degraus toscos e barrancosos que a levariam de volta aos jardins da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, antes que seus alunos e funcionários despertassem.

Não! A vida era boa como estava e ela se sentia feliz ao lado da amante – nada iria impedir sua felicidade.

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²Mário Lago