Flores da Liberdade


Capítulo II

— Maldição... – Praguejou.

Seu corpo doía por completo. A queda a deixara desnorteada. Não sabia o que a puxou ou empurrou para dentro daquele poço, o que ela sabia é que havia atingido o solo, apesar de um segundo antes de ser atirada pensou ter visto um céu nublado refletido em seu interior.

— Talvez eu tenha visto o reflexo de uma nascente – Se corrigiu em voz alta, o que fazia sentido, afinal de contas aquilo era um poço e pela umidade em sua roupa, estava sentada em uma pequena poça de água.

Fazendo um esforço maior do que o recomendado, Hannah se pôs em pé e olhou para cima, piscando os olhos diversas vezes para confirmar que não estava vendo coisas.

Sobre a sua cabeça nuvens de tempestade passavam com grande velocidade, empurradas por uma forte ventania.

— O que é isso...? – Murmurou com o coração batendo nos ouvidos.

O poço do Templo Higurashi ficava dentro de uma casinha... Uma casinha com telhado vale ressaltar. Mesmo que houvesse furos no mesmo, teria percebido um buraco daquele tamanho que via agora. E o céu não estava nublado, ressaltou.

— Que lugar é este? – Questionou, ajeitando a blusa e a calça jeans que vestia e que agora estavam cobertos por lama na parte de trás – Como eu faço para sair daqui?

Em sua busca de um meio de se retirar do poço, não encontrou nenhuma escada ou corda para ajudá-la. Havia apenas pedras irregulares que podia utilizar como suporte. Vendo que esta era a sua única alternativa, já que não havia ninguém no templo para lhe dar auxilio, começou o longo e duro processo da escalada. Um pé de cada vez, uma mão em cada pedra, passou o mantra mentalmente, tentando não olhar para baixo, tendo em sua vista o seu objetivo que era o céu lá fora.

— Só mais um pouco... – Se encorajou em voz alta.

As aulas de balé valeram a pena. Ela conseguia fazer o seu pé se encaixar com precisão nas pedras irregulares. Ou pelo menos conseguiu até a metade do caminho, quando pisou de mau jeito e perdeu um pé da sapatilha. Hannah sentiu o suor frio escorrer pela testa e sem desanimar, voltou a escalar, dessa vez prestando mais atenção no que estava fazendo. Ao finalmente chegar à superfície, sentou-se no beiral do poço e olhou para baixo, sentindo-se desencorajada a resgatar o seu sapato que lá ficara. Em um ato de rebeldia, jogou o outro pé para se unir com o par.

— Esse maldito sapato quase custou a minha vida! – Resmungou, massageando o queixo que esfolara ao escorregar. Em seus braços havia pequenos arranhões adquiridos entre o tombo e a escalada, mas que por ora não a incomodava.

A jovem precisava se limpar. Detestava usar roupas sujas e ainda estar com o corpo coberto por lama e água. Mais do que nunca um banho lhe viria bem agora e por sua sorte, a casa de sua família não estava tão longe dali.

Foi ao levantar a visão do interior do poço que ela percebeu que a sua nova casa poderia estar mais longe do que imaginara. Ao seu redor havia um campo aberto com uma densa vegetação nos arredores. Aquele não era o poço da casinha em que ela entrara.

— Mas que merda de lugar é esse!? – Aos poucos o seu humor ia piorando e pra contemplá-lo, o céu lançou sobre ela uma garoa gelada – Era só o que me faltava... – Praguejou, pisando com os pés descalços na grama orvalhada.

Hannah ouvira falar que diversos túneis foram construídos e espalhados pelo Japão durante centenas de anos atrás. Talvez ela tivesse passado por um, porém não sabia exatamente onde ele a levara. Se esse fosse o caso, eu teria visto uma passagem de onde eu vim, debateu internamente com os seus pensamentos.

Ela queria voltar para casa mais do que tudo naquele momento. Se não fosse tão durona, como gostava de pensar que era, teria se rendido as lágrimas. Enchendo o peito de determinação, respirou fundo em busca de uma solução para o seu problema atual. Foi neste meio tempo que ouviu um gongo soar ao longe e virou a cabeça para aquela direção.

Talvez eu tenha saído em um parque florestal e o templo não fique tão longe assim!, exclamou em seu íntimo. E mesmo que não seja o templo que tenha emitido este som, deve ter alguém aqui perto que possa me ajudar! Com o peito cheio de esperanças, abandonou a localização do poço, prestando atenção no caminho que traçava até onde vinha a fonte do barulho.

A caminhada foi mais longa do que pensara que seria, principalmente com a chuva engrossando a cada minuto. No percurso não ouvira nenhum barulho de carro ou de bicicleta, nem mesmo vira vivalma caminhando por ali, o que a deixou um tanto quanto aflita, porém sabia que encontraria pessoas ao ter se deparado com uma trilha no meio das árvores. No final desta trilha, irei encontrar um bairro, este pensamento deu coragem ao seu espírito.

O que Hannah encontrou, em contrapartida, não foi um bairro propriamente dito e sim o que parecia ser um vilarejo bem rudimentar, com casas de madeira espalhadas aqui e acolá, com diversas plantações nas áreas verdes. Ela reconheceu plantações de arroz, de nabo e de trigo, e outras um tanto menores que deveriam ser de ervas.

Cortando o vilarejo, havia um rio e uma ponte que ligava os dois lados. Hannah a teria atravessado se o gongo não tivesse soado novamente do lado em que ela já estava caminhando. O barulho vinha do que parecia ser um tempo no topo de uma baixa colina com uma escadaria feita de pedra como acesso a construção principal.

A moça mordeu o lábio inferior ao ver o que a esperava. As solas de seus pés estavam doloridas e aquelas pedras irregulares úmidas pela chuva a machucavam ainda mais. Mesmo assim, ela não desistiu. Era melhor se arriscar a se machucar do que bater em casa por casa com aquela aparência de sem-teto que estava.

Como imaginara, o templo tinha uma aparência antiga, semelhante daqueles desenhos em nanquim que retratavam o Japão Feudal. Um pouco de História, hm?, zombou da situação. Com passos vacilantes, adentrou a construção.

Aproximadamente sessenta pessoas estavam aglomeradas no local para prestigiar o que parecia ser um casamento. Na região central, encontrava-se um rapaz com idade próxima a de seu primo Souta usando um quimono elegante e uma moça com uma típica vestimenta tradicional de casamento japonês, com o rosto coberto por um véu. Adiante deste casal havia uma senhora de idade avançada usando roupas de sacerdotisa de séculos passados.

Isso é a filmagem de um filme?, perguntou a si mesma, não ousando elevar a voz e estragar a encenação. Estragar mais a encenação, isso sim, pois quando ela se tornou visível no meio daquelas pessoas, o noivo virou o rosto em sua direção.

— Kagura? – O jovem que em breve estaria se casado chamou.

Hannah abriu um largo sorriso no rosto. Isso vai ser interessante, comentou e virou-se para trás, procurando quem ele havia chamado, mas além de si não havia mais ninguém naquela direção.

— Kagura, é você? – O rapaz tornou a perguntar.

Os lábios da moça se entreabriram. Ela realmente tinha estragado aquela filmagem. Aquele estranho pensava que ela era uma atriz contratada para interpretar esta tal Kagura que possivelmente no roteiro deveria impedir aquele casamento.

— Eu? – Hannah questionou, apontando para si mesma – Eu não faço parte disso... – O informou, dando passos para o lado a fim de se juntar aos figurantes.

— Kagura? – Agora foi a vez da noiva se manifestar. A jovem que estava se casando até removera o véu de seu campo de visão para ter uma visão melhor da intrusa.

Junto ao coro do casal de pombinhos, mais quatro vozes ecoaram o nome daquela mulher que Hannah desconhecia.

— É a Kagura! Como isso é possível? Que roupas estranhas são aquelas? Olha, Kagome! Ela não é da sua época?

Tinha tantas pessoas falando ao mesmo tempo e Hannah ainda estava lidando com o seu constrangimento ao ouvir o nome da prima que ela acabara de ocupar o quarto.

— Kagome...? Kagome Higurashi? – Chamou pela mulher para confirmar a sua suposição.

Próximo ao que parecia ser o altar, uma mulher na metade dos vinte anos trajando roupas sacerdotais como a da senhora que realizava a cerimônia olhava fixamente para ela com os lábios levemente separados em espanto. É a Kagome!, Hanna reconheceu pela foto que havia em seu novo quarto. A jovem da foto e a mulher que ela via agora tinha alguns anos de diferença, mas os traços eram os mesmos.

— Kagura, é você mesma? – Sua prima a questionara e dessa vez ela sabia que estavam realmente se referindo a ela. Se aquela era uma filmagem, então todos os atores estavam agindo de modo muito peculiar. Pelo menos algum deles deveria saber que ela não era esta tal de Kagura. Algum produtor deveria ter aparecido a esta altura e lhe dito que estava dizendo as falas erradas ou então pedir para que ela se retirasse do set.

Hannah havia aberto a boca e começado a falar que não era esta tal de Kagura quando uma mão pesada pousou em seu ombro.

— Mestra dos Ventos..? – Uma voz máscula suave como seda e poderosa como trovão soou em seu ouvido, vindo do dono daquela mão.

Hannah inclinou a cabeça levemente para direita a modo de ver que estava se dirigindo à ela e sua visão foi comtemplada por um homem quase duas cabeças mais alto do que ela, com longos cabelos prateados, profundos olhos dourados e uns símbolos estranhos no rosto.

Diante daquela visão Hannah sentiu-se tonta e pela primeira vez na vida, foi golpeada pela escuridão de um desmaio.