CAPÍTULO 2

Os primeiros flashes

Fachada da Dedosdemel. Estátua em formato de casquinha de chocolate. Grupo de amigas reunido em círculo. Uma delas ri de modo estridente. Beco. Cão deitado na sarjeta. Janela iluminada. Vitrine com palhaços que saltam de cubos coloridos. Zonko´s – Logros e Brincadeiras. Conhece aquelas lojas. Os postes em estilo antigo dispostos a intervalos.

Está na Rua Principal de Hogsmeade.

Senso de urgência. Palpitações que vibram nas têmporas. Suor nas mãos. Cabelo ruivo flamejando sob o sol da tarde. Alguns passos à sua frente. Correndo.

-Rony, me espera!

Seus lábios verbalizaram esse desejo sem que ela pedisse. Simplesmente se abriram. Ali não há escolha...

Clarão estupendo, ofuscante. Raio de luz intensa num crescendo veloz, como um farol diminuto que se amplia até abarcar toda a visão e banhar o universo inteiro em luz.

Flash.

Agora ela está naquela sala. Ambiente que ressurgiu em pesadelo.

A sala do crime.

Ela tem que certeza de que é o mesmo local porque está passando pela tapeçaria do cavalo alado, o animal-símbolo da Casa Withers. A Casa Veterana. A quinta casa de Hogwarts.

Passa por uma porta ao lado e encontra-se diante de um longo túnel. Percorre-o. Está irritada. Chega ao fim daquele curioso corredor externo e empurra outra porta.

Dormitório.

Há um casal ali. Ela entra em choque ao deparar-se com a Encalhada com um parceiro improvável. Lanísia. Lanísia está sentada no colo de um jovem moreno. Mathias Berger, o veterano latino. Ele aperta as coxas dela, que se insinuam pela abertura da saia. Pura audácia... no gesto e na roupa.

Uma alça do vestido cai do ombro. O sutiã branco da garota está coberto por sangue. Mathias aperta com gosto a carne da perna de Lanísia, deixando impressas ali as marcas dos seus dedos. Lanísia a tudo permite, enquanto envolve a nuca dele, retribuindo os apertões com puxões no cabelo curto e escuro do rapaz. Inclina-se para beijá-lo. Insinuante, recua no último segundo. Mathias é rápido e aplica-lhe uma mordidinha no lábio, puxando-o com os dentes muito brancos e alinhados. Lanísia deleita-se com aquilo.

Hermione sente um rubor aquecer sua face, e não tem ideia se é fruto da vergonha de presenciar aquele momento ou se foi atingida pelo calor ardente que emana do casal. Vira o rosto. E então nota a presença de uma quarta pessoa no aposento.

A namorada de Mathias está ali.

Aquilo não faz sentido... A loura contempla a traição escandalosa com um olhar contrafeito, mas não parece revoltada. Está submissa.

Mione também não sabe como reagir, mas pensa que saberia muito bem caso fosse ela, ali, olhando para o próprio namorado em um momento tão fogoso com outra mulher. Certamente não ficaria parada e tão conformada quanto Daphne Marshall...

Novo flash. Mais um. Luzes que piscam numa sequência alucinante, revolteando, piruetando, aumentando e diminuindo...

Ela nada pode fazer para evitar, mas seu estômago protesta. Suas entranhas reviram enquanto as luzes continuam a piscar e há flash, flash, flash...


...flash da lâmpada piscando, é apenas a lâmpada oscilante do lampião no banheiro de Serena que agora diz próxima ao seu ouvido:

-Meninas, ela está acordando!

Sua bochecha está gelada e Hermione se dá conta de que, pela segunda vez em dois dias, acorda de cara no chão. A lembrança a aterroriza, mas quando se ergue vê que não há nenhum corpo caído no centro do aposento. Ao menos não daquela vez...

-O que aconteceu comigo? – pergunta, apoiando-se na pia do banheiro do quarto de Serena.

-Você caiu no chão, seus olhos reviraram nas órbitas, de repente começou a tremer toda e a babar – explicou Joyce.

-Achei que estava tendo um orgasmo – comentou Serena.

-Na verdade, as Encalhadas que não gozam como cachorros com raiva pensaram que você estava convulsionando – disse Alone.

-Que coisa estranha... – Hermione olhou para o rosto no espelho; estava pálida, com o rosto recoberto de suor frio. Abriu a torneira, lavou a face na água corrente e, secando o rosto numa toalhinha, voltou para o dormitório da amiga, as atenções das outras quatro Encalhadas concentradas em cada um de seus movimentos. – Relaxem, não vou cair outra vez! – Mione foi até uma das janelas do aposento e sentou-se no parapeito, cruzando os braços em torno das pernas nuas, reveladas por baixo da camisola curta. Ela olhou para a lua, que brilhava cheia no céu noturno. – Meu Deus, que loucura... Isso nunca me aconteceu antes.

-Estamos na época dos eventos sinistros – disse Lanísia, sentando-se sobre uma das almofadas espalhadas no tapete e erguendo à vista da amiga a edição do Profeta Diário. A matéria de capa, lida e relida inúmeras vezes por elas, anunciava:

INSPETORA DE HOGWARTS BRUTALMENTE ASSASSINADA

Testemunhas não recordam acontecimentos ocorridos antes do crime; Axel Carver e Jennifer Star estão entre os "desmemoriados"; troféu da cantora foi usado para perfurar coração da vítima

O título era acompanhado por uma foto do corpo de Rebecca transpassado pela haste do troféu em formato de estrela.

-Todas as fotos do Profeta não ficam em movimento? – perguntou Serena, chupando o dedo que metera no potinho cheio de brigadeiro. – Nunca vi uma imagem tão parada.

-Rebecca está morta, imbecil, o que você queria? – indagou Alone. – Que ela levantasse e dançasse a macarena?

-E vocês leram aqui? – perguntou Serena com a voz pastosa. – O local que o troféu perfurou? Você estava enganada, Lanísia, Rebecca tinha sim um coração! Um tanto nojento, mas tinha sim... – ela fez uma expressão de nojo ao examinar os detalhes da foto feita por Ethan Cooper.

Sentada no parapeito, Mione pensava nos flashes... O que ela vira realmente acontecera? Como afirmar quando 4 horas de sua vida eram puro mistério, páginas em branco que podiam ser preenchidas com qualquer tipo de acontecimento? Como seria capaz de afirmar que algo ocorrera, se tudo podia ser apenas um sonho?

Não posso afirmar, mas posso especular..., pensou, olhando para as amigas espalhadas sobre as almofadas:

-Meninas, o que sabem sobre Mathias Berger?

-Mathias... é um dos veteranos, não é? – perguntou Alone.

-O chileno – respondeu Lanísia. – Cabelo preto arrepiado, alto, com ombros largos, sem barba. Aquele que estava com a camiseta apertadinha e as jeans escuras.

-Hum, olha só, Mione guardou o nome do gato – disse Joyce. – Ficou interessada nele?

-Não – respondeu Mione. – Ao menos não tanto quanto a Lanísia que guardou não só o nome, mas também a nacionalidade, a roupa e o porte físico.

Lanísia inquietou-se.

-Foi apenas curiosidade. Ele... não sei explicar... prestei atenção nele porque me parecia familiar, só isso.

Joyce empertigou-se:

-Bom, o que sei é que Mathias veio do Chile para estudar no oitavo ano em Hogwarts. Os conhecimentos adicionais serão importantes para a carreira dele como especialista em Direito em Magia. Em sua breve estadia em Londres conheceu a loura que o acompanhava, a tal... hum... vou conferir aqui na lista...

-Não decorou o nome dela? – perguntou Serena.

-Não guardei nem o nome do gostoso do namorado dela, vou decorar o nome da rasha? – perguntou Joyce. – Eu, hein... Aqui está. Daphne Marshall.

-Lanísia, você... já conhecia o Mathias? – perguntou Mione.

-Amiga, tá certo que com aparatação podemos ir pra qualquer lugar, e de vez em quando eu pinto lá no Japão pra degustar um sushi esperto, e outra vez fui com a Joyce pra verificar se a genitália oriental era de fato reduzida...

-Me enganei e fiquei toda assada – suspirou Joyce. – Não consegui sentar por uma semana.

-...Mas não é por isso que eu tenha rodado todo o globo terrestre, Mione! De qualquer modo, nunca tive motivos para conhecer o Chile.

-Eu também não, mas depois de olhar bem pra bundinha do Mathias, revi meus conceitos – comentou Joyce.

-Então só o achei familiar mesmo, Mione, mas não o conheço... Por que cismou com isso?

-Nada... Esquece.

-Mais esquecida do que todas nós estamos, é impossível – suspirou Lanísia.

Joyce abriu um rolo de pergaminho, examinou as anotações e disse:

-Bom, cada uma aqui já disse onde estava antes do vácuo iniciar. Vejamos: Lanísia estava chegando à casa de Augusto, Alone conversando com Adam na Floreios & Borrões, eu esquentando marshmallows diante da fogueira no acampamento de fãs do Axel, Serena discutindo com Draco e Hermione tentando se esconder de Robbie na Madame Puddifoot... Confere?

Todas confirmaram.

-Também estabelecemos que o vácuo nas memórias começou por volta das 15h...

-Isso, porque eu lembro que estava prestes a sair para almoçar quando conversei com o Adam – disse Alone. – E meu horário de almoço é sempre às 15h.

-Perfeito – assentiu Joyce. – Como despertamos diante do corpo de Rebecca às 19h, temos 4h em branco, período em que podemos ter feito qualquer coisa, mas que, inevitavelmente, nos levou à sala comunal da Casa Withers diante de um cadáver, acompanhadas por figuras bem conhecidas e por futuros alunos da casa veterana.

-Os outros integrantes dos Esdrúxulos também vão para a nova casa? – indagou Serena. – Achei que só o Axel estaria em Hogwarts.

-Ao que parece, eles se candidataram sim – disse Alone. – Na lista das pessoas presentes à sala, Lorenzo não anotou apenas os nomes de todos que estavam por lá, ele também apontou aqueles que farão parte da Casa Withers... Vejam só.

Ela estendeu a lista para a amiga.

No topo havia o desenho de um cavalo alado, animal-símbolo da nova Casa de Hogwarts, e a lista com os nomes:

OS DESMEMORIADOS

Sala comunal da Casa Withers, acessada por um túnel aberto numa encosta vizinha ao castelo de Hogwarts – 19h04:

Adam S. Parker (C. Withers)

Afonso Price – Nêmese (?)

Alone Bernard – Encalhada

Axel Carver (Esdrúxulo – C. Withers)

Bruce Talbot (C. Withers)

Daphne Marshall (C. Withers)

Ethan Cooper (C. Withers)

Franklyn Kyle (Esdrúxulo – C. Withers)

Hermione Granger – Encalhada

Ipcs Raccer – Professor em Hogwarts

Isabella Hastings (C. Withers)

Jennifer Star (C. Withers)

Joyce Meadowes – Encalhada

Lanísia Burns – Encalhada

Lewis Lambert – namorado de Serena Bennet, outra suspeita

Lorenzo Martin – eu!

Marjorie Huggins – Nêmese (?)

Mathias Berger (C. Withers)

Melinda Ward (C. Withers)

Michel Hewitt (Esdrúxulo – C. Withers)

Niah Jones (agente de Jennifer Star)

Ronald Weasley – namorado de Marjorie Crane, que também consta na lista (ex de Hermione)

Serena Bennet – Encalhada

23 Desmemoriados; um cadáver com sinais claros de violência, trazendo ainda um troféu cravado no peito – pertencente à Jennifer Star, vencedora do Prêmio de Artista do Ano horas antes (a cantora também não se recorda da premiação).

Ninguém viu nada, ninguém lembra nada... mas a sala estava trancada por dentro e com a aparatação bloqueada.

O assassino está entre os nomes acima.

Lorenzo Martin

-Ele encaminhou uma cópia dessa carta ao Ministério da Magia para a abertura da investigação, junto com um pedido para ficar encarregado do caso – disse Alone. – No pedido, Lorenzo afirmou que entende que sua presença entre os Desmemoriados pode impedir a investigação imparcial, mas alega que seu contato com os alunos de Hogwarts, uma vez que comanda um bar nas proximidades da escola, pode ser proveitoso no momento de descobrir a verdade.

-Com certeza ele vê e escuta muita coisa servindo bebidas pra um bando de adolescentes – disse Mione.

-Por enquanto ele está investigando por conta própria. É nosso amigo, mas me surpreendi quando forneceu a lista de suspeitos sem titubear... O que importa é que a partir de 1º de setembro todos os suspeitos estarão em Hogwarts – disse Alone. – É o ponto que todos têm em comum. Até mesmo Niah Jones, que não desgruda de Jennifer e jamais deixaria sua pupila à solta na escola, então ele também estará por lá.

-O curioso é que era um evento inaugural para os alunos da Casa Withers... Por que seríamos convidadas? – perguntou Lanísia.

-Bom, nosso moral melhorou um tantinho no fim do ano passado – disse Joyce. – É natural chamarem as alunas mais queridas da escola para os eventos.

-E o que dizemos dos dois Nêmeses? – perguntou Serena. – São tão desconhecidos que o pobre Lorenzo emendou os nomes de Afonso e Marjorie com pontos de interrogação!

-Vocês sabem o quanto a Marjorie é invejosa – disse Alone. – Se ela foi informada sobre o evento, deu um jeito de ir de penetra, carregou o namorado consigo, o que já explica a presença do Rony, e de quebra levou um capacho, Afonso!

-O professor Ipcs e Rebecca deviam estar por lá como representantes da escola – falou Hermione. – Lewis... ah, das duas, uma: ou ficou sabendo do evento por intermédio da Rebecca, que é... era prima dele, ou através de você, Serena, que não perderia a oportunidade de vê-lo e tentar mais uma rodada de estimulação corporal recíproca.

-É o jeito – ela suspirou, olhando para o Anel do Vínculo Eterno.

-E por que Lorenzo estaria no evento? – perguntou Joyce.

-Bebidas... comida... pra pôr a trilha ideal pro povo agitar...

-E matar – disse Serena, estremecendo.

-Lorenzo é o cara que esteve por trás de todas as festas, legais e ilegais, desde que abriu o Lorenzo´s em Hogsmeade!

-Eu achei todas as festas dele bem legais, divertidas, não teve nenhuma ilegal – disse Serena, recebendo um tabefe no braço aplicado por Alone.

-Então... É natural que ele estivesse presente! – encerrou Mione.

-A festinha terminou com o pior porre de todos os tempos! – disse Alone. – Acordar com uma baita dor de cabeça, com enjoos e com uma morta a centímetros do seu rosto não é uma sensação agradável. E é inquietante não saber o que aconteceu ali... como Rebecca foi morta... – Alone passou a mão pela nuca. – Isso me arrepia, porque, afinal de contas...

-Nós a detestávamos – disse Lanísia. – Pior: a odiávamos.

-É... isso aí – concordou Alone. – Bate o receio de... sei lá... por algum impulso maluco... alguma de nós ter feito essa besteira. Porque a Rebecca era cruel. Ela sabia bem como provocar, tirar do sério... e nesse ponto as Encalhadas seriam as vítimas favoritas do veneno destilado por ela.

-Não, não somos capazes de matar! – disse Mione.

-Alguém ali foi capaz, Mione, e não sei pra você, mas pra mim pareciam todos bem normais, esquecidos e assustados – disse Alone.

-Não podemos pirar, conjecturando coisas que possam ter acontecido, não mesmo! – insistiu Hermione. – O que podemos fazer é tentar reconstituir, passo a passo, o que fizemos naquela tarde. Falar com pessoas que possam ter conversado conosco, ou nos visto...

-Um assassino esconde todas as marcas – disse Joyce. – De qualquer modo, a sala estava trancada, todos ali sofrem, ou dizem sofrer, da mesma amnésia! Nunca saberemos o que foi conversado ali, o que foi discutido, nunca descobriremos o pavio que deu origem à violência.

-Pode ser que saibamos sim – falou Hermione subitamente.

-Como? – indagou Lanísia, estreitando os olhos.

-Meninas, não acham que é possível... de alguma forma... romper esse vácuo nas nossas memórias? Sabe, do nada começar a recordar tudo o que se passou até o momento em que despertamos na sala da Casa Withers com o corpo da Rebecca?

-Hum, acho pouco provável – disse Alone. – Mas, claro, só podemos afirmar depois de descobrirmos como o assassino conseguiu alterar a memória de todas as pessoas que estavam na sala ao mesmo tempo.

-Usando Obliviate – falou Joyce.

-Não, o criminoso não teria tempo pra apagar a memória um por um – disse Hermione. – Obliviate está fora de cogitação. Quando alguém na sala se desse conta dos fachos de luz luminosos atingindo os colegas, na certa tomaria providências para impedir que o assassino concluísse.

-Existem outros tipos de Feitiço de Memória? – perguntou Serena. – Ou algum tipo de ritual, poção ou outro encantamento que possa provocar amnésia?

Alone estalou os dedos:

-Lembram de Herbologia, quando aprendemos sobre o efeito amnésico proveniente da queima de...

-Estoque? – Serena tentou ajudar.

-Não, ameba, era a queima de alguma planta...

-Eu particularmente esqueço da vida quando estou em queima de estoque – disse Serena. – Ricos também gostam de economizar, gente!

-Ah, lembrei! – disse Alone. – Wysoccan! O cheiro da planta não provocava esquecimento? Por que assim, se o criminoso fez isso, todos ficariam perdidões sem nem notar.

-Não, a Wysoccan também provocaria alucinações... – replicou Mione. – Todos ficariam chapados por um bom tempo, sequer teríamos forças para levantar depois do apagão em nossas mentes.

-Agora entendo porque o Lorenzo disse que era importante ter utilizado o Prior Incantato na sala. Assim cada varinha regurgitaria o último feitiço realizado. Não haveria erro e acho que era a única forma de descobrir quem lançou o Feitiço da Memória!

-É, mas ele estava sem moral por lá – disse Joyce. – Não tinha nenhum mandado do Ministério para confiscar nossas varinhas.

-Os Desmemoriados... não gostei desse título que o Profeta Diário nos deu! – disse Serena. – Além de Encalhadas, agora somos Desmemoriadas? Um título já basta!

-E se de fato todos ali na sala realmente estavam Desmemoriados? – perguntou Alone.

-Não, Alone, isso está fora de cogitação! – disse Mione. – Estávamos em uma sala trancada por dentro, sem janelas, com um corpo com sinais claros de violência. É óbvio que alguém ali sabe muito bem tudo o que aconteceu e apagou a memória dos demais para se livrar das testemunhas! Depois essa pessoa caiu no chão, exatamente como todos os atingidos pelo feitiço, ritual, o que quer que seja, e fingiu que despertava da mesma forma. Há, entre aquelas pessoas, um mentiroso. Pode até não ser o psicopata, talvez esteja apenas protegendo o assassino, mas alguém ali está mentindo e das duas uma: ou é ou sabe quem é o criminoso que, como Lorenzo anotou, está entre os desmemoriados.

-Como saber se alguém esqueceu algo ou não? – indagou Lanísia. – Se ao menos houvesse uma forma de penetrar na mente de cada um que estava na sala e verificar quem realmente está esquecido...

-E há – murmurou Hermione, abismada, estalando os dedos. – Mas é claro! Não tem erro!

-E que forma é essa? – perguntou Joyce.

-Lembrol! – exclamou Hermione. – Acabei de lembrar do Lembrol!

-Isso foi meio redundante – debochou Alone.

-O que é um Lembrol? – perguntou Serena.

-Lembrol é um artefato mágico cheio de fumaça branca, fumaça que só fica vermelha nas mãos de alguém que esqueceu alguma coisa! Logo, nós cinco, por exemplo, se segurássemos Lembróis, teríamos, num piscar de olhos, esferas vermelhinhas em nossas mãos. Quero dizer, nós e todos ali na sala que realmente esqueceram o que aconteceu horas antes do assassinato. Já aquele que lembra bem tudo o que aconteceu por lá e está mentindo seria denunciado pelo Lembrol imutável!

-Bom, temos aqui os endereços dos suspeitos – recordou Alone. – Está sugerindo que despachemos por correio coruja um Lembrol para cada um que esteve na sala da Casa Withers?

-Não. Além de garantir que os suspeitos toquem na esfera, precisamos estar presentes no momento em que fizerem isso para verificar se a fumaça ficou vermelha ou não!

-E como faremos para espionar quase vinte pessoas ao mesmo tempo?

-Nada como usar uma festança para reunir tanta gente sem despertar suspeitas... – disse Hermione. – Portanto, vamos mandar via correio coruja não Lembróis, mas convites. Lanísia, acho que precisaremos aumentar o número de mesas em sua festa de aniversário e organizar o evento em um lugar mais atrativo!


Depois de uma visita ao Correio para despachar as corujas com os convites para a festa do dia seguinte, Lanísia e Joyce entraram na Gemialidades Weasley.

A loja estava apinhada de fregueses. Joyce agarrou uma sacola de compras e as duas subiram ao segundo andar, onde localizaram Jorge Weasley em um dos corredores, arrumando algumas caixas de mercadorias com a ajuda de um rapaz igualmente ruivo, que tinha nos braços musculosos inúmeros arranhões e marcas de queimaduras. Joyce agarrou o braço da amiga e a levou até os dois.

-Oi Jorge! – cumprimentou Joyce, sem tirar os olhos do outro ruivo. – Qual é a sua graça, gracinha?

-Carlinhos Weasley – ele estendeu a mão.

Enquanto cumprimentava Carlinhos, Joyce apontou para as marcas nos braços dele.

-Mexendo com fogo? Gosta de sentir dor na hora do prazer?

-Oh, não, é que trabalho com dragões. E você também andou lidando com fogo, ao menos ultimamente, olhe só... – ele apontou uma marca vermelha na mão de Joyce.

-Não mexi com fogo nenhum, tá legal? – afirmou a garota na defensiva.

-Como não, Joyce? – questionou Lanísia. – Você disse que esquentou uns marshmallows diante da fogueira após o show do Axel, lembra?

-É... tem razão...

-Eu sou Lanísia Buns. É um prazer conhecê-lo, Carlinhos! Você não morava na Romênia?

-Sim. Mas esse oitavo ano em Hogwarts me trouxe de volta! Não sei se já estão a par, mas estudarão Trato das Criaturas Mágicas em nível avançado e eu serei o professor.

-Ótimo, Hogwarts andava precisando de um professor gostosão desde o exílio do Augusto – disse Joyce.

-Mais direta, impossível hein, Joyce? – perguntou Lanísia baixinho.

-Eu também vou pra Hogwarts – disse Jorge. – Não perderei por nada a oportunidade de estudar na Casa Withers com os outros veteranos. Quem sabe não conquisto aquilo que não consegui conquistar nos meus anos na escola?

Jorge olhou cobiçoso para Lanísia, que pigarreou, fingindo não notar a indireta, e perguntou:

-Vocês vendem Lembrol aqui?

-Sim, temos um estoque gigantesco, estão entre os artigos mais vendidos nas férias. Todos os bruxos gostam de adquirir um Lembrol antes de viajar, pra saber se não estão esquecendo de levar alguma coisa ou de revistar os feitiços de proteção das propriedades. Estão bem aqui... – Jorge puxou a varinha do cós da calça e olhou para Lanísia. – De quantos precisam?

-23 – respondeu Joyce.

-Por que precisam de tantos? – Jorge conversava enquanto manipulava as caixas de Lembrol com a varinha, fazendo-as descer do topo da prateleira mais próxima até a sacola aberta por Joyce.

-Esqueci – disse a garota. – Pra você ver, minha memória é um caso sério!

Lanísia reparou que dois bruxos com quepes azuis abordavam alguns funcionários da loja, enquanto outro estava de cócoras, revistando o piso à procura de pistas.

-Por que os guardas do Ministério estão por aqui? – perguntou a garota.

-Prontinho, Joyce, aí estão vinte e três Lembróis! Os guardas... vocês não vão acreditar – falou Jorge. – Principalmente você, Lanísia. Augusto Welch esteve aqui na Gemialidades hoje!

-Como!? – indagou Lanísia, aturdida.

-Pois é, piração total – despreocupado, Jorge apoiou-se no mostruário ao lado. – Acham que ele continua escondido por estar envolvido na morte da Rebecca.

-Mas como Augusto fez para entrar na loja e não ser reconhecido?

-Ninguém sabe, Lanísia. Corre à boca pequena o boato de que ele tenha usado Poção Polissuco. O fato é que ele entrou, comprou, saiu e só soubemos da aparição dele quando fui até o caixa e encontrei um recibo de compra assinado por Augusto Welch.

-Mas como...?

-Como temos certeza de que foi ele mesmo quem escreveu? – Jorge completou a pergunta de Lanísia. – Uma equipe do Ministério já atestou a autenticidade da assinatura. O antigo vice-diretor de Hogwarts passou por essa loja, não é demais? E vocês sabem, ele foi inocentado das acusações de estupro. Ainda não deu as caras apesar de ser considerado inocente e, como continua escondido depois da morte da ex-mulher, a imagem do professor se queimou novamente...

-Augusto jamais mataria Rebecca – defendeu-o Lanísia. – Nem tem como... Ele não estava na sala em que ela foi morta, e foi tudo feito a portas trancadas!

-Ele soube ser um fantasma aqui, não soube? – disse Jorge, sabiamente.

Sem ter como contrapor, Lanísia limitou-se a perguntar:

-O que ele comprou?

-Um bisbilhoscópio que você não encontra em lugar nenhum! – dando asas ao seu espírito marqueteiro, Jorge tirou uma caixa colorida do topo do mostruário mais próximo e, com gestos precisos e exacerbados, desafivelou a embalagem e revelou o pião. – Não é um bisbilhoscópio qualquer. Ele não detecta a presença dos mal intencionados, ah, não mesmo... Acho que não venderia tanto se tivesse esse objetivo.

-Então o que ele detecta? – perguntou Joyce. – Deve ser algo bem comum, ele não para de girar a e apitar!

-Isso é porque ele está perto de mim e eu entro em ebulição perto da Lanísia – Jorge piscou um olho para a jovem. – Esse é um Bisbilhoscópio da Luxúria. No nosso caso, ele está detectando o meu desejo e eu espero que o da Lanísia também...

-Meu desejo no momento é apenas descobrir porque Augusto precisaria de um detector de taras.

-Talvez ele queira saber se a Celine Meadowes tá a fim – debochou Jorge.

-Não fale sobre o que desconhece – ralhou Lanísia. – Um bisbilhoscópio desses quebraria de tantas pulsações a quilômetros de distância da Celine. Ela é louquinha pelo Augusto, ninguém precisa de uma bugiganga pra saber disso. De qualquer modo...

Lanísia parou de falar diante do baque ensurdecedor bem ao lado. A pilha de caixas com os bisbilhoscópios exclusivos da Gemialidades Weasley caiu diante de Joyce, que recuou, protegendo os pés. As caixas vibravam enlouquecidamente em torno da garota, de modo tão intenso que saltavam pelo piso. Carlinhos puxou a varinha imediatamente, assim como Jorge, numa tentativa de acalmar os objetos.

-Poxa, Joyce, você terá que arcar com o prejuízo! – disse Jorge.

-Meu corpo transpira desejo, o que posso fazer?

-Sair dessa seção antes que eu perca todo o estoque! Ah, não passe no corredor ao lado ou o Detector de Periguetes vai começar a cacarejar!

-Grosso! – reclamou Joyce, bufando e descendo as escadinhas para o andar térreo, sendo seguida de perto por Lanísia. – O pior é que é grosso mesmo. Eu já me diverti com o Jorge algumas vezes... ou era o Fred? Enfim, deve ser tudo a mesma coisa... Eu falando de bilongas e você nem se interessando, você está bem, Lanísia?

-Claro que não! Estou pensando na comprinha que o seu pai fez!

-Ah, não vai ficar grilada com isso, vai? Esquece...

-Ele tem aqui toda a sorte de produtos que podiam tornar o ato de pintar mais divertido... – enquanto caminhava cheia de determinação, Lanísia apontava as embalagens. – Veja só: tintas multicores que alteram em mais de mil tons automaticamente, pincel encantado que faz as pinturas se movimentarem e até essa aquarela especial aqui para camuflar uma pintura original por baixo de um desenho falso, ele podia comprar tudo isso, mas não, preferiu detectar tesão alheio. Deve ser culpa da Celine mesmo, só pode...

-Ele não tem interesse algum nela. Não devia sequer considerar a hipótese de um envolvimento.

-Como posso descartar essa hipótese se tenho ao meu lado, falando pelos cotovelos, o produto vivo de uma transa entre os dois?

-Ai, você fez com que eu me sentisse uma porra agora, sabia? Literalmente. Escuta: talvez o bisbilhoscópio tenha sido apenas um pretexto do papai para visitar a Gemialidades Weasley.

-Não, conheço bem o Augusto, ele não deixaria uma marca, uma pista, à toa – discordou Lanísia enquanto as duas passavam pelo caixa. – Se ele se arriscou tanto vindo até aqui, é porque realmente precisou de um Bisbilhoscópio da Luxúria. A questão é: por que Augusto precisou tanto de algo que existe apenas para satisfazer a curiosidade de adolescentes depravados?


Durante a noite, na Torre Astral protegida pelo Feitiço Fidelius, Augusto colocou o Bisbilhoscópio da Luxúria sobre a pia, deixando-o bem ao lado da porta.

-Não seria melhor adquirir um bisbilhoscópio comum? – perguntou Celine.

-Me senti mais seguro na Gemialidades Weasley. Ninguém imaginaria que apareceríamos por lá.

-Augusto, você rejuvenesceu dezesseis anos! Está irreconhecível, confie em mim! Tirou a barba, mudou o cabelo, todo o formato do corpo transformou-se! Sem falar que essa possibilidade não passa pela cabeça de ninguém.

-Sei que é uma preocupação exagerada, mas é inevitável. E esse Bisbilhoscópio da Luxúria funcionará muito bem. Detectará Kleiton assim que ele tentar se aproximar da torre.

-Isso se ele realmente estiver com esse desejo todo.

-Tenho certeza de que Kleiton continua fissurado em você, Celine – disse Augusto olhando para ela.

-Não estou tão segura disso...

-Será que seu avô realmente contou o segredo da torre para ele?

-É uma possibilidade que me inquieta mais a cada dia. Eles se davam muito bem. Talvez meu pai tenha vindo aqui com ele para mostrar esse observatório estelar. Isso era a vida dele, e ele gostava o suficiente de Kleiton para trazê-lo aqui – ela olhou por um momento para as janelas que representavam o cosmos e depois pigarreou, puxando um envelope da mesa. – Quando saí hoje, conferi a caixa de correio que Minerva separou para nós dois.

-Aquela da casa trouxa abandonada?

-Isso! Qualquer notificação do Ministério para depor sobre a morte da Rebecca chegará nesse endereço. As nossas matrículas falsas feitas por Minerva, com todas as credencias fajutas, também apontam para esse local. Para todos os fins, aquele é o lar de Mathias Berger e Daphne Marshall.

-E havia alguma carta lá?

-Sim. Mas nada sobre a investigação. Na verdade é um convite para uma festa de aniversário que ocorrerá amanhã... – Celine ergueu o convite. – Um baile de máscaras para comemorar o aniversário de Lanísia Burns.

-Lanísia? Mas... Por que ela nos convidaria? Quero dizer... Mathias e Daphne são completos desconhecidos para ela...

-Vai ver ela se interessou por você – brincou Celine.

-Você acha? – Augusto sorriu. – Será que eu chamei a atenção dela? Ela gostou do que viu? Ficou impressionada?

Celine revirou os olhos.

-Caso tenha esquecido, Augusto, jovem ou não, o filho dentro dela continua sendo seu... – Celine abriu o convite e examinou-o. – Bom, tem uma baboseira aqui escrita sobre a importância de integrar os novos alunos de Hogwarts ao convívio com os outros estudantes. Caso o argumento não convença, as Encalhadas fizeram a questão de destacar que haverá apresentações ao vivo de Jennifer Star e dos Esdrúxulos.

Augusto arqueou uma sobrancelha.

-Não sei não... Nós dois, as Encalhadas, os Esdrúxulos, Jennifer Star... Mas isso não está parecendo...?

-Que todos os Desmemoriados estarão presentes para uma nova reuniãozinha? É o que parece... Só temos que lembrar que entre todos existe um assassino.

-O lance é torcer para que dessa vez ninguém termine sem memória – brincou Augusto.

-Ou morto – completou Celine em tom sinistro.


Na mansão de Serena, Joyce colocou as 23 caixas de Lembróis sobre o tampo da mesa de jantar.

-Aqui estão. Agora como obrigaremos os suspeitos a segurarem os Lembróis?

-Estive pensando nisso – falou Hermione.

-Claro que esteve – debochou Alone.

-Pensei em oferecer os Lembróis como lembranças da festa – disse Hermione, tirando um pacote aberto de presente de debaixo da mesa e colocando-o sobre a superfície do móvel.

-Certo, mas assim a pessoa abrirá o pacote e, reconhecendo o objeto, não vai colocar os dedos nele – alertou Joyce.

-Por isso pensei num truque para enganar o suspeito que tentar bancar o espertinho – Mione sorriu. – Para confundir, precisamos oferecer aos outros convidados algo que se assemelhe a um Lembrol. Portanto, a lembrança da festa de Lanísia também estará em uma esfera cheinha de fumaça – e, metendo a mão no pacote, ela tirou uma bolinha transparente, um enfeite cujo interior trazia a miniatura de um bolo de aniversário, cuja vela emitia nuvens de fumaça espiralada.

-Incrível – disse Joyce, tomando a lembrancinha das mãos de Mione. – Assim nenhum deles terá receio em pegar o Lembrol, mesmo sentindo a esfera com os dedos antes de retirá-la do pacote, vão pensar que se trata de um simples bibelô!

-Isso mesmo – confirmou Mione. – Quando o falso Desmemoriado perceber que se trata de um Lembrol, já será tarde. Todos os inocentes terão Lembróis vermelhinhos ao redor dele!

Serena abriu a sacola de papel pardo da Gemialidades Weasley, apanhou um Lembrol embalado e fitou-o com curiosidade.

-Basta um mero contato com as mãos para ele funcionar?

-Sim – confirmou Mione.

-Igual a bilonga do Juca – comentou Joyce. – E você verá o Lembrol funcionando agorinha mesmo – disse Joyce, tirando outros quatro Lembróis da sacola.

-O que está fazendo? – perguntou Lanísia.

-Também estamos na lista de suspeitos... Sei que confiamos muito umas nas outras, mas acho justo que passemos pelo mesmo procedimento. Nós também provaremos a nossa falta de memória através do Lembrol.

Apontando a varinha para cada um dos objetos embalados, Joyce abriu os plásticos e deixou cada bolinha livre, uma ao lado da outra, sobre a mesa. As Encalhadas se posicionaram diante do respectivo Lembrol e aguardaram a ordem da líder do grupo.

-Todas prontas? – indagou Joyce. – Então... Agarrem o Lembrol!

Elas apanharam as esferas, esticaram as mãos diante do corpo e abriram os dedos, revelando o objeto.

Em todos eles, a fumaça vermelha substituíra a branca, comprovando o esquecimento das cinco Encalhadas.

Não houve tempo para comemorações; a maçaneta de ouro da porta de entrada girou. Instintivamente, Hermione, Alone, Joyce e Lanísia esconderam seus Lembróis vermelhos nos bolsos das calças ou atrás dos corpos; Serena, no entanto, estava tão admirada com o objeto que continuou girando-o nas mãos, como se procurasse dentro dele algum fiapo do vapor alvo que o enchia antes dos seus dedos colorirem a fumaça do mais puro vermelho-vivo, indiferente ao barulho da porta se abrindo, à figura pálida que batia os pés sobre o tapete de entrada e às malas que tal pessoa carregava.

Draco praticamente jogou as malas sobre o luxuoso piso da sala. Só então Serena notou sua presença, e mesmo assim ficou perplexa demais para pensar em ocultar o Lembrol. Draco, rindo, apontou para a esfera.

-Ah, querida, o que foi que você se atreveu a esquecer? Espero que não tenha sido nenhuma das vezes em que fizemos amor!

-Quando fizemos amor, Draco? Em algum dos sonhos que fazem você acordar molhadinho? – ela debochou.

-A parte do despertar molhadinho veio depois. Não esqueço a sensação dos nossos corpos nus, molhados pela exaustão do ato, coladinhos na cama, você iniciando uma nova rodada de prazeres ao movimentar seu quadril contra a minha virilha, despertando a mim e ao meu corpo inteiro... Olha só, está ficando corada! Mas bem que na hora da farra você nem ficou envergonhada...

-Não estou corada! É... é reflexo do Lembrol! – Serena soltou a bolinha com impaciência, fazendo-a quicar pelo tapete da sala. – Você deve estar delirando, Malfoy! Fala de algo que nunca aconteceu como se fosse verdade!

-E foi.

-Não pode ser... eu e você, sem roupa, na mesma cama? Quando foi isso?

-Tenho uma hipótese bastante plausível – comentou Joyce.

-Anteontem? – Serena questionou, olhando para as amigas. – Será que foi durante o vácuo?

-Que vácuo?

-Foi anteontem, Draco?

-Sim, claro... Depois que o Lewis foi embora, nós discutimos um pouco, logo nos entendemos e caímos sobre a cama dos seus pais. Quando estávamos transando você me confessou que estava com vontade desde que me viu sem roupa.

-Você pode ter dito isso, Serena? – indagou Alone.

-Não... – mas ela recordou-se da maneira como a safira no anel reluziu apenas à aproximação do corpo quente e definido de Draco, reação visual daquilo que acontecia em seu coração naquele momento; uma excitação desconhecida.

Tinha gravado na retina a pele do rapaz, seu peitoral, os olhos cinzentos sedutores, tudo numa confusão de sentidos, a visão em detalhes de Draco nu, o toque na pele dele, o ruído da voz gemendo de prazer, o perfume dos cabelos louros, o sabor do desejo dominando a sua boca.

Não havia dúvida de que o brilho no anel exprimira as reações palpitantes do seu coração...

A falta dos beijos, abraços e toques de Lewis estão me fazendo muito mal, pensou Serena. Devo estar me apegando ao único homem que pode me oferecer tudo isso, mesmo ele sendo um perfeito idiota, sacana e cachorro que não vale nada!

Ainda assim, as imagens de Draco sem roupa, Obliviate ou ritual algum conseguira dar conta de apagar...

Assim, insegura, Serena corrigiu-se, admitindo pelo menos a possibilidade do seu desejo:

-Quero dizer... talvez.

-Por que eu mentiria sobre isso? – perguntou Draco.

-Pra se apropriar de vez desta mansão. De todos os bens da família Bennet. Pra dar ordens, controlar o meu patrimônio. Tudo isso e muito mais, porque você não vale nada, Draco!

-Olha só quem questiona o meu caráter. Você é uma pessoa muito melhor do que eu, não é, Serena?

-Não tenho um pingo dessa sua ambição desmedida!

-Claro, é fácil pra quem nasceu milionária desprezar o valor do dinheiro e todo o desejo que montanhas de galeões são capazes de despertar! Você pode não ser ambiciosa, mas isso que você fez... isso de transar comigo por duas vezes e depois fingir que não lembra nada, essa forma estapafúrdia de agir diz muito sobre você! Algo, aliás, típico de milionária mimada. Você me usou, Serena!

-O quê?

-É, isso mesmo, me usou, me excitou, lambeu todo o meu corpo, se entregou todinha só para atender a um prazer momentâneo, pra apagar o seu fogo...

-Eu não usei ninguém, nem toquei em você!

-Tá com vergonha de dizer que agiu de maneira tão baixa e agora banca a esquecidinha! Sabe de uma coisa? A minha sorte é que existe algo para provar que nós realmente ficamos juntos. O Anel do Vínculo Eterno não me deixará mentir!

Serena ergueu o dedo em que o anel refulgia e murmurou:

-"Após a consumação do enlace, o anel nunca mais cairá"!

-Isso ocorre porque a magia dos anéis segue a tradição romântica onde a relação carnal é o símbolo máximo do amor – recordou Lanísia. – Depois da relação carnal, você perpetuou o encantamento ao ter o ofertador do anel dentro de si.

-Isso se eu realmente o tive dessa maneira – corrigiu Serena.

-Olha que pedra mais bela, chega a ofuscar a visão... – disse Draco. – Não consegue admitir o que está diante dos seus olhos, Serena? A safira nunca esteve tão polida! Nosso casamento foi consumado e não há mais nada que você possa fazer para mudar isso!

-Eu não posso ter sucumbido tão facilmente! – ela deixou-se cair numa poltrona, colocando a cabeça entre as mãos. – Não consigo me conformar! Tomei todas as precauções possíveis para que isso não acontecesse! Fiz meu elfo doméstico provar cada bebida antes de tomá-la, temendo que você colocasse alguma Poção de Amor dentro delas...

-Ei, isso não foi legal com o pobre do elfo! – reclamou Hermione.

-...Li alguns livros para praticar técnicas de proteção que evitam a dominação por rituais, temendo que manipulasse meus sentimentos mesmo à distância. Não posso ter sido tão fraca apenas diante da visão do seu corpo empolgado e sem roupa!

-Até onde você lembra, a barraca dele já estava armada? – perguntou Joyce.

-Não, mas já dava pra ter uma noção do formato da tenda.

-Uuuiii – fizeram as meninas ao mesmo tempo.

-Se você me usou e tem vergonha de admitir que transou comigo, eu não me importo – disse Draco. – Mas agora assumo definitivamente a minha posição como o Sr. Bennet. Dessa casa eu não saio mais!

-Pelo menos a mansão tem quinze quartos. Espero que escolha um na ala oposta – disse Serena.

-Oh, o plano é para manter as aparências, hum? – ele foi se aproximando devagar, até chegar perto do ouvido da garota. – Vai atravessar as tapeçarias pé ante pé na madrugada e surgir de surpresa na minha cama?

-Draco, eu prefiro dormir no cubículo dos elfos, envolta em trapos e mantas mofadas, a dividir qualquer colchonete com você!

-Cuidado com o que diz, esposinha! Agora eu sou o senhor dessa casa. Não fale muita bobagem, ou eu acato os seus desaforos e você vai dormir sentindo bafo de elfo no seu cangote.

Serena esbofeteou-o; a safira acertou em cheio o nariz afilado de Draco, arrancando um jorro de sangue.

-Agora o anel não parece tão brilhante assim, não é, Draco? – Serena esticou o dedo da joia, onde a pedra azulada estava agora maculada de vermelho. – Um tanto nojento... agora sim é o reflexo perfeito do meu sentimento por você – Serena levantou-se da poltrona, olhando para o marido, que inclinava a cabeça para trás para tentar conter o fluxo de sangue. – Aproveite a sua nova residência sozinho. Vou arrumar minhas coisas e ir para a casa da Jennifer Star.

-Vai deixar tudo pra mim? Assim eu me apaixono de vez...

-Amanhã é 19 de agosto, aniversário da Lanísia. Vou participar da festa e depois volto pra cá. Não ouse mudar nada por aqui, ficou claro?

-Agora, se eu quiser, estalo os dedos e posso até mandar essa casa pro espaço.

Sem responder a provocação, Serena subiu a ampla escadaria, batendo os pés com firmeza em cada degrau.

Draco olhou de soslaio para as quatro Encalhadas, que o fitavam com desagrado.

-Deveriam me tratar melhor agora que estou casado pelo resto da vida com a amiguinha de vocês – disse o garoto.

-Isso é o que você diz – desafiou-o Hermione.

-Ah, Granger, até você certa vez quase pirou com o lourão aqui... Olha, acho que vou restringir a presença de vocês. Quer saber? Vou começar agora mesmo... Ninguém merece ter que aturar pessoas tão detestáveis em sua própria mansão, portanto... Caiam fora.

-Está de brincadeira, não é? – perguntou Alone. – Não pode fazer isso!

-Tenho um papel que comprova que eu sou o novo Sr Bennet, você quer dar uma olhadinha nele? FORA DAQUI!

-Só estamos aguardando a Serena – disse Lanísia. – Não pode esperar...?

-Não, não posso, cada segundo olhando pra vocês custa horrores, e o tempo que eu perco, nem toda a fortuna que agora me pertence pode comprar! Saiam daqui!

-Vamos, meninas – disse Joyce.

-Ainda fala como se tivesse opção... – zombou Draco.

Joyce, Mione, Lanísia e Alone atravessaram a sala da mansão Bennet e saíram no jardim. No caminho ladeado por flores e arbustos, Hermione olhou para a casa e flagrou Draco em uma das janelas térreas, rindo deliciosamente.

-Isso não vai ficar assim, Draco! – gritou Mione.

-Não vai ficar assim mesmo, é pra ficar do portão pra fora, e não no terreno da casa! – berrou ele de volta.

As garotas atravessaram os portões, Alone aplicando pontapés nos arbustos e pisoteando as flores.

-Serena não pode ter dormido com esse mané, mané! – exclamou. – Ele é insuportável!

-A pedra não pode estar bela daquela forma apenas pela excitação momentânea que ela sentiu ao ver o Draco nu? – perguntou Mione à Lanísia.

-Pode ser. É impossível afirmar agora, só o tempo dirá se rolou algo entre os dois ou não.

-O vácuo na memória da Serena iniciou-se com o corpo dela em chamas, no auge do desejo... – observou Joyce. – Será que ela não sabe dizer se sentiu que tal vontade tinha sido saciada ao despertar?

-Acordar ao lado de um corpo perfurado por um troféu e todo retalhado, sem saber como foi parar lá, não é exatamente o cenário que estimula o desejo – respondeu Serena, aproximando-se pelo caminho do jardim, as malas levitando diante do corpo. – Vamos? Quero pôr uma boa distância entre eu e o Malfoy.

-Agora ele é Bennet – corrigiu Alone, recebendo um olhar irritadiço da amiga. – Foi mal! Lavou o anel?

Serena olhou para a pedra; teve que semicerrar os olhos para proteger-se do brilho da safira que, tocada pela luz do sol, emitiu pequeninos raios miosótis, e tal efeito era possível porque o sangue de Draco havia desaparecido...

...Sozinho.


As Encalhadas ocuparam diferentes suítes na mansão de Jennifer Star e passaram a maior parte do dia 19 de agosto ajudando os funcionários da cantora a organizar a festa.

O crepúsculo se aproximava e os convidados começavam a chegar, todos segurando suas máscaras, deixando parte do rosto envolta em mistério. A festa seria realizada ao ar livre, diante da mansão da cantora. A área da casa de Jen incluía um pequeno bosque e um riozinho onde uma cascata desaguava em meio a pedras escuras.

No interior, a residência tinha toda a excentricidade típica das estrelas pop; o piso do hall de entrada formava o desenho de uma enorme guitarra e o corrimão da escadaria simulava as cinco linhas de uma pauta musical, com direito a colcheias dispostas lado a lado.

-Jen disse que as notas não estão dispostas à toa; elas formam a introdução da primeira música composta por ela – disse Hermione, acariciando o corrimão enquanto elas subiam a escada. – Sabe, Alone, não acho legal você ficar lendo a correspondência dos outros!

-Ah, qual é, é apenas a nova edição do Semanário das Bruxas, Jen nem vai ligar... Nossa, olhem essa foto! Axel Carver fez uma nova tatuagem que cobre totalmente os bíceps escandalosos do braço direito dele!

-O que foi que ele tatuou dessa vez? – perguntou Joyce. – Um dragão? Um trasgo?

-Que nada, algo que gera muito mais especulação! Ele tatuou apenas a letra J!

Joyce empalideceu.

-J?

-Hum hum... Deve representar o nome de alguma garota.

-Ai, eu confesso! – berrou Joyce. – A maior das burradas! Algo que nem mesmo a Serena faria! Não percebem qual nome essa letra J representa? A quem essa tatuagem foi destinada?

-Oras, é óbvio que foi para a Jennifer Star – respondeu Alone.

-Hum hum, é isso mesmo que a revista diz – apontou Serena.

-Jen? Jen Star? – questionou Joyce. – É mesmo... É outro J. Pode ser...

-Claro que foi pra ela, a quem você achou que seria? – perguntou Mione. – Aos assessores dele? Você ou o Juca?

As demais Encalhadas caíram na gargalhada, enquanto Joyce conseguiu apenas produzir risinhos nervosos.

-Quantos J´s na vida do Axel, não é? – Joyce perguntou, enrolando um caracol dos cabelos, enquanto elas avançavam pelo patamar superior. – Será que foi pra Jennifer mesmo? Não... sei lá... não pode ser outro nome?

-Ele é vidrado na Jennifer, lembram o barraco quando eles chegaram em Hogwarts? – recordou Alone. – A única outra garota perto dele, com o nome iniciado por J, é você. E ele não faria uma tatuagem em sua homenagem.

-A não ser que eu tivesse feito uma Fogueira das Paixões pra ele, não é?

-Ai, Joyce, como você é engraçada – riu Alone.

-Que absurdo, até parece que você faria uma idiotice dessas! – disse Mione.

-Não mesmo! – riu Joyce. – Não seria tão estúpida, idiota, otária, imbecil, babaca, desesperada e precipitada... – terminou com um suspiro.

Enquanto elas entravam no amplo quarto de Jennifer, Joyce pegou a revista e ficou olhando para a foto do cantor. Qual seria o nome por trás da inicial gravada na pele de Axel Carver? Que segredo estaria por baixo das curvas daquele J? As meninas estavam certas; havia enorme possibilidade de que o J significasse Jennifer Star. Talvez a Fogueira das Paixões tivesse falhado... Ela, pelo menos, não recordava nenhuma menção a respeito de que o ritual poderia abarcar dois corações ao mesmo tempo.

Talvez porque só uma pirada ia querer conquistar dois homens de uma só vez. Cometi um erro tão grande que nem estava previsto nos livros, pensou, desolada.

-Acho que logo algum fã vai querer saber para quem ele tatuou essa letra, não é? – perguntou, encostando-se na amurada da sacada do quarto. – Quero dizer... tudo o que um artista faz gera especulação, não acham?

-Com certeza – disse Alone. – Todo símbolo existe para ser desvendado. E se ele quisesse fazer mistério, não faria uma declaração de amor tão óbvia assim.

-A sacada da Jen é o melhor ponto de observação mesmo – disse Hermione. – Todos os Desmemoriados já chegaram?

-Hum, ainda não – disse Joyce, debruçando-se sobre a balaustrada. – Não vi Mathias Berger e Daphne Marshall. Ethan Cooper e Isabella Hastings ainda não chegaram também... E, claro, sequer um sinal dos nossos convidados mais difíceis, Marjorie e Afonso.

-Rony avisou que poderia atrasar. Irá receber hoje à noite o resultado do teste de avaliação para integrar a equipe do Chudley Cannons – Mione suspirou. – Espero que consiga atrair nossos Nêmeses Desmemoriados para cá.

-Não acha arriscado Rony ficar assim, fingindo ser o namorado perfeito da Marjorie, quando existe a possibilidade do Robbie ter visto vocês dois juntos na casa de chá da Madame Puddifoot? – perguntou Lanísia.

-Acho. Mas tê-lo como informante ao namorar a líder do Nêmeses tem sido de grande valia para o nosso grupo. O jeito é arriscar, partir pro tudo ou nada... e torcer para que Robbie não nos tenha visto, porque se ele viu... Marjorie na certa foi a primeira a saber.


Assim que passou pelos portões da casa de Marjorie, Rony notou que o fato de estar presente no local em que ocorrera um homicídio não abalara Marjorie. A tenda no jardim exibia a cor laranja do Chudley Cannons e, na lateral, a bala de canhão voadora ladeada pelo par de C´s.

Enquanto se aproximava, Rony conseguiu visualizar alguns convidados elegantemente vestidos em smokings, segurando delicadas taças de champanhe, seus rostos cheios de cicatrizes e seus modos desajeitados contrastando com a elegância dos trajes. Reconheceu o técnico que levara o Chudley Cannons à bancarrota no último campeonato, Alberto Dwight junto aos brutamontes que compunham sua equipe de segurança – os atentados provenientes de torcedores revoltados com a condução pífia do treinador cresceram muito após a estratosférica derrota de 350 a 10 para as Hárpias de Holyhead. Os demais convidados exóticos, Rony notou, eram compostos por parte da equipe do Chudley Cannons, incluindo alguns reservas. Aqueles que não apresentavam marcas físicas da brutalidade do quadribol e se portavam com elevado requinte eram jornalistas e fotógrafos, habituées de eventos e encontros sociais.

Rony entrou no perímetro da tenda iluminada, apanhou uma taça de champanhe da bandeja de um dos garçons e aproximou-se do técnico Alberto Dwight.

-Chegou a grande promessa do quadribol! – exclamou Alberto, passando um braço sobre o ombro de Rony. – Vamos, tirem uma fotografia do nosso futuro goleiro, o jovem que porá um fim aos frangos sofridos pelos Cannons... por favor, Weasley, relaxe esses olhos esbugalhados e abra um sorriso atraente para os nossos ávidos fotógrafos!

-Mas fala sério, Sr Dwight? – indagou Rony, estupefato. – Eu... serei o novo goleiro da seleção?

-Claro! Acha que eu traria quase toda a equipe aqui para recusar o seu passe? Não mesmo!

-Puxa, eu não fazia ideia de que o resultado da avaliação tinha sido tão positivo!

-Foi demais. Tanto que o responsável pelos Fogos Filibusteiro declinou da decisão de suspender o patrocínio após assistir às suas defesas. Você impressionou a todos, rapaz!

-Eu espero não decepcionar, sou Cannons desde pequeno... Será que estou mesmo à altura do posto, Sr Dwight?

-Ronald, na última partida o nosso goleiro atual foi arremessar a goles aos artilheiros e deixou-a escapar de suas mãos, marcando um gol contra vergonhoso. Dê aos torcedores derrotas menos espaçadas e já ficarão contentes, e sei que é capaz de muito mais... Agora desvie esse sorriso satisfeito aos fotógrafos, as lentes deles o tornarão conhecido em todo o mundo bruxo!

Rony precisou esforçar-se para não franzir o rosto diante de tantos flashes. Viu-se diante de uma sabatina dos repórteres que, com penas que não paravam de mover-se sobre os pergaminhos, encheram-no de perguntas.

-Acha que a sua rotina de estudos em Hogwarts pode prejudicar o seu desempenho junto à equipe?

-Eu... – Rony gaguejou, notando que Robbie Greenwood surgira no fundo da tenda, fitando-o com ar ameaçador. A visão de sua última memória antes do vácuo explodiu em sua mente; Robbie levantando-se após tomar um banho de chá fumegante, a algumas mesas de distância, perto de flagrar o namorado da líder de seu grupo em um momento a dois com Hermione Granger. – E... Qual... – Rony piscou os olhos, tentando se concentrar, e voltou a atenção aos jornalistas. – Qual foi mesmo a pergunta?

-Se o fato de estudar em Hogwarts...?

-Oh, sim, se irá me prejudicar? Não. Nós temos o campeonato intercasas que me deixará na ativa. Além disso, teremos alunos veteranos retornando a Hogwarts. Grandes jogadores com os quais nunca disputei. Isso exigirá muito treino.

-É um rapaz jovem e, segundo dizem, talentoso. Isso atrairá muitas fãs. Elas botem ter esperança de conquistá-lo?

-Não, já tenho namorada. Ela é quem produziu toda essa festa, aliás... Robbie... Robbie, você sabe onde a Marjorie está?

-Não tem ideia mesmo, Weasley? – perguntou Robbie, nervoso.

Um murmúrio percorreu os convidados mediante o tom agressivo do garoto.

-Eu... Deveria ter? – indagou Rony, inseguro.

-É muita cara-de-pau. Achou mesmo que nunca seria descoberto? Pois bem. A casa caiu... – Robbie afastou-se da tenda, deixando Rony apalermado.

-Robbie? Do que está falando? Espere! – Rony fez menção de erguer-se, mas o técnico Dwight não permitiu, segurando-o pela manga da camisa.

-Agora não, rapaz... – o técnico pigarreou. – Bom, então agora vamos abrir a faixa e fazer o nosso novo jogador vestir pela primeira vez a premiada camiseta do nosso time.

Todos se levantaram e foram até o canto em que o uniforme estava pendurado em um cabide, composto por camiseta, calção, luvas, joelheiras e tênis. A Firebolt novinha, que seria usada pelo goleiro, estava bem ao lado. Todo o conjunto estava isolado por uma enorme fita laranja, e todo o grupo, de jogadores e repórteres, caminhou até ali, onde uma moça coroada de atributos físicos avantajados aguardava com uma enorme tesoura na mão.

A jovem esperou que os fotógrafos estivessem a postos para curvar-se e romper o laço laranja, abrindo o acesso do novo jogador do Chuddley Cannons ao traje que lhe era apropriado, tudo em meio a flashes das câmeras e aplausos entusiasmados.

Rony pegou as peças de roupa e isolou-se no vestiário de madeira improvisado. Enquanto colocava o uniforme, ouvia o Técnico Dwight anunciando:

-Em instantes, presenciarão o nascimento de uma lenda!

Rony não conseguia nem mesmo sentir-se ansioso; estava preocupado com a ausência de Marjorie e tudo o que Robbie havia dito.

Será que Marjorie já sabia que ele se encontrava às escondidas com Hermione?

Se ao menos Robbie estivesse entre os Desmemoriados, teria esquecido qualquer coisa que presenciasse depois do banho de chá quente provocado por Madame Puddifoot. Mas não; só ele e Mione não faziam ideia do que ocorrera depois.

Só faltava Robbie ter passado a informação para Marjorie justamente numa data tão especial para ele...

-Cadê... cadê o desgraçado?

Ele ouviu a voz de Marjorie à distância, voz que parecia beirar a histeria.

-Marjorie... – Rony quase se desequilibrou enquanto vestia o calção. Apressado, sentou-se no banquinho e começou a calçar os sapatos.

-Procuro agradar o maldito, e ele me retribui com um belo par de chifres, tentando me fazer de otária!

Rony ouviu barulho de louça partindo, ruído ensurdecedor, como se Marjorie tivesse levado uma das mesas abaixo.

-Droga, Robbie flagrou nós dois, Marjorie descobriu tudo! – seus dedos tremiam tanto que Rony não conseguia amarrar os cadarços; abandonou as tentativas e saiu correndo do vestiário.

Ninguém notou a sua aparição.

Todos os repórteres estavam focados em Marjorie. A garota estava com o rosto manchado, a maquiagem desbotada pelas lágrimas, a cicatriz na face tornando-se visível com a concentração de rímel derretido na falha em sua pele. Os cabelos castanhos estavam desalinhados e o vestido azul claro completamente amarrotado. Marjorie estava diante dos destroços da mesa que derrubara, manjares, pudins e bolos espalhados em meio a pedaços de louça.

Rony ficou parado, em choque, sem reação.

-Ah aí está você, seu grande traidor! – ela berrou aproximando-se.

-Marjorie, não faça escândalo, depois conversamos...

-Vinha aqui, dizendo que me amava, pra depois sair se esfregando com aquela cadela? – ela empurrou um pedestal, derrubando um vaso de flores. – Achava que ia me fazer de idiota até quando? Tocando no corpo asqueroso daquela vagabunda e depois passando esses dedos contaminados em cima de mim... – Marjorie agarrou outro vaso e arremessou-o a um canto.

-Marjorie...

-Mas agora acabou!

Marjorie pegou a enorme tesoura largada ao lado e, com a ponta rente à barriga de Rony, forçou-o a recuar até o fundo da tenda, derrubando o cabide.

-Você não vai ficar com nenhuma das duas!

-Marjorie, mentiram pra você! Estão querendo nos separar!

-Não tente me enganar mais, Rony!

-Não pode fazer uma loucura dessas aqui... não vai me matar na frente de todas essas pessoas, vai?

-Claro que não, pelo menos não do modo tradicional. Garanhão nós matamos de outro jeito... – ela desceu a ponta da tesoura até relar a ponta na virilha de Rony...


Distante do olhar de Jennifer Star, além do belo jardim, encontrava-se o jovem Lucas Thorn. Depois de um dia árduo de trabalho, não havia nada melhor do que ver a mulher que amava, mesmo que fosse de uma distância segura. Para sua surpresa, naquela noite havia uma festa. Lucas usava uma de suas jeans apertadas e pontuadas por rasgos, a camiseta verde-clara muito justa oculta por uma jaqueta preta, presente de uma de suas clientes mais antigas. O cabelo claro caía nos lados do rosto, e ele movimentou a cabeça de modo displicente para afastar a franja que teimava em cobrir um dos olhos.

Ele segurou-se nas barras dos portões de ferro da mansão. Os cuidados haviam sido dobrados naquele dia. Jennifer estava oferecendo uma festa para uma amiga e a entrada era liberada apenas mediante a apresentação de convites. Seria quase impossível conseguir entrar na casa da estrela...

Enquanto tentava vislumbrar a cantora lá dentro, Lucas pensava num modo de driblar os seguranças que a cercavam.

-Rapaz... – o segurança grandalhão chamou a atenção de Lucas – Não é permitido à gente da sua laia ficar por aqui. Vá procurar outro ponto!

-Da minha laia? O que está pensando que eu sou?

-Sua postura, essas roupas... aqui não é lugar para ficar se vendendo, cai fora, aborto nojento!

-Não estou aqui a trabalho.

-Hum, é mais um fã? Não sabia que a música da Star e dos Esdrúxulos fazia parte da trilha sonora favorita de pessoas como você... De qualquer modo, mais tarde os agentes das celebridades virão até os portões para apanhar os presentes destinados aos cantores. Agora se manda, sua presença vai macular a imagem da festa!

Lucas olhou novamente para frente, mas ainda não havia sinal de Jennifer nos terrenos da mansão. Exasperado, virou-se e desceu a rua calçada por paralelepípedos, sentando no banco da pracinha. Bruxos aparatavam a intervalos regulares, todos bem vestidos, com suas máscaras coloridas nas mãos.

Um baile de máscaras... seria tão fácil se aproximar de Jennifer. Conseguiria contornar até a vigilância do agente sisudo da cantora; bastava apenas ter o convite para penetrar na festa...

Um casal fitou-o por muito tempo; por força do hábito, Lucas levou a mão à virilha e piscou um olho. Depois se conteve, mudando a postura, fazendo o casal que já se aproximava parar, confuso; não – agora não. Já havia trabalhado demais. Desperdiçaria alguns galeões pela possibilidade de levar à Jennifer o belo colar que havia adquirido para presenteá-la.

Lucas ergueu um olhar sonhador para a fachada da mansão roxa, que se erguia acima de todas as casas, mesmo àquela distância.

-Olá!

Ele assustou-se com a voz do rapaz, que se aproximara com a loura que o acompanhava.

-Desculpem, eu não estou atendendo no momento. Mas posso deixar com vocês o meu endereço...

-Não, não queremos os seus serviços – disse a loura. – Eu sou Daphne Marshall e esse é o meu namorado, Mathias Berger. Você é um aborto, não é?

-Sim. Como todos os marginalizados no mundo bruxo – suspirou Lucas.

-Você olhava para a casa da Star de um modo tão sonhador – falou Daphne. – Estamos com um convite extra para a festa de aniversário que está acontecendo lá. Você é fã da cantora?

-Muito! O fã número um! Puxa, eu queria muito entrar na festa. Sou um grande fã da Jennifer, e seria... Seria fantástico!

-Eu imagino, seus olhos até brilharam ao dizer o nome dela, parece até apaixonado – Mathias ainda sorrindo, voltou o olhar para Daphne, que assentiu. Alguém que queria tanto esse momento com Jennifer, não merecia ficar do lado de fora, ainda mais tendo dois convidados com passe livre, disponíveis para realizar esse desejo.

-Você vai entrar conosco – informou Daphne.

-O quê? Sério?

-Vamos! Você será nosso convidado. – disse Mathias, puxando do bolso do blazer uma máscara preta decorada com tons verde-esmeralda. – Use isso. Lá dentro, terá a chance de ouvir Jennifer cantando e quem sabe, até mesmo falar com ela!

Mathias estendeu a máscara e o convite que estava sobrando. Lucas apanhou-os com um sorriso largo no rosto. Lentamente, os três começaram a caminhar pela rua, rumo à mansão.

-Como posso pagar esse grande favor? – perguntou Lucas. – Se quiserem eu atendo os dois sem cobrança...

-Não, não será necessário! – replicou Mathias, apressado.

-Augusto? Celine? Como vocês estão bem, o tempo não passa mesmo para vocês, não é?

Os dois perderam o chão. Diante deles, Kleiton Huggins abria os braços, pronto para um abraço apertado, enquanto Lucas fitava aqueles que se apresentaram como Mathias e Daphne sem compreender...


-NÃO! – berrou Rony, sentindo a tesoura tocar-lhe a intimidade por cima do calção. – Não faça uma loucura dessas, não...

Marjorie usou a ponta da tesoura para abrir um furo no tecido do calção; aumentou o rasgo até fazer o short cair em dois pedaços. Rony suava frio, sua nudez exposta para os fotógrafos, cujas lentes espocaram em flashes.

-Tem orgulho demais dessa coisinha decrépita, não é? – Marjorie relou a ponta fria da tesoura no genital de Rony. – Conseguiu dar conta de duas mulheres ao mesmo tempo, esse é o nosso garanhão Ronald Weasley! Agora veremos se conseguirá enganar outra mulher... ou vai conseguir qualquer mulher... sem uma ferramenta pra tapear as otárias...

Marjorie abriu as hastes da tesoura, deixando o membro de Rony bem no alvo.

-M-marjorie – ele choramingava, suando. – Por favor...

-Devia ter escolhido uma mulher normal para enganar, Rony... Me enganar resulta nisso; algo sempre é perdido...

-Pode ir se afastando, sua vadia...

Uma voz engrolada anunciou a chegada de outra garota. Ela tinha um cabelo dourado e encaracolado e estava visivelmente alcoolizada, com uma garrafa aberta de uísque de fogo na mão, e aproximava-se titubeante.

-Marjorie, não pode fazer isso com ele! – a jovem largou a garrafa, que se espatifou aos seus pés.

-A vadia da sua amante resolveu aparecer – disse Marjorie olhando para Rony.

-Amante? Eu nunca vi essa garota na minha vida!

-Afaste-se dele, Marjorie! – gritou a loira.

Marjorie afastou a tesoura de Rony e, com ela postada ao lado do corpo, encarou a jovem.

-E quem vai me impedir? Você?

-É...

-Então por que não vem até aqui e tenta tirar a tesoura das minhas mãos?

-Isso é exatamente o que eu estava pensando em fazer... – a garota avançou para Marjorie e as duas começaram a brigar pela posse da arma.

Marjorie se livrou da garota com um empurrão e, quando a jovem bêbada estava prestes a tentar um novo ataque, ela ergueu a ponta da tesoura e rasgou o antebraço da rival, provocando um corte longo que impregnou a tesoura de sangue.

Machucada, a jovem caiu sobre o piso do salão, assustada e berrando de dor, fitando o ferimento como se não acreditasse no que via.

-MARJORIE! – Rony arregalou os olhos, usando os restos do calção para tentar cobrir a nudez. Ele apontou para alguns colegas de equipe. – Por favor, tirem essa garota daqui, levem-na ao hospital, a qualquer outro lugar! – ele esfregou os olhos. – Minha nossa, que escândalo...

Marjorie finalmente largou a tesoura, olhando para a jovem ferida numa espécie de transe. Encolhendo-se, envergonhado pelo traseiro ainda exposto, Rony curvou-se e pegou a tesoura antes que Marjorie lembrasse de apanhá-la novamente. Ele arremessou-a atrás do vestiário, escondendo-a.

Olhou novamente para o salão.

Marjorie o encarava com o mesmo propósito psicótico no olhar.

-Marjorie... juro pra você, não conheço essa garota... – ele agachou-se ao lado dela. – Deve ser uma aproveitadora, não faço ideia de quem seja...

Ele chegou a estremecer quando ela o agarrou. Mas não era para atacá-lo...

Marjorie o abraçou.

-Eu... Não estou entendendo... – disse Rony.

Marjorie não respondeu. Simplesmente levantou-se ao lado dele. Os fotógrafos registravam cada movimento da cena.

-Está tudo bem – disse Marjorie, fazendo um sinal com a mão para tranquilizá-los e evitar as perguntas. – Tive um ataque de ciúmes, meu namorado é tão popular e charmoso... – ela deu um risinho. – Ele me explicou que se tratava apenas de uma amiga, não é mesmo, querido?

-É... C-claro... – Rony respondeu maquinalmente. – É i-isso aí!

-Sr Dwight, tem outro calção para o Rony? – perguntou Marjorie.

-Sim, no baú ali no vestiário – disse o técnico, apalermado com os últimos acontecimentos.

-Vamos, querido, vou ajudá-lo – Marjorie acompanhou Rony e ocultou-se com ele atrás da barreira do reservado de madeira.

-Ainda não entendi nada! – ele sussurrou para ela.

-Publicidade, meu bem! Você é um jogador novato, receberia uma notinha simplória nos jornais e revistas por sua contratação – ela abriu o baú e arremessou o calção novinho para ele. – Tive que apelar para o dramalhão a fim de deixar a noite mais interessante. O povo adora um barraco! Assim todos conhecerão o nome do novo goleiro do Chudley Cannons!

-O nome e outras partes, não é? – Rony vestiu o short.

-Mas até isso conspira a seu favor –Marjorie acariciou-lhe a virilha por cima do tecido.

-Podia ter me avisado!

-Ah, o efeito não seria o mesmo, seu pavor garantiu a veracidade.

-Marjorie... você feriu aquela garota, e se o corte atingisse em outro lugar?

-É, isso não estava planejado, mas no fim serviu melhor que a encomenda! – ela deu um riso travesso. – Ela ficou tão apavorada! E você também ficou muito assustado com tudo o que estava acontecendo... O que você pensou na hora? Imaginou que eu tivesse mesmo motivo para ficar brava daquela maneira? Tem algo a esconder, Rony?

Rony engoliu em seco, não respondeu e saiu do vestiário, erguendo a tenda para sair do lado contrário à festa.

-Rony, você precisa voltar, todos querem fotografar você no uniforme!

-Preciso me recuperar do susto, só um minuto... – com as mãos na cintura, ele tomou fôlego. – Quem era a garota que trouxe para fazer o papel de amante?

-Isabella Hastings.

-Isabella...? Ei, essa garota é uma Desmemoriada igual a nós dois, ela também estava na sala em que Rebecca foi morta! Mas... ela não tinha essa aparência! Os cabelos dela eram louros e o rosto muito mais bonito... E... Poxa, Marjorie, você arrumou uma garota que estuda em Hogwarts! Todos verão as fotos dela nos jornais e saberão que minha provável amante estuda lá!

-Não, ninguém irá reconhecê-la, e eis aí todo o brilhantismo da minha ideia. Isabella é metamorfomaga!

-Metamorfomaga?

-Sim! – confirmou Isabella, se aproximando às suas costas. Rony deu um salto ao reconhecer a voz, mas o que viu ao olhar para a garota o arrepiou da cabeça aos pés. Isabella agora estava com o corpo mais esguio, os cabelos curtos brilhando num chanel pintado de vermelho berrante. – Não precisava cortar o meu braço, Marjorie! Isso não estava no nosso trato!

-Ah, pare de choramingar, recebeu uma bela grana por esse teatrinho! Seu namorado estava com Essência de Ditamno no bolso, eu já o deixei preparado! Acontece, meu bem, estava com um tesourão na mão, não com um espanador!

Rony viu um dos paparazzi surgir ao lado de Isabella.

-Pô, amigo, fotos agora não... – reclamou Rony.

-Relaxa, estou só cuidando da minha noiva – replicou o paparazzi. – Sou Ethan Cooper.

-Mais um Desmemoriado. Lembro de você – disse Rony, apertando a mão do rapaz. – Você também estava a par de tudo isso?

-Topei a encenação, mas não o corte. Quando vi o braço da Bella cortado, corri para aplicar o Ditamno... – ele examinou o braço da jovem, que estava incólume, sem sequer um arranhão. – Mas não pense que isso ficou sem o troco devido, Marjorie.

-Do que está falando? Que troco?

-Avisei a todos os outros paparazzi que Jen Star está dando uma festa hoje à noite e vai abrir o evento para a imprensa.

-Você não fez isso... Preciso contar a eles que está mentindo...

-Mentindo? A festa vai mesmo rolar! Eu mostrei a eles os convites que eu e Bella recebemos.

-Por que não me falou sobre a festa? Tinha garantido que todos ficariam por aqui até o fim, que hoje não tinha nenhum outro evento importante!

-Não havia. Até onde eu saiba, a festa de Jen não foi divulgada para a imprensa. Eu preferia ter a exclusividade das imagens da festa, mas abro mão só pra ver a apresentação do seu namorado vazia.

-Não... vou falar sobre a sua mentira... os paparazzi não podem sair...

-Tarde demais – Ethan colocava um filme novinho na máquina enquanto conversava com Marjorie. – Já saíram correndo como um rebanho em fuga.

-Não! – gritou Marjorie, afastando a aba da tenda e retornando ao salão de festa. Ela viu a horda de repórteres que deixavam o local, equilibrando tripés de câmeras flutuantes e rolos de pergaminho enquanto saíam às pressas. – Por que aquela estrela imbecil foi dar uma festa justo hoje?

-Não se escolhem datas de aniversário – respondeu Ethan. – Jen está comemorando o aniversário de uma amiga.

-Que amiga?

-Lanísia Burns... – Ethan recuou, apressado, passando a alça da câmera em volta do pescoço. – Relaxa, a confusão toda gerada pelo seu "ciúme" vai render uma página inteira dos tabloides!

-A primeira página?

-Bom, agora não dá pra garantir, não é? Estamos falando da cobertura de um evento com "Jennifer Star", ela é a cereja do bolo! Vamos, Bella?

-Nunca mais ajudo você em nada – disse Isabella olhando feio para Marjorie. – Aproveite com as moscas o resto do seu evento...

-Você vai me pagar, camaleoa dos infernos! – Marjorie cuspiu no chão. – Vagabunda.

Mal humorada, Marjorie aproximou-se de Rony, que postou-se diante do símbolo do Chuddley Cannons para posar para o fotógrafo contratado pela garota, o único profissional que não se movera.

-Marjorie, não precisa fazer essa cara! – disse Rony. – O que vale é a emoção de me ver vestir essa camisa pela primeira vez!

Ela assentiu, irritada. Enquanto Rony continuava posando com o uniforme e a nova Firebolt, sorrindo tolamente, Marjorie recuou para as sombras do entorno da tenda. Retornou, equilibrando-se nos saltos plataforma, à casa aparentemente vazia, onde desceu as escadas para o porão.

Os rapazes do Nêmeses estavam por lá, numa aparente disputa de dardos. Draco Malfoy acabava de cravar um dardo bem em cheio no nariz do tabuleiro circular com o rosto de Hermione Granger, um entre os cinco espalhados pelo porão, cada qual estampado com sua respectiva Encalhada.

-Temos que providenciar um tabuleiro para a Jennifer Star – Marjorie praticamente cuspiu o nome. – A vagabunda pop anda próxima demais das Encalhadas. Vou fazer um tabuleiro para dardos com a cara dela e terei o maior prazer de furar o rosto inteirinho! – ela olhou de soslaio para Draco. – Espero que tenha pego aquele protótipo de camaleoa e vadia experiente que atende pelo nome de Isabella Hastings.

-Sim, já paguei. Cortesia do Sr. Bennet – ele disse, pomposo, apontando para si mesmo.

Marjorie aproximou-se da mesa no canto do porão, empurrou alguns anuários para o lado, liberando espaço, e apanhou um dos três tabuleiros inutilizados.

-A vaca da popstar prefere se juntar com a escória, ser amiguinha das Encalhadas? Problema dela... Já virou um dos nossos alvos – disse Marjorie, abrindo uma revista de celebridades que trazia um pôster da cantora. Destacou a foto do rosto de Jennifer e, colocando-a acima do tabuleiro arredondado, apontou a varinha e murmurou o encantamento. A imagem integrou-se à madeira, deixando a face de Jennifer atrás do pontinho vermelho que indicava o centro do tabuleiro. – Perfeito!

-MARJORIE! – chamou uma voz de cima da escada de acesso ao porão.

-É o Rony! – exclamou Afonso, alarmado. – Devemos esconder as tabuletas...?

-Claro que não, sabe muito bem que o tapado não desce aqui. Vou ver o que ele quer – Marjorie alteou a voz. – Já estou indo, querido! – e com uma falsa empolgação subiu as escadas.

Rony continuava usando o uniforme; ela cumprimentou-o com um beijo na boca e apalpou-lhe o corpo:

-Hum, ficou uma graça nesse visual esportista!

-Você sabe que o esporte no qual mando melhor eu não preciso de roupa nenhuma – ele riu. – Percebi que ficou chateada com a festa na mansão da Jen Star. Se quiser participar, podemos ir pra lá agora. Os jogadores do time já foram embora e a imprensa já "vazou" mesmo...

-Até parece que podemos ir entrando assim na mansão de uma celebridade! Não fomos convidados.

-Quem disse que eu não fui? – Rony puxou um convite do cós do calção. – Recebi ontem. E aqui diz que é válido para mim e para dois acompanhantes. Quem melhor para me acompanhar do que a minha namorada?

-Oh, Rony, você é o máximo! – ela abraçou-o e beijou-o animadamente. – Por que será que o convidaram? Você nunca foi amigo da Lanísia.

-Ah, mas conversávamos bastante quando eu namorava a Mione.

-Sei... Foi a desgra... – ela parou e respirou fundo – ...foi a Hermione que pediu para chamá-lo. Óbvio. Tem umas que não desistem mesmo...

-Ela na certa estará por lá. Se achar melhor não irmos...

-Ah, mas aí é que não deixarei de comparecer, já que ela fez questão da sua presença por lá. Já estou arrumada, só vou retocar a maquiagem e dar um jeito nos meus cabelos, não demoro... – enquanto avançava pelo corredor, Rony gritou às suas costas.

-Vai chamar um dos Nêmeses para ir junto?

-Sim, veja qual deles quer acompanhar-nos!

Rony fez um sinal de joia com o dedo.

-Essa noite promete, Hermione. Você não perde por esperar – murmurou Marjorie, a penumbra do corredor ocultando seu olhar maníaco.

De sua parte, Rony não abriu opção de escolha para os Nêmeses; ao apoiar-se no batente da porta e curvar-se para a entrada do corredor, gritou:

-AFONSO! Marjorie e eu temos um convite pra você!

Enquanto esperava o rapaz subir, ele olhou para o alto, onde Marjorie já havia desaparecido para se embelezar, e murmurou para si mesmo:

-Nossos suspeitos estarão na hora certa, no lugar certo, para receber seus Lembróis... Consegui, Mione. Consegui.


Kleiton envolveu Celine num abraço apertado, colocando as mãos sobre as costas nuas da jovem.

-Está tão donzela com esse ar virginal – debochou ao pé do ouvido dela – Que maravilha contemplar isso... – afastando-se, com as mãos sobre as faces de Celine, Kleiton falou. – Aqui estamos. Face a face. Sem espelhos ou anos nos separando. Sem barreiras. Está feliz com isso, Flor de Liz?

-Eu... acho que está me confundindo... – disse Celine, tropeçando nas palavras, aflita.

-Claro que não! Diz aí, Augusto? – Kleiton envolveu-lhe o ombro, dando tapinhas amistosos no ombro do rival. – Pele impecável, cabeleira negra sem sequer um fio grisalho... é, meu caro, os bons tempos voltaram, os garotos estão de volta!

-Augusto? Celine? – Lucas apontou-os, confuso. – Achei que fossem Mathias Berger e Daphne Marshall...

-Mathias e Daphne? – riu Kleiton, divertindo-se. – Nomes tão estúpidos combinam mais com vocês mesmo, deviam adotar esses pseudônimos definitivamente...

-Nós de fato somos Mathias e Daphne – disse Augusto com a voz firme. – Você é que deve ter-nos confundido com algum casal conhecido. Nem mesmo sou desse país, eu vim do Chile.

-Engraçado, achei que toda a mercadoria falsificada vinha do Paraguai – debochou Kleiton.

Augusto agarrou o braço de Celine.

-Espero que consiga encontrar os seus amigos em breve – disse Augusto, dando as costas para Kleiton e arrastando Celine junto; Lucas apressou-se para acompanhá-los.

-Será difícil – debochou Kleiton. – Meus amigos andam um tantinho encrencados com a justiça...

Apressado, Augusto mostrou os convites para um dos guardas postados na entrada dos amplos terrenos da mansão e entrou com Celine e Lucas.

-Cara maluco, não é? – perguntou Lucas, olhando por cima do ombro. – Na certa não vê os amigos há um tempão. Teve certeza absoluta de que falava com eles!

-Já deve ter tomado umas e outras – disse Augusto, acentuando o sotaque latino.

-Ele não deve gostar tanto desses amigos. Tinha horas em que parecia debochar dos dois... Bom, vou dar uma volta por aí e deixá-los em paz. Até logo! - Lucas ergueu a máscara e se afastou.

Os dois ficaram contemplando o rapaz desaparecer entre os convidados e então, a sós, puderam conversar à vontade:

-Mas que sufoco! – exclamou Celine. – Nunca imaginei que Kleiton estaria por aqui!

-Talvez queira se integrar aos alunos de Hogwarts, ou ver a irmã – disse Augusto. – De qualquer modo, sabíamos que esse encontro e reconhecimento seriam inevitáveis.

-Ele quase nos revelou ali, Augusto! E se... E se Kleiton fizer isso em Hogwarts?

-Não fará.

-Como pode ter tanta certeza?

-Porque ele quer ficar perto de você. Não viu a forma como ele a abraçou? A emoção que transbordava no olhar dele? Kleiton é um assassino desgraçado, mas eu estava certo: ele ficará felicíssimo ao saber que você também estará em Hogwarts porque continua perdidamente apaixonado por você!


Do alto, na sacada do quarto de Jennifer, Lanísia observava o casal conversando, enquanto Hermione dava as últimas instruções sobre o plano dos Lembróis.

-Vamos entregar as lembrancinhas momentos antes de cantar os parabéns. Precisamos dos suspeitos sentados em suas mesas no momento em que tocarem os seus Lembróis, para que consigamos vigiar cada um deles. Não esqueçam que os pacotes com Lembróis são os únicos que trazem laços dourados, enquanto aqueles que estão amarrados com laços prateados possuem simples redomas de vidro.

-Então dividimos assim: três Encalhadas entregando as lembrancinhas e duas na vigia aqui em cima? – perguntou Alone.

-Isso mesmo. Daqui temos uma ótima visão, e aquelas que estiverem circulando pelo salão também podem ficar de olho nos suspeitos e seus respectivos Lembróis. Não tem erro, dará tudo certo. Eles só vão notar a diferença das lembrancinhas quando for tarde demais... Lanísia, está prestando atenção?

-O quê? Ah, desculpem... Estava observando nossos convidados. Mathias Berger... o latino... já chegou.

-Parece que não consegue tirar os olhos dele – observou Hermione fitando a amiga com o canto do olho.

-Ai, mas que droga! Por que essa implicância toda, Mione? Começou com aquele papo esquisito perguntando se eu já conhecia o Mathias, que eu tinha prestado muita atenção nele, e agora fala como se eu estivesse babando por esse cara que sequer conheço... Qual é o problema?

-Eu a vi beijando o Mathias, é isso!

Lanísia empalideceu, retesando o corpo.

-O quê?

-É... vi vocês dois no maior amasso...

-Não posso acreditar que traiu o meu pai, Lanísia! – ralhou Joyce. – O que aconteceu? Ficou tão preocupada achando que ele e minha mãe estivessem juntos que resolveu dar o troco?

-Não! – gritou Lanísia. – Não, Joyce, isso não aconteceu! Mione, pare com essa brincadeira, isso nunca aconteceu!

-Não que você lembre, não é? – Mione fez uma pausa e respirou fundo. – Eu não tenho certeza se o que vi era real, mas desde então isso está me perturbando. Principalmente porque é visível o quanto você se sente atraída pelo chileno.

-Sim, ele é um gato, mas daí a ficar me esfregando com ele pelos cantos é bem diferente.

-Se a Lanísia pode ter feito e não lembrar... é por que ela pode ter feito isso durante o vácuo? – indagou Alone. – Hermione... por isso perguntou se havia a possibilidade de romper o vazio em nossas memórias? Você está começando a recordar tudo o que aconteceu?

Mione suspirou.

-Talvez.

-Não! – gritou Lanísia. – É um absurdo! Eu nunca beijaria Mathias ou outro cara qualquer!

-Lanísia, controle-se! – pediu Joyce. – Continue, Mione, por favor.

-Quando eu passei mal no banheiro da casa da Serena, eu... tive umas visões... flashes de momentos recortados, perdidos no espaço... imagens saltando diante dos meus olhos... fatos que podem ter acontecido durante o vácuo.

-Antes do crime? – indagou Alone.

-É... É, acho que sim... não estava na sala da Casa Withers. Tirando a pegação de Lanísia e Mathias, que estava rolando no dormitório mesmo...

Lanísia revirou os olhos, irritada.

-Você então não teve nenhum vislumbre de quem matou a Rebecca? – perguntou Serena. – Do momento do assassinato?

-Não. Mas também não foi propriamente uma lembrança... Não pode ter sido, porque o que eu vi não tem cabimento.

-Claro, eu não trairia o Augusto – disse Lanísia.

-Não é por isso – falou Mione. – Acontece que... enquanto vocês se beijavam, com direito a mordidinha no lábio e tudo... Daphne assistia tudo – ela apontou para a loura.

-Oh, ótimo isso – riu Lanísia. – E o que eu fiz para que ela ficasse contemplando a traição do próprio namorado? Lancei Petrificus Totallus nela?

-Não, isso que não faz sentido. Ela estava parada, tranquila, vendo vocês de modo tão conformado, e o namorado dela também não ligava a mínima para a presença da garota. Vocês se beijavam com voracidade, se apalpando, era tudo tão erótico...

-Algo impossível – disse Lanísia. – Francamente, Mione, e você ainda leva a sério uma visão dessas? Delírio total. Se formos levar em conta tudo o que assistimos em sonhos, Joyce já não faria mais parte das Encalhadas. Ela já pegou Hogwarts inteira em sonho, inclusive o Rony!

-Não posso evitar, meu subconsciente é depravado – disse Joyce encolhendo os ombros.

-Poxa, ficar irritada comigo por causa de um sonho? – lamentou Lanísia.

-Desculpe – disse Mione. – Parecia tão real. Não nos detalhes, mas o modo como eu presenciei tudo, fazendo parte daquilo a que assistia. Acho que minha mente juntou tudo: peguei o cara mais lindo na sala, juntei com você e montei esse sonho tresloucado. Não faltou nem o sangue... Seu sutiã estava manchado de sangue.

-Bizarro. Todo mundo sabe que saí daquela sala sem ferimento algum – disse Lanísia. – Passei anos ignorando todos os caras que davam em cima de mim, esperando pelo Augusto, e agora que estou há alguns meses longe dele ficaria com um latino comprometido? Não tenho vocação pra ser a outra, nem tenho predileção por rapazinhos. Não troco por nada toda a experiência de Augusto e o modo como ele sabe ensinar muito bem. Juntou tudo, sabem? Ele angariou conhecimento no amor e ainda tem jeito para a didática...

Lanísia beijou o rosto de Hermione.

-Está tudo bem... – ela limpou a marquinha do beijo no rosto da amiga. – Ih, acho que vou precisar retocar o brilho. Me empresta o seu brilho, Alone?

Ela pegou o brilho labial e foi até o espelho no corredor. Enquanto decorava a boca, Lanísia sentiu uma ardência no cantinho do lábio. Inclinou-se ainda mais para o seu reflexo e puxou o lábio inferior para baixo para olhar melhor.

Havia uma marquinha ali.

Ela ouviu novamente as palavras de Mione...

"Acontece que... enquanto vocês se beijavam, com direito a mordidinha no lábio e tudo... Daphne a tudo assistia".

Não podia ser... Só podia ser uma coincidência. Devia ser uma coincidência.

Mas a marquinha estava ali.

-Lanísia?

Ela assustou-se quando Mione a chamou. Derrubou o brilho labial no chão e curvou-se, atrapalhada, para pegá-lo.

-Está tudo bem?

-Claro, Mione, tudo ótimo...

Mesmo enquanto falava com a amiga, tocava com a língua o vergão no lábio, a marca que, de modo surpreendente, podia ter sido deixada por Mathias Berger...


Lanísia afastou-se do salão barulhento e cheio de convidados, sentindo com a língua a marca deixada no lábio pela mordidinha dos dentes de

(Mathias)

não, de seus próprios dentes, talvez provocada durante a queda que se seguiu ao encantamento responsável por apagar as memórias, um mero acidente; ela podia até mesmo imaginar seus maxilares travando durante a queda, um dente travesso perfurando o lábio, o gosto metálico do sangue pontuando o sabor da tragédia.

Ainda assim era coincidência demais...

Lanísia caminhou até a pequena ponte arqueada que cruzava o rio. Avançou com os dedos deslizando pela amurada, o olhar fixo na cascata que jorrava entre as pedras e agitava a água de outro modo plácida do rio, tremeluzindo o reflexo da lua cheia.

Absorta em seus pensamentos, Lanísia não notou que estava sendo observada da saída do salão.

Augusto a vigiava de perto entre a multidão e notou o momento em que ela deixou o ambiente festivo em busca de solidão. Quando Celine saiu em busca de uma nova taça de uísque de fogo, ele aproveitou para acompanhar Lanísia bem de perto, tomando cuidado para que a jovem não percebesse. Ele pôde ver que apesar de tanta atenção e a enorme festa que Jennifer havia preparado, faltava algo para que a noite de Lanísia fosse mais feliz.

Ela sofria sem a sua presença.

Augusto olhou para trás, como se alguém o estivesse vigiando. Tentou avançar, mas suas pernas vacilaram; na verdade, ao olhar para baixo, percebeu que estavam tremendo.

-O que está acontecendo comigo? – sussurrou para si mesmo.

Ele começou a dar passos em direção à Lanísia, mas as fortes batidas do seu coração o fizeram parar. Suas pernas continuaram bambas e ele apoiou-se na lateral da porta para não cair.

-Pareço um jovem inexperiente...

Augusto suspirou. E olhou para o seu objetivo. Sua mente parecia ter retrocedido no tempo, acompanhando o rejuvenescimento do corpo, fazendo com aquele sentisse, e agisse, como um jovem apaixonado – impulsivo, ansioso, trêmulo de excitação, o corpo no ápice do desejo com níveis de testosterona batendo recordes sucessivos.

Ele precisava driblar esses anseios juvenis, convencer a própria mente de que ele era

(fora)

um homem vivido, que sabia onde colocar as mãos, controlar a voz e a respiração, agir corretamente diante de uma mulher. E aquela era Lanísia, aquela que já fora conquistada... ele não podia revelar a verdade, mas daria tudo por um minuto, ou dois, ao lado dela.

Com as mãos no bolso, Mathias afastou-se do salão, desceu o caminho de cascalhos e foi até a ponte.

-Uma noite tão bela como essa, e você sozinha aqui fora?

Lanísia olhou para o lado e viu Mathias aproximar-se.

-Oh... você.

-Deve ser a aniversariante, não é? Lanísia...

Lanísia assentiu. Mathias retirou a máscara. Os detalhes do rosto eram tão familiares.

-E então, o que faz aqui? Todos os seus amigos estão lá dentro...

-Só estou pensando... – Lanísia virou-se para a cascata. – Olhando essa linda cascata, aproveitando essa noite linda, como você mesmo disse...

-Está frio... – Mathias tirou o paletó e entregou para Lanísia. – Vista isso, ficará mais aquecida.

-Obrigada – agradeceu Lanísia, colocando o paletó e sacudindo os cabelos negros que brilhavam com a luz do luar.

Mathias olhou para Lanísia, e uma leve vertigem o atingiu.

Seus pés o guiaram para bem perto dela; Lanísia notou a rápida aproximação do rapaz, arqueou a sobrancelha. O cabelo caiu um pouco no rosto da garota, mas não foi problema; Mathias estava pronto para tirar qualquer coisa que impedisse sua visão privilegiada.

Delicadamente, ele tirou a máscara de Lanísia, e a beijou. Suas mãos deslizaram pelas curvas da amada, delineadas pelo belíssimo vestido; os dedos pareciam encaixar-se perfeitamente no quadril que ele conhecia muito bem.

Mathias a soltou. Com os olhos marejados, Lanísia perguntou:

- Augusto...

Sorrindo, ele confirmou, selando o reencontro, e então voltou a beijá-la.

Aquele momento era dele, Augusto Welch, e da mulher que despertava todo o amor que ele nunca pensou que pudesse existir.

-Mathias... Mathias?

Aquele nome falso intrometeu-se em sua visão, tirando-o do devaneio, forçando-o a voltar à realidade. Não era possível, estava começando a delirar.

-Você está bem? – perguntou Lanísia, olhando para o jovem, intrigada.

-Estou ótimo – ele forçou um sorriso.

A visão parecera tão real. Ele podia tocá-la, beijá-la... Podia falar a verdade e dizer que sim, ele havia voltado para ela.

-Tem certeza que está bem? Ficou paradão aí, olhando para mim, e está... suando.

-Absoluta – garantiu o rapaz, pigarreando, enquanto usava a manga da camisa para secar o rosto impregnado de suor, já que tinha prometido à Celine que evitaria ao máximo utilizar o costumeiro lenço. – Mas então, você estava falando que saiu daquela magnífica festa, organizada por uma mega popstar, para pensar? É daqueles momentos em que se reflete sobre a nova idade? – brincou Mathias.

-Não... Não é isso, eu só precisava tomar um ar.

Mathias sorriu.

-Desculpe, mas qual é a graça? – Lanísia perguntou ligeiramente irritada.

-É que você parece estar esperando alguém... – Mathias passou para o outro lado de Lanísia. Ao passar, o cheiro do perfume da amada invadiu as narinas do rapaz, e por alguns segundos ele quase chegou a tocá-la. – Olhando assim, tão profundamente para essa cascata. Como se ela guardasse alguma lembrança. Já esteve aqui antes?

Augusto já tinha em mente o que Lanísia poderia falar, mas não faria mal ouvir aquela voz que tanto o enlouquecia.

-Não, essa é a primeira vez que venho até a casa da Jennifer... Não é exatamente essa cascata que me traz boas lembranças... Uma pessoa... – Lanísia olhou para o rapidamente para o rapaz, e fez uma careta. – É uma longa história...

-Bom, temos um ano inteiro para você me contar... Se quiser, é claro – disse Mathias dando um sorriso para ela.

Lanísia devolveu um doce sorriso para Mathias, mas a lembrança da visão de Mione fez com que ela despertasse. Não podia ficar perto daquele rapaz.

Beijos, carícias, mordidinhas no canto da boca.

Ela lembrava-se de cada palavra dita pela amiga, e só tocar a consequência da mordida com a língua já fazia com que Lanísia entrasse em pânico. Ela não podia trair Augusto...

Mas de repente o olhar de Mathias recaiu sobre os seus lábios.

Augusto deu um passo em direção à garota, pronto para fazer a ilusão tornar-se realidade...


Celine já estava cansada de andar pelo salão em busca de Augusto. Não adiantava perguntar por Mathias, uma vez que quase ninguém o conhecia. Ela relanceou o olhar para a mansão, pensando que Augusto poderia ter entrado. Depois olhou para o lago e reconheceu as duas figuras sobre a ponte.

Celine tirou a máscara e agarrou-se ao tronco da árvore ao lado.

-Não acredito que ele está fazendo isso.

Celine observava o modo como ele conversava com a garota. Parecia, ao menos, que até aquele momento ele não havia contado a verdade. Lanísia estava calma demais e distante demais para alguém que pudesse ter descoberto a verdade.

Ela teve que agir rápido; Augusto estava fraquejando, prestes a lançar o segredo dos dois pelos ares.

Enquanto tentava equilibrar-se no caminho de cascalhos, Celine viu o jovem Augusto aproximar-se lentamente de Lanísia; mais um pouco e ele estaria beijando a jovem...

-MATHIAS! – Celine gritou.

Augusto estava a poucos centímetros do rosto da jovem, com uma mão quase lhe acariciando o rosto, quando ouviu a voz de Celine chamando-o com seu falso nome.

O nome que quebrava o encanto.

Mathias voltou-se para Celine.

-Daphne... meu amor, eu... estou indo... – ele tirou o blazer dos ombros de Lanísia e vestiu-o novamente. Inclinando-se perto do ouvido da garota, sussurrou. – Feliz aniversário.

Lanísia ficou parada, sem reação, olhando Mathias descer da ponte e ir ao encontro da namorada.

Levou a mão à nuca, sentindo o corpo arrepiar-se com os efeitos daquele sussurro gostoso ao pé do ouvido... Que corpo... que voz... que homem...

Ela não podia negar: a atração existia.

A marca de uma possível mordidinha estava ali... a atração por Mathias Berger também...

Isso a encheu de pavor: aos poucos, começava a acreditava que Hermione não tivera um sonho, mas de fato um flash do passado. Ela não podia mais afirmar com plena convicção que jamais beijaria Mathias Berger...

O latino a excitava.

Mas ainda faltava um detalhe, que poderia jogar por terra a suposta visão de Hermione...

A mancha de sangue no sutiã.

Lanísia desceu da ponte, recordando que, na noite do crime, perplexa por tudo o que ocorrera, simplesmente tirara a roupa e jogara num canto do quarto, junto com outras peças. O conjunto que vestira naquela data fatídica estava com ela ali, em um dos malões, pois era uma de suas lingeries favoritas.

Enquanto disparava por entre os rostos mascarados, Lanísia revia em sua mente o momento em que atingira o corpo de Rebecca durante o duelo no ateliê de pintura de Augusto, o sangue esguichando numa tela em branco...

Se a existência das manchas fosse confirmada, Lanísia não só teria certeza de que beijara Mathias; afinal, tinha um bom palpite sobre a quem pertenceria o sangue, e tal pessoa no momento estava morta...


Ocupando uma das mesas, Hermione, Serena, Alone e Joyce estavam de olhos fixos na entrada da festa.

-Será que Rony não conseguiu convencer a Marjorie a aparecer? – perguntou Mione. – Estão demorando demais... Ai...

Mione parou de falar. Com uma careta de dor, caiu da cadeira, desabando no chão.

-Ai, repara nos olhos da Mione! – apontou Serena, horrorizada. – Ela está começando a ter outro ataque daqueles!

-Isso vai assustar os convidados – disse Alone. – Vamos rolá-la pra debaixo da mesa!

Alone, Joyce e Serena empurraram Hermione, escondendo-a debaixo da mesa quadrada, deixando-a oculta pela toalha comprida que quase tocava o chão. As três também ficaram ali embaixo, escondidas, olhando para a amiga que começava a estrebuchar...

Flashes...

Hermione percebeu de imediato que estava na sala comunal da Casa Withers. Via o cavalo alado na tapeçaria atrás de Alone, para quem ela olhava enquanto registrava um clarão iluminar as paredes do recinto.

-MEMORIA EZABATZA? Alone perguntou para ela enquanto o facho luminoso crescia. – Que feitiço é esse...?

Hermione viu o clarão dominar sua visão, corpos indefinidos caindo como pinos de boliche ao seu redor, um a um, até derrubar Alone e, posteriormente, ela mesma, que sentiu as pernas fraquejarem, o negror substituir a claridade do feitiço enquanto uma dor lancinante perfurava a sua testa...

Flashes...

Ela arquejou ao voltar para si, os olhos entrando em foco enquanto as costas arqueavam. Respirando aceleradamente, Mione apoiou-se na mesinha para levantar-se.

-Etuzabatza... Ezabatzi...

-Ai, depois de babar e virar os olhos, Mione começou a falar estranho... tô ficando com medo, amiga! – Serena agarrou-se ao braço de Joyce. – Será algum espírito agourento?

-Você vai ver ter muitos motivos para ter medo se não calar a boca e continuar a me desconcentrar! – ameaçou Mione. – Como era mesmo... Ezabatzi, não... Não... Era Ezabatza!

-Hermione, o que está falando? – perguntou Alone.

-É, que língua é essa? – indagou Serena.

-Papel, eu preciso de papel para anotar... – ela ajeitou-se pegando um guardanapo do porta-guardanapos da mesa; Alone abriu a bolsa e passou-lhe uma pena – Obrigada... É... Preciso escrever o encantamento antes que me esqueça... é, foi isso que a Alone disse... é...

-Mione, está realmente nos assustando... – falou Serena.

-Eu tive mais um flash de memória... Quero dizer, acho que foi um flash, e desta vez estava bem no saguão da sala comunal da Casa Withers, no local do crime! Devo mesmo estar lembrando o que aconteceu no momento do assassinato!

-O que você viu dessa vez? – perguntou Serena.

-Alone comentava comigo o nome de um feitiço, acho que estava repercutindo o encantamento dito pelo assassino, antes que um clarão nos atingisse, e creio que era o Feitiço da Memória!

-Obliviate?

-Não, Alone... – disse Mione, erguendo o guardanapo e mostrando às amigas a anotação feita às pressas. – Memoria Ezabatza... Meninas, se esse feitiço realmente existir, teremos a prova de que estou mesmo recordando o passado e não tendo apenas sonhos delirantes, porque tenho certeza de que nunca ouvi esse encantamento antes!

-Mas aquele outro sonho... ou flash... que você teve sobre a Lanísia não tinha fundamento algum! – lembrou Joyce.

-Talvez haja alguma explicação... A veracidade de uma dessas visões comprova a existência de todas as outras. Eu preciso conversar com Lanísia sobre a possibilidade dela ter realmente ficado com o Mathias. Vocês sabem onde ela está?

-Subiu – disse Alone. – Acho que não estava se sentindo muito bem. Gravidez, sabe como é...

Hermione correu em direção à casa, deixando as amigas sozinhas. Alone provou um dos canapés:

-Será o máximo se Mione estiver mesmo recordando o que aconteceu, não é?

-Claro! Se isso for verdade, vou torcer para que a Mione revire os olhos e babe nesse orgasmo sinistro sempre que for possível! – Serena olhou para o lado e percebeu que Jennifer Star havia se aproximado e, pela expressão horrorizada no rosto da cantora, havia escutado a sua frase. – Oi, Jen! – cumprimentou, tímida.

-Oi, meninas! Pelo que ouvi, acho que estão se divertindo à beça, hein? Principalmente a Mione.

-A festa está ótima – elogiou Alone.

-Realizada bem no improviso, mas acho que deu pra agradar.

-Com a presença de Jennifer Star e os Esdrúxulos não há quem possa reclamar – disse Serena.

-Ai, Axel até que está bem comportadinho hoje – comentou Jennifer. – Não veio encher o saco por enquanto...

-Isso é... esquisito nele? – perguntou Joyce, preocupada.

-Muito. Axel costuma não me deixar em paz. E o engraçado é que quando eu o chamei para a festa em minha casa, ele nem parecia disposto em participar. Só se entusiasmou de vez quando eu disse que era o aniversário da Lanísia, disse que não ia faltar porque o amor da vida dele estaria presente.

-O amor da vida dele... você? – indagou Joyce.

-Sim! Mas é o que ele diz. Axel está preocupado demais em amar a si mesmo pra amar outra pessoa... Por mim, não convidaria Axel e nenhum outro Esdrúxulo, mas como a Mione disse que era importante que todos os Desmemoriados que estiveram na sala da Casa Withers estivessem presentes, fiz esse esforço. Devo uma a vocês, não é? Se não fossem me socorrer quando Ted Bacon me sequestrou, estava perdidinha.

O solo de uma guitarra atingiu os ouvidos de todos os presentes no salão. Axel testava o som do instrumento, fazendo questão de flexionar bem o braço onde o J tatuado se destacava em tamanho gigante. Alone, Joyce, Serena e Jennifer olharam para o palco. Axel, todo presunçoso, deu uma piscadinha e mandou um beijinho.

-Hum, sabemos bem quem recebeu esse mimo – disse Serena olhando para Jennifer.

-Viram? Ele não me deixa em paz! – exclamou a cantora, exasperada.

-Sei não... – Joyce franzia a testa, tentando deduzir se o olhar de Axel era destinado a ela ou a Jennifer, que estava sentada bem ao seu lado. – Jen, precisamos ficar bem longe uma da outra.

-Por quê?

-Sou a assessora do Axel, esqueceu? Não quero que ele perceba o quanto nos conhecemos. Vai ficar me usando como menina de recados!

-Oh, claro, tudo bem – disse Jennifer. – Alone, troca de lugar comigo?

-Isso, vamos rapidinho... – e, baixando a voz. – Preciso saber se os beijos da boca mais suculenta da música são pra mim ou não...

-O que disse? – perguntou Alone, sentando-se ao lado de Joyce.

-Nada... Isso, perfeito, Jen bem longe e... – Joyce olhou para o palco, mas Axel havia desaparecido. – Ué... cadê ele?

-Ali no canto – apontou Serena. – Foi buscar o microfone!

Axel ocupou o centro do palco enquanto os músicos, incluindo Franklyn Kyle e Michel Hewitt, ocupavam as laterais diante dos seus instrumentos.

-Queridos convidados! Antes de começarmos a encher esse ambiente de música de qualidade, damos aos nossos queridos repórteres a oportunidade de perguntarem o que quiserem unicamente a mim. É, eu sei que os Esdrúxulos são uma banda, mas quem quer saber alguma coisa sobre esses caras aqui atrás? Ninguém? Foi o que imaginei... Estou pronto para a sabatina! Quem começa? – Axel olhou para os jornalistas. – Hum... você, que eu conheço de onde mesmo?!

-Sou Ethan Cooper. Eu estava presente na sala da Casa Withers.

-Ah, tá, outro Desmemoriado... Estou revoltado até agora, Ethan, por não saber se na tarde do crime eu cheguei a fazer minhas quinhentas abdominais. Só de imaginar já sinto o meu tanquinho um pouco mais flácido. Também não lembro se malhei o traseiro, assim arrisco a firmeza dos meus glúteos e não poderei concorrer ao Rabo de Ouro do próximo ano. Qual a sua pergunta?

-Na verdade eu queria uma foto em close da sua tatuagem e apenas saber a quem ela foi destinada. Pra incluir na legenda da foto, sabe?

-Caro Ethan, ess inicial do nome da garota mais bela que existe em todo o mundo...

Jennifer ergueu a máscara roxa salpicada de estrelinhas, tentando esconder-se:

-Não quero nem ouvir...

-A garota que conquistou o meu coração. Vou dar a dica primeiro aos meus colegas de Hogwarts que estão aqui presentes, ah, eles na certa vão matar logo de primeira, é uma garota muito popular: estou apaixonado por uma Encalhada!

-Encalhada... – murmurou Serena.

-Com a letra J... – completou Alone.

As amigas olharam para Joyce, arqueando as sobrancelhas; a líder das Encalhadas encolheu-se.

-Puxa, não sabia que meu sex appeal era tão intenso! – exclamou Joyce, como se estivesse admirada.

-Joyce, por acaso a sua menção sobre a Fogueira das Paixões tem alguma coisa a ver com essa súbita paixão do Axel Carver? – perguntou Alone, cruzando os braços, enquanto todos os estudantes de Hogwarts olhavam e apontavam, surpresos, para a Encalhada que fisgara o coração do cantor mais admirado de todo o mundo bruxo.


Com o malão aberto sobre a cama, Lanísia olhava, em choque, para o sutiã manchado de sangue.

-Foi tudo real... o que Mione viu realmente aconteceu – balbuciou Lanísia, sentindo as lágrimas turvarem sua visão. – Como o sangue da Rebecca foi parar aqui? Como? O que eu fiz depois de cortá-la no ateliê?

Ela respirou fundo.

-Eu não estava com a mesma roupa na sala comunal da casa Withers... Preciso achar as peças que usei na visita à casa do Augusto... – ela começou a espalhar as peças desordenadamente sobre a cama. – Onde estão? Onde?

Ela achou as peças debaixo de todas as outras roupas, como se estivessem escondidas.

As roupas estavam empapadas de sangue.

Um jorro cobria a metade do short bege, gotas recobriam a jaqueta, mas a peça em pior estado era a blusa tomara-que-caia – o pérola do tecido era visível em poucos pontos. O tecido estava endurecido pelo peso das camadas de sangue seco...

Lanísia ergueu a blusinha segurando-a, enojada, pelas pontas dos dedos.

-Lanísia, Lanísia, o que foi que você fez? – falou consigo mesma, como se tentasse conversar com o seu outro "eu", aquele ser que agira durante o vácuo e que ela não reconhecia... – Beijando desconhecidos... matando... escondendo pistas no fundo de uma mala... – ela começou a chorar, engasgando-se com o peso da culpa.

Será que matara Rebecca no ateliê e depois arrastara o corpo para a sala comunal da Casa Withers? Será que matara e outra pessoa, para protegê-la, desmemoriara as testemunhas?

-Se alguém olhar para essas roupas, vai pensar que eu matei Rebecca... Preciso me livrar dessas marcas... – apalermada, Lanísia olhou para o banheiro; agarrou as roupas manchadas e, enquanto avançava para o lavabo, retirou os sapatos de salto alto.

Com os pés descalços, aproximou-se da banheira e, determinada, abriu a torneira...


Hermione entrou de supetão na suíte ocupada por Lanísia.

Estava vazia. Ela reparou no malão revirado sobre a cama. Intrigada, correu para o banheiro contíguo ao quarto, cuja porta estava entreaberta. Estava prestes a falar com a amiga quando instintivamente se calou.

Havia algo errado ali.

Lanísia estava agachada diante da banheira, que desprendia vapores de água quente, água que borbulhava em tons carmesins que iam se espalhando...

Peças de roupa boiavam sobre a água, incluindo um sutiã branco, e Mione soube no mesmo instante que era a mesma peça que vira na visão, aquele que estava manchado de sangue...

-Tentando apagar os vestígios, Lanísia?

Ela tomou um susto tão intenso que se desequilibrou e caiu dentro da banheira, molhando o longo vestido branco de festa na água avermelhada. Quando veio à tona, seu vestido trazia um leve tom rosa-claro.

-Droga, minha roupa... Mione, eu posso explicar...

-Esse sangue é da Rebecca?

-Mione...

-O sangue é da Rebecca? Porque se for... Lanísia, me dê uma boa razão para não arrastá-la até o salão e mostrar que está coberta da cabeça aos pés por água misturada com o sangue da inspetora que foi assassinada! O que está escondendo, Lanísia? A quem está tentando proteger? O que é tão grave que nem mesmo suas melhores amigas podem saber? Fale a verdade antes que eu te arraste de uma vez!

Perplexa, cercada pela água que escurecia cada vez mais, banhada nos resquícios do sangue de Rebecca, ela não sabia o que responder...


N/A: Em comemoração ao aniversário de Lanísia, vou tentar postar o terceiro capítulo ainda em agosto. Deixe a sua review e até o próximo capítulo!