Só tem uma coisa especial que preciso comprar no caminho para a entrevista coletiva — é o Financial Times. O FT é de extremo o melhor acessório que uma mulher pode ter. Suas maiores vantagens são:
1. Tem uma cor bonita.
2. Custa só 0,85.
3. Se você entra numa sala com ele debaixo do braço, as pessoas a levam a sério. Com um FT debaixo do braço, você pode falar sobre as coisas mais frívolas do mundo e, em vez de acharem-na fútil, pensam que é uma intelectual de peso e que também tem interesses mais amplos.
Na minha entrevista para a Successful Saving, entrei segurando exemplares do Financial Times e do Investor's Chronicle e não me perguntaram nada sobre finanças. Do que me lembro, passamos o tempo todo falando sobre cidades para passar as férias e falando mal de outros editores.
Paro então numa banca de jornal, compro um exemplar do FT e coloco debaixo do braço, admirando minha imagem refletida na imagem da Denny and George.
Minha aparência não é ruim, penso. Estou usando minha saia preta da French Connection, uma camiseta branca da Knickerboxe um pequeno cardigã de angoráque comprei na M&S mas parece mais ser da Agnès B. E meus sapatos novos de bico quadrado da Hobbs. E, melhor ainda,apesar de ninguém poder ver, sei que, por baixo, estou usando meu lindo conjunto de calcinha e sutiã com botões de rosas amarelas. É a melhor parte de toda minha roupa. De fato, quase gostaria de ser atropelada para todo mundo poder ver.
É um hábito meu listar todas as roupas que estou usando como se fosse para uma página de modas. Faço isto há anos — desde a época em que lia Just Seventeen. Em cada número eles paravam uma garota na rua, tiravam uma foto e listavam toda a roupa que estava usando: "Camiseta: da Chelsea Girl; jeans: da Top Shop; sapatos: emprestados de uma amiga." Eu lia essas listas avidamente — e até hoje, se comprar algo numa loja que não esteja tão na moda, corto a etiqueta fora. Porque assim, se algum dia eu for abordada na rua, poderei fingir que não sei de onde é.
Enfim. Lá estou,me olhando,pensando que minha aparência está bem razoável, meio querendo que alguém da Just Seventeeen apareça com uma câmera — quando de repente meus olhos focalizam atentos e meu coração pára. Na janela da Denny and George há um anúncio discreto. É verde-escuro com letras creme e diz: LIQUIDAÇÃO.
Olho para ele, meu coração bate forte. Não pode ser verdade. Denny and George não pode estar em liquidação. Eles nunca têm saldo. Suas echarpes e pashminas são tão cobiçadas que é provável que conseguissem vendê-las pelo dobro do preço. Todo mundo que conheço no mundo inteiro anseia ter uma echarpe da Denny and George. (Exceto meus pais, obviamente. Minha mãe acha que qualquer coisa que não possa ser comprada na Bentalls de Kingston não é necessária.)
Tomo fôlego, dou dois passos à frente e abro a porta da pequena loja. A porta assobia e a simpática garota loura que trabalha lá olha para mim. Não sei seu nome mas sempre gostei dela. Diferente de algumas vendedoras antipáticas em lojas de roupas, ela não se importa se você fica séculos olhando as roupas que, na verdade, não tem condição de comprar. Geralmente o que acontece é que gasto meia hora desejando as echarpes Denny and Geroge, depois saio para a Accessorize e compro alguma coisa para me alegrar. Tenho uma gaveta inteira de substitutos de Denny and George.
— Olá — digo, tentando ficar calma. — Vocês... vocês estão em liquidação.
— Sim. — A garota loura sorri. — Um pouco incomum para nós.
Meu olhar varre a sala. Vejo fileiras de echarpes, cuidadosamente dobradas, com letreiros verde-escuros com os dizeres "50% de desconto". Veludo estampado, seda enfeitada com continhas, cashmere bordado, todos com a assinatura discreta "Denny and George". Elas estão em toda parte. Não sei por onde começar. Acho que estou tendo um ataque de pânico.

— Acho que você sempre gostou deste — diz a simpática moça loura, pegando uma echarpe de um azul-acinzentado suave na pilha à sua frente.
Ah, Deus, sim. Lembro-me desta. É de um veludo de seda, sobreposto com uma estampa de um azul mais claro de bolas e contas cintilantes. Contemplo-a, posso sentir os pequenos fios invisíveis, silenciosamente atraindo-me em sua direção. Preciso tocá-la. Preciso usá-la. É a coisa mais linda que já vi. A garota olha a etiqueta. "Reduzido de 340 para 120 libras." Aproxima-se e coloca a echarpe em volta do meu pescoço, enquanto me admiro no espelho.
Não há duvida. Tenho de ter esta echarpe. Preciso tê-la. Ela faz meus olhos parecerem maiores, faz meu corte de cabelo parecer mais caro, me faz parecer uma pessoa diferente. Poderei usá-la com tudo. As pessoas vão se referir a mim como a Garota da Echarpe Denny and George.
— Se eu fosse você levaria na hora. — A menina sorri para mim. — Só sobrou uma deste tipo.
Involuntariamente agarro-a com as mãos.
— Vou levá-la — digo ofegante. — Vou levá-la.
Enquanto ela embrulha num papel de seda, pego minha bolsa, abro-a e procuro meu cartão VISA num ato perfeito e automático — mas meus dedos encontram o couro nu. Paro surpresa e começo a remexer todos os cantos da bolsa, pensando se guardei meu cartão em outro lugar com algum recibo ou se está escondido debaixo de outro cartão... E então, com um baque de desgosto, me lembro. Ficou na minha mesa de trabalho.
Como pude ser tão burra? Como pude deixar meu cartão VISA na minha mesa? Em que eu estava pensando?
A simpática garota loura guarda a echarpe embrulhada numa caixa verde-escura Denny and George. Meu coração bate forte. O que vou fazer?
— Como vai pagar? — pergunta numa voz agradável.
Meu rosto fica vermelho.
— Acabei de perceber que deixei meu cartão de crédito no escritório — gaguejo.
— Ah — diz a moça, e suas mãos param.
— Pode guardá-la para mim? — A garota parece em dúvida.
— Por quanto tempo?

— Até amanhã? — digo desesperada. Ai, meu Deus. Ela está fazendo uma careta. Será que não entende?
— Creio que não — diz ela. — Não podemos reservar a mercadoria do sado.
— Então, só até mais tarde hoje — digo rapidamente. — A que horas vocês fecham?
— Às seis.
Seis! Sinto uma combinação de alívio e adrenalina atravessando meu corpo. Desafio Sakura. Vou à coletiva, saio logo que seja possível e, então, pego um táxi de volta para o escritório. Pego meu cartão VISA, digo ao Kakashi que esqueci meu caderno de anotações no local da entrevista, volto aqui e compro a echarpe.
— Pode guardá-la até lá? — Imploro. — Por favor? Por favor? — A garota cede.
— Está bem. Vou deixá-la atrás do balcão.
— Obrigada — suspiro. Saio correndo da loja e desço a rua em direção à Uchiha Communications. Deus, por favor, faça com que a entrevista seja curta, rezo. Por favor, não deixe as perguntas durarem muito tempo. Por favor, Deus, por favor, permita que eu tenha aquela echarpe.

Quando chego na Sasuke Communications, começo a relaxar. Tenho três horas inteiras, afinal. E minha echarpe está segura atrás do balcão. Ninguém vai roubá-la de mim.
Há um aviso no foyer da Sasuke Communications dizendo que a entrevista coletiva da Foreland Exotic Opportunities está acontecendo na Suíte Artemis, e um homem de uniforme está orientando a todos. Isto significa que deve ser bem grande. Claro que não se trata de uma superprodução com televisão-câmeras-CNN-imprensa internacional. Nas é uma entrevista coletiva bastante concorrida. Um evento relativamente importante no nosso mundinho entediante.
Quando entro na sala, já há um burburinho de pessoas se acotovelando e garçonetes circulando com canapés. Jornalistas engolem o champanhe como se nunca o tivessem visto antes; garotas de relações públicas com ar arrogante bebem água. Um garçom me oferece uma taça de champanhe e pego duas. Uma para agora e outra para deixar embaixo da minha cadeira para as partes chatas.

No canto mais longínquo da sala vejo Temari da Investor's Weekly News. Ela foi levada para um canto por dois homens sérios vestidos de terno e, com uma expressão vazia, acena com a cabeça concordando com o que dizem. Temati é fantástica. Está na Inverstor's Weekly News há seis meses e já se candidatou a quarenta e três outros empregos. O que realmente deseja é ser editora de beleza em alguma revista. O que eu realmente quero é ser a Fiona Phillips na GMTV. Às vezes, quando já estamos altas depois de bebermos muito, fazemos pactos de que, se não estivermos em algum lugar mais interessante dentro de três meses, nós duas deixaremos nossos empregos. Mas depois a idéia de ficar sem dinheiro — mesmo que só por um mês — é quase mais aterradora que a idéia de escrever sobre fundos de pensão pelo resto da vida.
— Sakura. Que bom que você veio.
Olhei para ele e quase engasguei com o champanhe. É Uchiha Sasuke, o todo-poderoso da Uchiha Communications, olhando direto para mim como se soubesse exatamente o que estou pensando.
Só o encontrei poucas vezes e sempre me sinto pouco à vontade perto dele. Para começar, tem uma reputação de dar medo. Todos sempre falam de seu talento, até meu chefe Kakashi. Criou a Uchiha Communications do nada, e agora é a maior empresa de RP financeiras de Londres. Alguns meses atrás foi citado em alguns jornais como um dos mais inteligentes empresários de sua geração. Diziam que seu QI é um fenômeno de tão alto e que tem memória fotográfica. (Sempre detestei as pessoas com memória fotográfica.)

Mas não é só isso. É que ele sempre parece ter um olhar de reprovação quando fala comigo. Como se soubesse que sou uma completa fraude. Me ocorre que, de fato, ele pode saber. É provável que o famoso Uchiha Sasuke, além de ser um completo gênio, também consiga ler pensamentos. Ele sabe que, quando olho fixamente para algum gráfico maçante, acenando que sim com um ar importante na verdade estou pensando num bonito top preto que vi na Joseph e analisando se tenho condições de comprar as calças também.
— Conhece Ino, não? — diz Sasuke, e faz um gesto para a loura imaculada ao seu lado.
Por acaso, não conheço Ino. Mas nem preciso conhecer. Elas são todas iguais, as garotas da Uchiha C, como são chamadas. Se vestem bem, falam bem, são casadas com banqueiros e não têm nenhum senso de humor.
— Sakura — diz Ino friamente, segurando minha mão. — Você está na Successful Saving, não é?
— Isto mesmo — digo eu, igualmente fria.
— Foi muito gentil da sua parte ter vindo hoje — diz Ino. — Sei que vocês jornalistas são muito ocupados.
— Nenhum problema — retruquei. — Gostamos de participar do maior número possível de entrevistas coletivas. Para estar em dia com os eventos da área. — Fico contente com minha resposta. Estou quase acreditando em mim mesma.
Ino acena afirmativamente com a cabeça, séria, como se tudo o que disse fosse incrivelmente importante para ela.
— Então me diga, Sakura. O que achou das notícias de hoje? — Aponta para o FT debaixo de meu braço. — Foi uma surpresa tanto, não achou?
Ah, meu Deus. Do que ela está falando?
— Com certeza é muito interessante — menciono, sorrindo para ganhar tempo. Olho em torno da sala procurando uma dica, mas não há nada. O que aconteceu? As taxas de juros subiram ou algo assim? — Devo dizer que considero isso uma má notícia para o ramo — diz Ino séria. — Mas claro, você deve ter seu próprio ponto de vista.

Ela está me olhando, esperando uma resposta. Posso sentir meu rosto brilhando de tão vermelho. Como sair dessa? De agora em diante, prometo a mim mesma, vou ler os jornais todos os dias. Nunca vou ser pega assim outra vez.
— Concordo com você — acabo dizendo. — Acho que são notícias muito ruins. — Minha voz soa estrangulada. Tomo rápido um grande gole de champanhe e rezo para que aconteça um terremoto.
— Você estava esperando? Sei que vocês jornalistas sempre estão à frente das notícias.
— Eu... eu certamente vi que estava por acontecer — digo e acredito ter soado convincente.
— E agora esse rumor sobre a Scottish Prime e Flagstaff Life indo na mesma direção! — Ela olha para mim atenta. — Você acha que isto está mesmo para acontecer?
— É... é difícil dizer — replico e tomo um grande trago de champanhe. Que rumor? Ah, Deus, por que ela não me deixa em paz?
E então caio no erro de olhar pra Uchiha Sasuke. Ele está me observando com uma expressão estranha no rosto. Droga. Ele sabe que não tenho a menor idéia, não sabe?
— Ino — diz ele abruptamente. — Aquela é Maggie Stevens entrando. Você poderia...
— Claro — diz ela, treinada como um cavalo de corrida, e começa a caminhar suavemente em direção à porta.
— E, Ino — acrescenta Sasuke, e ela rapidamente se volta para ele —, quero saber exatamente quem sacaneou com esses números.
— Está bem — engole seco ela, e se afasta correndo.
Meu Deus, ele dá medo. E agora estamos sozinhos. Acho que eu podia fugir rápido.
— Bem — digo habilmente. — Preciso ir e...
Mas Uchiha Sasuke e inclina para mim.
— A SBG anunciou que eles assumiram o controla do Rutland Bank esta manhã — disse calmo.
E evidentemente, agora que ele disse, lembro de ter ouvido alguma coisa sobre o assunto nas notícias matinais do rádio.
— Sei que fizeram isso — replico orgulhosa. — Li no FT. — E antes que ele diga mais alguma coisa, me afasto para falar com Temari.

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Grazi chan, brigada pela review! E bacana que tenha gostado da história!

Mais um capítulo. Lembrando que o que motiva a postar é o leitor, coisa que sei que existe so se tive comentários, né?