CAPÍTULO II
UM ESTRANHO NO ESPELHO
Severus estava na cozinha, em busca de algum liquido que pudesse satisfazer sua garganta seca. Na verdade, não queria um liquido qualquer, estava alucinado por uma cerveja bem gelada. Há anos não chegava nem perto de uma dessas...
Revistou não só a geladeira, mas também todos os armários e as prateleiras da cozinha. E nada! Nenhuma bebida, a não ser uma desinteressante garrafa d'água na geladeira.
"Espere um pouco! Isso é impossível... Lucius sempre fora apaixonado por uma boa bebida. Duvido que tenha mudado. Pelo menos, a cara de cínico continua a mesma." – pensava Snape, enquanto continuava sua procura.
Partia, agora, para a ampla sala de estar. Já ficava sem esperanças, quase se acostumara com a idéia de ter de se contentar com a maldita água. Foi quando avistou, bem no canto da sala, um pequeno bar, feito de madeira rústica e coberto por espelhos. Aproximou-se...
"Eu sabia! Lucius continua previsível... Ainda bem!" – fora o pensamento que passara na cabeça, enquanto analisava quais bebidas lhe eram disponíveis naquele bar.
Porém, não encontrou nenhuma cerveja. Havia uma coletânea de bebidas destiladas, como vodcas e whiskys, e ainda uma coleção de vinhos tintos que percorriam as mais nobres nacionalidades.
"Obvio! Lucius nunca teria uma bebida tão popular em sua casa. Não fazia parte da criação nobre dos Malfoy!" – contentava-se Snape, escolhendo, enfim, um whisky doze anos.
Levantou-se com a garrafa na mão, repousando-a no apoio principal do móvel. Pegou, então, um copo próprio para a bebida escolhida. Enquanto colocava o liquido no recipiente vitral, observava sua imagem refletida nas taças de cristal, cuidadosamente penduradas em uma estrutura metálica do bar.
"Preciso urgentemente fazer esta barba! Estou quase parecido com aqueles presos insanos de Azkaban" – Severus sentiu um arrepio na espinha, quando completou seu pensamento.
Severus nunca se importara muito com sua aparência, essa era a verdade. Nem chegava aos pés de Lucius, talvez o maior exemplo de um homem verdadeiramente vaidoso. Porém, a semelhança com um símio insano realmente já conseguia incomodá-lo.
Pegou o copo e bebeu todo seu conteúdo. A bebida desceu quente pela sua garganta, umedecendo–a. Logo, a ardência se espalhara por todo seu corpo, penetrando cada veia mais profunda.
Já abandonando o cômodo, Severus sacudiu levemente sua cabeça, parecendo querer se livrar da sensação provocada pela bebida ingerida. Dirigiu-se, então, para o banheiro.
Embora soubesse que havia um banheiro localizado no corredor do apartamento, bem próximo à sala que a pouco abandonara, Snape preferiu usar a suíte do quarto de Lucius. Iria aproveitar para verificar o comportamento do loiro.
"Certamente, ele continua insistindo naquele seu debater inútil. Deve estar tentando, agora, livrar os pés dos meus nós." – Snape divertia-se ao pensar na imagem de Lucius se debatendo contra o ar.
Qual não foi, porém, sua surpresa ao entrar no quarto do loiro e encontra-lo completamente imóvel na cama. Estava deitado, tinha adormecido.
Snape cultivava, agora, um misto de perplexidade e dúvida em seu peito. Não esperava se deparar com a calmaria de Lucius. E, definitivamente, parecia incompreensível o fato de uma pessoa, sendo mantida como refém, conseguir adormecer.
"Isso só pode ser armação. Ele apenas quer me enganar com esta calmaria. Está fazendo o papel de vítima indefesa..." – foi a explicação mais lógica que Severus conseguira encontrar.
Avistando uma cadeira, que lhe pareceu bastante confortável, resolveu sentar-se para observar as atitudes do outro. Snape parecia bem seguro de sua desconfiança. Sabia que de inofensivo ou indefeso Lucius nada tinha. E não seria a primeira vez que o loiro teria mentido, definitivamente, não seria.
Passaram-se alguns minutos, mas nada se alterou. Lucius continuava embalado em um sono tranqüilo. E Snape começava perder a confiança em sua teoria. Mais alguns minutos de observação e ele pôde ter certeza que o sono do loiro era tão real quanto o seu dono.
"Inacreditável... Só Lucius mesmo!" – Severus constatava com um sorriso introspectivo.
A estadia na cadeira, aos poucos, ficava cansativa. Os músculos de Snape começavam a incomodá-lo. Imploravam por algum movimento, por mais contido que este fosse.
Dirigiu-se novamente para a sala de estar. Precisava de mais uma dose de whisky, sua garganta ainda estava um pouco ressecada. Serviu-se e voltou para o quarto, levando consigo o copo ainda cheio.
Acomodou-se na mesma cadeira, localizada bem no canto do quarto. De lá, conseguia ter uma privilegiada visão da cama, podendo atentar para cada movimento de Lucius.
Bebeu todo o whisky de uma só vez. Parecia ter acabado de chegar de um deserto. Talvez seu camelo ainda estivesse estacionado no meio da rua londrina.
Sentiu-se, mais uma vez, entediado. Não havia no que se concentrar: o quarto era bastante simples, e Snape nunca demonstrou nenhum interesse por decoração de interiores (e quem podia culpá-lo?). Inevitavelmente, seus olhos acabaram se fixando na figura de Lucius.
Como de costume, o loiro apenas trajava uma fina calça de seda preta, obviamente parte de seu pijama. Lucius nunca conseguira dormir com muitas vestes, dizia se sentir incomodado.
Severus tentou se concentrar apenas no ritmo da respiração do outro. Notara que o movimento do tórax de Lucius era bastante delicado, formando um ritmo harmonioso. Quase como uma orquestra de finas cordas.
Aos poucos, porém, o ritmo deixou de ser importante. Snape continuava observando o peito do loiro, porém, passou a se atentar para as curvas destes. Elas pareciam mais perfeitas do que qualquer magia, do que qualquer encanto.
"Volte a si, Snape! O que pensa estar fazendo?" – Severus tentava se recuperar de sua pequena "viagem".
Já chegava perto do meio-dia. O calor aumentava. Com um sutil movimento, Lucius livrou-se das cobertas. Deixara seu corpo completamente exposto.
E isto pareceu provocar ainda mais os pensamentos de Snape. O moreno suava frio, se remexia levemente na cadeira, não podia fazer muito barulho. Tentava desviar seus olhos de Lucius, tentava ignorar a presença do outro. Acabou destinando seu olhar para o canto de uma parede.
"Nossa, que enorme teia de aranha. Lucius, definitivamente, deveria procurar uma nova empregada!" – Severus tentava desviar sua atenção.
Mas aranha nenhuma conseguiria dispersar o olhar de Snape. Seus pensamentos há muito foram tomados pelas formas daquele corpo estendido na cama. Já havia sido dominado por um impulso quase animalesco.
Retornou, então, ao peito de Lucius. A pele muito clara, quando exposta ao sol, adquiria um brilho fascinante. Os músculos eram definidos, dando ao abdômen um desenho provocante. Os braços eram fortes e as mãos eram grandes, com dedos longos.
Lucius sempre cuidara muito bem de sua aparência, principalmente, no que dizia respeito ao corpo. E intensificara os cuidados quando fora atingido pela famosa "crise dos 40", tão freqüente nos homens. Hoje em dia, já beirando os cinqüenta anos, o loiro apresentava disposição e forma invejáveis.
A calça de Lucius, apesar da tonalidade negra, apresentava uma notável transparência (certamente proporcionada pela finura do tecido). E isso Severus logo reparou.
Severus era tomado por uma ânsia sem limites. Seu corpo implorava por um contato humano. Mas não um contato qualquer. Ele queria Lucius... Ele precisava sentir o peso daqueles músculos contra seu corpo esguio.
Concentrou-se nas pernas loiro, cujos contornos tornavam-se aparentes naqueles trajes. Não eram finas, tampouco eram grossas, apesar de bem torneadas. Notava-se que foram expostas a consideráveis doses de exercícios físicos.
Mas, no fundo, Snape sabia que o pior estava por vir. Pior? A quem queria enganar? Ele sabia que o melhor estava por vir.
Seus olhos passaram pelas canelas e seguiram pelas coxas de Lucius, chegando ao pênis. Sim, o loiro estava sem cueca, como já suspeitava Snape. E este se maravilhava ao observar as dimensões do membro. A largura e o comprimento eram tão satisfatórios como o resto do corpo atlético.
Severus mergulhava em puro êxtase. Sentia, agora, o volume que surgira entre suas pernas. Um volume impossível de ser ignorado. A luxúria corria por suas veias, misturava-se ao seu oxigênio. Estava com água na boca...
- Não sabia que ainda provocava esse efeito em você, Severus.
No momento, Snape encontrava-se cego. Cego de tanto desejo. Deliciava-se ao imaginar as mãos quentes de Lucius tocando cada parte de seu corpo. Acariciando, descobrindo,violando...
Somente após alguns minutos, conseguiria assimilar tal informação. A voz de Lucius chegara a seus ouvidos com inacreditável atraso.
Quando se deu conta da situação, fora surpreendido por duas bilhas acinzentadas encarando-o. Ainda demorou algum tempo para Snape se conscientizar sobre seu estado. Então, envergonhou-se...
- Ora, não se envergonhe, Severus... – Lucius postava um sorriso implacável no rosto.
Snape levantou-se rápido da cadeira, saiu correndo para a suíte. Dizer o quê? Sua cara não deixava negar o embaraço e seu corpo não escondia a excitação que sentia.
- Não fuja, caro Sevvie! – o sorriso transformava-se em gargalhada.
"Parabéns, Severus! Você conseguiu parecer ainda mais ridículo. Porque não consegue superar essa maldita tentação? Seja mais forte".
E foi no meio da lamentação que Snape se deu conta de seu estado. Sua ereção estava ainda mais evidente. O membro rígido e pulsante ansiava pelo toque intenso e preciso.
Já não havia mais retorno e Snape sabia disso. Não podia contrariar o próprio corpo. Aliás, não queria contrariar o próprio corpo. Há algum tempo já não sentia tamanha excitação. Jurou não deixar esta chance passar...
Levou a própria mão direita ao pênis. Primeiro, passou seus dedos pela glande. Nela pôde sentir pequenas gotas serem expelidas. Snape encarou aquilo como um estímulo para continuar.
Agora, segurava o corpo do membro com bastante força. Parecia não querer deixar a ereção escapar. Iniciou leves movimentos, impulsionando o pênis para cima e para baixo. Aquela sensação tirava Snape do sério.
O moreno começou a pensar como seria dividir o momento com Lucius. Imaginava ser a mão do loiro, e não a sua, que lhe tocava a intimidade. Recordava-se da textura da boca do outro, do seu vigor, do seu fôlego.
Intensificou o ritmo dos movimentos. O áspero de suas roçando na delicada pele do pênis proporcionava um atrito delicioso. Cerrava os olhos e mordia os próprios lábios.
As lembranças das noites passadas ao lado de Lucius fizeram Snape aumentar ainda mais a velocidade do movimento. Sentia falta do cheiro do loiro, do gosto de sua pele, de seu toque.
Snape sabia que a hora se aproximava. Seu corpo estava quase em chamas. Era guiado apenas pelo enorme tesão que sentia.
Recordando a sensação de ter Lucius penetrando seu corpo, Snape gozou. E o gozo fora seguido por um gemido contido. Um gemido calado, com um tom de pecado.
Com a respiração ainda ofegante, Snape tomou coragem para se olhar no espelho. Sentia nojo da sua imagem. Não apenas pela aparência física, mas também pelo que acabara de fazer.
Ficara excitado observando Lucius. Masturbara-se pensando em Lucius. E gozara lembrando da sensação de ter Lucius dentro de si.
Por que não conseguia tirar aquele homem de sua cabeça?
Desviara, então, seu olhar daquele espelho.
Era dominado por um misto de sensações: raiva, nojo, tristeza, dúvida... Atordoado, essa é a única palavra que se aproxima do estado no qual se encontrava Severus.
Mais uma vez, levou seus olhos ao encontro do espelho. Não suportava encarar a própria imagem. Faria de tudo para acreditar que aquele homem no vidro não era seu próprio reflexo. Não suportava, simplesmente, não suportava...
Em um impulso raivoso, Severus destinou um golpe ao espelho. Com um único soco, levara o espelho ao chão, a essa altura já em grandes cacos brilhantes.
Havia sangue em suas mãos. Havia tormentas em sua mente. Havia lágrimas em seus olhos...
Do lado de fora da suíte, permanecia imóvel uma figura alva. Ostentava ainda um sorriso triunfante no rosto, dando ênfase ao cinza de seus olhos.
"Bom saber que ainda provoco essas reações em Severus. Talvez, elas me sejam muito úteis num futuro bem próximo" – maquinava Lucius, enquanto observava a porta do banheiro.
Lucius sabia muito bem o que ocorria por detrás daquela porta. Não imaginava que Severus apenas estivesse escovando seus dentes ou penteando os cabelos. O corpo do outro não deixara dúvidas da ação que ocorria naquela suíte.
E não apenas sabia, mas também demonstrava prazer em presenciar aquela situação. Via aquilo tudo como uma provocação. E, para Lucius Malfoy, sempre fora um hobbie provocar os outros. Gostava de pensar em Severus excitado por sua causa... Era como uma auto-afirmação, um triunfo de sua vaidade.
Em um instante, todos os pensamentos cínicos e os sorrisos prazerosos foram interrompidos por enorme estrondo vindo de sua suíte. Primeiro, ouviu um impacto, depois, uma queda. E, por fim, um grito descontrolado. O loiro destinou, então, sua atenção para a porta da suíte.
- Severus, o que você está fazendo com o meu banheiro!? Tudo bem você querer se aliviar, mas será que dá pra deixar alguma coisa inteira aí dentro? – o loiro ainda tentava manter o seu maldito sorrisinho. (n/a: Mentira, o sorriso dele é pra lá de gostoso. Mas assim fica mais apropriado).
Ouviu, agora, o barulho da mão de Severus girando a maçaneta. O homem abriu a porta rápida e grosseiramente, com um ar de intolerância.
- Porra, Severus! Logo o meu espelho? Você tem noção de quanto isto me custou? – reclamava Lucius, vendo seu espelho já despedaçado no chão frio.
Severus tinha um olhar amedrontador, parecia ser tomado pelo mais profundo ódio.
- Não, Lucius, não sei. E tampouco me importa saber. – Severus tinha a voz mais seca do planeta.
- Ah sim! Porque não foi no seu bolso. Pelo menos, vejo que as coisas foram boas aí dentro. – Lucius tentava impor um leve sorriso de canto de boca.
- Eu estava fazendo a barba! – rosnou Snape.
- Mas, Severus, você...
- Estava fazendo a barba!
- Você ainda está barbado, Severus.
- Já disse que estava fazendo a barba. E PONTO FINAL – a voz ríspida de Severus, agora, vinha acompanhada de um olhar fulminante.
Lucius, percebendo a frase oculta nos olhos de Snape ("pare de me perturbar se você ainda tem apego a esta vida!"), julgou melhor calar-se. No entanto, notara o sangue escorrendo pelos longos e finos dedos de Severus. E notara, acima de tudo, as marcas de lágrimas na face do outro.
"Severus, definitivamente, não está normal! Aliás, ele está mais anormal do que nunca. Seus olhos sempre foram profundos, com um doce ar de melancolia. Mas, hoje, eles estavam tão diferentes, tão confusos. Pareciam formar um furacão, que toma tudo pela frente."
O loiro, porém, interrompeu seus próprios pensamentos. Balançou a cabeça e deferiu, contra esta, um forte tapa. Parecia se repreender. Repreender-se por estar pensando nas tormentas de Severus. Repreender-se, simplesmente, por estar pensando em Severus...
