E o amor é sempre um sentimento
Que a separação não deixa em paz

Separação/As razões do coração, Vinícius de Moraes.

Capítulo dois - Ausência

O que ela havia feito de tão errado para merecer ser abandonada pela segunda vez? Ela não estivera sendo a esposa perfeita nos seis meses em que eles estiveram casados? Por que ele se fora, de novo? Por quê? Apertou o lençol com força.


Estava com frio, deitada em algo parecidíssimo com concreto. Abriu os olhos, encontrando as folhas de uma árvore. Estava num banco. Seu corpo inteiro doía. Tinha doze anos outra vez.


A barriga dela estava embrulhada, mais uma vez. Decidiu ignorar o incômodo. Estava ficando boa nisso.


Era uma noiva. Estava dançando. Sua cabeça estava apoiada num ombro masculino. Ela adorava aquele cheiro, adorava aquela música. Estava apaixonada por aquele momento.


Acordou.

Não sabia dizer quanto tempo sua mente estivera mesclando entre sonhos e realidade. A verdade, é que sequer tinha uma noção realmente concreta de tempo. Sabia se era dia ou noite pela ausência de uma persiana, apenas isso.

- Chega. – Disse uma voz feminina, séria e firme.

Seus olhos opacos encontraram a figura curvilínea de sua shishou. "As coisas devem estar realmente sérias", pensou Sakura, sabendo que apenas isso justificava e requeria a presença da Hokage em pessoa em seu quarto.

- Você vai se levantar, tomar um banho e comer alguma coisa. – Ela disse, enquanto puxava as cobertas. – Agora!

Sakura resmungou. O esforço para fazer o que Tsunade mandava parecia simplesmente enorme e inverossímil. Estava ouvindo a voz de sua shishou apenas há alguns minutos e já se sentia extremamente cansada. Precisava de um cochilo.

- Levante.

Talvez se a ignorasse por tempo o suficiente, ela fosse embora. Sempre funcionava. Mas não parecia que aquele seria o caso. Tsunade a segurara pelos braços e a fizera sentar-se obrigada.

Acontecera tão rápido que a cabeça de Sakura parecia pesada demais para seu corpo. Ela precisou de algum tempo para se acostumar com o peso.

- Vamos, levante-se. – A loira mandou, enquanto a puxava pelo braço. – Você precisa comer alguma coisa.

- Não. Eu não tenho fome. – A menina não saberia dizer onde arranjara energia o suficiente para falar.

Tsunade suspirou, enquanto a conduzia pelo quarto. Parou, Sakura percebeu, antes de chegarem à porta. Para a surpresa dela, estava de frente para um espelho embutido no guarda-roupa.

- Olhe só para você e me diga se realmente não precisa comer.

Contra sua vontade, Sakura encarou o espelho. Se não se tratasse de seu próprio reflexo, ela diria que pertencia a outra pessoa. Sua pele estava com uma tonalidade acinzentada, como se fosse uma morta-viva. Seus cabelos longos e róseos estavam bagunçados, opacos, sem brilho. E ela, com certeza, havia perdido algum peso. Uns sete quilos, no mínimo.

- O que você está fazendo consigo mesma, menina? – Perguntou Tsunade, sua voz cheia de piedade.

Sakura tinha vontade de chorar, mas seus olhos, há muito tempo, haviam secado. Era como se ela já não possuísse lágrimas para chorar. Quase se riu sem humor, pensando que havia esgotado seu estoque de lágrimas.

- Creio que não lhe ensinei apenas jutsus, Sakura. – Ela disse, apertando os ombros da pupila. – Pensei que tivesse lhe ensinado como ser uma mulher independente e forte. Parece que me enganei.

Sakura baixou o rosto, os cabelos mortos caindo como uma cortina por seus ombros.

- Ele me deixou. – Disse baixinho. – Por quê? Estava indo tudo tão bem! Eu pensei que ele estivesse... feliz.

Levantou a cabeça, olhando a mestre nos olhos. Tsunade deixaria que ela vomitasse tudo que a estava atormentando. Sabia que não faria mal. Aquilo era algo que Sakura simplesmente precisava. Fazia parte da recuperação.

- Nós quase nunca brigávamos. Eu... eu sempre me esforcei para ser a esposa perfeita e tentei ao máximo não irritá-lo. – Dizia baixinho. – Estava tudo tão bem... tão bem. Nós, inclusive...

Engoliu em seco. Precisava colocar aquilo para fora.

- Nós dormimos juntos na noite que ele foi embora. – Ela falou, com amargura. – Eu pensei que ele me amasse... o que foi que eu fiz de errado? O que eu...

- Não é sua culpa! – Disse Tsunade, balançando-a pelos ombros. – Nunca pense que é.

Mais uma vez, Sakura abaixou a cabeça. Dizer que a culpa não era dela, em sua concepção, era basicamente aceitar que fora abandonada pelo marido por motivo nenhum.

Num segundo, estava no topo das escadas e, no outro, encontrava-se na cozinha que cheirava fortemente a sopa, legumes e algo que muito de longe se assemelhava a frango. Olhar a "refeição" que sua shishou provavelmente preparara só não era pior que cheirá-la. O estômago de Sakura embrulhou ainda mais com o pensamento de levar aquilo à boca.

- Eu sei que não parece muito bom. Mas isso vai lhe fazer bem. – Incentivava a loira.

Sakura detestava ser tratada como criança. E só foi mais humilhante ainda quando Tsunade aproximou o prato fundo de seu nariz. Sakura segurou a cadeira mais próxima com força.

O esforço para vomitar pareceu demais e sua mente parecia recusá-lo. Sentiu o sangue descer de sua cabeça para seu corpo. A visão ficou turva.

Estava desaparecendo, pensou. Finalmente, finalmente.


Estava rodeada por branco e pelo silêncio. De certa forma, era acolhedor. Estava longe, bem distante de tudo que poderia lhe causar dor. A perda de consciência nunca fora tão bem vinda.

Aquele devia ser o melhor calmante já inventado.


Demorou mais tempo que o esperado para reconhecer aonde se encontrava –considerando que aquele era seu ambiente de trabalho.

Piscou os olhos uma, duas, três vezes. Se virasse o rosto para direita, encontraria as cortinas brancas balançando harmoniosamente com a brisa. Voltando o olhar para esquerda, viu uma apressada enfermeira sair do aposento e bater a porta com delicadeza. Fechou os olhos.

Seu corpo não estava dolorido. Agradeceu mentalmente por isso. Tinha muito para se preocupar e o esforço para ignorar qualquer incômodo estava bem longe do aceitável.

Preocupação? Não conseguia se lembrar direito com exatamente o quê precisava se preocupar. Precisou de dez segundos inteiros para recordar-se. Apertou o lençol branco com força.

Shh, vai passar.Repita. Repita. Repita. Shh.

- Você pode ir agora. – Reconheceu a voz de Tsunade. – Obrigada.

A enfermeira fez uma pequena reverência e deixou o quarto. Tsunade deu um longo suspiro. Com agilidade, retirou uma garrafa metálica e pequena do bolso de suas vestes. Levou a bebida aos lábios. Sentia-se melhor.

- É isso o que você ganha por não se alimentar direito. – Falou, indicando com a prancheta que segurava, o soro. – Menina tola.

Sakura sentou-se com dificuldade. Encarou a mestra com alguma decepção. Não parecia que ela tivesse qualquer coisa grave, o que não justificaria a sua permanência no hospital. Odiava a ideia de ter de voltar para casa.

- Você vai ficar bem. – Assegurou. – Tentei falar com seus pais, mas, ao que tudo indica, eles ainda estão viajando.

Sakura apenas assentiu. Esperou pacientemente. Tsunade não tinha o tom de quem finalizava a conversa.

- Eu pedi para fazerem um exame de sangue.

O corpo e mente inteiros vibraram com as possibilidades. Talvez, pensou, talvez pudesse ficar hospitalizada.

Tsunade entregou a prancheta para ela. Sabia que sua pupila tinha plena capacidade de interpretar os resultados. Pedira por um exame bem simples.

Os olhos verdes de Sakura subiam e desciam o papel. Recusava-se a aceitar aquilo. Parecia uma brincadeira extremamente cruel e de mau gosto.

- Você está grávida.

Grávida, pensou. Quanta vezes não dera aquele diagnóstico com um sorriso no rosto? Quantas vezes, intimamente, não desejou que sua regra atrasasse e fosse ela a receber a tal notícia?

- Isso não é possível. – Murmurou.

Tsunade pensou que realmente precisava de uma bebida forte, mas, infelizmente, seu estoque portátil havia acabado. Nenhuma gota mais de saquê a ajudaria a lidar com aquela situação.

- Pelo o que você me contou mais cedo, é completamente possível.

Sakura ergueu o rosto para encarar a mestra. Tinha vontade de pedir instruções, conselhos, um ombro amigo. O que ela iria fazer, afinal?

Ficaram em silêncio por longos minutos. A mais nova parecia ter esquecido como falar. Como juntar duas ou mais palavras e fazer algum sentido.

Tsunade suspirou mais uma vez. Estava cansada. Não era a mais sentimental das pessoas, mas tentou colocar-se no lugar da menina. Sentou-se no canto da cama e pousou a mão no ombro pequeno dela.

- Olhe – Começou, desejando que sua voz estivesse suave. -, eu sei que a vida não parece tão empolgante como antigamente. Tudo parece ter perdido o brilho, a cor, a significância e o sentido. Mas não vai ser para sempre assim.

Por favor, por favor. Que isso seja verdade. Reze. Reze. Implore.

- Sei também que você não quer mais viver. – Falou. Os ombros de Sakura tremeram. – Mas se não for por você mesma, que seja por essa criaturinha em seu ventre.

Dizendo isso, ela levantou-se e deixou a sala. Sakura estava sozinha com seus pensamentos.

Não, pensou. Não estava sozinha. Abraçou o ventre com os braços trêmulos.

Talvez suas preces tivessem sido atendidas. Aquela tinha de ser a razão para continuar. Era a sua salvação.

Alisou o ventre. A brisa balançou seus cabelos e sua fina camisola.

Respirar ainda era difícil. Sua mente ainda era o local mais perigoso do mundo. Seu peito ainda estava espaçoso demais, tão encolhido estava seu coração. Mas agora ela tinha um motivo. Era o suficiente, tinha de ser.

Sorriu o primeiro sorriso desde que ele havia ido embora.


Sentada em sua cama, brincava com a aliança em seus dedos. O nome dela estava gravado em seu interior. Uchiha Sakura.

Uma lágrima quase escapou, mas ela lembrou que não tinha mais tempo para chorar – além disso, ela havia secado.

A tristeza era grande demais para esconder em seu coração agora diminuto. Talvez ela tivesse que carregá-la para sempre.

Tudo bem, aquele poderia ser seu fardo. Não reclamaria.

Colocou a aliança em seu dedo anelar, junto com sua gêmea. Iria vesti-la como se fosse uma viúva.

Espere. Mas você já não o é?


Notas da autora:Aqui está o segundo capítulo, espero que gostem! Bom, gostaria de agradecer pelos comentários. Acho que respondi todos – sendo que os das pessoas que não têm conta aqui não foi possível.

Como o fanfiction net está comendo meus espaços, eu resolvi negritar as primeiras palavras de uma nova parte do capítulo. Espero que tenha ficado menos confuso.

Acho que vou postar os capítulos toda sexta-feira, está bem? Aliás, o próximo é o último sem Sasuke. Hahaha :D

Qualquer erro de ortografia ou digitação, é só me avisar que ajeitarei imediatamente!

Beijocas, obrigada e até a próxima!

(19/12/2012 – revisando e corrigindo todos os capítulos! ^^)