Os sons do silêncio
"E Vishnu desliza pelo céu sustentado pelo grande pássaro..."
Capítulo II
Três ano depois:
Ele estava parado na entrada das doze casas, e seus olhos, apesar de fechados, pareciam mirar o bosque à frente. O sol estava se pondo e refletia os cabelos dourados, espalhando o cheiro de lavanda e sândalo que era sentido mesmo a certa distância.
O cavaleiro de fênix levava a caixa de sua armadura nas costas e o cumprimentou somente com um aceno, embora, quisesse dizer alguma coisa. Seus sentimentos a respeito do cavaleiro de virgem eram estranhos, nunca conseguia entender o que sentia quando estava perto dele. Ele parecia estar gravado em sua memória há muito tempo; sentia-o familiar embora não entendesse esse sentimento.
Quando deixara o santuário há três longos anos, prometera que voltaria para conversar com ele, mas não o fez. Outras batalhas vieram e ele acabou esquecendo-se daquele fato, embora jamais houvesse se esquecido do loiro indiano que o carregara nos braços, ensangüentado, e cuidara dele enquanto vagava na fronteira entre a vida e a morte. Não o esquecera e se perguntava por que ele estava tão fortemente gravado em suas lembranças.
Um dia conversaria com o cavaleiro de virgem, um dia quando estivesse calmo e ele se mostrasse disposto a conversar também. Disposto? Ah, Fênix sabia que Shaka estava sempre disposto; era o sábio e humilde conselheiro de quem quer que fosse e não evitava conversas, por mais difíceis que elas fossem, e nem se negava a receber qualquer um que precisasse de um conselho.
Na sua elegância de Deus e pose de sábio oriental, ele sabia ser doce, sabia cativar e não fazia distinção de pessoas. Ikki quase sorriu ao pensar nessas coisas; doce e sábio, assim era o cavaleiro de virgem, contudo, sua força era intimidadora. A aparência frágil escondia o cosmo poderoso e o homem genioso. Sim, o sábio e doce, também sabia ser genioso e orgulhoso; e sabia disso porque já o enfrentara; não fosse a batalha e nunca conheceria esse lado perigoso da personalidade daquele anjo por quem passou.
"Anjo?" Ikki instintivamente se lembrou de um sonho, um constante sonho que tinha desde que deixara a ilha da rainha da morte, um sonho que não saía de sua cabeça.
- "anjo..."- murmurou enquanto continuava a subir em direção ao templo de Athena onde havia um quarto esperando por ele, assim como esperava por todos os cavaleiros de bronze. Estava cansado, mais uma viagem para a ilha Canon; e estava com saudades de Shun, onde ele estaria? Ali ou no Japão?
Continuou a subir as escadarias, dando uma última olhada para se certificar de que o cavaleiro de virgem continuava no mesmo lugar, voltado para o horizonte.
Na manhã seguinte como sempre fazia, o defensor da sexta casa estava com seus discípulos no jardim, em meditação, mas isso não o impediu de sentir que havia um cosmo diferente no local. Uma vida inteira de treinamento, uma vida dedicada a descobrir onde estava o inimigo, a vasculhar o coração do homem, a se aprofundar nas entranhas abissais dos sentimentos; não se enganaria; nunca se enganou, embora muitos pensassem que sim. Ele sempre soube, sempre soube do mestre, sempre soube que mesmo por trás de todas as vis atitudes havia uma alma nobre. Contudo, na época, estava ferido e quebrado demais para descobrir toda a verdade.
Por isso, sentia a curiosidade e a apreensão do rapaz que o olhava meditar, da entrada do jardim. Conhecia-o, o trouxera de volta de outra dimensão. O sagaz e tranqüilo indiano sabia que sentia algo forte por aquele garoto; forte e bom, aquecia o coração e dava-lhe a impressão de que não deveria se preocupar. Não, não havia motivos para preocupações e Shaka não era homem de ficar preocupado; não, sua alma sempre esteve serena; sempre? Não, nem sempre, havia momentos perturbadores, sonhos escuros que invadiam sua madrugada, mas nada além disso, nada que precisasse se recordar ao amanhecer.
Ikki ficou olhando-o da entrada do jardim; gostava de olhar para ele, por que olhar para ele o tranqüilizava, olhar para ele dizia-lhe que havia momentos de paz e beleza no mundo; sim, ele era belo, parecia um santo, algo místico; mesmo que muitas vezes, seu sorriso parecesse sarcástico e seus modos desdenhosos. Sim, ele tinha um quê blasé, embora suas atitudes nobres e temperantes dissessem o contrário, demonstrassem um grande coração.
Entretanto, todos os cavaleiros de Athena, por regra, tinham grandes corações, ao contrário, não seriam aceitos pelas armaduras e nem por isso, eram isentos de defeitos humanos, como a arrogância, a crueldade e a violência. Um cavaleiro budista pareceria até cômico, se esse cavaleiro não fosse Shaka de Virgem. Todavia, não havia humor no santuário. Não naqueles dias. Eram dias tensos e tristes, em que a violência da arena tornava-se antídoto contra a loucura e jogava sangue no solo sagrado.
Quando o leonino se libertou dos próprios pensamentos, o indiano já estava perto dele. Tentou demonstrar um sorriso amigável e se sentiu aliviado ao ser correspondido.
- Você quer conversar comigo, Ikki de Fênix? – a voz continuava como se lembrava durante a batalha, macia, tranqüila e amável.
- Sim, dizem que você tem o melhor papo do santuário... – respondeu sem jeito, mas mantendo o sorriso, o do indiano também não se desfez e ele o convidou, com um aceno de cabeça, para que entrasse em seu templo.
- Você nunca perde a calma? – perguntou Ikki e Shaka fez um gesto de mão.
- Sou humano, perco a calma de vez em quando sim, como todo mundo... – respondeu – Mas era mesmo sobre isso que queria falar comigo?
- Na verdade, apenas queria falar com você e não me pergunte por que, não é lógico, mas sinto que já nos conhecemos...
O atento cavaleiro de bronze percebeu que uma ruga de preocupação ocupou a testa lisa do indiano, mesmo sem poder vê-la, já que estava coberta pela franja.
- Não sei o que isso significa, não nos conhecemos rapaz, não antes daquela batalha... – respondeu recomeçando a andar para dentro do templo.
Ikki o seguiu.
- Então por que mandou seus discípulos atrás de mim?
- Foi uma ordem do mestre... – respondeu simplesmente sem nenhuma emoção na voz, a verdade era que não gostava de falar daquele assunto, não gostava de falar do mestre e muito menos de Saga.
Ikki pareceu meio frustrado, mas ainda assim seguiu o virginiano para dentro de sua casa.
- Por que me dá as costas? Não quer conversar comigo, Shaka de Virgem? – perguntou irritado – Ou está fugindo do assunto?
O loiro se voltou pra ele e abriu os olhos. Ikki se perdeu naquele azul plácido como as águas de um mar calmo de final de primavera, quentes e gentis...
- Deve saber que nunca me negaria a conversar com alguém, contudo, parece que deseja mais fazer um interrogatório que manter uma conversa.
- Não foi essa a minha intenção...
- Venha comigo, Ikki de Fênix... – pediu o loiro seguindo para a saída do templo.
Ikki ficou meio aturdido por um tempo, só o observando andar e então se decidiu a segui-lo. O loiro continuou andando, subindo a encosta íngreme e passando por algumas ruínas numa destreza e habilidade que somente cavaleiros conseguiriam, porém, seus passos continuavam calmos, sem nenhuma ansiedade.
Chegaram a uma encosta isolada que dava para uma praia de areia muito branca e como o sol já começava a se por, o indiano resolveu que seria bom observá-lo.
Ikki ficou estupefato ao vê-lo saltar da encosta até a areia da praia e depois fazer sinal para que fizesse o mesmo; o seguiu e seus pés afundaram na fofa areia enquanto observava o indiano que se sentou de frente ao mar.
- É aqui que gosto de vir quando quero pensar ou quando possuo problemas difíceis... – disse ele e o moreno se sentou ao seu lado.
- Então por que me trouxe aqui?
- Porque no momento, você é meu problema difícil... – respondeu com naturalidade, mas baixou a cabeça.
- Estranho, você não parece o tipo de pessoa que tem "cantinhos"... – sorriu o mais jovem e o loiro sorriu também.
- Sou humano, Fênix, quantas vezes terei que dizer isso?
- Eu sei que você é humano, já o derrotei...
- No máximo empatamos, cavaleiro... – Volveu Shaka.
Ikki riu e se calou, aproveitando a bela paisagem, já não se lembrava quando pode aproveitar o pôr-do-sol, quanto mais em companhia agradável, e ficar ao lado do indiano estava sendo mais agradável do que convinha. Era incrível como até mesmo o silêncio solitário se tornava especial com sua presença reconfortante e acolhedora.
Havia tanto tempo, tanto tempo que não compartilhava um momento especial com alguém... especial? – Ikki sorriu com seus pensamentos – Talvez o que tentasse desde o final da batalha fosse se convencer de que ele não era tão especial quanto parecia. Ficara anos longe do santuário e do cavaleiro de ouro, para finalmente regressar e confirmar tudo que achara dele; alguém forte, sábio e que lhe despertava algo além do que podia compreender; um sentimento de familiaridade, de carinho como se o virginiano fosse alguém que conhecia intimamente.
Talvez estivesse confundido as coisas, sim, Shaka e Shun tinham o mesmo signo, talvez visse no indiano uma versão mais forte e madura do irmão e isso explicasse o motivo de se sentir assim em relação a ele. Ele, às vezes, demonstrava aquela mesma doçura do seu irmão, mas às vezes, também demonstrava aspectos tão diferentes, sabia ser rude, arrogante e cruel.
- Você pensa muito... – disse Virgem e Ikki corou, será que ele podia ler seus pensamentos?
- Por que diz isso?
- Porque viemos conversar e você até agora não deu uma palavra se quer...
- Na verdade, não vejo mais necessidade, está ótimo dessa forma... – sorriu e viu o indiano sorrir também. Percebia que Shaka, assim como ele, não era de muitas palavras e ponderava profundamente cada sentença pronunciada.
- Você já vem aqui há muito tempo? – perguntou, vendo que o indiano brincava com a areia, pondo-a entre as mãos e deixando que escorresse entre seus dedos.
- Desde minha infância que infelizmente foi curta... – disse – Veja, Ikki, nossa vida é como essa areia que escorre entre meus dedos, por mais que tentemos detê-la, segurá-la, ela se esvai sem que possamos fazer nada para evitar...
- A "profissão" de cavaleiro não é para quem deseja preservar a própria vida... – tornou Ikki hipnotizado pelo movimento da areia nas mãos do virginiano.
- Eu sei, mas ao final, sempre queremos, não é isso? Você luta por seus amigos, eu luto pela humanidade e ao final, nós dois acabaremos dando a vida por isso, seja lá qual for o nosso ideal...
- Estou preparado e, sinceramente, acho que já vivi o suficiente disso tudo aqui, a morte não me assusta nem um pouco...
- Nem deve, a morte não passa de outra forma de viver...
- Sabe, meu sábio amigo, nesse momento estou mais interessado em novas formas de viver, mas nessa vida mesmo, você não?
- Eu só conheço uma forma de viver; ser cavaleiro, lutar e cuidar da humanidade, nada além disso, e não tenho curiosidade nenhuma de conhecer outra vida além dessa...
- Então nunca foi uma pessoa normal? – Ikki encarou o loiro – Sinto muito, mas você parece guardar uma grande mágoa de alguma coisa que eu não sei o que é...
- Não, não tenho mágoas... – respondeu tranquilamente, mas ficou surpreso com a perspicácia do garoto; poucos foram aqueles que conseguiram ler sua alma e Shaka já sabia que deveria tê-lo em alta conta, pela batalha que tiveram. Agora, além de sabê-lo um cavaleiro excepcional, considerava-o um homem excepcional.
- Não precisa dizer nada que não queira, não vim aqui para que fizéssemos confidências e sim para conversarmos...
Shaka não respondeu, ficou admirando os últimos raios de sol que desapareciam sob o mediterrâneo. Seria bom conversar com ele de vez em quando, sim, gostava de conversar com o garoto e ele se mostrava inteligente e astuto. Teriam boas conversas.
- Já é hora de voltar, Ikki de Fênix, não posso abandonar minhas obrigações por muito tempo...
- Sei que você não as abandonou nem por um só segundo... – disse o mais jovem – Você sempre esteve atento como convém a um cavaleiro.
Shaka suspirou, ele era sagaz para alguém tão jovem, e realmente estava gostando de sua companhia, mesmo nos momentos silenciosos era como se existisse uma conexão entre os dois. Resignou-se; sabia que existia e sabia que cedo ou tarde o jovem acabaria descobrindo a verdade, mas não aceleraria os fatos, deixaria que ele descobrisse sozinho, passo ante passo, por que o sentia tão familiar.
O indiano ergueu-se e sorriu olhando para o cavaleiro a sua frente. Os últimos raios solares davam um tom reluzente aos cabelos escuros que a brisa marinha brincava. Ficaram parados se mirando por um tempo.
Shaka foi quem primeiro começou a andar em direção a encosta íngreme e logo depois Ikki o seguiu.
- Descer foi bem fácil, será que subir também será? – brincou o mais jovem, vendo que não era tão fácil para o indiano escalar o paredão, usando o sári longo e levemente justo.
- Somos cavaleiros, e tirando o problema de minha roupa, isso não é nada! – riu o indiano também.
- Quer ajuda? – Ikki estendeu a mão e o virginiano ficou um tempo olhando-a antes de aceitá-la.
Um singelo contato pareceu parar o tempo e então imagens apareceram e sumiram na mesma velocidade. Ikki balançou a cabeça meio atordoado. O loiro o olhou preocupado.
- Algum problema?
- Não, vamos.
Então os dois soltaram para cima do desfiladeiro, voltando ao santuário. Caminharam em um confortável silêncio até o templo de virgem, já estava escuro e tochas iluminavam o caminho, apesar de haver luz elétrica em todo o santuário.
- Espero que possamos ter mais desses diálogos agradáveis... – sorriu o virginiano parando no salão principal do seu templo.
- Diálogo? Passamos a maior parte do tempo calados! – riu Ikki.
- Também se conversa no silêncio, rapaz, com o tempo você aprenderá isso... – disse e suspirou – Bem, boa noite.
- Boa noite, loiro...
Ele começou a deixar a casa de virgem em direção ao templo da deusa. O indiano ficou um tempo no salão, pensativo... Loiro?
Balançou a cabeça. Logo se decidindo a entrar para o seu quarto.
Os dias que se seguiram foram iguais, o jovem cavaleiro de bronze sempre o procurava para conversar e o sábio indiano se surpreendia com a tenacidade e inteligência dele. Alguém muito maduro, apesar da idade e com um conceito diferente a respeito da vida e em especial da vida de cavaleiro. Aprendera em primeiro lugar que devoção a deusa nada significava para Fênix, sua devoção as batalhas devia-se ao seu infinito amor aos amigos e generosidade com a humanidade, e não medo ou devoção a deuses egoístas e megalomaníacos como ele mesmo explicou.
Shaka admirou o desprendimento do garoto que via Athena como nada mais que uma chata amiguinha de infância; chegava a ser divertido a forma que ele se referia a ela, sem nenhuma reverência ou temor.
As constantes conversas passeavam pelas lutas, pela vida cotidiana do santuário e chegaram aos sentimentos. Bem, Shaka era bom em qualquer tipo de conversa, Ikki conseguia perceber, e ele nunca se negava a responder nada; sempre calmo, confiante e amável. Fênix sentia que a cada momento gostava mais da companhia do indiano e isso o amedrontava, porque não era homem de ter amigos, pelo contrário, jurara não fazer novos vínculos emocionais, já lhe bastava ter Shun, Seiya, Shiryu e até o Pato insuportável para tomar conta.
A conversa caiu em Shun e nos demais cavaleiros de bronze, sua única família, o indiano sentia o amor incondicional que ele nutria pelo irmão e o carinho pelos outros jovens, se bem que sentia a irritação que tomava conta do cavaleiro de fênix sempre que o assunto era a "amizade" entre Hyoga e Shun, e por isso, Shaka preferia evitar esse assunto. Reconhecia o ciúme e sabia natural que sentisse isso por alguém que Ikki tratava mais como um filho que como um irmão.
- E você, Virgem? Não tem alguém especial? – ele fez a pergunta contra o vento que assoviava naquela mesma praia da primeira conversa.
- Toda a humanidade é especial pra mim... – respondeu se erguendo da areia onde até então estavam sentados – Vamos caminhar um pouco...
Ikki o imitou e saíram andando; o indiano não usava sári e sim, uma bata branca e uma calça de tecido leve marrom que o protegia melhor da brisa marinha que soprava forte sobre eles, vinda do mediterrâneo. Porém os pés brancos apareciam nos chinelos que ele usava e Fênix os achou indefesos e teve uma vontade excessiva de protegê-los, mas não devia, sabia que ao seu lado estava alguém que não precisava de defesa alguma, muito menos a dele.
Era algo estranho que sentia em relação ao cavaleiro de virgem, algo que nunca sentira antes, talvez não quisesse saber. Era bom ficar assim com ele, calados, porque não precisava demonstrar força ou coragem; estavam sozinhos e o indiano não o intimidava, sentia alguma espécie de consolo em sua companhia; sim, consolo, como se ele tocasse-lhe e afagasse-lhe a alma machucada.
Shaka lhe lembrava alguém, alguém que não sabia definir quem era, talvez Shun, seu amado irmãozinho que estava no Japão, não, não era Shun, era outra pessoa, uma pessoa que existia somente em seus sonhos.
- Nunca amou? – a pergunta foi feita de repente, evidenciando seus pensamentos durante o longo silêncio.
Shaka parou e abriu os olhos o encarando meio confuso; Ikki estudou a expressão do loiro, antes nunca vista.
- Se amei? – ele disse, mudando a expressão para um meio sorriso e voltando a andar sem constrangimento – Sim, ela deveria ter uns dez anos e eu seis...
Ikki riu.
- Desculpe, às vezes, esqueço que você passou a sua vida inteira preso a suas obrigações de Buddha e de Cavaleiro.
- Mais ou menos isso, mas é bom recordar dessa época e os sentimentos que a envolve...
- Sim, porque foram bons sentimentos...
- Sim, foram...
- Sorte sua... – respondeu e caíram novamente naquele silêncio confortável, só que agora com um pouco de melancolia.
- Quando quiser falar sobre isso... – Shaka disse e voltou a se calar, Ikki assentiu com a cabeça e com um meio sorriso, envolveu os ombros do cavaleiro de virgem que o mirou surpreendido.
Ele corou, mas continuou puxando-o pra si.
- Ikki...
- Relaxa... – ele sussurrou e Virgem calou-se, deixando-se abraçar pelo braço forte dele.
Seu corpo era quente e Shaka podia escutar-lhe o coração que batia depressa, mas não depressa como o seu. O corpo do indiano permanecia rígido, embora dissesse a si mesmo que não havia motivo para aquilo. Poderia considerar Fênix um amigo, um companheiro de luta como tantos outros, não havia motivos para receios; embora sentisse aquela fagulha a incendiar-lhe o corpo, toda vez que mirava mais demoradamente os olhos índigos de Ikki.
O silêncio se perpetuava enquanto eles caminhavam pela beira da praia, e como a brisa levava os fios loiros para o rosto de Fênix, o cavaleiro de bronze os prendeu sobre o ombro de Shaka que sorriu timidamente com o gesto. Continuaram em silêncio, ouvindo o farfalhar das folhas das árvores e o murmurar do mar.
- É estranho a paz que sinto nesse momento. Como se algo maior estivesse acontecendo ao nosso redor. Algo poderoso, mas tão singelo que chega a afagar a pele... – o indiano disse calmamente.
- Também sinto isso, e é bom, me acalma... – falou Ikki – Gosto desse mar a nossa frente, não tem ondas, é calmo e isso me leva a pensar que ele é bem parecido com você.
O cavaleiro de virgem sorriu.
- Não sou tão calmo quanto aparento. Como todo ser mortal, minha alma possui inquietações e você é uma delas.
A sinceridade dele não constrangia Ikki que sentia o mesmo. Ao contrário, era um afago saber que não era o único, saber que o poderoso e sábio cavaleiro de ouro também possuía inquietações.
- Eu sempre penso em você, Shaka... – falou Fênix – Sempre me inquietou o motivo que o levou a me trazer de volta daquela dimensão.
- A mim também. – respondeu o virginiano placidamente – Durante muito tempo procurei respostas, mas chegou um momento em que desisti, há muitas coisas sem explicação nessa vida, jovem Ikki.
- Hoje sou menos jovem que ontem... – Ikki sorriu e o olhou de canto de olho, percebendo um leve rubor nas faces do seguro cavaleiro.
- Sim, isso é visível.
- Não deseja descobrir o que é essa inquietação? – Fênix ousou perguntar, mas não ousou encará-lo depois disso e, por esse motivo, não viu o franzir da testa do indiano que se afastou dele com delicadeza.
- Há coisas que não devem ser ditas. Talvez se respeitarmos o silêncio, as coisas se resolvam sozinhas... – falou sem demonstrar inquietação alguma.
- Compreendo. – sorriu Fênix e eles continuaram a andar até que o sol desapareceu completamente.
- Hora de voltar. – disse Shaka com um sorriso – Como sempre o passeio foi bastante agradável.
- O silêncio também. – respondeu Ikki e eles subiram a encosta íngreme de volta ao santuário.
Dois dias depois, os cavaleiros de bronze, mais uma vez, deixaram o santuário. Antes de partir, Ikki se viu entrando no templo de virgem a procura do seu guardião.
Era uma noite de lua cheia e Shaka vestia uma túnica branca longa com detalhes azuis. Seus cabelos loiros balançavam sob a carícia do vento que entrava pelas janelas da sexta casa e seus olhos azuis brilhavam como nunca.
Fênix se aproximou e segurou-lhe as mãos pálidas. Shaka não ofereceu resistência quando ele as beijou. Apenas o encarava com uma expressão muito séria.
- Espero voltar a conversar no silêncio contigo...
Virgem sorriu.
- Eu também, Cavaleiro, vença mais essa batalha.
- Vencerei para voltar a ver-te...
Shaka puxou as mãos das deles e ruborizou.
- Vença por Athena e pela justiça. – disse firme.
- Também, cavaleiro, também. – respondeu Ikki e saiu sem mais olhar para o loiro.
Shaka suspirou; não entendia o que acontecia e também não queria se preocupar. Talvez ele jamais voltasse...
Continua...
Notas finais: Fico feliz, um capítulo sem flash back, mas o próximo terá com certeza, só assim se compreenderá a essência da fic que ainda não a apareceu. Ah, sinceramente, eu não sei se o Ikki se lembrou da visita do Shaka a ilha da rainha da morte, porque eu não li esse capítulo do mangá. Bem, aqui ele não lembrou, ficou perdido em seu inconsciente, mesmo porque o que aconteceu entre eles na ilha, também não segue os fatos do mangá.
O que está acontecendo com Sion, dois capítulos e nenhum beijo? Cadê a perversão? Hehehehe...
Beijos de coração aos poucos motivadores que deixaram review no primeiro capítulo. Fico feliz, sendo sincera, essa fic é bem importante pra mim, porque está seguindo um ritmo completamente diferente de todas as minhas anteriores. Por isso, saber a opinião de vocês é muito importante.
Obrigada de coração mesmo, são eles:
Arcueid, Danieru, Gaby, Kojican, Amamiya fã
Obrigada também, aqueles que leram e não deixaram review, espero que isso mude nesse capítulo! XD...
Sion Neblina
