TRIPULAÇÃO


Certa vez, quando eu ainda era um aprendiz de cabine, o meu antigo capitão me perguntou: menino, o que é preciso para colocar ordem num navio pirata e comandá-lo? Diante da imponente figura de barba esverdeada, eu respondi: conhecer bem o navio, meu capitão. Impaciente, ele cuspiu no chão de madeira e me arrastou pela camisa até o mestre-carpinteiro, que trabalhava num remendo da quilha. Disse: este aqui conhece cada peça de madeira do navio, mesmo assim, ele não é o capitão.

Eu assenti, e ouvi a mesma pergunta: menino, o que é preciso para colocar ordem num navio pirata e comandá-lo? Encarei o indócil homem de um olho só e respondi: saber combater bem os inimigos, meu capitão. Dirigindo-me um olhar de reprovação, ele me levou até o mestre de tiro, que inspecionava a pólvora dos canhões. Disse: este é o melhor atirador que o Escarlate já teve, ainda assim, não é o capitão.

Eu não esperei novamente pela pergunta e falei: é preciso saber navegar, meu capitão! Rindo, ele me arrastou até o mestre de vela, que estava ao lado do timoneiro. Disse: este homem sabe navegar como ninguém, porém, não é o capitão. Pensativo, mordi o meu lábio inferior até sentir gosto de sangue, e ouvi novamente: menino, o que é preciso para colocar ordem num navio pirata e comandá-lo?! Respirei fundo e arrisquei: é preciso sabre dar ordens! Dando um cascudo na minha cabeça, ele chamou o imediato, a sua mão direita no comando do navio. Disse: este aqui transmite as minhas ordens à tripulação com autoridade, mas...

Interrompi e gritei: ele é apenas o imediato desse maldito navio! Raios, meu capitão! O que é preciso para comandar o Escarlate?! Diante do meu tom de voz ousado, o velho pirata deu um sorriso confiante. Depois, ele finalmente me respondeu: é necessário ser aquele que mantém toda a tripulação unida, Milo. Convença-os de que devem te seguir, e, um dia, você será o capitão deste maldito navio pirata.

E foi o que eu fiz.

O Escarlate deslizava rapidamente pelas águas jamaicanas. Inconfundível graças ao seu tom avermelhado, ele era um rápido navio de dois mastros o qual era excelente em fugas e abordagens repentinas. Com o bom vento ao seu favor, o jovem capitão deu as ordens:

_Contramestre, eu quero todos os panos envergados agora mesmo!

A correria e a gritaria se intensificaram no convés. Logo foi ouvido o barulho das lufadas de ar nas velas recém-abertas. O navio ganhou mais velocidade e aproximou-se do galeão espanhol que deveria estar carregado de prata vinda das Américas.

_Homens de armas, aos seus postos! Preparar os canhões!

O barulho das armas sendo preparadas fez o capitão dar um de seus sorrisos confiantes. Abrindo uma luneta e mirando a presa à sua frente, ele deu a ordem mais esperada de todas:

_Tripulação... Hastear a bandeira!

Quando o pano negro que continha um escorpião escarlate balançou ao vento, os homens gritaram e ergueram suas armas. O galeão espanhol era lento demais para tentar uma fuga, sendo assim, resolveu defender-se com os seus vários canhões. Atirou.

Milo logo pensou numa estratégia:

_Timoneiro, eu quero ficar fora de alcance por enquanto. Mantenha-nos no limite da linha de tiro deles. Vire à bombordo!

Inexperiente, o rapaz respondeu:

_Sim, capitão!

No entanto, ele girou o timão para o lado errado. Milo zangou-se e pulou para perto dele dizendo:

_Seiya, seu infeliz... Bombordo quer dizer à esquerda!

_Perdão, meu capitão. É que eu me confundi.

_Lembre-me de te castigar depois. E de te ensinar mais uma vez também.

_Sim, senhor.

O capitão sorriu e tomou o timão, fazendo a manobra correta. Depois, ele ordenou ao mestre de tiro:

_Segure os nossos canhões até o momento em que eles estiverem recarregando os deles! Espere pela segunda salva de tiros!

E o plano funcionou. Ligeiro, o Escarlate aproveitou o momento para atirar e inutilizar quase um lado inteiro dos canhões do navio espanhol. Satisfeito, Milo dirigiu-se à Marin, a corajosa mulher que era o seu braço direito no comando:

_Imediata, preparar para a abordagem!

Após alguns comandos da ruiva, os piratas utilizaram arpões para prenderem cordas na amurada da outra embarcação. Empolgados e liderados pelo próprio Milo, eles iniciaram o combate corpo a corpo.

_Se esta prata não for nossa, juro que a mandarei ao fundo do mar para que não seja de mais ninguém!

Os marinheiros e homens de armas gritaram, numa concordância estrondosa. Horas depois, o mastro principal do galeão espanhol estava destruído, a sua tripulação fora feita prisioneira, e a prata, que antes viajava para a Espanha, tomaria agora outro rumo.

Empolgado e ainda com o sangue fervendo devido à vitória, Milo retornou à sua cabine. Não demorou e a imediata Marin veio lhe contar o saldo da batalha:

_Capitão, a prata já está em nossos porões.

_Faça o rateio entre os homens assim que for possível.

_Sim, senhor.

_E dose extra de rum para todos hoje à noite.

Ela assentiu. Num tom mais consternado, ele perguntou:

_Quem nós perdemos?

_Joe, o aprendiz de carpinteiro. Felipe, Jonas e Tulio...

_Marinheiros de convés – completou o capitão, que conhecia todos de seu navio pelo nome e função. – Quem mais?

A lista dada por ela somava quase vinte tripulantes. E, ao final:

_Também morreu o nosso cozinheiro português.

Milo deu um suspiro preocupado. Marin disse:

_Precisamos ir a terra, capitão.

_Eu sei. Temos de encontrar novos homens para tripular o Escarlate.

Pegando o chapéu e limpando a mistura de suor e sangue da testa, Milo deixou a cabine, acompanhado por Marin. Chegando ao convés, ele foi cumprimentado respeitosamente pela tripulação, que já o esperava para a cerimônia fúnebre. Olhando para os mortos, os quais estavam enrolados em suas redes de dormir, ele disse num tom alto e solene:

_Morreram bravamente, e que agora encontrem descanso no mar que amaram em vida. Amém.

Milo fez o sinal da cruz e autorizou os marinheiros a "enterrarem" no mar os corpos dos mortos em batalha. Foi quando alguém deu o alerta:

_Capitão, um navio inimigo se aproxima!

O mestre de vela entregou a Milo a luneta. Ao perceber que se tratava do Relâmpago, o mais novo e poderoso navio da Marinha Britânica, ele disse com um sorriso zombeteiro nos lábios:

_ Marin... Ele ainda não conseguiu te esquecer – riu.

Ela fixou os seus olhos no horizonte e caminhou até a popa do Escarlate. Pensativa, a pirata acabou sussurrando o nome daquele que, no passado, tinha lhe amado com todas as forças:

_Aiolia.

Milo aproximou-se dela e perguntou:

_Arrependida por tê-lo deixado? Por ter se tornado uma pirata?

_Não.

_Então, dê as ordens.

Enquanto apertava num dos bolsos um anel de noivado, a única lembrança que carregava do seu passado nobre, Marin gritou:

_Atenção, homens! Quero as velas arribadas agora mesmo! Estamos mais pesados, então, aproveitem muito bem o vento se não quiserem acabar na forca!

A correria novamente se espalhou pelo convés. Milo sorriu ao observá-la, pois adorava aquela confusão antes de a ordem ser cumprida. Depois, ele disse para si:

_Esse comandante jamais irá nos alcançar.

Bem atrás, trajando um impecável uniforme militar, estava o orgulhoso Aiolia. Observando a manobra de fuga do Escarlate, ele ordenou:

_Içar todas as velas! Quero ver esse Escorpião maldito pendurado numa forca antes do anoitecer!

Mesmo sabendo do temperamento forte do seu comandante, o primeiro tenente Siegfried ousou informar:

_Estamos contra o vento, senhor. Além disso, o Relâmpago é mais lento que o Escarlate mesmo em condições boas de mareação.

Aiolia já sabia, mas esmurrou o mastro mesmo assim. Disse:

_Nem que eu gaste toda a minha vida tentando, eu ainda tomarei aquele navio! Siegfried... Assuma o comando agora!

_Sim, senhor – bateu continência.

Deixando o convés e refugiando-se na sua confortável cabine, Aiolia retirou do bolso de seu casaco militar uma mecha de cabelo ruivo.

_Marin... Por quê? – perguntou-se mais uma vez e sentiu seus olhos ficando úmidos. – Aquele Escorpião ainda pagará caro por tudo o que houve!

Após três respeitosas batidas na porta, o segundo tenente Hyoga entrou e informou solenemente:

_Senhor, o navio inimigo saiu completamente do nosso alcance. Retomamos o curso original?

Apertando os fios de cabelo presos pela fina fita amarela, ele disse entre os dentes:

_Sim. Voltemos à Inglaterra.

Algum tempo depois, o Escarlate já estava longe. A noite chegara, e o capitão Milo traçava novas coordenadas. Ouviu três batidas na porta da sua cabine, e autorizou:

_Entre.

Seiya surgiu trazendo o jantar. Colocou a comida na mesa e pareceu esperar por um elogio.

_Aqui está. É bacalhau, meu capitão.

Milo respirou fundo e tomou um gole grande da sua bebida. Depois, disse:

_Suma da minha frente, Seiya. E leve esse jantar horrível com você.

_Sim, senhor – saiu.

_Por que justamente o cozinheiro tinha que morrer?

Mordendo os lábios até sentir gosto de sangue, Milo marcou um ponto no mapa: Tortuga. Era lá que ele encontraria os novos membros para a sua tripulação. E, com sorte, alguém que soubesse preparar de verdade um bom bacalhau.


Como é a minha primeira fic, eu adoraria receber opiniões e críticas construtivas. Resumindo: reviews. Obrigado por lerem.